Bispo Dom Cappio vira personagem de cordel

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"UM BISPO DE RABO CHEIO NÃO QUER ÁGUA NO SERTÃO"


O mote é "Um bispo de rabo cheio/ Não quer água no sertão". O autor, Allan Sales, músico, poeta e compositor do Crato (CE), radicado no Recife. O personagem principal, o bispo de Barra (BA) Dom Luiz Flávio Cappio que, completou 23 dias na greve de fome contra o projeto de transposição do Rio São Francisco.

I

Meu sertão sofre com sede
Mas tem um rio caudaloso
O bispo religioso
Falando na global rede
Quer ser como uma parede
Barrando essa redenção
A água da salvação
Do sertanejo um esteio
"UM BISPO DE RABO CHEIO
NÃO QUER ÁGUA NO SERTÃO"

II

Esse bispo passa bem
Tem casa e comida boa
Mas meu sertão fica à toa
Barrar isso não convém
Transposição assim vem
Trazer sim irrigação
Do rio a preservação
Faremos sem aperreio
"UM BISPO DE RABO CHEIO
NÃO QUER ÁGUA NO SERTÃO"

III

Seu bispo acorde agora
Assim falo da Ciência
Da humana sapiência
Que sabemos nessa hora
Sua greve só piora
É chantagem meu irmão
Usando a religião
O seu livrinho não leio
"UM BISPO DE RABO CHEIO
NÃO QUER ÁGUA NO SERTÃO"

IV

O sertão da Paraíba
Pernambuco e Ceará
O Rio Grande será
Livrado da pindaíba
O sertão que deu Furiba
No Piauí precisão
Fome de sede e exclusão
Quadro social tão feio
"UM BISPO DE RABO CHEIO
NÃO QUER ÁGUA NO SERTÃO"

V

Encheu seu rabo colega
Comeu depois arrotou
O clero sempre empatou
O bispo sim que refrega
A pieguice não pega
Chantagista de plantão
Eu quero a Transposição
Nisso greve não dá freio
"UM BISPO DE RABO CHEIO
NÃO QUER ÁGUA NO SERTÃO"

VI

Os cabras do Vaticano
Encanando nossa vida
O meu sertão vai sem guarida
Entra ano e sai ano
Meu bispo é franciscano
São Francisco em oração
Pelos pobres a opção
Nesse santo sim eu creio
"UM BISPO DE RABO CHEIO
NÃO QUER ÁGUA NO SERTÃO"

VII

Ó meu bispo deixe disso
O senhor apareceu
Seu "marquetingue" cresceu
Volte para seu chouriço
Engordar o seu toitiço
Com farta refeição
Vinho bom, sardinha e pão
E bom queijo no recheio
"UM BISPO DE RABO CHEIO
NÃO QUER ÁGUA NO SERTÃO"

VIII

Bispo deixe de conversa
Meu sertão vive à míngua
Dobre logo sua língua
E veja a forma diversa
Que essa seca perversa
Lasca tudo no torrão
Morre o boi e o alazão
Eu falo sem arrodeio
"UM BISPO DE RABO CHEIO
NÃO QUER ÁGUA NO SERTÃO"

IX

Seu bispo tão pertinente
O rio não vai morrer
Temos como reverter
A degradação presente
Não quero sertão carente
Eu quero a libertação
Pro povo alimentação
E a educação de permeio
"UM BISPO DE RABO CHEIO
NÃO QUER ÁGUA NO SERTÃO"

X

E assim vou encerrando
Fica o dito por não dito
No meu cordel segue escrito
O meu pensar vou mostrando
O meu sertão vou louvando
Cariri minha oração
Pajeú da inspiração
De poemas grande veio
"UM BISPO DE RABO CHEIO
NÃO QUER ÁGUA NO SERTÃO"

Allan Sales: Músico, poeta e compositor
Natural do Crato-CE e radicado no Recife desde 1969. Desde 1997 dedica-se ao
cordel sendo autor de mais de 230 textos sobre os mais variados assuntos, sendo
os temas políticos e os de humor os preferidos.

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