PMDB fala em mais quatro anos para Lula

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Maior partido do Congresso, o PMDB engajou-se ontem à noite no cordão do terceiro mandato para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Um jantar oferecido à cúpula pelo líder na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), apressou a tomada de posição. O anfitrião é também o advogado da tese segundo a qual é preciso “partir para cima, para o terceiro mandato do Lula”, nas palavras dele mesmo, reproduzidas ao Correio por um dos comensais.

Embora não falem por questão de pudor, os caciques do PMDB estão incomodados com a doença da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Escolhida por Lula para representar o PT na eleição presidencial do ano que vem, ela descobriu um tumor maligno no sistema linfático. Já o removeu. Mas sofre com a quimioterapia. Pragmáticos, os políticos duvidam que ela vá ter saúde para enfrentar a campanha eleitoral. Acham que, sem ela, não há tempo hábil para forjar outro candidato. A solução mais fácil para todos manterem ou ampliarem o poder, dizem quando não há jornalistas por perto, é mudar a Constituição e permitir uma segunda reeleição ao presidente da República, aos governadores e aos prefeitos.

Uma primeira e sigilosa conversa sobre o assunto aconteceu há 15 dias, na casa do presidente da Câmara, Michel Temer (SP), também peemedebista, também presente ao jantar de ontem. Nela, Henrique Eduardo Alves apresentou pela primeira vez e com entusiasmo a ideia de pôr o gigantismo do PMDB a favor do terceiro mandato. Desde então, o grupo de deputados que controla a sigla — nele incluído o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima — vem amadurecendo a ideia em conversas sussurradas entre si, embora mantivesse outra posição de público.

Em princípio, o jantar na casa de Eduardo Alves reuniria somente essa espécie de núcleo duro do terceiro mandato. Mas um movimento de bastidor ainda não identificado ampliou a reunião. Foram chamados então o deputado Jackson Barreto (PMDB-SE), o ministro Hélio Costa e o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR).

Barreto redigiu uma proposta de emenda constitucional (PEC) abrindo a brecha da rerreeleição. Diz ter 188 assinaturas de apoio — 17 a mais do que o necessário — e promete protocolar o documento na Secretaria-Geral da Câmara até o fim da próxima semana. “Será bom para todo mundo, para o governo e para a oposição”, defende.

No jantar, o papel designado a Barreto era esmiuçar sua proposta para a plateia. Antes, porém, o grupo tratou de mapear a situação política nos estados para levar a Lula uma espécie de lista de sacrifícios, onde quer que o PT abra espaço para peemedebistas (veja quadro).

Quanto aos sacrifícios para o PT, é algo factível. Tal política vem sendo defendida pelo próprio Lula e pelo ex-ministro José Dirceu, ainda hoje uma eminência parda entre os petistas. Lula está mais preocupado em não rifar Dilma do que em articular a seu próprio favor. Em visita oficial a Pequim, declarou não discutir a hipótese do terceiro mandato. “Primeiro porque não tem terceiro mandato. Segundo, porque a Dilma está bem”, insistiu.

DESCRÉDITO
O governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), afirmou ontem não acreditar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha a intenção de partir para um terceiro mandato. O mineiro disse que, em todas as conversas sobre o assunto que teve com o petista, sentiu que ele descarta essa possibilidade. “Seria uma violência com a sua própria biografia”, afirmou. Ainda segundo Aécio, a hipótese também significaria uma violência contra a democracia e não haveria tempo hábil para aprovação de norma neste sentido no Congresso. Para o governador, a possibilidade parte de “setores do PT que sempre tiveram muitas dúvidas sobre as possibilidades reais de vitória do PT na sucessão do presidente Lula”.

OBSTÁCULOS
Peemedebistas querem sacrifícios do PT em pelo menos quatro estados

Rio Grande do Sul
O deputado Eliseu Padilha é candidato ao Senado e quer o apoio dos petistas

Minas Gerais
O ministro Hélio Costa é candidato ao governo e conta com o apoio dos petistas

Paraná
O governador Roberto Requião é candidato ao Senado e quer que os petistas o apoiem e não lancem Gleisi Hoffmann para a vaga

Bahia
O ministro Geddel Vieira Lima quer apoio do PT para lançar-se como candidato único de uma grande frente de partidos ao Senado

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