Os tucanos, em dois movimentos

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Os tucanos tentaram. E, tal qual uma equipe pronta a entrar em quadra, posaram coladinhos, ombro no ombro. Estavam ali reunidos - na terça, na Liderança na Câmara - para declarar o apoio ao governador de Goiás, Marconi Perillo, o colega que até hoje tem dificuldades de explicar a venda de uma casa ao grupo do bicheiro Cachoeira. Todo o cenário foi preparado às pressas a pedido do caciques, e tudo pareceu um tanto falso. E era. Da foto às declarações. Políticos preferem ganhar tempo a correr riscos.

Vinte e quatro horas antes da reunião - ainda na segunda-feira -, parlamentares do PSDB defendiam, a quem perguntasse, que o melhor para o governador seria o afastamento do partido. A informação, evidentemente, era de bastidor, ninguém queria aparecer, mas deixava claro o incômodo com reportagem da Época do fim de semana. A revista apresentou relatório policial com detalhes da relação entre Perillo, a Delta e Cachoeira em mais um episódio envolvendo a casa de Goiânia.

Mais do que incomodados, os caciques do PSDB se diziam constrangidos. E daí as declarações para os jornalistas sobre a eventual saída de Perillo da legenda. O constrangimento, entretanto, durou pouco, como se pôde ver. Na entrevista - a dos ombros colados -, os tucanos mudaram o tom. O governador passou a receber o apoio incondicional da legenda. A questão é: o que fez os caciques do PSDB inverterem os discursos dados aos repórteres, mesmo que o primeiro tenha sido em off the record?

Desconsiderando eventuais pressões de aliados de Perillo, talvez a melhor resposta seja esta: os camaradas pensaram melhor e viram o quanto poderia ser arriscado largar o governador de Goiás antes mesmo do fim da Comissão Parlamentar de Inquérito do Cachoeira. Nada melhor do que uma noite de sono antes de tomar uma decisão. Na quarta-feira, os principais homens do PSDB começaram a adotar uma das estratégias mais eficientes ao longo de uma crise política: ganhar tempo.

Desgastes

Se por uma frente novas denúncias contra Perillo podem desgastar a legenda, por outra, o abandono de um político eleito com 1,5 milhão de votos representa um balaço no próprio PSDB, principalmente no meio da campanha municipal. Havia a chance de desestabilizar disputas não apenas em Goiás - onde a legenda tem três deputados federais, seis estaduais, um senador, 62 prefeitos e mais um sem número de vereadores -, mas também em outros estados no Centro-Oeste.

Na prática, os tucanos apostam todas as fichas nas eleições de outubro para tentar conquistar capilaridade nos municípios brasileiros e, assim, chegar com mais força na disputa presidencial em 2014. Não podem, pois, se dar ao luxo de desagradar aliados de Perillo, que, mal ou bem intencionados, compram a versão de inocência do governador goiano. O risco de um movimento contrário à legenda é real, afinal o governador está no terceiro mandato, o que não é pouco para um político de 49 anos.

Impressões

E aqui uma consideração. A partir de exemplos recentes de Brasília - como a queda de ministros da presidente Dilma Rousseff -, tem-se a falsa impressão de que é fácil derrubar um político. Não é bem assim. Ministros, como se sabe, não têm votos. Às vezes, nem mesmo os partidos os defendem, principalmente quando podem colocar outro nome no lugar. O caso de Arruda, por sua vez, é uma exceção, afinal ele foi preso e perdeu sustentação política entre os próprios aliados locais.

Por fim, mesmo que a CPI avance em relação a denúncias contra Perillo, pouco pode fazer a não ser enviar o processo ao Ministério Público com um pedido de indiciamento do governador tucano. No plano político, ele precisaria ter o aval de deputados estaduais para deixar o governo - o que hoje, convenhamos, é quase impossível. Por mais que o desgaste comprometa o tucano nas urnas, tal coisa só ocorrerá em 2014. Até lá, os caciques tucanos ganham tempo. E evitam correr riscos de imediato. Nas Entrelinhas

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