Brasileiros exigem país que funcione

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O Brasil cresceu, em média, 4,4% nos últimos oito anos, distribuiu renda e engrossou a classe média em quase uma Argentina com 40 milhões de habitantes. Mas para o servente de pedreiro Luiz Matias, 62 anos, algo de muito errado está acontecendo. Ele não vê os investimentos necessários do governo e do setor privado para que o país dê o mínimo de dignidade aos mais pobres dos cidadãos. "Sinceramente, se o futuro chegou, ainda não me deparei com ele", diz.

As palavras de Matias podem até conter um certo exagero. Mas refletem o cansaço de suas brigas para ter acesso a um serviço básico — energia elétrica — de qualidade em pleno ano de 2012. Com endereço fixo a apenas 25 quilômetros do Palácio do Planalto, ele reclama da constante falta de luz. A mais recente delas durou seis dias e o resultado foram cinco quilos de carne apodrecidos na geladeira. "Minha compra do mês foi para o lixo", diz o piauiense, morador de um loteamento em Ceilândia.

Como ele, milhões de brasileiros, de todas as classes sociais, são vítimas do descaso e da incapacidade do país de tirar do papel obras que garantam energia elétrica 24 horas por dia. Em 2011, justamente pelos frutos do crescimento econômico, o Brasil passou o maior tempo no escuro — foram 20 horas de apagão. Não à toa, o sinal de alerta dos especialistas foi ligado. Eles indagam: se o país com os maiores recursos hídricos do planeta não conseguiu, até agora, mesmo com toda a propaganda governamental, universalizar o fornecimento de energia elétrica e evitar transtornos à população, conseguirá dar conta de realizar dois dos maiores eventos esportivos do mundo, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, sem passar por vexames?

Apesar do temor de fracasso, a maior parte dos analistas prefere dar um voto de confiança. Mas assinalam que os investimentos pelos quais o Brasil tanto anseia vão além dos eventos esportivos. O país precisa recuperar o atraso dos últimos 20 anos em áreas vitais, de estradas a aeroportos. "País desenvolvido é aquele que consegue transferir a renda para seus cidadãos e garantir serviços públicos de qualidade. É preciso transportar o sucesso econômico para o bem-estar da sociedade", alerta Paulo Godoy, presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). "Somos grandes, mas ainda injustos, inclusive no que se refere à reversão dos impostos pagos pela sociedade em forma de bons serviços", endossa a professora Margarida Gutierrez, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Não há dúvidas de que as cobranças são por aeroportos modernos e distantes do caos que se viu nos últimos anos e estradas bem pavimentadas e sinalizadas. O consumidor quer ainda internet veloz de
verdade. Exige tarifa barata para o telefone e não admite mais os caladões. O Brasil pujante que desponta como potência econômica também precisa superar carências de serviços básicos, como água e esgoto tratados. Só recentemente, os investimentos em saneamento começaram a ganhar vulto — passaram de R$ 3,5 bilhões para quase R$ 8 bilhões entre 2003 e 2010.

Extremos
A expectativa é grande. Mas o Brasil ainda é uma nação de extremos. Tende a se tornar um dos maiores polos de produção e exportação de petróleo graças à tecnologia de prospecção nas águas ultraprofundas do pré-sal. A Abdib calcula que o país está recebendo investimentos de quase
R$ 150 bilhões ao ano em áreas como transportes, petróleo, energia elétrica, telecomunicações e saneamento. Contudo, diante dos anos de atraso, essa cifra não tem sido suficiente para atender às necessidades do país. O ideal seria elevar os gastos a R$ 200 bilhões anuais, estima Godoy.

Tal insuficiência pode ser medida pela taxa de investimento, que não passa dos 20% do Produto Interno Bruto (PIB). Os emergentes asiáticos aplicam mais que o dobro. Na China, 40% de toda a riqueza acumulada anualmente vão para obras e novos projetos. Na Índia, são 32%. A média mundial gira em torno de 23%, informa a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

O problema brasileiro ainda é de onde tirar dinheiro para financiar o progresso. Ao contrário dos orientais, por aqui governo e cidadão não têm tradição de economizar. A taxa de poupança interna gira em torno de 19% do PIB. E, quando não se tem recursos para bancar o próprio crescimento, o risco é a dependência de investimentos externos, que tendem a secar em tempos de crise. Nas turbulências de 2008 e 2009, a falta de verbas foi compensada, pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Mas, para isso, o Tesouro Nacional teve de se endividar em mais de R$ 300 bilhões para capitalizar a instituição.

"Que Deus olhe por nós", pede a vendedora Alcinda Pereira de Almeida, 37 anos. Para ela, já passou da hora de o governo fazer o possível e o impossível para atender as necessidades dos trabalhadores. O que Alcinda mais quer é, sempre que possível, deixar a modesta casa às margens da DF-095 e visitar, de avião, a família no Piauí. "Sei dos constantes atrasos nos aeroportos do país. Já sofri com eles. Mas não vou desistir", avisa.-- Matéria publicada no jornal Valor Economico

Irã ataca diplomacia de Dilma e diz que Lula faz muita falta

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O embaixador do Irã em Brasília, Mohsen Shaterzadeh, disse em recente entrevista que a relação com o Brasil continua tão boa no governo de Dilma Rousseff quanto foi na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas o tom que predomina em Teerã é bem diferente. Autoridades iranianas enxergam claro distanciamento e já há sinais pouco amistosos em direção ao Brasil.

"A presidente brasileira golpeou tudo que Lula havia feito. Ela destruiu anos de bom relacionamento", disse à Folha na quarta-feira, por telefone, Ali Akbar Javanfekr, porta-voz pessoal do presidente Mahmoud Ahmadinejad e chefe da agência de notícias estatal Irna. "Lula está fazendo muita falta", afirmou, numa referência à opção de Dilma, no cargo desde janeiro de 2011, de dar menos ênfase ao Irã. Javanfekr corre risco de ser preso por supostas ofensas ao líder supremo, Ali Khamenei.

Mas o porta-voz ainda é descrito pelo "New York Times" como "uma das mais fortes figuras para divulgar recados [do Irã]." BARREIRAS A irritação iraniana também se nota nas recentes barreiras contra exportadores de carne brasileira. A União Brasileira de Avicultura afirma que as vendas de frango para o Irã, em alta até outubro, passaram a ser vetadas sem justificativa.

Já a multinacional brasileira JBS relata ter tido milhares de toneladas de carne bovina retidas por três semanas num porto iraniano. A carga só foi liberada, dias atrás, depois que um representante foi despachado às pressas para Teerã. Importadores iranianos de carne relataram à Folha que Ahmadinejad enviou carta à alfândega ordenando que diminua a entrada de cargas do Brasil.

O caso é seguido com preocupação pelo Itamaraty, que garante não haver mudança na agenda com o Irã. Mas, aos olhos de Teerã, a guinada sob Dilma ficou clara no voto na ONU ocorrido em março a favor de uma investigação sobre direitos humanos no Irã. Lula rejeitava pressionar os iranianos. O Irã também lamenta o fato de o Brasil ter abandonado esforços diplomáticos para aliviar a pressão sobre o programa nuclear iraniano, suspeito de buscar a bomba atômica -o que Teerã nega.

Em 2010, Lula costurou com a Turquia um acordo, assinado em Teerã, para permitir que o Irã trocasse parte de seu estoque de urânio por combustível nuclear. Mesmo atendendo a pedidos dos EUA, o pacto acabou rejeitado pelas potências.

Por fim, o Irã se ressente do desinteresse brasileiro em promover reuniões bilaterais. Em recente giro latino-americano, Ahmadinejad, ao contrário de 2009, não passou pelo Brasil. Não houve convite nem o Irã sentiu que caberia proposta de visita. O embaixador Shaterzadeh menciona uma viagem de Ahmadinejad ao Brasil neste ano. Mas a Folha apurou que o iraniano deve visitar o país no âmbito da cúpula Rio +20 sobre temas ambientais, para a qual todos os chefes de Estado e de governo do mundo foram convidados.

HABEMUS FÁBIO

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O Padre Fabio faz missa ao lado da estátua de cera do papa João Paulo 2º
 
 
Uma mulher vestindo calça de ginástica entra na Catedral São Francisco de Chagas, em Taubaté (140 km de SP), com a missa das 8h já em andamento. Senta-se no primeiro banco e saca o celular. Aponta o aparelho para o altar. Não está interessada na arquitetura da igreja nem na estátua de cera do papa João Paulo 2º, entregue recentemente. Busca um clique do padre Fábio de Melo.

 

O sacerdote conduz a missa a poucos dias de começar a divulgação de seu 16º CD, "No Meu Interior Tem Deus", de música caipira e textos religiosos. "Fazia celebrações aqui três vezes por semana, mas tive que parar, porque era muita aglomeração", diz ele ao repórter Diógenes Campanha. Passou a marcar as missas sem avisar. "Mas o povo acaba sabendo. E elas ligam para avisar as outras, você viu?" Embora pertença à Diocese de Taubaté, ele não tem paróquia fixa.

 

"Pensaram que eu teria uma igreja só pra mim, um santuário. Mas não quero, iria virar lugar de peregrinação. Não posso ter igreja paralela." É uma clara referência a outro sacerdote cantor, e popstar: o padre Marcelo Rossi, que inaugura em dezembro o Santuário Mãe de Deus, em SP, com capacidade para 100 mil pessoas, e recebe caravanas de várias cidades.

 

Farpas entre os dois já voaram para lá e para cá. O padre Marcelo, por exemplo, critica o padre Fábio por trocar a batina por camisas de marcas famosas em aparições públicas. Em abril, disse em entrevista: "Já alertei o Fábio para que não deixasse de usar batina. E ele está usando, por acaso? Bem se vê que eu não tenho influência sobre ele". "Eu tive três contatos com o padre Marcelo, dois pessoalmente e um por telefone. E não lembro de, em nenhum momento, ter conversado sobre isso com ele." O assessor de imprensa da Sony, gravadora dos dois padres, cutuca o repórter e pergunta se "isso é o foco da matéria".

 

O padre Fábio prossegue: "Aquilo que ele usa não é uma batina também. É uma espécie de um hábito franciscano, embora ele seja um padre diocesano". As farpas continuam: "O maior padre comunicador da história do Brasil é o padre Zezinho, que nunca usou batina. É um homem que faz um trabalho sério e nunca foi menos padre porque não usa batina".

 

"Não somos amigos . Se eu precisar falar com ele [padre Marcelo], não sei como encontrá-lo. Nós dois trabalhamos com música, mas de forma diferente: eu componho, escrevo as minhas músicas. Faço questão de ter uma identidade musical." Já o padre Marcelo só interpreta. "Ele faz uma linha mais litúrgica, que canta nas missas e nas celebrações dele." O padre Marcelo não foi localizado para comentar.

 

Com uma veste de veludo preta e verde, com a inscrição "Filho do Céu", nome de uma de suas músicas, escrito na estola, o padre Fábio atende fiéis no fim da missa. "O senhor me tirou da macumba com uma palavra", diz uma senhora. Ela teve um derrame e pede que benza seu olho. "Tira [foto] com o anjo aqui", diz outra mulher. "Está vendo o que eu passo?", diz o padre. "Minhas velhinhas são muito táteis. Às vezes, o assédio é perigoso."

 

"Uma vez, em Maringá, tinha uma mulher parada na porta do meu quarto [no hotel]. Disse: 'Vem cá, eu gostaria de fazer uma massagem no senhor'". Ele diz que anda sempre com dois assessores para evitar tais surpresas. E evita ficar sozinho com um deles, "porque tudo pode gerar uma insinuação".

 

Ele tira a batina e veste camisa azul da Zara, calça e sapatos sociais pretos. Segue para a Fundação Dom José Antônio do Couto. Lá, adultos e crianças ajudam a restaurar as imagens do Museu de Arte Sacra de Taubaté. "Quis um projeto social simpático. A igreja não tem que continuar antipática à sociedade." Os santos do museu estão todos "de cabecinha tombada, triste. A religião deixou de falar do amor de Deus para falar de culpa. Você, um homem contemporâneo, não se identifica."

 

No almoço, pede badejo grelhado e penne integral com legumes. Procura álcool em gel na bolsa transpassada preta e cinza, para limpar as mãos. "Minha equipe sempre anda com um", diz. "Só faço isso quando vou comer. Se fizer a cada cumprimento, fico com síndrome de José Serra." A revista "Piauí", em 2009, descreve que Serra usa o produto sempre que cumprimenta estranhos e não tem como lavar as mãos.
 

Ao contrário do padre Marcelo, que esconde o voto, o padre Fábio revela que optou por Dilma Rousseff em 2010. "Se eu pudesse, colocaria a mulherada toda no poder." Um e-mail em que ele desejava boa sorte a Dilma no "dia histórico" da eleição foi divulgado quando um hacker invadiu a caixa postal dela. "Me correspondi com ela por um ano. Eu a atendi numa oportunidade na [comunidade católica] Canção Nova. Ficamos amigos."

 

Também foi na Canção Nova que conheceu o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP), para quem foi dar uma entrevista há alguns anos. "Tivemos uma identificação com algumas questões sobre o mundo. O Gabriel tornou-se, desde aquele momento, um amigo com quem converso sobre questões que normalmente não tenho a oportunidade de falar. Chamo isso de parentesco espiritual."

 

"Quando você tem uma amigo assim, diminui a sensação de solidão, de orfandade na vida. É aquela coisa de 'que bom, vou estar com meu amigo hoje'". Conta ter também "gratidão" por Chalita ter lido seu primeiro livro. "Ele me abriu muitas portas, em todas as editoras." Escreveram juntos dois volumes de "Cartas entre Amigos".

 

O padre critica o uso político do aborto por alguns setores da igreja, na campanha eleitoral. Panfletos contra Dilma foram distribuídos em celebrações, pregando que não se votasse nela por ter defendido a descriminalização da prática. "Naquele segundo turno, vivemos um momento delicado, em que questões importantes poderiam ter sido discutidas e não foram. Parecia, mais uma vez, uma imposição idiota: 'Não vote nela por causa disso'. Depois ninguém voltou a falar do assunto, porque era interesse de ocasião." Para ele, a igreja não pode discutir o tema só na eleição, "para não fazer voto de cabresto quando o povo tiver que decidir".

 

Ele se declara "radicalmente contra" o aborto, mesmo em caso de risco para a mãe ou violência sexual. "A vida está acontecendo. E mesmo que metade seja de um estuprador, metade é minha [da mulher]. Sou a guardiã dessa vida."

 

Já os homossexuais, afirma, são "mal interpretados" ao lutar pelo reconhecimento de sua união. "A necessidade de se falar sobre o casamento gay nasceu porque, após a morte de um dos cônjuges, a família, que nunca cuidou deles, quer ficar com aquilo que eles construíram juntos. Aí eu te pergunto: um conceito religioso pode cometer essa injustiça? Não." Ele é contra os gays se casarem na igreja. "E em nenhum momento nos pediram para fazer isso. Eles não estão reivindicando cerimônia religiosa."

FRASES

"Não somos amigos. Se eu precisar falar com ele [padre Marcelo] hoje, não sei como encontrá-lo"

"A igreja não tem que continuar antipática à sociedade"

"Era interesse de ocasião [a igreja usar o aborto na campanha]"


Da coluna da Mônica Bergamo

Calma!, delegados

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A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal emitiu nota lamentando “a preocupação oficial com o uso de algemas”:
“Em todos os países do mundo, a doutrina policial ensina que todo preso deve ser conduzido algemado.”
Não conheço a doutrina. O que sei é que no Brasil há normas estritas sobre o uso de algemas.

PT x imprensa (de novo)

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O PT mais uma vez mobiliza-se contra a imprensa. Considera-a uma facção partidária de oposição e quer meios de controlá-la. Apresentará uma moção nesse sentido em seu 4º congresso.
Quer o fim da propriedade cruzada em veículos de comunicação (ninguém pode ter mais de um tipo de veículo), a “democratização da mídia” (com censura?) e a “quebra do monopólio” (que não existe no Brasil em nenhum segmento da mídia).

É uma nova escaramuça, já experimentada sem sucesso durante o governo Lula, quando espantosamente foi vinculada à defesa dos direitos humanos.

A tentativa anterior estava inscrita no Plano Nacional de Direitos Humanos, que legitimava ainda a invasão de terras e a supressão de símbolos religiosos, entre outras humanidades.

A presidente Dilma, quando candidata, chegou a subscrever, em seu primeiro programa de governo, aquelas propostas. Mas, diante da reação, alegou não as ter lido e jurou que não as aprovaria. É uma boa oportunidade de confirmar sua palavra.

Agora, o epicentro é uma matéria de Veja, que revela o bunker político do ex-ministro José Dirceu, num hotel em Brasília, considerada pelos petistas (e, óbvio, pelo próprio, Dirceu) uma afronta à sua privacidade. A imprensa estranhamente não repercutiu a matéria, que, no entanto, não é irrelevante.

Mostra uma espécie de governo paralelo montado na capital da República. Pode não constituir um crime um ex-parlamentar cassado e sub judice na mais alta corte do país, acusado de corrupção, receber ministros e lideranças parlamentares reservadamente.

Mas, do ponto de vista político, é no mínimo uma quebra de normalidade, anomalia mesmo, se se considerar de quem se trata, de alguém que notoriamente exerce liderança somente comparável à de Lula sobre o principal partido da base governista, o PT, cujo presidente, Rui Falcão, segue sua orientação.

O próprio Dirceu, já cassado e sub judice, confessou, numa célebre entrevista à Playboy, que um pedido seu – um consultor privado de empresas - ao governo não é um “pedido qualquer”: é “Um pedido. Leia-se “uma ordem”.

Acresce que os encontros se deram em meio à crise política que derrubou Antonio Palocci, cuja origem se atribui ao próprio grupo de José Dirceu. Ele alega que, não sendo do governo, tem direito não só à privacidade profissional, como a receber quem quiser. Depende. Quando essas consultorias envolvem o Estado, tudo muda.

Ele tem, entre seus clientes, empresas ligadas ao setor do petróleo. E, entre seus visitantes, estava ninguém menos que o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, o que, no mínimo, sugere tráfico de influência. Quem sabe ele lhe fez ali “Um pedido!”?

Os delitos políticos, em regra, transcendem os judiciais. Fernando Collor foi deposto pelo Congresso, mas absolvido pelo Supremo Tribunal Federal. Ao Congresso, bastou a certeza de que havia atentado contra o decoro da função; ao Supremo, era preciso demonstrá-lo não apenas com documentos, mas com conexões causais, não obtidas.

A atividade política tem (deveria ter) uma instância moral com eloquência própria, que dispensa formalidades jurídicas. A Câmara, por exemplo, deveria ter cassado Jaqueline Roriz mediante o vídeo que a mostra embolsando dinheiro de origem no mínimo duvidosa (embora ninguém tenha dúvidas de sua procedência).

Não o fez porque não quis, não pelos motivos alegados (de que teria delinquido antes da aquisição do mandato). Já o Judiciário, para condená-la, precisa de provas materiais: elementos palpáveis que confirmem a origem espúria do dinheiro.

O Congresso cassa pelo decoro, algo frequentemente imaterial – um gesto, uma palavra. Richard Nixon, por exemplo, caiu porque, acima de tudo, mentiu ao povo americano.

O Judiciário lida com situações materiais, comprováveis por documentos, confissões, testemunhos. Dentro disso, não há problemas com o bunker de Dirceu. Já pelo ângulo político, trata-se de uma desfaçatez, um desafio a céu aberto a um governo legitimamente instalado, submetido à ação sabotadora de um grupo.

Não vem ao caso a culpa de Palocci, que mereceu o destino que teve, mas certamente não foi por essa razão que o grupo de Dirceu o alvejou. Se a cruzada fosse moral, metade do ministério iria para a rua, junto com alguns visitantes do bunker. A ação teve como objetivo atingir o governo para nele exercer maior influência. E isso, por si, é notícia, no entanto desprezada pelo conjunto da mídia.

Mesmo considerando-se que tivesse havido excesso, não justificaria uma ação contra a liberdade de imprensa ou o advento de nova legislação. O Código Penal oferece ao PT e a José Dirceu os meios de reclamar reparação, por injúria, calúnia ou difamação, únicos crimes decorrentes da ação da imprensa.

Por que não o acionam? Talvez, nessa instância, não disponham dos meios necessários para configurar o que dizem.

Internautas organizam marcha contra a corrupção

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Internautas estão organizando uma marcha contra a corrupção no dia 7 de setembro, quando é comemorada a independência do país. O movimento ganhou mais adeptos depois da absolvição da deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF), segundo a organização do protesto.

Há duas semanas, um grupo de brasilienses lançou no Facebook, uma rede social, a ideia de fazer o protesto no Dia da Independência. Até a tarde de quinta-feira (30), mais de 12 mil pessoas tinham confirmado presença por meio do site. Segundo um dos organizadores da manifestação, Giderclay Zeballos, as confirmações dobraram depois que a Câmara dos Deputados arquivou o processo de cassação do mandato de Jaqueline Roriz. A deputada foi acusada de quebra de decoro após aparecer em uma gravação de vídeo recebendo dinheiro do operador do esquema de propina no governo do Distrito Federal, Durval Barbosa, quando era candidata a deputada distrital.
“Muita gente ficou indignada com a absolvição”, disse Zeballos, analista de sistema.

Na página do protesto na rede social, os organizadores afirmam que a manifestação não tem apoio de partidos, sindicatos ou empresas. E surgiu da mobilização de cidadãos comuns diante das denúncias de corrupção, como as recentes ocorridas nos ministérios dos Transportes, do Turismo e da Agricultura. “A corrupção virou uma doença no Brasil. Sentimos que temos que fazer alguma coisa”, disse Zeballos.

Segundo ele, os próprios organizadores estão arrecadando com amigos e parentes recursos para a compra de material para a manifestação, como faixas e tintas.

O grupo pede que os participantes levem spray, apitos, balões e tinta para pintar o rosto durante a marcha. “Não carregue bandeira de nenhum partido, a bandeira que devemos carregar é apenas a do Brasil, que é o nosso interesse comum”, diz texto na página do evento.

O protesto está previsto para começar às 10h do dia 7 de setembro. O local escolhido é o Museu Nacional, próximo à Esplanada dos Ministérios, onde é realizado o tradicional desfile militar.

Cadê a faxina? Investigação irrita aliados de Alckmin

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Fiel aliado do governador tucano Geraldo Alckmin, o presidente estadual do PSDB, Pedro Tobias, diz não descartar que o prefeito Gilberto Kassab soubesse antecipadamente de investigação da Corregedoria do Município que apontou que empresa de familiares da primeira-dama, Lu Alckmin, falsificou documentos para fraudar em R$ 4 milhões o pagamento de tributos municipais. A denúncia irritou os alckmistas.

“Pode ter dedo do prefeito”, afirma Tobias sobre a acusação feita anteontem pelo corregedor-geral da capital, Edilson Bonfim, responsável pela investigação sobre supostas fraudes no recolhimento do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e de títulos de outorga onerosa (para construir acima do limite legal).

“Negócio de IPTU, de ligação com a Prefeitura. Pode ser (influência de Kassab). Tudo é possível”, diz Tobias. Embora desconfie da denúncia, o tucano e deputado estadual diz defender a apuração do caso e punição de culpados. “Se é verdade e não tem armação de Kassab. Se alguém da família errou, vai pagar o erro dele”.

Fraude e conspiração

Segundo a Corregedoria, a fraude teria ocorrido no edifício Royal Street, na Avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona sul, que pertence à Wall Street Empreendimentos e Participações. A empresa tem como sócios Adhemar Cesar Ribeiro Filho e Maria Paula Abreu Cesar Ribeiro, respectivamente filho e mulher de Adhemar Ribeiro, irmão de Lu Alckmin. A empresa não se manifestou sobre o caso.

Na empresa, funcionários afirmam que Adhemar, cunhado de Alckmin, é o dono da Wall Street – na época da fraude ele ainda seria sócio da empresa e hoje atua como procurador da firma. Só de contrapartida para autorizar ampliação no edifício, a empresa teria deixado de pagar R$ 4 milhões. O problema é que técnicos da Secretaria de Habitação controlavam apenas visualmente se guias apresentadas por construtoras estavam pagas e não checavam com os servidores da Secretaria de Finanças se o pagamento havia sido efetuado. Até agora, dez construtoras obtiveram autorização para 23 empreendimentos e desfalcaram os cofres públicos em R$ 50 milhões (em valores atuais).

Um tucano com trânsito entre alckmistas e aliados do ex-governador José Serra (PSDB), padrinho político de Kassab, lembra que o atual secretário municipal de Finanças, Mauro Ricardo, foi preterido por Alckmin no novo governo. Ricardo era o titular da titular da Fazenda na gestão Serra. “Todo mundo sabe que os dois nunca se deram”, afirma.

Procurada, a Prefeitura informou que não comentaria as declarações de Tobias. Pela manhã, Kassab disse que desconhecia o fato de que um dos investigados ser cunhado de Alckmin. “Eu mesmo nem sabia que ele era o procurador, ou o proprietário. E não estou participando nesse processo. Após duelarem pela Prefeitura em 2008, Kassab e Alckmin podem ser rivais de novo, em 2012, na disputa pelo governo.

Firmas informam mesmo prédio como sede

A Wall Street, empresa ligada a familiares da primeira-dama do Estado, Lu Alckmin, informou à Junta Comercial que sua sede fica no 12º andar de prédio na Avenida Nove de Julho. Declarou funcionar no mezanino do mesmo edifício a Humanitas, empresa criada por Geraldo Alckmin no final de 2006.

A assessoria de imprensa do Palácio dos Bandeirantes informou que “a empresa Humanitas deixou de exercer suas atividades em 2009, antes mesmo da posse do governador Geraldo Alckmin”. E que “apuração da Corregedoria-Geral do município de São Paulo não tem qualquer relação com o Governo do Estado.” Mas não informou se o imóvel declarado como sede da Humanitas pertence à firma ou a terceiros.

Onde foi parar a oposição?

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Especialistas criticam atuação de oponentes, mesmo diante de crises no governo

Ministros são afastados por irregularidades, autoridades aceitam favores de empresários, bens públicos são usados para fins particulares, lideranças aliadas se atacam em público na briga por cargos ou verbas. A concentração de denúncias contra o primeiro escalão, nas últimas semanas, colocou a corrupção na ordem do dia, mas, para surpresa até do governo, a oposição não cresce nem aparece.

"Os eleitores oposicionistas estão órfãos, o País está anestesiado. A indignação contra a corrupção é pequena e, quando ocorre, tem prazo de validade curto", resume o historiador Marco Antonio Villa, da UFSCar. "Mas quando temos uma oposição que depende do escândalo para aparecer, já temos um problema grave", completa outro estudioso dos partidos nacionais, Jairo Nicolau, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp), no Rio.

A insatisfação dos eleitores, admitem acadêmicos e políticos, corre hoje por fora dos canais partidários e isso é mais do que explicável: aos poucos, os partidos estão deixando de ser o desaguadouro dessas causas. Se eles funcionassem, podia-se esperar mais valentia, ou pelo menos mais barulho, de um bloco que faturou 44 milhões de votos presidenciais em 2010, comanda nove Estados e controla 1.276 prefeituras no País.

Há uma Frente Suprapartidária Contra a Corrupção, formada no Senado, que vem se destacando pela enorme falta de impacto.

ONGs e associações civis, divulgam manifestos e reuniões pela internet, mas é pouco.

MOTIVOS

Uma explicação óbvia, para muitos, é que a economia vai bem. Mas a economia não resolve tudo.

Em momentos econômicos diversos, o País se rebelou nas CPIs contra Fernando Collor (1992), contra os Anões do Orçamento (1993) e na crise do mensalão (2005).

Estudiosos preferem entender a fraqueza da oposição como resultado de seguidos erros cometidos ao longo do tempo. Celso Roma, da USP, vê uma combinação de equívocos do PSDB com estratégias inteligentes do PT, a começar pelo abandono do radicalismo de esquerda.

"A oposição não tem discurso convincente, por causa de seus próprios erros de conduta", diz.

O sociólogo José Arlindo de Souza, da Universidade Federal da Paraíba (UFPb), considera o grande entrave a falta de competência dos oposicionistas. "Os líderes dos dois principais partidos de oposição não têm estofo para incluir nas discussões mudanças substantivas no plano parlamentar e mobilizar a sociedade", avalia.

Como José Arlindo, Marco Villa cobra qualidade: é preciso ter bandeiras e isso exige discussão ideológica, mas o primarismo das lideranças impede que esse debate ocorra. Essa consistência, diz Jairo Nicolau, dependeria de um trabalho sério, que a oposição não fez. "Ela não criou alternativas de longo prazo, não delimitou seu terreno. Não formou quadros", considera.

Fora Dirceu

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Revista acusa ex-ministro de despachar com políticos e de conspirar contra o governo Dilma

O ex-ministro José Dirceu (PT) manteria um gabinete informal no Hotel Naoun, no Setor Hoteleiro Sul, em Brasília, onde estaria despachando com parlamentares e integrantes do governo Dilma, de acordo com reportagem da edição da revista Veja que circula neste fim de semana. A publicação, que diz que Dirceu conspiraria contra o governo Dilma, traz imagens de políticos no hotel onde ele se hospeda, entre 6 e 8 de junho, dias que antecederam a queda do ministro da Casa Civil Antonio Palocci.

Uma das imagens obtidas mostra os senadores petistas Lindbergh Farias (RJ), Delcídio Amaral (MS) e Walter Pinheiro (BA). Segundo a Veja , o encontro ocorreu pouco antes de o trio se recusar a assinar um manifesto pró-Palocci. A revista também mostra imagem do ministro do Desenvolvimento Fernando Pimentel no hotel.

CONSPIRAÇÃO

A influência política de Dirceu estaria a favor de uma trama contra a gestão de Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. De acordo com a publicação, a própria presidente já estaria sabendo de tais atos.

A revista aponta que a suposta trama teria sido ingrediente responsável pela queda de Antonio Palocci da Casa Civil, no início de junho. À época, ele teria realizado cerca de 45 horas de reuniões que podem ter sido responsáveis pela demissão de Palocci e nas quais pode ter sido articulada uma tentativa sem sucesso de aliados do petista de tentrar ocupar as vagas que se abririam com a demissão.

Um dos planos do grupo seria o de emplacar o deputado federal Cândido Vaccarezza para a Casa Civil. Segundo a Veja, o próprio deputado teria comparecido ao hotel no dia 8 de junho para conversar com Dirceu.

Além de Vacarezza, a publicação aponta que teriam ainda se reunido com o ex-ministro, no hotel em Brasília, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, e os deputados Devanir Ribeiro (PT) e Eduardo Gomes, do PSDB.

O preço da suíte reservada permanentemente a Dirceu seria de R$ 500 e as despesas estariam sendo pagas pelo escritório de advocacia Tessele & Madalena, que tem como um dos sócios outro ex-assessor de Dirceu, o advogado Hélio Madalena.

Indignado com a veiculação das informações pela revista, José Dirceu afirmou, em entrevista ao Jornal do Brasil, que "depois de abandonar todos os critérios jornalísticos, a Veja , por meio de um de seus repórteres, também abriu mão da legalidade".

Ao jornal, Dirceu disse ainda que "houve a prática de um crime, no momento em que o repórter Gustavo Nogueira Ribeiro teria invadido o apartamento no qual ele estava hospedado costumeiramente em Brasília".

"Sou cidadão brasileiro e dirigente partidário. Minhas atribuições me concedem o dever e a legitimidade de receber companheiros e amigos", disse o petista do jornal.

Dirceu publicou em seu blog um boletim de ocorrência acusando um repórter da Veja de ter tentado invadir seu quarto.

Segundo o boletim, o repórter disse a uma camareira que estava hospedado no quarto de José Dirceu.

A reportagem diz ainda que o advogado, Hélio Madalena, em cujo nome está registrado o quarto de Dirceu, pediu à segurança do hotel para procurar uma delegacia de polícia para acusar o repórter de ter tentado invadir o apartamento que seu escritório aluga.

Ministro defensor do tabaco

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Na Câmara, Mendes Ribeiro propôs emenda a favor de máquinas para a venda de cigarros


Ribeiro assume hoje: empresas tabagistas doaram R$ 70 mil para a campanha

O teor de uma emenda a um projeto de lei que tramitava na Câmara resume os posicionamentos políticos do novo ministro da Agricultura, o deputado federal Mendes Ribeiro (PMDB-RS), que assume hoje o cargo. O projeto impedia a fabricação, instalação, operação e importação de máquinas de venda automática de cigarros e de outros derivados do tabaco, como charutos e cigarrilhas.

A proposta foi aprovada e remetida ao Senado em 2004. Antes, Mendes Ribeiro propôs uma alteração na lei. A emenda restringiu a proibição. As máquinas seriam permitidas, desde que apresentassem sistemas de controle que evitassem a compra dos maços de cigarro por crianças e adolescentes. "Fica claro que a solução ideal não é a proibição da fabricação, mas a busca de uma forma eficaz que garanta a não utilização das máquinas por menores de 18 anos", justificou o deputado no texto da emenda.

O novo ministro da Agricultura do governo da presidente Dilma Rousseff é um ferrenho defensor da indústria e do cultivo do tabaco no Brasil. No exercício de seus mandatos na Câmara, discursou em defesa do setor e atuou na prática para beneficiar a produção de fumo, como é o caso da emenda apresentada. Em março deste ano, Mendes Ribeiro subiu à tribuna do plenário da Câmara para defender os produtores de fumo da Região Sul, principalmente de seu estado, Rio Grande do Sul. Disse que explicou a um agricultor, depois de ser abordado por ele, que não havia qualquer iniciativa do Congresso para proibir a comercialização de fumo no país. "O que está acontecendo encontra fundamento em duas consultas públicas da Anvisa, que literalmente legisla sobre o tema", criticou o deputado. "As colocações feitas têm o intuito de alardear e aumentar os problemas do setor fumageiro."

Doações
Para se eleger deputado, Mendes Ribeiro recebeu R$ 70 mil de indústrias do tabaco em 2002 e 2006, conforme registros de doações oficiais no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Do setor de armamento, foram mais R$ 155 mil, nas últimas três eleições. Duas semanas antes de subir à tribuna para defender a indústria do cigarro, o parlamentar discursou em defesa do setor de armas. "O Brasil disse "não" ao desarmamento dos homens decentes", disse logo no início de seu quinto e atual mandato. Um projeto de lei de sua autoria propôs, 12 anos atrás, a obrigatoriedade de renovação anual do registro de armas de fogo.

Na votação do novo Código Florestal Brasileiro, aprovado em maio na Câmara, Mendes Ribeiro apoiou integralmente a proposta do relator Aldo Rebelo (PCdoB-SP), na contramão do próprio governo que passa a integrar a partir de hoje. O deputado assinou seis emendas ao projeto em conjunto com os líderes do PSDB na Câmara, Duarte Nogueira (SP), e do DEM, ACM Neto (BA). Aliado aos principais líderes da oposição na Câmara, Mendes Ribeiro propôs a exploração agropecuária no Pantanal, a permissão de atividades agropecuárias em áreas de preservação permanente (APPs) — como acabou validado em plenário — e a dispensa de averbação de reserva legal em cartório. Entre outros projetos na Câmara, propôs a redução da faixa da fronteira brasileira, de 150km para 50km.