Fear, peur, miedo

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São três horas da manhã. Seus filhos estão dormindo, a salvo. Mas alguma coisa está acontecendo no mundo. O telefone da Casa Branca toca. Quem irá atendê-lo?
Este foi o spot-bomba que Hillary Clinton colocou na televisão para derrubar a popularidade de Barack Obama no Texas e Ohio. É um achado em termos de publicidade e marketing político, porque pega fundo. As brincadeiras que fizeram com a peça-chave da propaganda de Hillary também foram criativas. Numa delas a ligação cai na secretária-eletrônica. Noutra uma moça quer falar com alguém na sede do governo norte-americano, mas o faxineiro diz que naquela hora não há ninguém para atender. A mais divertida, porém, é aquela que a própria Hillary atende. Mas é engano, querem falar com Bill.

Pois é, enquanto o telefone toca desesperadamente na Casa Branca, meninos e principalmente as meninas saíram para passear pela noite com os candidatos que disputam eleições por todo o mundo. Barack Obama na campanha do Texas também usou uma menina para vender o seu peixe. Disse que queria que a menina que tivesse nascido naquela noite no bairro pobre pudesse ter as mesmas oportunidades das que nasceram nos bairros mais ricos. "Acreditamos que quando ela for à escola pela primeira vez deverá estar num lugar que tenha mais computadores do que ratos, que quando se candidate para ir à universidade, a matrícula não seja um obstáculo para que ela possa competir com as crianças da Índia ou da China pelos empregos do Século XXI", afirmou Obama.

Na disputa presidencial espanhola, o candidato conservador, Mariano Rajoy também é aficionado por meninas. No bom sentido é claro. Rajoy só quer o bem para os meninos e as meninas do seu país.

Mas a verdade é que essas crianças citadas e usadas com ligeireza pelos candidatos não são o futuro. São sinas eleitorais que mostram mais temores do que esperanças. Juan Luis Cebrian, fundador e editor do jornal "El País" conta que ouviu seguidas vezes Felipe Gonzáles, o antigo chefe do PSOE, de esquerda moderada, estimar que a democracia atual tenha as características da "mediocracia", pela crescente função social dos meios de comunicação e também pela mediocridade indiscutível da classe política. "As provas são abundantes em inúmeros países completamente diferentes: como explicar de outra forma que líderes assim tão inconsistentes como George W. Bush e José Maria Aznar tenham exercido o poder durante longos oito anos cada um?" Mas o jornalista vai mais além e afirma que o corolário da ação deletéria da "mediocracia" é o aparecimento daquilo que nós poderíamos chamar de "miedocracia": "um sistema de governo baseado no "miedo" que ataca as sociedades, as quais são mais e mais inclinadas a se fechar dentro delas mesmo".

Cebrian explica que a utilização permanente do medo pelos políticos para obter simpatias e adesões parece indicar que os países são constituídos por uma multidão de cidadãos dispostos a dar apoio a qualquer um em troca de serem defendidos. A análise que Juan Luis Cebrian faz do confronto espanhol entre a esquerda que está no poder e disputa a reeleição com José Luis Zapatero e a direita que é oposição e tem na cabeça de chapa Mariano Rajoy é muito interessante porque pode ser usada pelos Estados Unidos e também por nós e por quem quiser.

Segundo o jornalista, Mariano Rajoy e a sua trupe não cessaram de anunciar todas as sortes de apocalipses nacionais durante os quatro últimos anos e seus argumentos para conseguir votos foram pesados: usaram o medo de uma nova vitória socialista que colocaria fim na unidade da Espanha, no fim da língua castelhana e, até, no fim da existência de Deus, no que foram ajudados pela própria Igreja que faz oposição aberta contra o atual governo. Do lado de Zapatero o trabalho é apavorar o povo com a ameaça da volta de Aznar, dos ataques terroristas, da ida de tropas para o Iraque e o atrelamento incondicional às forças globalizadas dos atuais pólos de poder.
Então a "miedocracia" pode ser talvez uma boa maneira de chegar ao poder.

Mas o exercício do poder nesse clima pode ter conseqüências desastrosas por motivos óbvios e conhecidos. A esquerda bem que poderia pedir votos prometendo uma taxa de progresso mais igualitária e com solidariedade e a direita poderia mostrar que a modernização social está incluída no seu programa. Mas Juan Luis Cebrian acha que tudo ficará para mais tarde, porque nessa campanha o medo do outro, o medo de tudo (do terrorismo, do desemprego, da imigração, dos acidentes rodoviários, da globalização...) foi o argumento preponderante.

Na França, além de todos esses medos, surge um outro: o de que o presidente da República não seja bom da cabeça. E as eleições municipais em curso são um marco na dilapidação da popularidade de Nikolas Sarkosy. Ele foi escondido pelo seu partido, o conservador UMP, para não se tornar o principal puxador de votos da oposição socialista. Sarkosy fez tantas em menos de seis meses de poder que a sua popularidade é um terço do que era quando tomou posse.

Nos Estados Unidos até a eleição, em novembro, muitos medos ainda serão estimulados e reacendidos na disputa pelos votos. Os Republicanos, de John McCain, farão de tudo para apavorar os eleitores com o perigo de um democrata sem coragem assumir o poder. O Partido Democrata ainda está na fase de inculcar medos internos nos seus integrantes. O grupo de Barack Obama coloca a indicação de Hillary Clinton como uma vitória dos lobbies e de tudo que há de mais daninho no esquema de poder norte-americano. O grupo de Hillary Clinton considera Obama despreparado para atender o telefonema das três horas da manhã na Casa Branca, além dele ser um muçulmano disfarçado.

Aqui entre nós a luta petista-tucana também não tem trégua. Os tucanos desconfiam das convicções democráticas do "companheiro". E os petistas ameaçam com o fim dos programas sociais e a privatização selvagem se os adversários chegarem de novo ao poder. Como falta muito tempo ainda para as eleições a criatividade pode se dar ao luxo de experimentar todas as tentativas bem sucedidas no mundo de botar medo nos eleitores. Assim nós seremos sofisticadíssimos em aterrorizar cidadãos. E a campanha pode ser mesmo um circo de horrores.

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