Ciro aposta em vantagem do PSDB para viabilizar candidatura por frente lulista

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Aparentemente submerso, na prática Ciro Gomes (PSB-CE) repete a estratégia que tornou competitiva sua primeira candidatura a presidente, em 1998: o deputado reserva a cada semana alguns dias para atender compromissos partidários ou fazer palestras, nas mais diferentes regiões. De Rio Branco, no Acre, a Navegantes, em Santa Catarina, passando por Palmas, no Centro-Oeste. Nos últimos cinco meses e meio, foram 36, sendo que apenas 12 delas no Ceará.

Ciro Gomes diz que estaria mentindo se falasse que não será eventualmente candidato à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na eleição de 2010. Mas defende que todos no campo que hoje apóia o presidente devem abrir mão de projetos pessoais, "legítimos e justos", para viabilizar a criação de uma frente liderada por Lula para uma disputa à qual, vista de hoje, julga o PSDB favorito.

Uma frente configurada a partir da atual coalizão de governo, mas com molde mais orgânico. "É preciso balizar uma hegemonia moral e intelectual clara, para relativizar as contradições", diz. Uma frente formada a partir da atual coalizão de o governo, na qual teriam lugar o PT e os partidos que atualmente integram o Bloco de Esquerda, mas na qual não caberiam legendas como o PP, PTB e PR (o antigo PL). Para Ciro, do jeito que está hoje moldada a coalizão não se sustenta.


Na opinião de Ciro, a viabilização da frente é prioritária. "A gente não deve planejar um movimento de dois turnos. Planejar, idealizar isso é um erro", diz o deputado, sem mencionar a tese corrente no PT segundo a qual o partido, como sempre fez, deve lançar um candidato no primeiro turno das eleições, e deixar eventuais composições para o segundo momento. "Podemos até ser obrigados pela realidade a não fazer assim, mas idealizar (os dois turnos), está errado", diz.

Ciro se queixa de que os jornalistas costumam simplificar seu raciocínio, como destacar a frase de que não veta nenhuma candidatura mas também não aceita ser vetado. Ele é o seguinte: "Ao contrário da visão dominante hoje dos analistas políticos" Ciro diz "que o outro lado tem potencialmente o favoritismo para a sucessão de 2010". Ele se refere aos dois potenciais candidatos do PSDB, os governadores de São Paulo, José Serra, e de Minas Gerais, Aécio Neves.

"Uma aliança Aécio-Serra - não sei se é fácil fazer, me cabe analisar potencialmente - o Serra sendo candidato à reeleição em São Paulo e lançando o Aécio, unifica o PSDB. O Aécio tem mais de 70% em Minas. Desgraçadamente o Serra dá metade em São Paulo para o Aécio, e o Rio de Janeiro tende imediatamente a vir, o mundo político do Rio, a encostar nisso aqui. O povão da Zona Sul. O Rio tem uma tradição progressista, talvez não acompanhe tão fortemente, mas esses são o primeiro, o segundo e o terceiro maior colégio eleitoral. Um homem de Minas entra no Nordeste, sem restrições".

Antigo adversário do governador de São Paulo, cuja capital visitou seis vezes neste semestre, Ciro Gomes lança pontes em direção a Aécio (esteve em Belo Horizonte por duas vezes) e trata de estimular a divisão entre os adversários. O contrário - Serra candidato do PSDB - não é verdadeiro, pois o deputado avalia que o governador paulista não tem entrada no Nordeste. Mas no cenário que vislumbra, raciocina que o favoritismo dos tucanos só pode ser compensado "numa circunstância e não duas: se o presidente, naquela data (a eleição), estiver pilotando um incontrastável êxito".

Para este sucesso incontrastável não bastarão o aumento do salário mínimo, o Bolsa Família, o ProUni. "Essas coisas estarão incorporadas à rotina das pessoas e não serão o plus necessário para que aquele incontrastável êxito, como tal, seja percebido pelo conjunto da população brasileira, ou pelo menos pela maioria".

Resta ao "lado" do governo fazer duas coisas: "Primeiro, tudo o que estiver ao nosso alcance dos nossos coletivos para que este êxito se construa", diz. Em segundo lugar, na política, "todos temos que dar um passo atrás nas nossas justas, legítimas postulações pessoais, de grupos, de partidos, para, tendo muito juízo, perceber a necessidade de construir a unidade dessas forças". O que quer dizer que, se "eu não posso ser candidato, também não posso aceitar imposições. Em outras letras: eu não tenho nenhuma razão para aceitar veto como também não me atribuo a faculdade de vetar ninguém. Esse é o raciocínio".

O que difere o Bloco de Esquerda (PSB, PCdoB e PDT), pelo qual Ciro Gomes é o candidato em potencial, do PT? "Eu diria que nada e tudo". Nada, segundo Ciro, "na dimensão em que o PT funda de forma relevante a possibilidade de um movimento progressista de esquerda no Brasil vir ao poder e exercitá-lo sem que isso fuja da normalidade do círculo democrático. Nisso nós somos beneficiários da obra extraordinária que o PT, com o presidente Lula, realizou".

O "tudo", pelo que Ciro diz ter sido "um sacrifício grave que o momento da história impôs ao PT", que conjunturalmente precisou " se acertar com outros grupos políticos bastante distintos daquilo que nós pensamos sob o ponto de vista ideológico, daquilo que nos é premissa de comportamento ético, moral. Isso é um sacrifício que se está cobrando do PT. Nós, nesse sentido, somos livres para não pactuar tão profundamente dessa contradição".

Ciro nega uma versão corrente em Brasília: de que o presidente tenha lhe pedido para não aprofundar o contraditório com PT, como fez o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) na eleição para a presidência da Câmara, pois poderá precisar mais tarde do partido. Mas diz, por exemplo, que não tem queixas, como percebe existir "entre meus companheiros de bloco", com o que se chama de exclusivismo ou a hegemonia que o PT procura manter na esquerda.

"Eu já tenho maturidade suficiente para saber que o destino de todo grupo partidário é buscar a hegemonia", diz. "E o PT não tomou essa hegemonia de ninguém. Vamos ser justos e humildes. Ele foi buscá-la na rua, junto ao que há de melhor na organização do povo brasileiro. Ele não usurpou nada de ninguém"

São palavras que em quase nada lembram o candidato a presidente em 2002, que a certa altura chegou a ser considerado favorito na eleição, mas depois despencou nas pesquisas, segundo se avalia, por reações destemperadas na campanha. "(A Câmara) está sendo uma escola muito rica para mim, e hoje eu percebo o quanto isso me fez falta no passado", diz, referindo-se à convivência com os contrários. "Eu saltei direto de um itinerário de executivo para a política nacional, e boa parte dos erros que cometi derivaram de uma certa imaturidade, de idade mesmo. Uma certa inexperiência."


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