Lula monta operação para acalmar investidor

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O governo deflagrou ontem uma ampla operação para acalmar os investidores e massificar os argumentos de que o Brasil está mais protegido para enfrentar uma quase certa recessão da economia dos Estados Unidos. Tão logo tomou conhecimento dos resultados desastrosos das bolsas de valores da Ásia e da Europa, o presidente Lula ligou para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e para o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, pedindo que não economizassem no discurso ressaltando os avanços da economia brasileira. “Não podemos deixar que o pânico se instale no Brasil. Temos de garantir que o atual ciclo de crescimento do país não será abortado pela crise imobiliária dos EUA”, disse Lula aos dois, segundo seus assessores. Não satisfeito, Lula convocou uma reunião com eles, convencido de que, mais do que nunca, a equipe econômica deve deixar as diferenças de lado e unificar o discurso.

O clima ficou tão pesado no governo, diante da queda de 6,6% na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e da alta de 3% do dólar, que o próprio Lula decidiu comentar a crise. “Obviamente, todos nós temos que estar com os dois olhos muito abertos para saber o que vai acontecer na economia americana e, conseqüentemente, na economia mundial”, afirmou. O presidente assegurou que há razões para o governo se manter tranqüilo. “Por enquanto, estamos certos de que essa crise talvez seja alguma frustração relacionada ao pacote do Bush (presidente americano, George W. Bush), que não contentou nem os americanos”, ponderou.

Lula afirmou que os EUA precisam assumir a responsabilidade para evitar que a crise — provocada por calotes no setor imobiliário de crédito de alto risco — se alastre e prejudique os países que têm feito, de forma exemplar, o dever de casa, como o Brasil. “Os países da América Latina e da África, que passaram praticamente 30 anos sem crescer, encontraram, agora, o caminho do crescimento. Não é possível que pessoas que não têm nenhuma casa nos EUA e que não fizeram nenhuma hipoteca, paguem a crise da irresponsabilidade de alguns, que resolveram ganhar dinheiro fácil, como se estivessem apostando em um cassino”, assinalou.

Solidez
Apesar da confiança que procurou demonstrar, o presidente destacou, porém, que o Brasil está pronto para agir se os efeitos da crise americana forem muito além do esperado pelo governo. “Estamos acompanhando tudo. O Brasil nunca teve a solidez que tem hoje”, assinalou. Lula afirmou ainda que o momento de maior turbulência no mercado internacional não deve prejudicar os investimentos previstos pelo governo. “Os investimentos já foram definidos em 2007. O dinheiro do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) já foi empenhado, grandes obras já foram contratadas. Estou convencido de que nós vamos continuar no caminho certo”, disse.

Durante discurso de posse do novo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, Lula se queixou de comentários que têm lido sobre a economia brasileira. “Às vezes, leio artigos de pessoas que parecem estar torcendo para que a crise americana crie algum problema para o Brasil. Ou seja, um determinado tipo de gente que não se conforma que as coisas estejam dando certo, que não se conforma que as coisas andem bem, que não se conforma que o povo esteja vivendo um momento de otimismo como há muito tempo não se vivia.”

Essas queixas também têm sido feitas pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, que definiu as fortes quedas de ontem das bolsas como uma situação de “quase pânico” entre os investidores, com contágio dos mercados europeus. “O Brasil nunca esteve tão preparado para enfrentar uma situação de crise internacional. É como se, nos últimos quatro ou cinco anos, estivéssemos nos preparando para enfrentar uma turbulência externa, de modo que ela possa não nos atingir ou nos atinja com pouco resultado”, afirmou. “A economia brasileira continua dando sinais de vigor e vitalidade”, emendou.

Segundo o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, a instituição está pronta para agir preventivamente e evitar que o Brasil seja engolido pela crise. Ele descartou, contudo, a possibilidade de o país repetir os erros do passado, adotando medidas heterodoxas, que só levaram ao descrédito, à estagnação e a sucessivas crises. “Hoje, o quadro é de tranqüilidade e realismo. Não há dúvidas de que uma desaceleração das economias ou uma recessão terá efeito sobre o Brasil. Mas esses efeitos serão substancialmente menores e menos custosos que no passado. Portanto, a minha mensagem é apenas uma: estamos preparados”, frisou.

PROMESSA NO CAFÉ
Depois de anunciada mais uma arrecadação recorde no ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva garantiu ontem, no seu programa de rádio semanal Café com o Presidente, que o governo não vai aumentar impostos. “Eu quero que o povo brasileiro saiba que é extremamente importante que o governo consiga arrecadar sem aumentar imposto. Nós não vamos aumentar imposto”, garantiu. Lula não citou a elevação feita do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) como forma de compensar o fim da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Ao contrário do que havia dito o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o presidente afirmou que vai adotar uma política industrial que “possivelmente” terá uma desoneração fiscal. Lula comemorou também o crescimento do emprego no ano passado.

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