Fora tia Yeda

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Apreendida por agentes da Polícia Federal, em 6 de novembro do ano passado, durante a Operação Rodin, uma carta do lobista tucano Lair Ferst endereçada à governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, do PSDB, poderá causar um terremoto político em terras gaúchas. O texto no qual Ferst descreve com minúcias o esquema de desvio de verbas operado pela quadrilha liderada, segundo ele, pelo empresário José Antônio Fernandes, apontado pelo Ministério Público Federal como um dos principais chefes do nicho de corrupção montado no Detran local.

A carta desmonta duas teses de defesa de Yeda Crusius em relação ao escândalo: a da ausência de intimidade entre a governadora e o lobista, e a do desconhecimento da fraude tocada por aliados. A divulgação do teor da carta, aliada às escutas telefônicas feitas pela PF, divulgadas na semana passada no plenário da Assembléia Legislativa, deu fôlego a um movimento pró-impeachment da governadora. “Já não há dúvidas de que ela tinha conhecimento de tudo”, diz o presidente da CPI do Detran, deputado Fabiano Pereira, do PT. “O que precisamos saber, agora, é qual o grau de participação da governadora na fraude”, afirma.

Além da carta a Yeda Crusius, também foi encontrado na sede de uma das subcontratadas do Detran, a Pensant, um conjunto de atas de reuniões nas quais a quadrilha que desviava recursos do órgão registrou orientações administrativas, divisão de lucros, emissão de notas fiscais frias, lavagem de dinheiro e pagamentos de propinas. Mesmo para os padrões de impunidade do Brasil, é impressionante a desfaçatez dos envolvidos ao colocar no papel o organograma de seus crimes.

Anexados ao processo em andamento na 3ª Vara da Justiça Federal de Santa Maria, no interior do estado, esses documentos – a carta e as atas – foram também enviados à CPI do Detran, na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.
A carta de Ferst tem três páginas e meia e, segundo a investigação da PF, o que foi encontrado pode ser apenas metade do texto original. O documento foi achado impresso, entre os papéis pessoais de Ferst, mas pode estar também arquivado digitalmente na CPU do computador dele, ainda a ser analisada pela polícia. No dia 26 de maio, em depoimento à CPI do Detran, o lobista tucano chegou a negar a existência da carta, mesmo depois de os papéis terem sido formalmente anexados ao inquérito da Operação Rodin. Ao depor na PF, contudo, ele admitiu ter escrito o texto para avisar Yeda Crusius das irregularidades cometidas no Detran, de onde a quadrilha lá instalada desviou, entre 2003 e 2007, estimados 44 milhões de reais.

A carta começa com um reverencial “Senhora Governadora”. Em seguida, dá a dica de que a governadora estava informada das irregularidades ocorridas no Detran muito antes de o escândalo vir à tona. “Esta oportunidade é muito importante para que eu possa esclarecer uma série de assuntos que tem sido levantado (sic) ao seu conhecimento e a várias outras pessoas do Governo”, escreve Ferst. Detalhe: desde o início do processo, a governadora tucana nega ter sido informada das ações da quadrilha desmobilizada pelo MP e pela PF.

Ferst acusa um grupo que estaria dedicado a difamá-lo liderado por José Fernandes, dono da Pensant, principal empresa “sistemista” agregada ao esquema de corrupção no Detran. O lobista também acusa João Luiz Vargas, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, e o jornalista José Barrionuevo, ex-funcionário da RBS, maior grupo de comunicação do Sul do Brasil, de onde saiu, em 2003, após dez anos à frente da principal coluna política do Zero Hora, jornal mais influente do estado.

Na carta, o lobista afirma que Fernandes pagou diversos colunistas da imprensa gaúcha para “plantar” notas de interesse particular do grupo. Essa acusação talvez explique o item 3 de uma das atas de reunião apreendidas pela PF, datada de 30 de outubro de 2007, na Pensant. O texto refere-se a Eduardo Vargas, filho de João Luiz Vargas, conselheiro do TCE, a quem o lobista tucano aponta como desafeto dentro da quadrilha. Na ata, lê-se o seguinte: “Os pagamentos efetuados para o Jornal deverão ser justificados através de contratos ou mútuos”.

Apesar de fazer uma radiografia devastadora da atuação de Fernandes, em momento algum Ferst admite ser culpado dos crimes depois investigados pelo MP e pela PF. Diz que o lobista é um notório corrupto e que sofre de transtorno bipolar. Lembra de ter relatado “pessoalmente” a Yeda Crusius “o caso dos pais-de-santo”, quando um grupo de representantes de religiões afro-brasileiras fez uma manifestação em frente ao comitê do PSDB, durante a campanha de 2006, com a suposta intenção de identificar a então candidata como racista. Segundo Ferst, a tal manifestação foi montada por Fernandes e Barrionuevo.

Para falar das irregularidades no Detran, Ferst cria no texto um conjunto de argumentos para dar a impressão de nunca ter tomado conhecimento de qualquer falcatrua no órgão. Afirma ter participado da escolha da Fatec porque não achava correto uma empresa de fora, a Fundação Carlos Chagas, do Rio de Janeiro, fazer o trabalho no Detran gaúcho. No fim das contas, o lobista acabou contratado pela Fatec para prestar “assessoria” como coordenador de Relações Institucionais. Teria feito carreira na quadrilha se não tivesse se desentendido com Fernandes.

A Yeda Crusius não fala nada da luta interna entre as “sistemistas” controladas por um e por outro. Chama de “golpe de mestre digno da máfia” o fato de Fernandes ter emplacado a sede da Fundae, entidade substituta da Fatec, também fundação da Universidade de Santa Maria, no endereço da Pensant, subcontratada por ambas. Lá, Fernandes passou a fazer a seleção dos examinadores de trânsito para o Detran. “Fizeram esse processo com um risco muito grande, poderão expor o governo a questionamento ético”, afirma. Depois, se vangloria. “O que me deixa profundamente abalado é que para fazerem tudo isso estão usando a força da coação de Governo que ajudei a eleger, usando o seu nome, Governadora”.

Em uma das atas apreendidas, um item denominado “Diretriz Jaf (José Antônio Fernandes)” deixa no papel o clima de satisfação com o novo endereço da fundação gestora dos recursos desviados pela quadrilha. “Deverá ser feita uma cerimônia reservada para a Fundae e prestamistas (ou “sistemistas”) das novas instalações”, diz o documento. “Quem sabe depois uma outra com a presença do Presidente do Detran (Vaz Netto), mas nada muito pomposo ou chamativo”, esclarece a nota.

Ferst lista, ainda, na carta, uma série de autoridades envolvidas nas maracutaias do Detran. São eles: Antonio Dorneu Maciel, diretor da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE); João Luiz Vargas, conselheiro do TCE; Vaz Netto, presidente do Detran; Chico Fraga (Francisco Fraga), secretário de Governo do município de Canoas (prefeitura do PSDB); Barrionuevo e Fernandes. Acusa a todos de ter “projetos em andamento” em outras áreas do governo. “Estão formando uma verdadeira máfia para extorquir o Estado com superfaturamento de obras e serviços”, registrou.

No documento, alega que, ao saber da troca da Fatec pela Fundae, entrou em contato com a direção do Detran para informar sobre a viabilidade de a Escola Técnica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por meio de uma “escola de trânsito”, assumir o contrato. Segundo ele, isso poderia resultar em uma redução de 20% nos custos, mas a idéia foi “integralmente rechaçada” por Vaz Netto – nomeado por Yeda Crusius.

Netto teria dito a Ferst que a UFRGS “era muito próxima” à governadora e ao marido dela, o economista Carlos Crusius, acusado pela oposição e pelo vice-governador do estado, Paulo Feijó (ex-PFL), de sistemática interferência indevida nos negócios do governo local. “É claro que não há interesse em mostrar-lhe os verdadeiros custos desse projeto”, avisa o lobista tucano. “Estão ludibriando (sic).” Cita, como exemplo, ao fim do texto apreendido pela PF, o fato de Fernandes receber 600 mil reais por mês da Fundae “sem prestar serviço algum”. E arremata: “Para quem tentou derrubar o seu projeto de governo, é uma bela recompensa”.

Yeda Crusius alega nunca ter recebido a carta, versão corroborada por Ferst, mas é pouco provável, ante as novas evidências, que ela não tenha tomado conhecimento do conteúdo do texto escrito pelo antigo correligionário. Ferst participou ativamente da campanha eleitoral de 2006, quando atuou como arrecadador informal de fundos do PSDB, segundo informações da PF e do MP. O lobista admitiu, ainda, que a carta apreendida foi entregue a Marcelo Cavalcante, ex-chefe de gabinete da governadora e, atualmente, representante do governo estadual em Brasília. Segundo informou à PF, Ferst foi questionado por Cavalcante sobre a existência de provas capazes de embasar as denúncias. Diante da negativa do autor do texto, o ex-chefe de gabinete teria decidido, então, encerrar o assunto e arquivar a mensagem.

Gravação da Polícia Federal, feita em julho do ano passado, demonstra tanto a proximidade de Cavalcante com a governadora como a ligação dele com Ferst. No telefonema, Cavalcante avisa a Ferst do cancelamento do aniversário de Yeda Crusius, em 26 de julho, por causa do acidente com o avião da TAM, ocorrido nove dias antes, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Na tragédia, havia morrido o deputado Júlio Redecker, do PSDB estadual. No fim da ligação, o secretário aproveita para passar ao lobista nomes de servidores da Secretaria de Fazenda a serem apresentados a uma empresa não nominada no grampo, provavelmente, cliente de Ferst. “Papel, Deise!”, solicita, ríspido, Ferst à mulher, a ex-miss Brasil Deise Nunes, para anotar os nomes citados por Cavalcante.

Na quarta-feira 4, esse aparato de blindagem política em torno de Yeda Crusius começou a ruir quando 34 grampos telefônicos feitos pela PF, autorizados pela Justiça Federal, foram ouvidos pelos deputados estaduais gaúchos. Depois de perceberem a gravidade das escutas, em meio a um silêncio constrangido, parlamentares da base governista sentiram-se obrigados a acatar o pedido de convocação do secretário de Governo, Delson Martini. O termo foi assinado por dez dos 12 deputados titulares da comissão, inclusive o relator, o tucano Adilson Troca. Para garantir a convocação, o requerimento precisa receber os votos de somente sete deles.

Orientados a manter o escândalo longe do Palácio do Piratini, sede do Executivo gaúcho, os governistas haviam barrado o mesmo requerimento em cinco oportunidades anteriores. O teor das gravações, transmitidas pela TV Assembléia, ao vivo, no entanto, mudou tudo. Na segunda-feira 9, os integrantes da CPI do Detran vão se reunir para votar os requerimentos de convocação de Martini e, também, para tomar outra vez o depoimento de Vaz Netto. À PF o ex-presidente do Detran admitiu ter contado muito sobre a fraude para a governadora.

Ao menos três conversas telefônicas comprometem Martini e, por extensão, Yeda Crusius. Ele é mencionado como conhecedor da existência de subcontratações das “sistemistas” no Detran e se coloca como interlocutor para resolver o impasse provocado por pressões de Ferst, interessado em voltar a participar do esquema. Trata-se, justamente, das pretensões de Ferst colocadas na carta endereçada à governadora. A CPI vai investigar, agora, se há ligação entre esses dois fatos. Ou seja, se a governadora destacou o secretário Martini para tratar da crise interna da quadrilha sem causar problemas ao governo.

Depois de divulgados os áudios na Assembléia gaúcha, o assessor de imprensa da governadora, Paulo Fona, disse não ter visto “fatos novos” e condicionou as declarações futuras do governo só para depois de uma análise formal das gravações feitas pela PF. Fona tenta ganhar tempo para montar uma estratégia de defesa, cada vez mais difícil. Ele tem participado das reuniões para definir, com outros secretários, como agir daqui para a frente. O grupo governista sabia dos grampos com as conversas de Martini há mais de 40 dias, mas, ainda assim, preferiu esperar o caso estourar para tomar uma posição. Muitos dos aliados da governadora a têm aconselhado a fazer Martini falar antes da convocação da CPI – e, depois, demiti-lo.

Na outra ponta da investigação, os procuradores federais analisam as atas de reuniões, do ano passado, encontradas nas sedes das empresas subcontratadas pelo Detran. Em uma delas, a de 30 de outubro de 2007, no item 1 de “Assuntos Tratados e Deliberações”, há a recomendação para Eduardo Vargas, sócio da “sistemista” IGPL, ir ao escritório da empresa para, finalmente, conhecer “suas dependências”. Detalhe: na parte superior do documento, uma anotação a caneta demonstra, segundo apuração do MP, que Vargas recebeu quatro pagamentos entre julho e outubro, no total de 120 mil reais, pelos serviços da IGPL ao Detran – sem nunca ter ido sequer à sede da firma, como demonstra a ata.

Em outro item, o de número 4, fica acertada a troca de propriedade de uma caminhonete Ranger em nome de Eduardo Vargas, identificado por “EV”, para o do pai, o conselheiro do TCE João Luiz Vargas, identificado pelas iniciais “JLV”. “Eduardo passa a pagar as prestações direto de sua conta. As multas deverão ir para a CNH (Carteira Nacional de Habilitação) dele”, diz a deliberação. Mais adiante, há uma orientação para venda de bois, aparentemente para lavar dinheiro de corrupção. “O gado deverá ser vendido para o Eduardo, conforme contrato de compra e venda e NF (nota fiscal) de produtor”, diz a ata. E segue uma recomendação: “Procurar casar com os cheques emitidos e dinheiros repassados”.

Na ata de 5 de novembro de 2007, referente à reunião ocorrida na sede da Pensant, Fernandes começa a pensar no futuro. “JAF deu diretriz de, em 24 meses, estarmos totalmente independentes das Fundações”, diz o texto. Ainda assim, cuida do que tem. “Fernando (filho e sócio) fará contato com Fatec para tratar acerto do Maranhão”, orienta a ata. Em seguida, a definição dos porcentuais de comissão: “Entre 4% e 6% do valor total do contrato”. No inquérito policial, a PF indica que a quadrilha pretendia montar um esquema de fraude semelhante no Detran maranhense. “Esse tipo de corrupção, pelo que vamos ver daqui por diante, vai aparecer nos Detrans do País todo”, afirma o deputado Pereira. “Nós é que achávamos que algo assim não ocorria no Rio Grande do Sul.”

A investigação sobre o caso do Detran do Rio Grande do Sul começou graças a uma denúncia anônima de um professor da Universidade Federal de Santa Maria ao Ministério Público Federal. Informava que o pedido de contratação da Fatec para prestação de serviços na área de trânsito era parte de uma estratégia criminosa de desvio de dinheiro por parte de empresas subcontratadas, com o apoio do então reitor da universidade, Paulo Jorge Sarkis. Foi nesse contexto que dois procuradores da República em Santa Maria, Harold Hoppe e Rafael Brum Miron, decidiram começar a investigar o caso.

Passaram a convocar pessoas para ser ouvidas e, também, a receber ameaças veladas transmitidas por terceiros. Ficaram, basicamente, intrigados com a velocidade com que a Fatec foi substituída pela Fundae, embora ambas atuassem no mesmo ramo. As interceptações feitas pelos federais demonstraram que os envolvidos combinavam entre si os depoimentos tomados pelos procuradores da República. Hoppe e Miron decidiram, então, pedir auxílio dentro do MP e formar uma força-tarefa com colegas de outros municípios gaúchos. Vieram para o grupo os procuradores Enrico de Freitas (Cachoeira da Sul), Ivan Cláudio Marx (Uruguaiana) e Fredi Wagner (Cruz Alta). O MP contou com a colaboração de dentro do governo, embora de forma sigilosa, e abriu a possibilidade para envolvidos nos crimes de conseguir atenuantes penais mediante o expediente de delação premiada.

Atualmente, o processo acumula mais de 5 mil páginas e 37 caixas de documentos, com mais de 60 mil folhas. Além disso, outras 40 caixas foram anexadas ao processo, a pedido do MP, relativas a investigações de outros contratos semelhantes firmados pela quadrilha, entre eles um com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o programa Pró-Jovem, do governo federal.

A Operação Rodin prendeu 13 pessoas e indiciou 39. Dos indiciados, 37 foram denunciados pelo MP. Além deles, outras sete pessoas foram também denunciadas, embora não tenham sido indiciadas inicialmente pela Polícia Federal. Foram, portanto, 44 denunciados pelo MP. Desse total, a juíza Simone Fortes decidiu aceitar a denúncia de 40. Mas não descartou a possibilidade de aceitar outras daqui para a frente.

Ela tá criando inimizades

Gravações legais em poder da CPI do Detran dão a entender que a governadora Yeda Crusius foi informada do esquema e das interferências de Lair Ferst. Em um dos trechos, reclamam do que seria o estilo de Crusius de jogar um grupo contra outro.

Flávio Vaz Netto X Antônio Maciel
Vaz Netto, ex-diretor-presidente do Detran, diz a Maciel, ex-diretor da CEEE, que tentará falar com a governadora. Procuram resolver, aparentemente, a crise desencadeada pela tentativa de Lair Ferst de retornar ao esquema mafioso do Detran. O nome do secretário Delson Martini aparece claramente.

28/8/2007
Vaz Netto – Tô indo lá pra Esteio, e o (inaudível) provavelmente vai estar lá com a governadora.
Maciel – Se tu puder, pergunta pra ela se a orientação é do Delson. Eu acho que era bom, né?
Vaz Netto – Eu acho que sim.
Maciel – Se tiver chance, né? Depende do ambiente.
Vaz Netto – O cara nega essa influência dele?
Maciel – Não. Ele disse que vai falar com ela. Ela vai dizer pra ele. Mas ele já tá aceitando porque ele me disse que ela é sem-vergonha mesmo. Que ela faz assim. Que ela logra as pessoas, ela joga uns contra os outros, tá vendo? Tá vendo? Tá vendo? Ela já tá criando inimizade com o Flavio e comigo, ele disse.
Vaz Netto – Porque é aquela história, né, tchê? Se é guerra, é guerra. Eu preciso me preparar pra guerra.
Maciel – Sim. Até porque ele disse isso, mas eu disse pra ele que quem vai definir é ela.
Vaz Netto – Mas eu falei... Nós não marcamos uma reunião pra tratar desse assunto com o cara?
Maciel – Foi bem. Foi bem. Exatamente. Não, acho que é isso aí. Se tu tiver chance boa. Agora tá dando um pequeno impasse lá, sigo orientação do Delson? Já avisei o Delson. Tratam da exclusão das empresas ligadas a Ferst depois da troca das fundações que prestavam serviços ao Detran. Segundo a PF, Ferst fazia pressão para retornar ao negócio.

Maciel X Vaz Netto
O ex-diretor da CEEE relata ao ex-presidente do Detran uma conversa com Chico Fraga (Francisco Fraga, secretário de Governo do município de Canoas, administrado pelo PSDB). Ferst é tratado como “ex-miss”, um apelido pejorativo usado em outros grampos, porque é casado com a gaúcha e ex-miss Brasil Deise Nunes, primeira negra a receber o título, em 1986.

28/8/2007
Maciel – Disse que o Lair até agora não fez nada, que é um grande engano, que os donos da Fundae é o Pensant (o lobista José Fernandes) e o Sarkis (Paulo Jorge, ex-reitor da Universidade Federal de Santa Maria), são os donos, tá no contrato. E que ele acha que é uma grande desconsideração, que não houve parceria, que tinha que ter avisado que ia mudar o esquema. Eu disse: mas tu foi avisado. É, mas quem tinha que avisar era ela. Bem, então o Delson vai saber da tua posição e ele vai dizer pra ela. E ela que diga o que fazer, porque o Flavio vai cumprir o que ela mandar cumprir.
(...)
Maciel – Aí já deu um pau nela, que ela costuma botar as pessoas umas contra as outras.
Vaz Netto – E agora qual é o passo dois?
Maciel – O passo dois é o Delson voltar amanhã, porque foi pra São Paulo. Eu vou dizer pra ele por telefone hoje, já.
Vaz Netto – Tá bem. Então estamos liberados com isso também? É guerra.
Maciel – Pelo jeito, ele não vai ganhar, ele vai (...) o ex-miss (Ferst). Eles comentam que Lair Ferst estava reclamando por ter sido excluído do esquema e que deveria ter sido avisado com antecedência. Integrantes da CPI acreditam que, quando mencionam ela, os dois se referem à governadora. No final da conversa, Maciel diz que o próximo passo é esperar o retorno de Delson Martini de São Paulo.

"Cobrei um milhão e meio"

Em outros trechos das gravações, os acusados falam da partilha do dinheiro. O deputado federal José Otávio Germano, ex-secretário no governo Germano Rigotto, tenta levantar informações sobre possível investigação do Ministério Público.

VAZ NETTO X MACIEL
Falam sobre uma pendência a ser resolvida com Martini (então presidente da CEEE). No contexto, as empresas de Ferst (Rio del Sur e Newmark Tecnologia) haviam sido excluídas do contrato do Detran em maio. Ferst pressionava para retomar as atividades, de acordo com a PF. Mais uma vez, o diálogo remete para o conteúdo da carta encontrada na casa do lobista com informações para a governadora.

23/8/2007
Maciel – Tudo quieto, tudo direitinho. Amanhã vou ligar pro Chico (Fraga), segunda ou terça vou marcar de conversar com ele. Vou dizer que não deu, que me atrapalhei. Teus assuntos estão evoluindo, esses aí?
Vaz Netto – Tô com um retorno lá do centro do estado que aquela proposta lá tá tudo o.k. Praticamente resolvido. E a questão desse mês, os relatórios desse mês já estão concluídos e tal. Ao menos uma das partes já tá resolvida, falta concluir as outras duas partes. Mas tá bem, acho que tá bem. Tenho que resolver só essa pendência que tá contigo. Resolvido isso, reina a paz.
Maciel – Isso eu mato. Se eu não matar, mando o Delson matar. Se eu não conseguir sozinho, ele faz. Outra coisa, nosso vôo é às 8 amanhã, né? Vai mais alguém ou só nós dois?
Vaz Netto – Acho que só nós dois. Talvez vá o Buti (Luiz Paulo Germano, irmão do ex-secretário de Segurança do Estado, José Otávio Germano), mas ele não sabe ainda se vai poder ir.

CLÁUDIO X VAZ NETTO
O ex-presidente do Detran é abordado por um homem identificado como Cláudio, mas desconversa quando ele fala de valores. A ligação provocou risos de deputados ao ser apresentada.

24/10/2007
Cláudio – Posso falar ou tem que ser meias palavras?
Vaz Netto – Não, não, pode falar.
Cláudio – Eu vi um negócio do Maciel independente daquele. Depois tu fala com ele. Eu cobrei um milhão e meio. Tá?
Vaz Netto – Tá.
Cláudio – Um milhão fica lá pra ele. 250 mil pra ti e 250 mil pra mim.
Vaz Netto – Ô, Cláudio, do que que nós estamos falando? Por telefone eu não sei. Do que que nós estamos falando?
Cláudio – Fala com o Maciel que ele sabe. Eu só quero que tu saiba que tu tem 250.
Vaz Netto – Eu não sei do que que tu tá falando, eu não posso tratar isso por telefone.

JOSÉ OTÁVIO GERMANO X VAZ NETTO
O deputado federal José Otávio Germano (PP), ex-secretário de Segurança Pública do governo Germano Rigotto, conversa com Flavio Vaz Netto, ex-presidente do Detran de Yeda Crusius.

28/8/2007
José Otávio – Você se inteirou dos assuntos?
Vaz Netto – Me inteirei dos assuntos. Eu avalio positivamente. Embora em primeira vista possa preocupar. Na verdade são questões pretéritas, centradas na ausência de licitação dos terceirizados, e... e... há uma representação do MP no próprio Tribunal, que vai ser submetida ao pleno amanhã pra que se inicie uma inspeção especial para tratar desse assunto. Esses são os fatos. (...)
José Otávio – Então tá. Tu acha que não tem perigo? Sem nenhum tipo de ação amanhã?
Vaz Netto – Não, não. Na minha percepção é melhor deixar andar. Pra resolver logo isso. Tirar esse troço de vez. E eu conversei longamente hoje com o Buti (irmão de José Otávio) e ele se dispôs a ajudar na construção. Aí eu vou trazer os papéis pra vocês. Pra ele me ajudar a pensar nas coisas aí. Tá bem? José Otávio – Você está muito bem.
Vaz Netto – Hahahá! Fica frio aí.

BUTI X VAZ NETTO
Luiz Paulo Germano (advogado e irmão do deputado José Otávio Germano) conversa com o ex-diretor-presidente do Detran.

13/8/2007
Vaz Netto – Eu, na sexta-feira, recebi uma visita, o retorno da visita, e não gostei da conversa, viu, tchê? O (inaudível) tá conta muito alta, e papapá, papapá. Ficou de hoje me abrir custos, mas me preocupou porque o CR (talvez, Carlos Rosa, um dos advogados ligados à fraude do Detran) e o ZO (provavelmente, José Otávio Germano) tão dentro da conta dele também.
Buti – De quem?
Vaz Netto – Do cara, da miss lá (Ferst). Como justificativa para, dentro dos projetos do governo, tentar reduzir custos. (...) Ele tá tendo uma chance de se recuperar e agora tá achando que pode voltar tudo ao status quo de antes. E não vai voltar.

Buti – Ele falou contigo nesses termos?
Vaz Netto – Nesses termos. Só queria te avisar, porque, se vier por aí, amanhã tem outro processo em curso.
Buti – Mas isso aí não tem a mínima possibilidade, né?
Vaz Netto – O que eu ia te sugerir é que dissesse pra ele. Os caras têm que aprender que comigo não tem cachorro. Não vem apostar com um par de dois porque não funciona.
Buti – Mas que barbaridade. O cara não aprende, hein?
Vaz Netto – Por mais que eu tente ajudá-lo, não adianta. Carta Capital

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