Antes só do que fora do governo

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O PMDB não desistiu de ter Aécio Neves em seu portfólio de candidatos, e Aécio Neves não desistiu de ter o PMDB em sua carteira de oportunidades partidárias. É o que indicam encontros públicos e privados entre a cúpula do grande partido de características hoje cem porcento regionais e o governador de Minas Gerais.

Os dois lados não transitam no terreno do explícito. Na última reunião com o governador, Michel Temer (presidente) e Henrique Eduardo Alves (líder na Câmara) falaram muito de Tancredo Neves, o avô pemedebista de Aécio, e sobre como seria bom resgatar o neto para o partido. Como velhos amigos à época de convivência na Câmara Federal, o presidente do PMDB e o governador de Minas jantaram juntos recentemente, e devem ter nova reunião em breve, intencionalmente sem marcar data, mas há reconhecimento tácito de que é cedo para medidas concretas no campo da sucessão presidencial.

São contatos ainda com muitos disfarces. Temer, por exemplo, esteve com o governador de São Paulo, José Serra, há quatro meses, mas em nenhum momento da conversa esteve subentendida na agenda a sua transferência para o PMDB. Com Aécio, embora considere difícil o governador de Minas deixar o PSDB, os acenos, ainda tímidos, têm mais rumo: "Se você estivesse no PMDB, seria naturalmente o candidato a presidente"...é o que se diz.

Aécio não desestimula esta conversa, embora no seu partido a cúpula consolide algumas outras certezas. Acreditam os dirigentes tucanos que Aécio Neves não sairá do PSDB e está apenas se preparando para ser candidato a senador na próxima eleição e a presidente logo depois de José Serra, uma realidade partidária para 2010.

O PMDB, porém, não desistirá. Enquanto isto, faz outras apostas. Aliás, não há ninguém parado em nenhum dos partidos, sejam os da base aliada ao Presidente da República, sejam os de oposição a ele. Enquanto espera o momento certo para conquistar ou desistir do governador de Minas -com ele o PMDB tem convicção de que apresentaria candidato próprio à sucessão presidencial com chance de vitória e, por isto, este candidato seria o único da base lulista, como se pretendeu o governo desde sempre - o partido vai alimentando idéias diversas.

Ausência de verticalização facilitará alianças

Temer já se reuniu também com o governador do Rio, Sergio Cabral, que hoje já está na categoria convencionada como a dos não candidatos naturais: os governadores que têm a possibilidade de reeleição não vão deixar mais quatro anos na mão por oito voando. Um problema que não afeta o governador do Paraná, Roberto Requião, já no segundo mandato e atualmente o mais disponível candidato do PMDB e o único que não esconde desejar a disputa.

Outro candidato pemedebista é o ministro Nelson Jobim (Defesa), a depender do projeto que consiga levar ao sucesso no governo Luiz Inácio Lula da Silva. Jobim afasta uma candidatura, hoje. "Eu não tenho voto, não sou candidato a nada". O ministro faz a recorrente brincadeira de que sua mulher, "felizmente", não o deixa entrar nessa, mas o fato é que se ele tiver condições de concorrer e for o escolhido, Adrienne Sena certamente não imporá obstáculos.

Jobim vê o PMDB, atualmente, sem um candidato que una minimamente o partido. "A grande unificação nacional que o PMDB tinha era a oposição aos militares. Quando acabou a transição, desapareceram os militares, percebeu-se que o PMDB era uma grande confederação de partidos regionais. Inclusive fiz um discurso sobre isso na convenção de 1989. E os líderes eram regionais, que só tinham perspectivas regionais e pretensões regionais. A eleição para Câmara e Senado, em que o PMDB faz grandes bancadas, é uma eleição regional, as disputas são locais, produzidas nos estados. A Câmara não é uma Assembléia Nacional, do tipo francesa, é uma assembléia dos Estados brasileiros, através de suas bancadas. Isto continua". Pergunta o ministro: "Há um nome que possa unir Pernambuco e Minas?" Não, afirma.

Lembra, ainda, que 2010 não terá a norma da verticalização, e este é um fator a facilitar todas as alianças possíveis. A ausência da verticalização é um fato que está também nos cenários traçados pelo presidente do partido, que considera isto um dado a favor da candidatura própria. "Na última eleição não tivemos candidato porque prevaleceu a verticalização e nossos candidatos a governador já tinham firmado alianças". Temer afirma que a opção número um do partido é ter um candidato próprio; a segunda é este candidato ser o da coalizão governista; e a terceira sair, logo de início, para a aliança. Reconhece que, "muito legitimamente", o PMDB, o PSB, o PT, querem ter candidato à sucessão de Lula, e desde quando participou de sua primeira reunião com o conselho político do governo, apoiou a idéia de uma candidatura única da coalizão. Isto pode significar uma união só no segundo turno ou, se não conseguir um candidato competitivo, o PMDB ficar logo aliado a algum candidato com chances de manter o status quo: fazer uma grande bancada, emprestar seu elástico tempo de propaganda gratuita na TV a candidaturas competitivas e continuar no poder sem disputar.

A teoria na prática...

O Democratas, partido que derrubou a CPMF e tem na redução da carga tributária e no abuso da cobrança de impostos pelo governo federal seu principal tema programático, quando no Executivo - o governo do Distrito Federal - comporta-se de forma semelhante e, como o exemplo de cima, também não dá muita explicação. O IPTU de 2008 foi calculado errado, o aumento máximo seria de 16,58% (a inflação não foi de 4,46%?) e os carnês chegaram aos moradores com quase 30% de reajuste. Foram corrigidos, mas duas semanas depois da data limite em que muitos iniciaram seus pagamentos com os preços exorbitantes. Um "engano" destas proporções e assim, em massa, para um partido que defende exatamente o contrário, é de deixar o consumidor desconfiado.

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