Um ninho à beira do estresse


Suposto acordo entre Jucá e Sampaio provoca bate-boca entre tucanos durante almoço para discutir CPI

O que era para ser um almoço com o objetivo de mostrar unidade, virou um cardápio indigesto para a oposição, principalmente ao PSDB. Cerca de 20 parlamentares tucanos, e também do DEM, do PPS, além de alguns dissidentes da base governista reuniram-se ontem numa churrascaria. O objetivo do encontro era desfazer o clima de acordão com o governo para a comissão parlamentar de inquérito que investigará os cartões corporativos e mostrar que a oposição estava disposta a apurar os gastos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em vão. Um bate-boca entre o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) e o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) resumiu o almoço.

Após discursos de líderes com o tom de unidade, Dias levantou-se da cadeira e criticou um suposto acordo que Sampaio teria fechado com o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), para blindar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e o presidente Lula. “Se houve um acordo por parte do deputado Sampaio, eu não participei”, afirmou o senador. “É preciso desfazer o mito de que não vamos investigar o presidente da República”, disse.

Sampaio se irritou. Pediu a palavra. Levantou-se também e revidou. “Me senti ofendido com essas palavras. Um acordo não condiz com minha história e minha vida parlamentar. Meu objetivo é apenas investigar o desvio de qualquer agente público com o cartão corporativo, seja qual for o governo. Temos que investigar tudo. Focar na presidência? E os 11 mil cartões corporativos?”, afirmou, em tom elevado, sob olhar atento dos presidentes do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), e do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ).

Na ponta da mesa, Rodrigo Maia pediu “cuidado” com Romero Jucá. “O Romero é muito habilidoso. Temos que tomar cuidado com ele, que nos criou um problema. Ele passou dos limites com a oposição”, afirmou o presidente do DEM. Vale lembrar que Jucá, criticado no almoço, foi líder do governo de FHC.

Maia faz parte do grupo que repudiou a conversa entre Sampaio e Jucá que selou a prometida criação de uma CPI mista no Congresso. Parlamentares da oposição, a maioria do DEM, dizem que Sampaio caiu no jogo do líder do governo, deixando os adversários do Palácio do Planalto numa saia-justa. Consideraram um erro do deputado tucano ter permitido uma foto na sala de Jucá com um quadro de Lula por cima.

Ontem pela manhã, caciques da oposição decidiram então marcar um almoço para o deputado dar sua versão e enterrar a imagem de acordo com o governo. O resultado, porém, ficou aquém das expectativas de tucanos e democratas. Não só a conta do restaurante ficou cara, mas também o preço da exposição de um racha interno. Não houve clima nem para a sobremesa. Somente o senador Mão Santa (PMDB-PI) conseguiu apreciá-la, optando por um abacaxi.

Cobrança
Sampaio, aliás, foi chamado ao gabinete de Sérgio Guerra no fim da noite de segunda-feira. Teve que dar explicações à cúpula do partido sobre o encontro com Jucá na manhã daquele dia. Mais uma vez, negou qualquer tipo de acordo com o senador, mas defendeu novamente que não sejam detalhados os gastos pessoais do presidente da República. Considera isso uma “pormenorização” da comissão de inquérito.

Não só Dias e Sampaio divergem na oposição. Há posições distintas sobre o foco da CPI. Parlamentares do DEM e uma ala do PSDB, que inclui Dias e o líder no Senado, Arthur Virgílio (AM), não querem nenhum tipo de abrandamento na investigação. Outra ala, comandada pelo presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), e da qual faz parte Carlos Sampaio, quer evitar que a CPI comece pelos gastos da Presidência da República, principalmente para impedir um jogo de informações vazadas entre petistas e tucanos em torno de dados sobre Lula e FHC. “Começar com o Lula não é sensato, não é sóbrio. Não queremos pirotecnia. Não sou a favor. Temos que iniciar pelas denúncias da Controladoria-Geral da União”, afirmou Guerra. “Tudo que é prova tem que ter responsabilidade”, ressaltou.

PEDIDO DE INFORMAÇÕES
O líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), deu entrada ontem, na Mesa Diretora da Casa, em requerimentos de informação endereçados aos 37 ministros da Esplanada para obter detalhes sobre o uso dos cartões corporativos. Ele quer saber, em cada pasta, o número dos seus usuários do dispositivo, seus nomes, quanto cada um gastou, mês a mês, no período de 2003 a 2007, discriminando-se o tipo da despesa e seus valores. Ao ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Dulci, Virgílio enviou dois requerimentos: um com o mesmo teor dos demais e outro referente ao período entre 2001 e 2002, quando o próprio senador tucano ocupou o cargo, durante o governo Fernando Henrique Cardoso.

Bate e rebate
“Se houve um acordo por parte do deputado Sampaio, eu não participei”
Senador Álvaro Dias (PSDB-PR)

“Um acordo não condiz com minha história e minha vida parlamentar”
Deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP)

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