Papelada compromete Paulinho

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A Polícia Federal vai centralizar suas investigações nas anotações e canhotos de cheques apreendidos durante a Operação Santa Tereza, que desmontou um suposto esquema de desvios de financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Segundo investigadores, os papéis reforçam as suspeitas em torno do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força, cujo nome constava na contabilidade de um escritório de consultoria envolvido nas irregularidades. A partir do material coletado durante a ação policial, a PF organizou um organograma mostrando as funções de cada um dos integrantes do grupo.

Os documentos apreendidos, conforme os investigadores, mostram coincidências entre valores divididos pelo esquema e as liberações do BNDES para a Prefeitura de Praia Grande (SP) e para uma loja de departamentos. Para a PF, segundo os relatórios de inteligência, o nome Paulinho e a sigla “PA”, escritas em anotações e planilhas encontradas, são referências ao deputado. O advogado Antonio Rosella, que defende o parlamentar, classificou essa conclusão como “loucura” e reclamou que não teve acesso a todos os documentos da apuração. Rosella afirmou ainda que muitos dos diálogos apresentados nas escutas telefônicas estão fora de seu contexto total.

Plenário
O monitoramento do lobista João Pedro de Moura, ex-assessor de Paulinho, durante a investigação que resultou na Operação Santa Tereza, realizada em abril pela Polícia Federal, não se restringiu aos corredores de acesso e gabinetes parlamentares da Câmara. Agentes da área de inteligência da PF acompanharam o lobista até no plenário da Casa, área restrita aos congressistas. Moura, que é acusado de ser um dos principais envolvidos no esquema de desvios, esteve na área reservada ao café dos deputados federais, onde foi vigiado por meia hora pelos policiais.

Durante as investigações, policiais federais mantiveram um severo monitoramento dos principais envolvidos, principalmente em torno de Moura. Para os policiais, ele seria o intermediário político do grupo. Nos relatórios produzidos pela PF, o lobista é tido como uma pessoa importante do esquema, já que mantém contatos com parlamentares, prefeitos e assessores, transitando com facilidade nessa área. Gravações feitas em fevereiro deste ano mostraram o ex-assessor de Paulinho no gabinete do deputado e de seu colega, o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN).

O relatório de inteligência nº 11 da Polícia Federal, encaminhado na semana passada à Justiça, mostra detalhadamente os passos de Moura dentro da Câmara, revelando até a marca do notebook que ele usou na apresentação feita a um grupo de pessoas. Isso aconteceu no dia 26 de fevereiro passado, quando ele fez várias incursões no Parlamento, terminando com a reunião na sala do café dos deputados. Lá o ex-assessor de Paulinho ficou por meia hora, observado atentamente por um agente, que o fotografou em companhia do deputado e um outro homem não identificado.

A presença da PF no plenário da Câmara deverá ser motivo de polêmica entre o presidente da Casa, Arlindo Chinaglia (PT-SP), e o Ministério da Justiça. Há 15 dias, ao saber que agentes monitoraram a visita de Moura a gabinetes, Chinaglia protestou alegando que era necessário permissão para que fossem feitas investigações no local. Com a revelação de novos fatos, tanto a presença dos policiais como a reunião que Moura teve na sala do café, o assunto deverá ser retomado.

Os passos de Moura na Câmara

Em 25 e 26 de fevereiro deste ano, agentes da área de inteligência da Polícia Federal seguiram João Pedro de Moura nas dependências da Câmara dos Deputados. A PF monitorou o lobista nas visitas que ele fez a dois gabinetes de deputados e em reunião com um grupo de pessoas no plenário da Casa. Confira abaixo o itinerário de Moura no dia 26:

17h03 - Moura entra no gabinete 539, do deputado Henrique Eduardo Alves

17h30 - O lobista deixa o gabinete do líder do PMDB na Câmara e vai para o de Paulo Pereira da Silva

17h55 - Paulinho recebe um grupo de pessoas, possivelmente parlamentares, segundo a PF, com quem se reuniu por cerca de 10 minutos. Não se sabe se Moura participou da reunião com o grupo

19h03 - Moura deixa, sozinho, o gabinete 218, que é de Paulinho, e se dirige ao Salão Verde, onde se encontra com um grupo de pessoas

19h10 - Acompanha o grupo de pessoas ao plenário da Câmara

19h20 - No interior do plenário, em uma mesa na sala de café dos parlamentares, acompanhado por três pessoas, ele abriu seu notebook e fez uma apresentação aos presentes, fornecendo-lhes papéis de anotações

19h50 - Paulinho chega ao plenário e acompanha a reunião de Moura com o grupo de pessoas, com quem conversa

20h03 - Moura deixa o plenário acompanhado por Paulinho e uma outra pessoa que estava presente à apresentação do lobista

20h05 - A Polícia Federal encerra o monitoramento dentro do plenário da Casa

Explicações à Justiça

O lobista João Pedro de Moura será o primeiro a depor na Justiça sobre seu envolvimento nos desvios de financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Moura é considerado um dos principais mentores do esquema, segundo a Polícia Federal, por ter ligações com a instituição financeira, de onde foi do conselho administrativo, e livre trânsito com políticos, empresários e empresas de consultoria. Ele foi preso em 24 de abril durante a Operação Santa Tereza, que desbaratou o esquema de fraudes. Moura será ouvido hoje na 2ª Vara Criminal Federal de São Paulo.

Na semana passada, a Justiça cancelou os interrogatórios de outros envolvidos nas fraudes. Escutas telefônicas feitas pela PF mostravam conversas em árabe entre diversas pessoas, que precisavam ser traduzidas. Além disso, os advogados dos acusados alegaram que não tiveram acesso ao processo, onde foi incluído o relatório de inteligência policial nº 10 depois que os autos chegaram ao juiz Márcio Catapani, da 2ª Vara Criminal Federal de São Paulo. Segundo a defesa do empresário Marcos Vieira Mantovani e do advogado Ricardo Tosto, outros dois acusados de fazer parte do esquema, seus clientes foram surpreendidos por novas provas, mesmo a ação estando em curso.

Moura é acusado de fazer intermediações entre empresários e políticos, em troca de comissão por financiamento liberado. A PF o incrimina nas liberações feitas para a Prefeitura de Praia Grande, no litoral paulista, e para uma loja de departamentos. Segundo o advogado do ex-assessor de Paulinho, Frederico Crissiúma de Figueiredo, o interrogatório será o melhor momento para que seu cliente possa esclarecer os fatos. Moura se negou a prestar depoimento à PF.

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