Inflação tem recuo no atacado e no varejo

| |


A inflação de produtos agrícolas no atacado e de alimentos no varejo recuou bastante em julho, contribuindo para a desaceleração significativa do Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI). O indicador subiu 1,12% no mês passado, abaixo do 1,89% registrado em junho. O resultado confirmou a expectativa de um cenário mais favorável para a inflação no segundo semestre. Com os números divulgados ontem pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o IGP-DI passou a acumular alta de 8,35% no ano e de 14,81% em 12 meses - o maior nível nessa base de comparação desde os 15,77% de outubro de 2003.

Com peso de 60% no IGP-DI, os preços no atacado subiram 1,28% em julho, uma forte desaceleração em relação aos 2,29% de junho. A notícia mais positiva veio dos preços agrícolas, que subiram 1,14%, bem menos que os 3,88% do mês anterior. O principal destaque ficou por conta dos alimentos in natura, que saíram de uma alta de 5,64% em junho para uma queda de 2,54% no mês passado. O feijão teve queda de 7,57%, depois de ter subido 23,82% em junho, enquanto a batata inglesa passou de um aumento de 3,60% para recuo de 8,11% no mesmo período. "Essas quedas chegam quase instantaneamente ao varejo", frisa Salomão Quadros, coordenador de análises econômicas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV. A batata inglesa, por exemplo, teve recuo de 6,06% no varejo.

No atacado, o leite in natura também contribuiu bastante para a desaceleração do IPA. O produto caiu 2,59% em julho, depois de subir 0,56% no mês anterior. A soja ainda teve aumento de 2,01%, mas mostrou clara trajetória de desaceleração em relação à alta de 10,17% de junho. Para Quadros, é possível que os preços do produto apareçam no terreno negativo nos próximos IGPs. "Já a queda do trigo se aprofunda [caiu 5,68% em julho] . O varejo deve se aproveitar disso e da queda do leite no futuro", afirma ele.

O economista Luís Fernando Azevedo, da Rosenberg & Associados, chama a atenção para a perda de fôlego do grupo lavouras temporárias (como feijão, trigo, milho, soja e tomate): "Após alta de 3,37% em maio e 3,11% em junho, elas subiram 0,52% em julho. A queda dos preços das commodities internacionais e a deflação do feijão foram determinantes para o resultado".

Azevedo ressalta que os produtos industriais no atacado também exibiram um comportamento mais favorável, ainda que a desaceleração não tenha sido tão intensa quanto no caso dos agrícolas. O IPA industrial subiu 1,34% em julho, abaixo do 1,69% do mês anterior. O minério de ferro caiu 1,78%.

Em relatório, o Credit Suisse nota que, no atacado industrial, "além dos alimentos industrializados, a menor alta dos preços dos produtos siderúrgicos e de extrativa mineral (metálicos e não-metálicos) foi responsável pela desaceleração". Mesmo com esse resultado mais positivo em julho, "o banco considera que a dinâmica dos preços industriais no atacado tende a continuar impondo risco à inflação ao consumidor nos próximos meses, tendo em vista a forte alta já acumulada nas cotações dos insumos industriais e a perspectiva de uma nova rodada de reajustes do aço no mercado doméstico no segundo semestre de 2008". O IPA industrial acumula variação de 13,09% em 12 meses - um nível elevado, mas bem inferior aos 37,02% do IPA agrícola.

O Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que responde por 30% do IGP-DI, também teve uma alta mais moderada. Depois de subir 0,77% em junho, o indicador registrou variação de 0,53% no mês passado. A desaceleração mais significativa ocorreu no grupo alimentação, que passou de 1,85% para 0,83% no período. Além da batata inglesa, tiveram contribuição para esse movimento a banana prata (-7,26%), a beterraba (-12,59%) e o melão (-17,73%).

Também houve melhora no Índice Nacional do Custo da Construção (INCC). O indicador subiu 1,46%, uma alta ainda forte, mas abaixo do 1,92% do mês anterior. A principal fonte de alívio veio do grupo mão-de-obra, que passou de uma variação de 2,25% em junho para um aumento de 1,14% em julho.

Quadros acredita que o resultado de julho inicia um processo de desaceleração dos IGPs, mas pondera que a desaceleração não significa o fim de pressões sobre os preços. "Não é por causa de um resultado bom que o processo inflacionário acabou, já que a demanda e a utilização da capacidade continuam fortes. O processo inflacionário que o Banco Central acompanha ainda não está resolvido", afirma Quadros.

Azevedo manteve a sua projeção para a alta do IGP-DI no ano em 12%. O número de julho veio um pouco abaixo da sua projeção, de 1,25%, mas ele considera prematuro alterá-la neste momento. De qualquer modo, Azevedo diz que há "um viés de baixa para a projeção". Uma redução da estimativa para 2008 vai depender do comportamento da inflação nos próximos meses.