Caçando encrenca

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Com capital político e bem-sucedido, é um mistério o que faz Lula aceitar confusões dos aliados

O pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva é uma figura curiosa. Na Presidência da República em segundo mandato, quando normalmente as coisas começam a falhar e o povo se cansa e vira as costas, ele continua tão popular como se tivesse começado só agora a governar, com a vantagem de que deixou de ser o espantalho da classe média e dos banqueiros, industriais e do capital estrangeiro.

Lula tem poder, sabe mandar, é carismático,o seu senso de direção ao pilotar o governo é melhor que o de muitos figurões letrados e outros nem tanto que ou passaram pelo Palácio do Planalto ou cobiçam sua cadeira. Por tudo isso, que não é pouco, além de ter uma sorte invejável e uma noção de oportunidade certeira, ele poderia, perfeitamente, dispensar os constrangimentos que lhe acarretam os partidos de sua base aliada.

Com tamanho capital político, não era para se mostrar intimidado nem sugerir dever muito aos partidos que o apóiam, especialmente o PMDB, que acaba de ser outra vez contemplado com o Ministério de Minas e Energia e quer ampliar sua influência sobre as estatais ligadas à área, como a Petrobras e a Eletrobrás e suas subsidiárias, entre as quais já está aboletado em Furnas e divide a gestão de outras.

Não está aí, em princípio, o problema. Governos de coalizão, como o de Lula e os anteriores, têm de partilhar a administração. Assim é no mundo todo. Os ônus e bônus políticos de governar não são de nenhum partido em particular, mas de todos da coalizão, embora não seja bem isso o que entende o PT, e daí já começam as distorções — pois os demais se sentem preteridos e manifestam seu dissabor com falsetas nas votações no Congresso, como na frustração da CPMF.

Por essa lógica, Lula defende a governabilidade ao nomear para o Ministério de Minas e Energia o senador Edison Lobão, apadrinhado pelo também senador José Sarney, que influencia o PMDB no Senado e comanda a política no Maranhão, de onde vem o novo ministro.

Não foi uma decisão racional, mas governo não é empresa para se exigir de ministros conhecimentos específicos da área que comanda. Inquieta é a motivação de chefes de partidos por áreas específicas do Estado, associada à relativa liberdade que desfrutam para tocar as políticas públicas setoriais e o custeio da operação.

Nas democracias avançadas, os ministros são indicações políticas. Em regimes parlamentaristas, a maioria é de parlamentares eleitos. Mas, excluindo-se o gabinete, tudo o mais é tocado com quadros de carreira do ministério. Nas empresas estatais, então, já é muito mudar o presidente a cada novo governo. A prioridade é a seqüência administrativa e os bons resultados. Aqui, é a ultima preocupação.

Coligação sem causa

É isso o que fragiliza as escolhas ministeriais no Brasil, embora a crítica desqualifique os nomeados por não serem técnicos, como se fosse esse o fator relevante. Mais grave é formar a coligação sem condicionar a adesão dos partidos a uma linha programática que vai marcar a condução do governo e instruir as votações na Câmara e no Senado. Se fosse para valer a intenção de reformar o sistema tributário, por exemplo, o partido que divergisse dessa orientação não poderia aderir à base de apoio governista. Alia-se sem causa.

Sem meias-medidas

O exercício da política virou não é de hoje uma ficção, o que enseja as críticas de que a vida parlamentar se tornou balcão de negócios e de projetos paroquiais de grupos políticos, quando não de enriquecimento pessoal. Se o fulano é escolhido, beltrano, que não gostou, faz de tudo para inviabilizar a escolha. O estranho é que o Ministério Público corrobore essa pantomima, já que só se descobre que um senador ou deputado está sob investigação quando surge na ribalta como ministeriável. E, se a denuncia tirá-lo de cena, nunca mais se volta a falar no assunto. Isso não é sério. Ou o indivíduo é impróprio para uma função pública, e o será também para o exercício parlamentar, ou está limpo. Não há meias-medidas.

Receio de ser feliz

O cacife político de Lula seria capaz de livrá-lo das confusões dos aliados. Mas ele parece não acreditar que um raio caia duas vezes no mesmo lugar. Outro afilhado de Sarney, Silas Rondeau, foi demitido por suspeita de envolvimento com uma empreiteira. Lobão assume já tendo de explicar a lisura dos negócios de Lobão Filho, que é também seu suplente no Senado. O governo receia ser feliz.

Pesquisem-se as principais confusões em que se enfiou o governo. A maioria foi provocada pelos próprios integrantes do condomínio político que o apóia, com petistas no epicentro de quase todas. A oposição, mansinha, só as fez repercutir, e de ação investigativa se conhece o que os membros da coligação vazaram para prejudicar os parceiros. Não fossem seus atributos, Lula estaria frito.

Agora que o governo será testado devido ao cenário mais adverso para a economia ele poderá ressentir-se da falta de um programa avalizado com firma reconhecida pelos partidos aliados. É a falta de referências básicas que também permitiu por longos quatro anos que a diretoria de gás da Petrobras discordasse da ministra Dilma Rousseff, que supervisa a política energética do país, resultando daí boa parte do quadro de ameaça ao abastecimento de energia. Sem o mapa da estrada tudo fica difícil, até não reincidir nos erros.

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