De mocinhos e de bandidos

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O governo Dilma está sofrível, ainda. Desde sua inauguração, ano passado, essa condição tem sido registrada e, até o momento, não aprumou rumo a uma gestão que lhe permita colher resultados concretos. A presidente transformou o Palácio do Planalto em uma Casa Civil. Toma conta de tudo e de todos. Miriam Belchior não compra uma resma sem sua autorização. Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann não têm autonomia para negociar nada, estão sem instrumentos para fazer a coordenação política e administrativa. Interessa-se a presidente pelo detalhe técnico do pormenor jurídico da vírgula administrativa. Por medo, seus ministros se escondem, não avançam no projeto que ela parece querer para o país. Dilma não tem e não vem adquirindo gosto pela política partidária como era feita antes.

Mas tem a sua maneira. Quer governar com uma coalizão partidária e com apoio amplo do Congresso. Manteve a correlação de forças que recebeu do antecessor, mas é ousada, ainda bem, nas mudanças ao descartar material estragado por produto da mesma origem mas ainda em boas condições, até segunda avaliação.

Não foi por esse cenário que a presidente se viu, de repente, neste março, o alvo do tiro. Nem porque o governo funciona mal, ou porque não faz reformas ou quer governar sem o Congresso, ou abusa das medidas provisórias. Os aliados se rebelaram e a têm tratado, bem como aos demais integrantes do seu staff, com extrema grosseria e falta de compostura por que, mesmo? Não toda, mas há uma base aliada que está na linha de frente da força que tenta encostar a presidente na parede.

Fisiologismo de adjetivos: acintoso, ofensivo, insultuoso

Experiente político aconselha a não elucubrar muito. Esfregando o indicador no polegar, traduz o que no jargão da política explicaria o tal "carinho" de que os políticos tanto se queixam aos que sabem que levarão recados: o que falta, de imediato, é dinheiro para a campanha municipal. Para o futuro, um bom posto de observação e acesso à fonte.

Ganhar ministério também não significa o apoio ao governo. Os evangélicos ganharam um e não estão nem aí para os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil para realizar a Copa do Mundo.

Será que Renan Calheiros e Romero Jucá, no PMDB, Blairo Maggi e Alfredo Nascimento, no PR, ficariam de pé após uma campanha, de boa marquetagem, ao modelo Lula de chorar o preconceito, que os acusasse de machismo na tentativa de desestabilização da presidente?

A entrevista em que Maggi anunciou rompimento do PR com Dilma é um escárnio, uma desfaçatez. Discurso que não deixou outra saída a não ser manter a posição firme de apoio ao ministro que escolheu e que, embora do PR, é um funcionário de carreira. Não terá sido Paulo Passos rejeitado por descomprometimento excessivo com o malfeito?

Imaginemos que esses partidos, armados até os dentes, partam para o revide ao desprezo por um fisiologismo insultuoso, para a criação de CPIs contra a presidente, até para o impeachment, pois são os primeiros a saber que, em qualquer governo, principalmente de coalizão partidária, se deixarem procurar vão encontrar. A comissão de inquérito em melhor andamento para ser instituída no Senado é justamente a dos Transportes. Estariam mesmo dispostos a atear fogo às vestes?

Todos sabiam que Romero Jucá estava com os dias contados na representação do governo. Evidência vivida por todos da bancada do PT que viveram na pele a atuação do líder. Já na sua estreia como nova senadora do Paraná, Gleisi não compreendia como um líder do governo podia trabalhar contra, como ele trabalhava. Era a mesma impressão de Ideli Salvatti, agora na Relações Institucionais, por mais de uma vez líder do seu partido na Casa.

O deputado Cândido Vaccarezza, preterido para a coordenação política, também sabia que deixaria de ser o líder do governo na Câmara. Dilma tinha conseguido tirar da sua raia as pessoas denunciadas sem desfazer a correlação de força dos partidos na aliança. Por que não fazer o mesmo com seus líderes no Congresso? Mas não tirou o poder dos partidos, apenas o deu a quem atribui qualidades para representar o governo.

Trocas feitas, deu para ver: não é que Dilma não goste de política. Ela não gosta de alguns políticos e seu modelo de operação. Não se registre que os parlamentares se surpreenderam com o comportamento e as atitudes da Ideli, seus modos ríspidos e a incompetência para resolver os problemas da base. Até os novatos a conheciam. Não terá sido por afinidade de temperatura e pressão que foi guindada ao pódio? É óbvio que Ideli gostaria de sair pelos tapetes coloridos distribuindo emendas. Mas há alguém, acima dela, com mandato conferido por mais de 50 milhões de eleitores, tentando fazer do seu jeito, que não lhe passa o guichê.

As poderosas do Palácio são muito semelhantes, mas só uma manda: firmes, ríspidas, cobradoras, autoritárias, o que se pode chamar de mulheres fortes. Sabem o que querem, para onde vão. O ultimato do qual Maggi foi porta-voz e que boa parte do Senado aprova é inaceitável e contém, mesmo, uma elevada dose de machismo. A impaciente gritaria meio difusa, difícil de ter razão precisamente localizada, denota uma certa covardia, até na chantagem. Parece um lança chamas que suga e solta a labareda quando for conveniente.

Não é porque já aprovou as políticas do salário mínimo, a emenda da DRU e a correção do imposto de renda até o fim de seu mandato que Dilma não precisa mais do Congresso. Tanto precisa que manteve o governo de coalizão partidária. Apenas escolheu governar com pemedebistas que conhecia de outros carnavais e não dos bailes de Calheiros e Jucá. Aposta na melhor distribuição do poder na política e no arejamento dos partidos. Foi a ação concreta na política mais perceptível da presidente desde que assumiu. Quem esperar vê-la entregar-se de mãos ao alto, é melhor esperar sentado.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

E-mail rosangela.bittar@valor.com.br

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