Classe média é motivo de chacota no jornais

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Classe média vai às ruas contra caos aéreo

João Luiz Rosa
Valor Econômico
30/7/2007

Margeando o lago do Ibirapuera, em São Paulo, sob uma temperatura de 11 graus e uma garoa fina e insistente, a pequena massa avançava. Muitos estavam de preto. Alguns traziam flores na mão. Outros, placas de protesto. Apesar de rigoroso, o frio parecia incomodar a poucos: não faltavam casacos bem cortados, botas de couro, cachecóis. Até óculos escuros apareciam, apesar do tempo encoberto. E havia cachorros. Muitos e de todos os tipos: pastor alemão, são bernardo, border collie, cocker, labrador...

O caos aéreo e o acidente com o avião da TAM, que provocou 199 mortes, motivaram as primeiras manifestações públicas de protesto da classe média paulistana contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu segundo mandato. Mais que as causas diretas do desastre - as investigações da caixa-preta agora apontam as principais suspeitas na direção da falha humana - os manifestantes extravasaram suas insatisfações generalizadas com a administração petista.

Fernando Portaro ocupava um lugar nas primeiras fileiras do grupo. "Estou aqui por indignação", dizia o empresário, enfático. Nas próximas três horas, ele não pouparia a voz ao acompanhar palavras de ordem como "fora, Lula" e "relaxe e saia", repetidas com entusiasmo pela multidão, que aos poucos se avolumava.

A indignação a que Portaro se refere tem um catalisador: o acidente com o avião da TAM que matou 199 pessoas, no pior desastre aéreo da história do país. É esse o motivo imediato que levou milhares de pessoas, ontem, a caminhar cerca de seis quilômetros, do Parque do Ibirapuera ao aeroporto de Congonhas, até a frente do prédio destruído pelo choque com o avião.

Como Portaro - que nos últimos 30 dias fez sete viagens de avião -, o público da marcha é o mais atingido pelo caos aéreo. Para muitos, Congonhas passou a ser um nome quase maldito. "Na empresa, já exigi voar apenas por Guarulhos", diz Ricardo Lima, um executivo do mercado financeiro que andava ao lado de sua bicicleta, trajando um uniforme de ciclista com críticas à figura de Lula.

Mais à frente, uma senhora, que preferiu não se identificar, confessava nunca ter sentido tanto medo. "Ontem (sábado), ao voltar de Florianópolis, eu precisei descer em Congonhas. Rezei a viagem inteira."

Orações também fizeram parte do encerramento da marcha, quando o público rezou em frente ao prédio destruído. Mas em que pese o caos aéreo e a solidariedade às famílias das vítimas, a maioria dos participantes, calculados em 6,5 mil pessoas, demonstrou que esses não foram os únicos motivos para ir às ruas.

"É muito mais que o acidente", disse Ana Cavalcante, que cumpriu o percurso ao lado de seu labrador, batizado de Whisky. Também executiva do mercado financeiro, Ana disse achar que o povo brasileiro está sendo desrespeitado e chamava o governo de passivo. Ela não é eleitora de Lula, assim como a maioria dos participantes da marcha. "Não votei e não votaria no Lula nem que me pedissem para escolher entre ele e o fim do mundo", afirmava Portaro. Vestida de preto dos pés à cabeça, Cléia Carvalho, uma pensionista que trabalhou 32 anos em companhias aéreas, fazia coro: "Os governantes são os verdadeiros responsáveis".

O carro de som que conduzia a passeata dava o tom: em cima dele, o cantor Seu Jorge às vezes cantava "Prá não dizer que não falei de flores", o velho hino contra de Geraldo Vandré, usado contra o regime militar nos anos 60.

Os motivos da insatisfação variavam bastante: enquanto uns reclamavam dos impostos, outros citavam a falta de segurança, os problemas na educação ou na saúde pública. "(O acidente) foi a gota d"água", resumiu a ortodontista Maria Edith Campos Cruz, que perdeu dois ex-pacientes no acidente.

Da mesma forma, não era fácil identificar entre os manifestantes uma pauta de medidas práticas contra os problemas levantados. E, novamente, o carro de som refletia isso. Além das críticas ao governo, houve várias homenagens a corporações como os bombeiros e pedidos de palmas até a Jesus. A passeata conseguiu, no entanto, tirar a classe média de casa - e a classe média se sentiu confortável na rua. "Estão dizendo que essa é a marcha da burguesia. Que problema há nisso?", perguntava uma amiga de Ricardo Lima.

Ana Cavalcante disse que sempre achou passeata coisa de "gente que gosta de fazer bagunça", mas mudou de idéia. Antonio Tonini, que caminhava ao lado da mulher, Marialva, também não tinha dificuldades em expressar esse sentimento: "Chegou o momento de todos nós, da classe média, colocarmos o pé nas ruas e reivindicarmos melhorias", afirmava.

O que alguns manifestantes lamentavam é adesão menor que a de suas previsões pessoais. "Quantas pessoas a marcha reuniu? Cinco mil? Deveriam ter comparecido cinco milhões", dizia Giulia Ferro, criadora do blog EducaForum, destinado a pais com filhos que estudam na escola pública. "A parada gay, por exemplo, reuniu dois milhões de participantes."

Para os organizadores do movimento, a marcha cumpriu seus objetivos. A proposta da passeata, encampada por várias entidades, nasceu no CriaBrasil (Cidadão, Responsável, Informado e Atuante), um grupo informal que se reúne na casa do empresário Marcio Neubauer. "O movimento é apartidário, mas altamente político", reconhece ele. "Estamos fazendo política? Estamos, mas de bom senso."

Neubauer reconhece que há um risco de que eventuais ganhos de imagem com esse tipo de ação sejam encampados, indevidamente, por grupos partidários, mas afirma que até agora isso não ocorreu. No começo da manifestação, ainda no Ibirapuera, um grupo apareceu com bandeiras do PSDB, mas enfrentou a reação do resto do público e acabou se retirando.

Que tipo de resultado será obtido divide as opiniões. Ana Cavalcante disse achar difícil que a passeata tenha efeitos práticos, mas mesmo assim insistia na necessidade de ir à rua. Muitos, porém, viam na marcha uma chance de multiplicar a ação. "Espero que esta seja a primeira de uma série de manifestações e que o governo se sensibilize", disse Flávia Papa Caltabiano, viúva do empresário Pedro Caltabiano, que morreu no acidente junto com o irmão João Francisco, e deixou três filhos. "Até agora, ninguém nos deu apoio: nem o governo, nem a TAM."

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