E o assunto ainda é.... Demóstenes!
Quem saiu perdendo com a queda do senador Demóstenes Torres? Parece óbvio que a primeira vítima é o partido que ele liderou no Senado. Demóstenes angariou tal prestígio na oposição que, com exagero, seu nome até estava sendo cogitado para concorrer ao Planalto, num fantasioso voo solo do DEM. Mas o Democratas, embora perdendo seu orador mais destacado, foi rápido no gatilho. Em uma semana, afastou-o. De olho nas eleições deste ano, o partido espera ganhar votos com a imagem de uma agremiação que, se preciso, corta na carne. Mas o máximo que ele pode querer é estancar a hemorragia, sem conseguir voltar ao tempo em que tinha boa saúde e, na reeleição de FHC, em 1998, atingia a maior bancada de deputados federais. Talvez o episódio precipite o fim do DEM, que se incorporaria a outro partido, provavelmente o PSDB.
Quem mais perde, com as denúncias éticas contra o senador, é a oposição e sua estratégia principal. Os partidos oposicionistas se dedicaram, desde o segundo ano de Lula na Presidência, a acusar o governo federal de corrupto. A certa altura, a estratégia aparentou dar certo. José Dirceu foi cassado. Em meados do primeiro mandato, Lula parecia estar ameaçado. Até se sugeriu que o PSDB o pouparia da vergonha de um "impeachment"; em troca, Lula renunciaria a postular a reeleição, em 2006. Hoje, essa hipótese parece insensata. Lula conseguiu uma popularidade invejável. As duas eleições presidenciais realizadas em sua administração consagraram sua liderança. O impacto das denúncias de corrupção contra o governo se reduziu significativamente. Elas ainda mobilizam certos setores da sociedade, em especial a classe média e, sobretudo, em São Paulo. São fortes na imprensa de oposição. Pouco mais que isso.
O PT coloca a oposição na defensiva ética
O episódio do senador Demóstenes é, na verdade, o ponto culminante de uma reversão de curso. Por vários anos, acusações de corrupção choveram contra o PT e seus aliados. Desde o ano passado, porém, elas se têm dirigido também contra a oposição. Deixo claro, desde já, que não avalizo nenhuma denúncia; sei que há órgãos com a competência, ou jurídica ou técnica, para saber quais procedem e quais não. Não é meu caso. Apenas posso notar o impacto das acusações sobre a opinião pública. Ora, o fato é que na campanha de 2010 a candidata Dilma Rousseff acusou de malfeitos um antigo executivo do Rodoanel, em São Paulo; depois, saiu o livro "A Privataria Tucana", que acusa o ex-governador José Serra de envolvimentos ilícitos; e, agora, vemos cair o senador de Goiás, que era a voz mais ativa da oposição no Parlamento. Evidentemente, os acusados se declaram inocentes. E podem sê-lo. Mas assistimos a um movimento que antes não existia. De 2004 a 2009, a oposição reinou sozinha nas denúncias de corrupção. Nos últimos dois anos, porém, a esquerda começou a acusar líderes tucanos e demistas. A queda do senador é o efeito até agora mais claro dessa mudança nos papéis de acusador e acusado.
Ou seja, durante uns cinco anos, os defensores do governo evitavam a questão da corrupção. Esta, que fora tema essencial do PT na oposição, tornou-se assunto delicado, para ele, uma vez no governo. Desde o caso de Waldomiro Diniz - ironicamente, tendo como interlocutor o mesmo Carlos Cachoeira que hoje é a chave do noticiário contra a oposição - os partidos governistas minimizaram a importância da corrupção, contestaram as intenções de quem a denunciava, disseram que todos faziam isso e/ou encontraram suas causas nos modos de financiamento das campanhas políticas. Desses argumentos, o que aponta os vícios de nosso sistema partidário pode ser correto. Mas todos eram alegados com incrível mal-estar. Contudo, no último ano, os partidos do governo obtiveram munição para discutir no próprio campo adversário. Saíram da defensiva e passaram ao ataque. Nos primeiros embates, não chamaram maior atenção. A oposição continuou a denunciar, satisfeita de encontrar nos ministérios alvos que não eram cândidos. Porém, desde o livro do jornalista Amaury Jr., a situação começou a mudar. Repito que não endosso suas palavras. Apenas observo que o PSDB ainda não aproveitou a chance de responder sistematicamente a seus ataques, com uma refutação, item por item, cabal, do que ele disse.
O livro em questão pode ser contestado. O incontestável é a proximidade do senador com uma pessoa que os jornais não se pejam de chamar de criminoso. Essa se torna uma vitória dos partidos governistas no campo mesmo para o qual a oposição levou o debate político, o da corrupção nos negócios públicos. O que exige, da oposição, que tente devolver a discussão sobre os rumos do Brasil para projetos de país. Se assim agir, o escândalo terá feito bem a nossa vida política.
Contudo, não se pode dizer que o lado governista ganhou a contenda. Venceu a batalha, mas a guerra... A má fama dos políticos acaba afetando a todos. Converso muito com pessoas que não conheço, das mais variadas classes. Mesmo que eu não levante a questão política, ela surge. Noto um descontentamento com todos os partidos. Na verdade, a acusação de corrupção domina quase toda a vida republicana no Brasil. A República Velha, Getúlio, a democracia de 1946, a ditadura militar e a democracia de 1985, todas elas, tiveram por mais constante tema de crítica política a corrupção. Houve algumas exceções. A mais recente foi o PT, até chegar ao poder e, navegando em seu vácuo, o PSDB, também até a Presidência. Desde então, vivemos num país desapontado com os políticos e, em decorrência, com a política. Essa, a derradeira má contribuição do senador Demóstenes: deixar-nos ainda mais blasés.
Ligação entre Cachoeira e Demóstenes é muito anterior às gravações da PF
Embora tenha sido ex-procurador geral de Justiça de Goiás em duas ocasiões e ex-secretário de Segurança do estado entre 1999 e 2002, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) transita com desenvoltura entre pessoas ligadas, direta ou indiretamente, ao mundo dos jogos ilegais, do qual Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, é apenas a face mais conhecida. Além da agora notória amizade com o contraventor, Demóstenes também recebeu dinheiro em sua campanha de um advogado preso duas vezes pela Polícia Federal sob acusação de integrar uma quadrilha para permitir o funcionamento de bingos e a exploração de caça-níqueis. O senador também teria influído na nomeação do atual presidente do Detran local, genro do ex-prefeito da Cidade de Goiás, assassinado quando deixava uma casa de jogos irregulares em Goiânia.
Quase um ano antes de vir a público o primeiro escândalo do governo Lula, envolvendo o então assessor parlamentar da Casa Civil, Waldomiro Diniz, Carlinhos Cachoeira e a empresa de loterias Gtech, Demóstenes já atuava em favor do amigo que está preso, utilizando, para tanto, sua condição de senador. Quando o escândalo estourou e a oposição se revezava na tribuna do Senado para atacar o PT, o governo Lula e o próprio bicheiro, Demóstenes calou-se sobre Cachoeira e, nas quatro intervenções que fez sobre o assunto, não citou uma só vez o nome do amigo, que era desclassificado por outros líderes oposicionistas.
Em 13 de fevereiro de 2004, a revista "Época" trouxe a transcrição dos diálogos entre Cachoeira e Waldomiro Diniz, gravados em 2002 pelo próprio bicheiro. A publicação revelava que o então assessor da Casa Civil pedia propina a Cachoeira para tentar facilitar a contratação da Gtech pela Caixa Econômica Federal (CEF).
Em 23 de maio de 2003, nove meses antes do escândalo, Demóstenes encaminhou um requerimento de informação ao ministro da Fazenda pedindo cópia autenticada do contrato assinado entre a CEF e a Gtech. Ele também queria o o edital de concorrência que amparou a contratação e aditivos contratuais assinados.
A preocupação de Demóstenes com o contrato ecoava a raiva de Cachoeira com o fracasso de sua negociação com a multinacional. O contraventor e a Gtech tinham acordado que, uma vez vencedora da licitação na CEF para operar o sistema de loterias, a multinacional subcontrataria as empresas do bicheiro para cuidar das loterias estaduais - um negócio de pelo menos US$ 10 milhões na época.
Acontece que, em 5 de maio de 2003, depois de a Gtech ter assinado com a CEF, a matriz americana da empresa pediu que Cachoeira subscrevesse um termo se comprometendo a não praticar qualquer ato considerado ilegal pela legislação americana. Um dia depois, uma correspondência interna indicava que os entraves haviam sido superados e o contrato entre a Gtech e a empresa de Cachoeira seria assinado, mas isso acabou não acontecendo, para irritação do bicheiro.
Demóstenes e Cachoeira se conheceram quando o senador era secretário de Segurança em Goiás, entre 1999 e 2002, durante o mandato de Marconi Perilo (PSDB). Cachoeira já atuava no ramo de jogos e circulava com desenvoltura pela sociedade goiana, especialmente entre políticos. Aliás, parlamentares de Goiás não quiseram dar declarações sobre o notório empresário do estado.
Apesar de toda a controvérsia envolvendo o mundo de jogos de azar, sobretudo caça-níqueis e outras contravenções, Demóstenes mantém proximidade com esse setor. No atual governo de Marconi Perilo, com quem tinha rompido relações, mas voltou a se aliar na eleição passada, seu grupo conseguiu influenciar na escolha do presidente do Detran, Edvaldo Cardoso (PTdoB). Ele é genro do ex-prefeito da Cidade de Goiás Boadyr Veloso, assassinado no centro de Goiânia, em maio de 2008, quando saía de uma casa ilegal de jogos. Veloso era acusado, entre outras coisas, de prostituição infantil e de contravenção, e teria sido, inclusive, sócio de Cachoeira. O crime nunca foi esclarecido.
Na campanha de 2010 para o Senado, Demóstenes recebeu doações do advogado Márcio Socorro Pollet, preso sob acusação de integrar uma quadrilha que negociava sentenças para fraudar a Receita Federal e manter bingos em funcionamento.
O esquema foi desbaratado pela Operação Têmis, da Polícia Federal, em 20 de abril de 2007. Em 2010, a juíza Paula Mantovani considerou ilícitas as escutas telefônicas que apontavam que uma liminar poderia ser comprada por R$ 300 mil e encerrou o processo. Menos de dois meses depois da Têmis, a PF fez outra operação, denominada Xeque-Mate, que tinha objeto semelhante de investigação: formação de quadrilha para exploração de caça-níqueis. E Pollet mais uma vez foi preso.
Ipea: celulares pré-pagos e TVs devem ampliar acesso à banda larga
Para ampliar o acesso da população à internet de alta velocidade, o País deve investir em novas formas de acesso à rede, como o telefone móvel e o televisor, além de oferecer planos de internet pré-paga, tarifas diferenciadas e investir na capacitação da população. Essa é uma das conclusões do estudo Panorama da Comunicação e das Telecomunicações no Brasil 2011/2012, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com a Federação Brasileira das Associações Científicas de Comunicação (Socicom).Segundo o artigo do pesquisador Rodrigo Abdalla Filgueiras do Ipea, a atual política de desoneração de tributos para computadores pessoais não é suficiente para aumentar o uso de computadores em domicílios aos patamares almejados pelo Plano Nacional de Banda Larga (PNBL).
"Novas formas de acesso - em especial o telefone móvel e o televisor - devem ser consideradas como opções de acesso à internet pela população de baixa renda e, consequentemente, na política de desoneração fiscal. Além disso, mais telecentros públicos devem ser colocados à disposição da população como forma complementar de acesso à internet".
O pesquisador também disse que a capacitação da população avança em ritmo mais lento que o desejado pelo PNBL e aponta a necessidade de estimular a criação de novos cursos e ampliar vagas nos já existentes, utilizando, por exemplo, o Sistema S.
Em relação ao pagamento pela internet banda larga, o pesquisador sugere que seja ampliada a oferta de planos pré-pagos e de preços fracionados para acesso à internet. Segundo ele, em vez de planos mensais, é necessário oferecer acessos por faixas de horário ou capacidade de tráfego. "A inclusão digital das famílias na base da pirâmide também depende da criação de modelos de negócios inovadores, condizentes com sua disponibilidade de renda".
Outro artigo do estudo, escrito pelos pesquisadores do Ipea Rodrigo Abdalla Filgueiras de Sousa e Carlos Roberto Paiva da Silva, sugere o uso de satélites na formação da infraestrutura de comunicação do País, especialmente para a expansão da banda larga. "Um país de tamanho continental, como é o caso do Brasil, não pode prescindir do uso do satélite na formação de sua infraestrutura de comunicação".
Ponto final para Demóstenes Torres
Arevelação de que o inatacável senador Demóstenes Torres (DEM-GO) recebeu presentes caros do bicheiro Carlinhos Cachoeira levou a se pensar como um político com a imagem do parlamentar, crítico duro de corruptos e aéticos em geral, teria se aproximado do contraventor. Pode ter sido que nas funções de promotor e secretário de Segurança em Goiás exercidas pelo político os dois tenham se cruzado e surgido uma improvável amizade.
Já seria algo a manchar a ficha do senador. Mas o que seria divulgado depois pulverizaria de vez a folha corrida de Demóstenes, a ponto de José Agripino Maia, novo líder do DEM no Senado, posto a que teve de renunciar, deu ao colega goiano o prazo deste fim de semana para ele preparar a defesa, a ser feita o mais cedo possível no plenário do Senado. Não será tarefa fácil. Os desdobramentos do escândalo fazem o senador descer a ladeira rumo ao descrédito absoluto. E a cada revelação de conversas mantidas entre ele e o bicheiro, retirada das mais de 300 gravações feitas pela Polícia Federal, fica indesmentível que o relacionamento entre os dois ultrapassou de léguas o simples campo da simpatia pessoal - o que já seria inadmissível, repita-se. O senador agia em Brasília, e não apenas no Congresso, como representante do bicheiro.
Inexiste registro de caso ocorrido nos porões do poder de tão deslavado lobby a soldo de negócios escusos. E envolvendo alguém do alto escalão na hierarquia de um dos poderes da República. Diálogos mantidos entre "doutor", Demóstenes, e "professor", Cachoeira, revelados ontem pelo GLOBO, dão a medida da profundidade do relacionamento, digamos, profissional entre eles.
Em abril e maio de 2009 a dupla tratou de assuntos-chave para os "negócios" do bicheiro. Num deles, fica evidente que o senador trabalha para Cachoeira junto ao Tribunal de Justiça de Goiás e faz contato com o desembargador Alan Sebastião de Sena, devido a um processo contra policiais de interesse de Carlinhos. Sena, ao se defender, alertou que contrariara o bicheiro ao manter a condenação dos réus.
O senador também fez lobby ao rastrear um projeto de lei na Câmara contrário ao interesse do amigo. Em três conversas sobre o projeto, Demóstenes alerta a Cachoeira que o conteúdo da lei o prejudica. O bicheiro estava otimista, pois o projeto regulamentaria jogos nos estados - a contravenção tem há tempos este objetivo -, mas o prestativo senador lhe chama a atenção para a criminalização da jogatina fora da lei. Entende-se que o projeto acaba com o tratamento do bicho como contravenção e o enquadra como crime.
Até a demissão de funcionários fantasmas no gabinete de Demóstenes - devido a uma "caça às bruxas" - é assunto entre Demóstenes e Carlinhos Cachoeira. O DEM tem razão ao querer explicações, rapidamente, do senador. Assim como se entende por que Cachoeira foi generoso ao presentear Demóstenes e este pediu ao parceiro o pagamento de pelo menos uma viagem de táxi-aéreo.
Os advogados do senador têm esperança de desqualificar as gravações como provas judiciais. Pois, alegam, o parlamentar foi apanhado em grampos feitos para Cachoeira. Investigar um senador só com a liberação do Supremo. É possível. Mas a carreira política de Demóstenes recebeu um ponto final.
De mocinhos e de bandidos
O governo Dilma está sofrível, ainda. Desde sua inauguração, ano passado, essa condição tem sido registrada e, até o momento, não aprumou rumo a uma gestão que lhe permita colher resultados concretos. A presidente transformou o Palácio do Planalto em uma Casa Civil. Toma conta de tudo e de todos. Miriam Belchior não compra uma resma sem sua autorização. Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann não têm autonomia para negociar nada, estão sem instrumentos para fazer a coordenação política e administrativa. Interessa-se a presidente pelo detalhe técnico do pormenor jurídico da vírgula administrativa. Por medo, seus ministros se escondem, não avançam no projeto que ela parece querer para o país. Dilma não tem e não vem adquirindo gosto pela política partidária como era feita antes.
Mas tem a sua maneira. Quer governar com uma coalizão partidária e com apoio amplo do Congresso. Manteve a correlação de forças que recebeu do antecessor, mas é ousada, ainda bem, nas mudanças ao descartar material estragado por produto da mesma origem mas ainda em boas condições, até segunda avaliação.
Não foi por esse cenário que a presidente se viu, de repente, neste março, o alvo do tiro. Nem porque o governo funciona mal, ou porque não faz reformas ou quer governar sem o Congresso, ou abusa das medidas provisórias. Os aliados se rebelaram e a têm tratado, bem como aos demais integrantes do seu staff, com extrema grosseria e falta de compostura por que, mesmo? Não toda, mas há uma base aliada que está na linha de frente da força que tenta encostar a presidente na parede.
Fisiologismo de adjetivos: acintoso, ofensivo, insultuoso
Experiente político aconselha a não elucubrar muito. Esfregando o indicador no polegar, traduz o que no jargão da política explicaria o tal "carinho" de que os políticos tanto se queixam aos que sabem que levarão recados: o que falta, de imediato, é dinheiro para a campanha municipal. Para o futuro, um bom posto de observação e acesso à fonte.
Ganhar ministério também não significa o apoio ao governo. Os evangélicos ganharam um e não estão nem aí para os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil para realizar a Copa do Mundo.
Será que Renan Calheiros e Romero Jucá, no PMDB, Blairo Maggi e Alfredo Nascimento, no PR, ficariam de pé após uma campanha, de boa marquetagem, ao modelo Lula de chorar o preconceito, que os acusasse de machismo na tentativa de desestabilização da presidente?
A entrevista em que Maggi anunciou rompimento do PR com Dilma é um escárnio, uma desfaçatez. Discurso que não deixou outra saída a não ser manter a posição firme de apoio ao ministro que escolheu e que, embora do PR, é um funcionário de carreira. Não terá sido Paulo Passos rejeitado por descomprometimento excessivo com o malfeito?
Imaginemos que esses partidos, armados até os dentes, partam para o revide ao desprezo por um fisiologismo insultuoso, para a criação de CPIs contra a presidente, até para o impeachment, pois são os primeiros a saber que, em qualquer governo, principalmente de coalizão partidária, se deixarem procurar vão encontrar. A comissão de inquérito em melhor andamento para ser instituída no Senado é justamente a dos Transportes. Estariam mesmo dispostos a atear fogo às vestes?
Todos sabiam que Romero Jucá estava com os dias contados na representação do governo. Evidência vivida por todos da bancada do PT que viveram na pele a atuação do líder. Já na sua estreia como nova senadora do Paraná, Gleisi não compreendia como um líder do governo podia trabalhar contra, como ele trabalhava. Era a mesma impressão de Ideli Salvatti, agora na Relações Institucionais, por mais de uma vez líder do seu partido na Casa.
O deputado Cândido Vaccarezza, preterido para a coordenação política, também sabia que deixaria de ser o líder do governo na Câmara. Dilma tinha conseguido tirar da sua raia as pessoas denunciadas sem desfazer a correlação de força dos partidos na aliança. Por que não fazer o mesmo com seus líderes no Congresso? Mas não tirou o poder dos partidos, apenas o deu a quem atribui qualidades para representar o governo.
Trocas feitas, deu para ver: não é que Dilma não goste de política. Ela não gosta de alguns políticos e seu modelo de operação. Não se registre que os parlamentares se surpreenderam com o comportamento e as atitudes da Ideli, seus modos ríspidos e a incompetência para resolver os problemas da base. Até os novatos a conheciam. Não terá sido por afinidade de temperatura e pressão que foi guindada ao pódio? É óbvio que Ideli gostaria de sair pelos tapetes coloridos distribuindo emendas. Mas há alguém, acima dela, com mandato conferido por mais de 50 milhões de eleitores, tentando fazer do seu jeito, que não lhe passa o guichê.
As poderosas do Palácio são muito semelhantes, mas só uma manda: firmes, ríspidas, cobradoras, autoritárias, o que se pode chamar de mulheres fortes. Sabem o que querem, para onde vão. O ultimato do qual Maggi foi porta-voz e que boa parte do Senado aprova é inaceitável e contém, mesmo, uma elevada dose de machismo. A impaciente gritaria meio difusa, difícil de ter razão precisamente localizada, denota uma certa covardia, até na chantagem. Parece um lança chamas que suga e solta a labareda quando for conveniente.
Não é porque já aprovou as políticas do salário mínimo, a emenda da DRU e a correção do imposto de renda até o fim de seu mandato que Dilma não precisa mais do Congresso. Tanto precisa que manteve o governo de coalizão partidária. Apenas escolheu governar com pemedebistas que conhecia de outros carnavais e não dos bailes de Calheiros e Jucá. Aposta na melhor distribuição do poder na política e no arejamento dos partidos. Foi a ação concreta na política mais perceptível da presidente desde que assumiu. Quem esperar vê-la entregar-se de mãos ao alto, é melhor esperar sentado.
Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras
E-mail rosangela.bittar@valor.com.br
Brasileiros exigem país que funcione
O Brasil cresceu, em média, 4,4% nos últimos oito anos, distribuiu renda e engrossou a classe média em quase uma Argentina com 40 milhões de habitantes. Mas para o servente de pedreiro Luiz Matias, 62 anos, algo de muito errado está acontecendo. Ele não vê os investimentos necessários do governo e do setor privado para que o país dê o mínimo de dignidade aos mais pobres dos cidadãos. "Sinceramente, se o futuro chegou, ainda não me deparei com ele", diz.
As palavras de Matias podem até conter um certo exagero. Mas refletem o cansaço de suas brigas para ter acesso a um serviço básico — energia elétrica — de qualidade em pleno ano de 2012. Com endereço fixo a apenas 25 quilômetros do Palácio do Planalto, ele reclama da constante falta de luz. A mais recente delas durou seis dias e o resultado foram cinco quilos de carne apodrecidos na geladeira. "Minha compra do mês foi para o lixo", diz o piauiense, morador de um loteamento em Ceilândia.
Como ele, milhões de brasileiros, de todas as classes sociais, são vítimas do descaso e da incapacidade do país de tirar do papel obras que garantam energia elétrica 24 horas por dia. Em 2011, justamente pelos frutos do crescimento econômico, o Brasil passou o maior tempo no escuro — foram 20 horas de apagão. Não à toa, o sinal de alerta dos especialistas foi ligado. Eles indagam: se o país com os maiores recursos hídricos do planeta não conseguiu, até agora, mesmo com toda a propaganda governamental, universalizar o fornecimento de energia elétrica e evitar transtornos à população, conseguirá dar conta de realizar dois dos maiores eventos esportivos do mundo, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, sem passar por vexames?
Apesar do temor de fracasso, a maior parte dos analistas prefere dar um voto de confiança. Mas assinalam que os investimentos pelos quais o Brasil tanto anseia vão além dos eventos esportivos. O país precisa recuperar o atraso dos últimos 20 anos em áreas vitais, de estradas a aeroportos. "País desenvolvido é aquele que consegue transferir a renda para seus cidadãos e garantir serviços públicos de qualidade. É preciso transportar o sucesso econômico para o bem-estar da sociedade", alerta Paulo Godoy, presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). "Somos grandes, mas ainda injustos, inclusive no que se refere à reversão dos impostos pagos pela sociedade em forma de bons serviços", endossa a professora Margarida Gutierrez, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Não há dúvidas de que as cobranças são por aeroportos modernos e distantes do caos que se viu nos últimos anos e estradas bem pavimentadas e sinalizadas. O consumidor quer ainda internet veloz de
verdade. Exige tarifa barata para o telefone e não admite mais os caladões. O Brasil pujante que desponta como potência econômica também precisa superar carências de serviços básicos, como água e esgoto tratados. Só recentemente, os investimentos em saneamento começaram a ganhar vulto — passaram de R$ 3,5 bilhões para quase R$ 8 bilhões entre 2003 e 2010.
Extremos
A expectativa é grande. Mas o Brasil ainda é uma nação de extremos. Tende a se tornar um dos maiores polos de produção e exportação de petróleo graças à tecnologia de prospecção nas águas ultraprofundas do pré-sal. A Abdib calcula que o país está recebendo investimentos de quase
R$ 150 bilhões ao ano em áreas como transportes, petróleo, energia elétrica, telecomunicações e saneamento. Contudo, diante dos anos de atraso, essa cifra não tem sido suficiente para atender às necessidades do país. O ideal seria elevar os gastos a R$ 200 bilhões anuais, estima Godoy.
Tal insuficiência pode ser medida pela taxa de investimento, que não passa dos 20% do Produto Interno Bruto (PIB). Os emergentes asiáticos aplicam mais que o dobro. Na China, 40% de toda a riqueza acumulada anualmente vão para obras e novos projetos. Na Índia, são 32%. A média mundial gira em torno de 23%, informa a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).
O problema brasileiro ainda é de onde tirar dinheiro para financiar o progresso. Ao contrário dos orientais, por aqui governo e cidadão não têm tradição de economizar. A taxa de poupança interna gira em torno de 19% do PIB. E, quando não se tem recursos para bancar o próprio crescimento, o risco é a dependência de investimentos externos, que tendem a secar em tempos de crise. Nas turbulências de 2008 e 2009, a falta de verbas foi compensada, pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Mas, para isso, o Tesouro Nacional teve de se endividar em mais de R$ 300 bilhões para capitalizar a instituição.
"Que Deus olhe por nós", pede a vendedora Alcinda Pereira de Almeida, 37 anos. Para ela, já passou da hora de o governo fazer o possível e o impossível para atender as necessidades dos trabalhadores. O que Alcinda mais quer é, sempre que possível, deixar a modesta casa às margens da DF-095 e visitar, de avião, a família no Piauí. "Sei dos constantes atrasos nos aeroportos do país. Já sofri com eles. Mas não vou desistir", avisa.-- Matéria publicada no jornal Valor Economico
Irã ataca diplomacia de Dilma e diz que Lula faz muita falta
O embaixador do Irã em Brasília, Mohsen Shaterzadeh, disse em recente entrevista que a relação com o Brasil continua tão boa no governo de Dilma Rousseff quanto foi na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas o tom que predomina em Teerã é bem diferente. Autoridades iranianas enxergam claro distanciamento e já há sinais pouco amistosos em direção ao Brasil.
"A presidente brasileira golpeou tudo que Lula havia feito. Ela destruiu anos de bom relacionamento", disse à Folha na quarta-feira, por telefone, Ali Akbar Javanfekr, porta-voz pessoal do presidente Mahmoud Ahmadinejad e chefe da agência de notícias estatal Irna. "Lula está fazendo muita falta", afirmou, numa referência à opção de Dilma, no cargo desde janeiro de 2011, de dar menos ênfase ao Irã. Javanfekr corre risco de ser preso por supostas ofensas ao líder supremo, Ali Khamenei.
Mas o porta-voz ainda é descrito pelo "New York Times" como "uma das mais fortes figuras para divulgar recados [do Irã]." BARREIRAS A irritação iraniana também se nota nas recentes barreiras contra exportadores de carne brasileira. A União Brasileira de Avicultura afirma que as vendas de frango para o Irã, em alta até outubro, passaram a ser vetadas sem justificativa.
Já a multinacional brasileira JBS relata ter tido milhares de toneladas de carne bovina retidas por três semanas num porto iraniano. A carga só foi liberada, dias atrás, depois que um representante foi despachado às pressas para Teerã. Importadores iranianos de carne relataram à Folha que Ahmadinejad enviou carta à alfândega ordenando que diminua a entrada de cargas do Brasil.
O caso é seguido com preocupação pelo Itamaraty, que garante não haver mudança na agenda com o Irã. Mas, aos olhos de Teerã, a guinada sob Dilma ficou clara no voto na ONU ocorrido em março a favor de uma investigação sobre direitos humanos no Irã. Lula rejeitava pressionar os iranianos. O Irã também lamenta o fato de o Brasil ter abandonado esforços diplomáticos para aliviar a pressão sobre o programa nuclear iraniano, suspeito de buscar a bomba atômica -o que Teerã nega.
Em 2010, Lula costurou com a Turquia um acordo, assinado em Teerã, para permitir que o Irã trocasse parte de seu estoque de urânio por combustível nuclear. Mesmo atendendo a pedidos dos EUA, o pacto acabou rejeitado pelas potências.
Por fim, o Irã se ressente do desinteresse brasileiro em promover reuniões bilaterais. Em recente giro latino-americano, Ahmadinejad, ao contrário de 2009, não passou pelo Brasil. Não houve convite nem o Irã sentiu que caberia proposta de visita. O embaixador Shaterzadeh menciona uma viagem de Ahmadinejad ao Brasil neste ano. Mas a Folha apurou que o iraniano deve visitar o país no âmbito da cúpula Rio +20 sobre temas ambientais, para a qual todos os chefes de Estado e de governo do mundo foram convidados.
"A presidente brasileira golpeou tudo que Lula havia feito. Ela destruiu anos de bom relacionamento", disse à Folha na quarta-feira, por telefone, Ali Akbar Javanfekr, porta-voz pessoal do presidente Mahmoud Ahmadinejad e chefe da agência de notícias estatal Irna. "Lula está fazendo muita falta", afirmou, numa referência à opção de Dilma, no cargo desde janeiro de 2011, de dar menos ênfase ao Irã. Javanfekr corre risco de ser preso por supostas ofensas ao líder supremo, Ali Khamenei.
Mas o porta-voz ainda é descrito pelo "New York Times" como "uma das mais fortes figuras para divulgar recados [do Irã]." BARREIRAS A irritação iraniana também se nota nas recentes barreiras contra exportadores de carne brasileira. A União Brasileira de Avicultura afirma que as vendas de frango para o Irã, em alta até outubro, passaram a ser vetadas sem justificativa.
Já a multinacional brasileira JBS relata ter tido milhares de toneladas de carne bovina retidas por três semanas num porto iraniano. A carga só foi liberada, dias atrás, depois que um representante foi despachado às pressas para Teerã. Importadores iranianos de carne relataram à Folha que Ahmadinejad enviou carta à alfândega ordenando que diminua a entrada de cargas do Brasil.
O caso é seguido com preocupação pelo Itamaraty, que garante não haver mudança na agenda com o Irã. Mas, aos olhos de Teerã, a guinada sob Dilma ficou clara no voto na ONU ocorrido em março a favor de uma investigação sobre direitos humanos no Irã. Lula rejeitava pressionar os iranianos. O Irã também lamenta o fato de o Brasil ter abandonado esforços diplomáticos para aliviar a pressão sobre o programa nuclear iraniano, suspeito de buscar a bomba atômica -o que Teerã nega.
Em 2010, Lula costurou com a Turquia um acordo, assinado em Teerã, para permitir que o Irã trocasse parte de seu estoque de urânio por combustível nuclear. Mesmo atendendo a pedidos dos EUA, o pacto acabou rejeitado pelas potências.
Por fim, o Irã se ressente do desinteresse brasileiro em promover reuniões bilaterais. Em recente giro latino-americano, Ahmadinejad, ao contrário de 2009, não passou pelo Brasil. Não houve convite nem o Irã sentiu que caberia proposta de visita. O embaixador Shaterzadeh menciona uma viagem de Ahmadinejad ao Brasil neste ano. Mas a Folha apurou que o iraniano deve visitar o país no âmbito da cúpula Rio +20 sobre temas ambientais, para a qual todos os chefes de Estado e de governo do mundo foram convidados.
HABEMUS FÁBIO
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| O Padre Fabio faz missa ao lado da estátua de cera do papa João Paulo 2º |
Uma mulher vestindo calça de ginástica entra na Catedral São
Francisco de Chagas, em Taubaté (140 km de SP), com a missa das 8h já em
andamento. Senta-se no primeiro banco e saca o celular. Aponta o
aparelho para o altar. Não está interessada na arquitetura da igreja nem
na estátua de cera do papa João Paulo 2º, entregue recentemente. Busca
um clique do padre Fábio de Melo.
O sacerdote conduz a missa a poucos dias de começar a divulgação
de seu 16º CD, "No Meu Interior Tem Deus", de música caipira e textos
religiosos. "Fazia celebrações aqui três vezes por semana, mas tive que
parar, porque era muita aglomeração", diz ele ao repórter Diógenes
Campanha. Passou a marcar as missas sem avisar. "Mas o povo acaba
sabendo. E elas ligam para avisar as outras, você viu?" Embora pertença à
Diocese de Taubaté, ele não tem paróquia fixa.
"Pensaram que eu teria uma igreja só pra mim, um santuário. Mas
não quero, iria virar lugar de peregrinação. Não posso ter igreja
paralela." É uma clara referência a outro sacerdote cantor, e popstar: o
padre Marcelo Rossi, que inaugura em dezembro o Santuário Mãe de Deus,
em SP, com capacidade para 100 mil pessoas, e recebe caravanas de várias
cidades.
Farpas entre os dois já voaram para lá e para cá. O padre
Marcelo, por exemplo, critica o padre Fábio por trocar a batina por
camisas de marcas famosas em aparições públicas. Em abril, disse em
entrevista: "Já alertei o Fábio para que não deixasse de usar batina. E
ele está usando, por acaso? Bem se vê que eu não tenho influência sobre
ele". "Eu tive três contatos com o padre Marcelo, dois pessoalmente e um
por telefone. E não lembro de, em nenhum momento, ter conversado sobre
isso com ele." O assessor de imprensa da Sony, gravadora dos dois
padres, cutuca o repórter e pergunta se "isso é o foco da matéria".
O padre Fábio prossegue: "Aquilo que ele usa não é uma batina
também. É uma espécie de um hábito franciscano, embora ele seja um padre
diocesano". As farpas continuam: "O maior padre comunicador da história
do Brasil é o padre Zezinho, que nunca usou batina. É um homem que faz
um trabalho sério e nunca foi menos padre porque não usa batina".
"Não somos amigos . Se eu precisar falar com ele [padre Marcelo],
não sei como encontrá-lo. Nós dois trabalhamos com música, mas de forma
diferente: eu componho, escrevo as minhas músicas. Faço questão de ter
uma identidade musical." Já o padre Marcelo só interpreta. "Ele faz uma
linha mais litúrgica, que canta nas missas e nas celebrações dele." O
padre Marcelo não foi localizado para comentar.
Com uma veste de veludo preta e verde, com a inscrição "Filho do
Céu", nome de uma de suas músicas, escrito na estola, o padre Fábio
atende fiéis no fim da missa. "O senhor me tirou da macumba com uma
palavra", diz uma senhora. Ela teve um derrame e pede que benza seu
olho. "Tira [foto] com o anjo aqui", diz outra mulher. "Está vendo o que
eu passo?", diz o padre. "Minhas velhinhas são muito táteis. Às vezes, o
assédio é perigoso."
"Uma vez, em Maringá, tinha uma mulher parada na porta do meu
quarto [no hotel]. Disse: 'Vem cá, eu gostaria de fazer uma massagem no
senhor'". Ele diz que anda sempre com dois assessores para evitar tais
surpresas. E evita ficar sozinho com um deles, "porque tudo pode gerar
uma insinuação".
Ele tira a batina e veste camisa azul da Zara, calça e sapatos
sociais pretos. Segue para a Fundação Dom José Antônio do Couto. Lá,
adultos e crianças ajudam a restaurar as imagens do Museu de Arte Sacra
de Taubaté. "Quis um projeto social simpático. A igreja não tem que
continuar antipática à sociedade." Os santos do museu estão todos "de
cabecinha tombada, triste. A religião deixou de falar do amor de Deus
para falar de culpa. Você, um homem contemporâneo, não se identifica."
No almoço, pede badejo grelhado e penne integral com legumes.
Procura álcool em gel na bolsa transpassada preta e cinza, para limpar
as mãos. "Minha equipe sempre anda com um", diz. "Só faço isso quando
vou comer. Se fizer a cada cumprimento, fico com síndrome de José
Serra." A revista "Piauí", em 2009, descreve que Serra usa o produto
sempre que cumprimenta estranhos e não tem como lavar as mãos.
Ao contrário do padre Marcelo, que esconde o voto, o padre Fábio
revela que optou por Dilma Rousseff em 2010. "Se eu pudesse, colocaria a
mulherada toda no poder." Um e-mail em que ele desejava boa sorte a
Dilma no "dia histórico" da eleição foi divulgado quando um hacker
invadiu a caixa postal dela. "Me correspondi com ela por um ano. Eu a
atendi numa oportunidade na [comunidade católica] Canção Nova. Ficamos
amigos."
Também foi na Canção Nova que conheceu o deputado Gabriel Chalita
(PMDB-SP), para quem foi dar uma entrevista há alguns anos. "Tivemos
uma identificação com algumas questões sobre o mundo. O Gabriel
tornou-se, desde aquele momento, um amigo com quem converso sobre
questões que normalmente não tenho a oportunidade de falar. Chamo isso
de parentesco espiritual."
"Quando você tem uma amigo assim, diminui a sensação de solidão,
de orfandade na vida. É aquela coisa de 'que bom, vou estar com meu
amigo hoje'". Conta ter também "gratidão" por Chalita ter lido seu
primeiro livro. "Ele me abriu muitas portas, em todas as editoras."
Escreveram juntos dois volumes de "Cartas entre Amigos".
O padre critica o uso político do aborto por alguns setores da
igreja, na campanha eleitoral. Panfletos contra Dilma foram distribuídos
em celebrações, pregando que não se votasse nela por ter defendido a
descriminalização da prática. "Naquele segundo turno, vivemos um momento
delicado, em que questões importantes poderiam ter sido discutidas e
não foram. Parecia, mais uma vez, uma imposição idiota: 'Não vote nela
por causa disso'. Depois ninguém voltou a falar do assunto, porque era
interesse de ocasião." Para ele, a igreja não pode discutir o tema só na
eleição, "para não fazer voto de cabresto quando o povo tiver que
decidir".
Ele se declara "radicalmente contra" o aborto, mesmo em caso de
risco para a mãe ou violência sexual. "A vida está acontecendo. E mesmo
que metade seja de um estuprador, metade é minha [da mulher]. Sou a
guardiã dessa vida."
Já os homossexuais, afirma, são "mal interpretados" ao lutar pelo
reconhecimento de sua união. "A necessidade de se falar sobre o
casamento gay nasceu porque, após a morte de um dos cônjuges, a família,
que nunca cuidou deles, quer ficar com aquilo que eles construíram
juntos. Aí eu te pergunto: um conceito religioso pode cometer essa
injustiça? Não." Ele é contra os gays se casarem na igreja. "E em nenhum
momento nos pediram para fazer isso. Eles não estão reivindicando
cerimônia religiosa."
FRASES
"Não somos amigos. Se eu precisar falar com ele [padre Marcelo] hoje, não sei como encontrá-lo"
"A igreja não tem que continuar antipática à sociedade"
"Era interesse de ocasião [a igreja usar o aborto na campanha]"
Da coluna da Mônica Bergamo
Calma!, delegados
A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal emitiu nota lamentando “a preocupação oficial com o uso de algemas”:
“Em todos os países do mundo, a doutrina policial ensina que todo preso deve ser conduzido algemado.”
Não conheço a doutrina. O que sei é que no Brasil há normas estritas sobre o uso de algemas.
“Em todos os países do mundo, a doutrina policial ensina que todo preso deve ser conduzido algemado.”
Não conheço a doutrina. O que sei é que no Brasil há normas estritas sobre o uso de algemas.
PT x imprensa (de novo)
O PT mais uma vez mobiliza-se contra a imprensa. Considera-a uma
facção partidária de oposição e quer meios de controlá-la. Apresentará
uma moção nesse sentido em seu 4º congresso.
Quer o fim da propriedade cruzada em veículos de comunicação (ninguém pode ter mais de um tipo de veículo), a “democratização da mídia” (com censura?) e a “quebra do monopólio” (que não existe no Brasil em nenhum segmento da mídia).
Quer o fim da propriedade cruzada em veículos de comunicação (ninguém pode ter mais de um tipo de veículo), a “democratização da mídia” (com censura?) e a “quebra do monopólio” (que não existe no Brasil em nenhum segmento da mídia).
É uma nova escaramuça, já experimentada sem sucesso durante o governo Lula, quando espantosamente foi vinculada à defesa dos direitos humanos.
A tentativa anterior estava inscrita no Plano Nacional de Direitos Humanos, que legitimava ainda a invasão de terras e a supressão de símbolos religiosos, entre outras humanidades.
A presidente Dilma, quando candidata, chegou a subscrever, em seu primeiro programa de governo, aquelas propostas. Mas, diante da reação, alegou não as ter lido e jurou que não as aprovaria. É uma boa oportunidade de confirmar sua palavra.
Agora, o epicentro é uma matéria de Veja, que revela o bunker político do ex-ministro José Dirceu, num hotel em Brasília, considerada pelos petistas (e, óbvio, pelo próprio, Dirceu) uma afronta à sua privacidade. A imprensa estranhamente não repercutiu a matéria, que, no entanto, não é irrelevante.
Mostra uma espécie de governo paralelo montado na capital da República. Pode não constituir um crime um ex-parlamentar cassado e sub judice na mais alta corte do país, acusado de corrupção, receber ministros e lideranças parlamentares reservadamente.
Mas, do ponto de vista político, é no mínimo uma quebra de normalidade, anomalia mesmo, se se considerar de quem se trata, de alguém que notoriamente exerce liderança somente comparável à de Lula sobre o principal partido da base governista, o PT, cujo presidente, Rui Falcão, segue sua orientação.
O próprio Dirceu, já cassado e sub judice, confessou, numa célebre entrevista à Playboy, que um pedido seu – um consultor privado de empresas - ao governo não é um “pedido qualquer”: é “Um pedido. Leia-se “uma ordem”.
Acresce que os encontros se deram em meio à crise política que derrubou Antonio Palocci, cuja origem se atribui ao próprio grupo de José Dirceu. Ele alega que, não sendo do governo, tem direito não só à privacidade profissional, como a receber quem quiser. Depende. Quando essas consultorias envolvem o Estado, tudo muda.
Ele tem, entre seus clientes, empresas ligadas ao setor do petróleo. E, entre seus visitantes, estava ninguém menos que o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, o que, no mínimo, sugere tráfico de influência. Quem sabe ele lhe fez ali “Um pedido!”?
Os delitos políticos, em regra, transcendem os judiciais. Fernando Collor foi deposto pelo Congresso, mas absolvido pelo Supremo Tribunal Federal. Ao Congresso, bastou a certeza de que havia atentado contra o decoro da função; ao Supremo, era preciso demonstrá-lo não apenas com documentos, mas com conexões causais, não obtidas.
A atividade política tem (deveria ter) uma instância moral com eloquência própria, que dispensa formalidades jurídicas. A Câmara, por exemplo, deveria ter cassado Jaqueline Roriz mediante o vídeo que a mostra embolsando dinheiro de origem no mínimo duvidosa (embora ninguém tenha dúvidas de sua procedência).
Não o fez porque não quis, não pelos motivos alegados (de que teria delinquido antes da aquisição do mandato). Já o Judiciário, para condená-la, precisa de provas materiais: elementos palpáveis que confirmem a origem espúria do dinheiro.
O Congresso cassa pelo decoro, algo frequentemente imaterial – um gesto, uma palavra. Richard Nixon, por exemplo, caiu porque, acima de tudo, mentiu ao povo americano.
O Judiciário lida com situações materiais, comprováveis por documentos, confissões, testemunhos. Dentro disso, não há problemas com o bunker de Dirceu. Já pelo ângulo político, trata-se de uma desfaçatez, um desafio a céu aberto a um governo legitimamente instalado, submetido à ação sabotadora de um grupo.
Não vem ao caso a culpa de Palocci, que mereceu o destino que teve, mas certamente não foi por essa razão que o grupo de Dirceu o alvejou. Se a cruzada fosse moral, metade do ministério iria para a rua, junto com alguns visitantes do bunker. A ação teve como objetivo atingir o governo para nele exercer maior influência. E isso, por si, é notícia, no entanto desprezada pelo conjunto da mídia.
Mesmo considerando-se que tivesse havido excesso, não justificaria uma ação contra a liberdade de imprensa ou o advento de nova legislação. O Código Penal oferece ao PT e a José Dirceu os meios de reclamar reparação, por injúria, calúnia ou difamação, únicos crimes decorrentes da ação da imprensa.
Por que não o acionam? Talvez, nessa instância, não disponham dos meios necessários para configurar o que dizem.
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