Ruins de voto, bons de verba

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Oito dos atuais presidentes de partidos com representação na Câmara Federal são um desastre nas urnas e nunca exerceram cargo eletivo. Mesmo assim, conseguiram espaço na vida política do país. Prova disso é o fato de que apenas nos seis primeiros meses deste ano, mais de R$ 9,4 milhões passaram por suas mãos. Dinheiro proveniente da União e repassado às legendas como fundo partidário para o pagamento de despesas com pessoal e serviços. O valor representa 7,5% do total repassado aos partidos políticos entre janeiro e junho deste ano.


O partido liderado por um perdedor eleitoral que mais recursos recebeu do fundo foi o PR. Presidido pelo professor e procurador Sérgio Tamer, a legenda viu chegar às suas contas mais de R$ 3,5 milhões. Tamer é um exemplo de que o prestígio partidário não depende do sucesso nas urnas. Candidato a deputado federal e estadual pelo Maranhão, sua terra natal, nunca conseguiu se eleger. No entanto, depois de assumir a presidência do PR, passou a interferir na política nacional e influenciar na postura do partido em assuntos polêmicos como a reforma tributária. Ele se autodefine como um "catalisador de idéias entre os integrantes da legenda".


Outra legenda cujo presidente não tem prestígio eleitoral é o PSC, que recebeu mais de R$1,3 milhão em fundo partidário este ano. O administrador do dinheiro é o advogado Victor Abdala, que já disputou eleições para a prefeitura de Belo Horizonte, governo de Minas Gerais, Câmara Federal e até a vice-presidência da República.


O presidente do PV também não é um exemplo de sucesso nas urnas. Candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro, José Penna obteve cerca de 21 mil votos. Agora entra na briga por uma vaga de vereador e acredita que terá mais chances. Este ano, o Partido Verde recebeu R$ 2,5 milhões de fundo partidário. "Meu papel é organizar o partido e trabalhar para que ele cresça. Meu bom relacionamento com os integrantes da legenda é fundamental para que tenhamos força tanto interna quanto externa", comenta o músico, ao comentar a distância entre prestígio eleitoral e político.


Outro exemplo desse distanciamento entre o cenário eleitoral e a influência dentro dos partidos ocorre no PCdoB. O partido, cujo presidente nunca disputou um pleito, tem em Renato Rabelo uma espécie de consultor e orientador dos mais diversos posicionamentos adotados pelos que compõem a legenda.


A falta de vida política entre os administradores de fundo partidário também é notada no PT do B, PTC, PRTB e PMR. No primeiro, o presidente Luiz Tibé - que herdou o cargo do pai - recebeu mais de R$ 364 mil para pagar as despesas do partido. No PTC, o presidente Daniel Tourinho nunca exerceu um mandato e administrou valor de R$709 de fundo este ano. As duas outras legendas têm participação mais modesta nos recursos da União. Cada uma delas recebe apenas 0,20% do total destinado aos partidos este ano.


Benefícios

A ausência de vida eleitoral dos presidentes partidários agrada aos parlamentares da legenda. Por um motivo simples. Sem a busca por reeleição e o compromisso de atender aos eleitores, os dirigentes tendem a se dividir por igual entre os estados. "Acho ótimo que o presidente Tourinho não seja político. Assim, ele pode dar atenção igual a todas as regiões. Se ele precisasse agradar a alguma região em especial daria muita confusão", opina o deputado federal Carlos William (PTC-MG).


Na avaliação do líder do PSC na Câmara, deputado Hugo Leal (RJ), a falta de vida eleitoral do presidente da legenda, Victor Abdala, dá a certeza aos integrantes da legenda de que todos serão tratados igualmente.



QUEM SÃO


PR - O professor e procurador Sérgio Tamer se candidatou três vezes, mas nunca foi eleito. Este ano, o partido que dirige recebeu R$3,1 milhões

PV - O músico José Penna tentou se eleger deputado federal em 2006 e obteve pouco mais de 21 mil votos. Este ano, o partido dirigido por ele recebeu R$ 2,5 milhões de fundo partidário

PTdoB - O estudante de direito e empresário Luiz Tibé foi candidato a governador de Minas Gerais em 2006.

Este ano, a legenda recebeu mais de R$ 364 mil referentes ao fundo partidário.

PSC - O partido tem como presidente o advogado Victor Abdala, que já disputou eleições para a prefeitura de Belo Horizonte, governador de Minas Gerais, Câmara Federal e até a vice-presidência da República. Nos primeiros seis meses deste ano, a legenda que preside recebeu mais de R$ 1,3 milhão.

PCdoB - A legenda é presidida por Renato Rabelo, que tem longa militância no partido, mas nunca se arriscou numa disputa eleitoral. Este ano, os comunistas receberam mais de R$1,5 milhão do fundo partidário

PTC - Presidido por Daniel Tourinho, que nunca exerceu mandato eletivo, o partido recebeu R$709 mil este ano.


* Dados do TSE referentes aos duodécimos repassados para o fundo partidário, ou fundo de assistência aos partidos, entre janeiro e junho deste ano

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