Prendeu o banqueiro e perdeu o lugar

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A crise se instalou de vez na Polícia Federal. O delegado Protógenes Queiroz, responsável pela Operação Satiagraha e que prendeu o banqueiro Daniel Dantas, dono do Grupo Opportunity, deixará o caso, transferindo a colegas a responsabilidade de concluir o inquérito que vem conduzindo há quatro anos. Os delegados Karina Souza e Carlos Eduardo Pelegrini, que o auxiliaram durante a apuração, também estão fora. Os três se sentiram pressionados a se afastar do caso e comunicaram a decisão ao juiz Fausto Martin de Sanctis, titular da 6ª Vara Criminal de São Paulo.

Oficialmente, a assessoria da corporação em Brasília informou ontem que Queiroz pediu o afastamento para se dedicar a estudos iniciados em março e que, agora, exigirão dedicação exclusiva em sala de aula. Segundo o comunicado, no entanto, haveria a possibilidade de ele retomar o inquérito após a conclusão, em 30 dias, mas o policial teria se negado.

Após a prisão de Dantas e demais acusados, o ministro da Justiça, Tarso Genro, chegou a elogiar o resultado da operação, mas anunciou ter determinado à polícia a abertura de sindicância para apurar a conduta do delegado. Nos bastidores, a cúpula do governo Lula ficou insatisfeita com as suspeitas levantadas por Queiroz. Em relatórios enviados à 6ª Vara Federal Criminal, o policial sugeriu que fosse investigada a conduta do ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, apontado por ele como integrante do esquema, em relação à ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (leia mais abaixo), ao chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, e ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.

Diante do teor explosivo do ponto de vista político, a fase final da investigação se desenrolou em meio a muitos ruídos entre Queiroz e a cúpula da PF. Nos bastidores, os dirigentes da corporação reclamam que Queiroz teria sonegado informações do inquérito necessárias ao planejamento operacional. Eles também não engolem o fato de ele ter acionado agentes da Agência Brasileira de Informação (Abin) para auxiliá-lo na apuração. A Abin é dirigida atualmente pelo delegado Paulo Lacerda, ex-diretor da PF, que repassou a Queiroz a missão de esmiuçar as operações financeiras do Opportunity.

Ontem à noite, Tarso Genro comentou a saída de Queiroz e a decisão do diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, de sair em férias. “Trata-se de uma coincidência”, disse o ministro. “O afastamento de Protógenes é uma questão de rotina. O inquérito está 99,9% terminado. E não havia emergência ou instabilidade crítica para o Corrêa adiar as férias”.

Reunião
O futuro do inquérito foi discutido em reunião na Superintendência da PF em São Paulo na segunda-feira. Participaram do encontro, além do delegado, o superintendente estadual, Leandro Daiello Coimbra, o diretor de Combate ao Crime Organizado, Roberto Troncon Filho, e Paulo de Tarso Teixeira, chefe da Divisão de Repressão a Crimes Financeiros. Troncon e Teixeira trabalham na sede da PF, em Brasília.

Luiz Fernando Corrêa acompanhou o desenrolar do caso por telefone. A assessoria da polícia, em Brasília, nega que a saída de Queiroz tenha relação com as críticas que ele vinha sofrendo. A informação é a de que o delegado vai concluir o curso superior de polícia, que é obrigatório para os todos os agentes com pelo menos 10 anos de casa e destacou que o policial chegou a recorrer à Justiça para ser incluído no programa, alegando que atendia aos pré-requisitos.

A notícia sobre o afastamento dos delegados veio a público na véspera do depoimento do banqueiro Daniel Dantas, marcado para hoje à tarde, em São Paulo. Até ontem à noite, não havia confirmação sobre mudança na agenda. Em tese, Queiroz e os dois auxiliares continuam no caso até sexta-feira.


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Gravações complicadas

A tensão causada pela Operação Satiagraha e que culminou com o afastamento do delegado Protógenes Queiroz do caso é desdobramento das informações contidas nas cerca de sete mil páginas que compõem o inquérito policial. Além de detalhar os crimes financeiros atribuídos ao banqueiro Daniel Dantas, o documento traz informações que apontam para o lobby de pessoas próximas a autoridades da cúpula do governo.

O Correio reuniu as referências à ministra Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil, no meio dessa papelada. O nome da petista aparece em diálogos entre acusados de cuidar dos interesses do dono do Opportunity, o que incluiria as negociações em torno da fusão da Brasil Telecom com a Oi.

As conversas gravadas com autorização judicial (veja ao lado) ocorrem nos dias que antecedem assinatura de acordo entre Dantas e o CitiBank, que abriu caminho para a criação da supertele. O encadeamento dessas ligações, segundo o delegado Queiroz, revelam que o grupo tentou a todo custo buscar o auxílio do Planalto para garantir o sucesso da operação, que renderia a Dantas quase um R$ 1 bilhão.

Além do próprio banqueiro e de Humberto José da Rocha Braz, apontado pela PF como braço direito do empresário, é Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado e ex-deputado federal pelo PT, ligado ao ex-ministro José Dirceu e ao chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho. Greenhalgh, na interpretação dos investigadores, teria comentado o assunto com Dilma e agradecido por uma suposta intervenção. Greenhalgh e o Planalto negam qualquer irregularidade.

A PF fez conclusões sobre a ministra, mas sugeriu à Justiça Federal em São Paulo a investigação. A reportagem apurou que o Ministério Público Federal analisa essas informações. Ainda em fase preliminar, os responsáveis pela Satiagraha avaliam que os documentos apreendidos na semana passada serão fundamentais para os desdobramentos da investigação, incluindo o que se refere a autoridades do poder público. (MR)

BRAZ CALADO
Humberto Braz, ex-presidente da Brasil Telecom Participações e braço direito de Daniel Dantas, permaneceu calado durante o depoimento ontem na sede da Polícia Federal em São Paulo. Braz recebeu orientação de seus advogados para ficar em silêncio, uma vez que os defensores alegam não ter tido tempo para a leitura dos autos do inquérito. Eles também levaram em conta o “estado emocional” de Braz, bastante fragilizado por ter sido transferido a
uma cela comum.


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As referências a Dilma

Confira trechos dos relatórios da Polícia Federal que fazem referência à ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Na avaliação do delegado Protógenes Queiroz, responsável pelo caso, as citações estariam relacionadas à fusão da Brasil Telecom com a Oi, negócio que interessava o banqueiro Daniel Dantas, o que, segundo uma avaliação do delegado, precisaria ser apurado. Os diálogos entre pessoas investigadas pela PF ocorrem nos dias que antecedem a assinatura, em 25 de abril, de um acordo entre Daniel Dantas e o CitiBank, que permitiria a criação da supertele:

20 de março
Guilherme Sodré, apontado como lobista, e Carlos Rodenburgo, sócio de Daniel Dantas, falam de suposta reunião no Palácio do Planalto com a ministra Dilma Rousseff, que, segundo a polícia, estaria relacionada à fusão da Brasil Telecom com a Oi

25 de março
Sodré conversa novamente com Rodenburgo e menciona o nome do ex-deputado federal petista Luiz Eduardo Greenhalgh. Sodré diz que “Luiz Eduardo já conversou com ‘ela’, em Brasília, que aguarda um retorno até a noite". Para a PF, o “ela” seria Dilma

28 de março
Sodré conversa com Greenhalgh, que é ligado ao ex-ministro José Dirceu. Greenhalgh diz a ele que teria informado a ministra sobre a conclusão do episódio “daquele negócio” e a agradeceu

9 de abril
Sodré conversa com alguém que não é identificado no relatório policial e diz que o “Arquiteto” esteve “ontem” com a “Margaret” e ela teria dito a ele que “o quadro está mantido”. Para o delegado
Protógenes Queiroz, “Margaret” seria a ministra Dilma Rousseff

10 de abril
Às 11h52, Greenhalgh conversa com Humberto Braz, o ex-administrador da Brasil Telecom e apontado como braço direito de Dantas. O ex-deputado, que segundo a PF estaria em Brasília, diz a Braz “que as coisas estão acertadas e ocorrerão como devem ocorrer, tudo que foi pactuado será cumprido”, conforma a transcrição que consta do relatório policial.

10 de abril
Dois minutos depois após falar com Greenhlagh, Braz fala com Dantas: “O Gomes (codinome de Greenhalgh entre os integrantes do grupo) foi visitar a Margaret”



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