Classe média emergente

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com crédito e salários subindo, a baixa renda vai às compras e já movimenta o equivalente a 25% do PIB por ano

Quando decidiu pagar R$ 2,2 bilhões pelo controle da rede de supermercados Atacadão, em abril de 2007, o grupo francês Carrefour sabia que o tamanho do investimento seria — e muito — compensado. É o presidente da empresa francesa, Jean-Marc Pueyo, quem diz: “As vendas para as classes C e D, atendidas pelo Atacadão, estão crescendo a uma velocidade 10 vezes maior do que as destinadas às classes A e B”. Como o Carrefour, todo o varejo brasileiro se movimenta para fisgar um naco desse público, que já movimenta por ano o equivalente a 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do país — quase R$ 600 bilhões.

A força do que os economistas denominam de classe média emergente decorre de uma combinação de fatores positivos: controle da inflação, aumento do emprego formal e oferta maciça de crédito. “É o que chamamos de combinação perfeita para um crescimento sustentado da economia”, afirma Ítalo Lombardi, economista para a América Latina da consultoria IDEAglobal. Tão perfeita, acrescenta o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, que, apesar de o volume de crédito à pessoa física ter quase triplicado nos últimos cinco anos, a taxa de inadimplência caiu.

E no que depender da vendedora de chocolates Maria Chaves, 67 anos, a demanda por crédito continuará aumentando. “Comprar a prazo é a única forma de satisfazermos nossas necessidades”, enfatiza. “Antes, pobre não conseguia comprar nada. Agora, qualquer pessoa que tenha o nome limpo e receba pelo menos um salário mínimo por mês compra muita coisa”, garante. “Eu mesmo faço a festa com os R$ 500 que tiro por mês”, acrescenta.

O feirante Severo Santos Neto, 33, não a deixa mentir. “Estou vendendo como nunca. Realmente, a situação econômica do país está bem melhor”, afirma. “Vou fechar o ano com faturamento 15% maior em relação ao ano passado. O dinheiro está correndo mais solto. Estou atendendo muita gente que antes nem passava perto de minha barraca (na Feira dos Goianos, em Taguatinga)”, conta. “E quem não tem dinheiro vivo dá um jeito de fazer um empréstimo para satisfazer a vontade de comprar”, emenda.

Ajuda do dólar
É o caso do cozinheiro Francisco das Chagas, 34. Ele ganha R$ 800 por mês para sustentar a família de três pessoas. “Mesmo com o orçamento apertado, estou equipando minha casa. Atualmente, estou pagando as prestações de uma televisão e de um aparelho de som”, assinala. Mas para não ficar tão endividado, normalmente, ele paga as roupas à vista. O cozinheiro ressalta ainda que, se há uma razão para levar carnês de crediário para casa, é a confiança de que não perderá o emprego com tanta facilidade. “Estou na mesma empresa há 10 anos. E isso me dá a segurança de que terei o dinheiro de que preciso para pagar todas prestações”, conta.

A autônoma Sueli Costa, 48, não se entusiasma tanto. A despeito de reconhecer que a renda do trabalhador melhorou — está em alta desde 2003 — e que o acesso ao crédito ficou mais fácil, ela prefere não fazer dívidas. “Gosto de poupar e comprar à vista”, diz. Para José Roberto Souza, gerente comercial da Novo Mundo, maior varejista de eletrodomésticos da Região Centro-Oeste, independentemente do perfil do consumidor, o que importa é que ele está gastando como nunca. “Em 23 anos de atuação no varejo, nunca vi o mercado tão aquecido”, ressalta.

Com tanto ímpeto para gastar, as vendas do comércio cravarão em 2008 o quinto ano de alta. “A massa salarial continuará se expandindo e os preços do dólar não devem registrar grandes alterações, barateando produtos que usam componentes importados”, frisa o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes.

Estudioso do consumo da população de baixa renda, Renato Meirelles, sócio-diretor da consultoria Data Popular, afirma que o reforço do mercado de consumo pelas classe C, D e E veio para ficar. “Não é uma bolha”, avisa. Além do crédito farto, o salário mínimo subiu 280% nos últimos 10 anos, bem acima da inflação, com alta de 147%. “Isso faz com que sobre mais dinheiro para o consumo.” Tal visão é compartilhada pelo presidente da NET Serviços, Francisco Valim. Ele acredita que, nos próximos dois anos, o número de clientes da classe C mais que dobrará, passando a representar 50% do total. “Atualmente, eles representam 20% da clientela”, diz o executivo.

No entender de Valim, o mercado de tevê por assinatura é um dos que mais “bombam” quando a renda está em alta, como agora, e um dos que mais sofrem, quando a economia vai mal. “O volume de assinaturas da NET avança a um ritmo de 30% ao ano. E esse patamar deve se manter pelos próximos anos, pois não vemos como haver um recuo no consumo.”



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