De lá e daqui

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Votar em símbolos é um dos grandes riscos na política. Muitas vezes, a construção de um personagem impede que se veja o político por trás dele Barack Obama pode ser eleito presidente dos Estados Unidos amanhã, numa convergência histórica rara. O homem que carrega a maior expectativa de mudança na política americana em décadas pode chegar ao poder no momento em que o país enfrenta uma das piores crises de sua história. Uma crise que envolveu o mundo todo e nos atingiu na boca do estômago. Nesta terça-feira, o planeta acompanhará nervoso a complicada eleição americana, querendo saber o fim desta história. E com uma indisfarçável torcida por Obama.

Em primeiro lugar, porque ele não é George W. Bush. Não se parece com o atual presidente norte-americano. Ao contrário, simboliza o rompimento com a política dos falcões do Partido Republicano. Obama foi contra a Guerra do Iraque e é um crítico do envolvimento dos figurões do governo com grandes corporações. Mas também por ter conseguido incorporar ao imaginário de sua campanha a idéia de que ele representa a esperança e a mudança.

Mais que um candidato, Obama foi apresentado na campanha como um símbolo. Baseou sua campanha em frases simples, mas de grande impacto: “Mudanças, nós podemos acreditar”, “Sim, nós podemos” ou “Uma voz pode mudar o mundo”. Seu esforço é para personificar a renovação sem ser visto como radical. Uma espécie de revolução consensual e bem comportada, que talvez tenha na questão racial a sua melhor definição. Negro, Obama não faz do assunto um ponto central de seu discurso. Ao contrário, fez questão de dizer que “não há uma América negra e uma América branca. Só os Estados Unidos da América”. Ele sabe que o impacto da eleição de um presidente afro-americano seria tamanho que dispensa a ênfase no discurso.

Votar em símbolos é um dos grandes riscos na política. Muitas vezes, a construção de um personagem impede que se veja o político por trás dele. Em alguns momentos, assistindo às imagens da campanha americana, fico com a impressão de estar diante de um personagem de filme. O jovem político que desafia o establishment e, contra todas as expectativas, se elege para o posto mais cobiçado do mundo. Fosse uma série de TV e uma centena de conspirações já estaria se formando para controlá-lo ou impedir sua posse. Num roteiro alternativo e mais soturno, os próximos capítulos revelariam que ele não é o que diz e que sua vitória não passa de mais um movimento para manter tudo igual.

No caso de Obama, o imaginário se impôs de tal forma que só saberemos de fato quem ele é quando ele assumir a Presidência dos Estados Unidos. Será a hora de descobrir se o idealismo professado na campanha é verdadeiro e se ele tem condições de administrar a crise que assola a América.

Durante a campanha, ele emitiu bons sinais. Um dos melhores, sobre o qual já escrevi neste espaço, foi a capacidade de arrecadar dezenas de milhões de dólares em doações de contribuintes individuais, pela internet. Se um político acaba servindo aos interesses de seus financiadores de campanha, não deixa de ser um alívio saber que entre seus principais patrocinadores está o povo americano. A esperança é que a campanha diferente se transforme em um governo diferente.

Enquanto isso, por aqui…
Começaram duas campanhas no melhor estilo brasileiro. Em disputa, as presidências da Câmara e do Senado. A primeira tem 513 eleitores. A segunda, 81. Pouca gente, não? Mas há uma grande chance da decisão ficar ainda mais concentrada. Um punhado de caciques, no Congresso e no governo, articula-se para construir ou destruir candidaturas. É tempo de conchavos, acordos e traições. É assim que esses cargos são preenchidos há anos.

Esta eleição sem povo ocupará um generoso espaço no noticiário, para certo espanto da maioria da população, que não entende por que se faz tanto barulho em torno desses cargos. É que eles são fundamentais para o mesmo jogo de bastidor. Os presidentes das duas casas do Congresso têm um poder significativo sobre a agenda de votações. Podem acelerar ou engavetar propostas. O governo quer alguém alinhado. A oposição, um nome que faça barulho.

É assim. Uma campanha feita de manobras de bastidor escolherá duas pessoas com poder para comandar novas manobras de bastidor.

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