Avanço social

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O crescimento da classe média brasileira talvez seja uma das notícias mais alvissareiras dos últimos tempos. Divulgada na terça-feira, a pesquisa da Fundação Getúlio Vargas mostra que, pela primeira vez na história do país, a classe média representa 51,8% da população de 15 a 60 anos — mesma proporção da classe média americana. Com a subida de patamar, o Brasil deixa de ser uma nação de pobres, marca que ostentava havia séculos.

Várias causas explicam o avanço. O mais importante é o aumento do trabalho formal. O crescimento do emprego com carteira assinada decorre sobretudo de dois fatores. O mais substantivo: o incremento da economia, que abre oportunidades de trabalho em todos os segmentos — da construção civil ao comércio e indústria. O outro: a seriedade da fiscalização, que levou ao decréscimo da sonegação e do recurso à mão-de-obra informal. A valorização do salário mínimo e as políticas sociais também contribuíram para o resultado. Englobando todos eles, a estabilidade da economia.

O conjunto das famílias com renda entre R$ 1.064 e R$ 4,5 mil passou de 44% em 2002 para 51% em abril passado. Significa dizer que, no período, nada menos que 19,5 milhões de pessoas deram o salto social. Saíram da condição de pobres para medianos. São 3 milhões de brasileiros por ano que passaram para o degrau de cima. O fato vai além do simples registro. O aumento da renda eleva o padrão de consumo. A população, além de alimentos, compra geladeira, televisor, celular, casa própria. Compra, também, educação e lazer. Em suma: movimenta a economia.

Vale lembrar que não se trata de soluço, cuja tendência é a volta ao status quo tão logo passe a euforia do momento. Trata-se de tendência ancorada, que reduz as possibilidades de queda ao estágio anterior. Em 2003, quando o país enfrentava crise econômica, só 78,9% dos que estavam nesse estrato se mantiveram. Hoje, o percentual subiu para 84,6%. No mesmo ano, 18,8% das pessoas pioraram de vida contra 10,7% da atualidade.

O estudo, além do lado rosado, mostra o cinzento. Existem ainda no país 36 milhões de miseráveis, que sobrevivem com menos de US$ 2 por dia. É mais que a população da Argentina que precisa atravessar a barreira da pobreza extrema. Impõe-se, de um lado, manter a estabilidade econômica. De outro, gastar com zelo os recursos públicos não só para obter respostas adequadas às urgências da sociedade mas também para frear os avanços da inflação. Mais: melhorar a qualidade do ensino para manter a mobilidade social. São desafios hercúleos que o país tem de enfrentar com determinação, talento e seriedade.