Comportamento do Brasil é "exemplar"

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Excepcional, exemplar. Estes são alguns dos adjetivos citados para definir o comportamento da economia brasileira em um ano da crise subprime. Diferente do que ocorreu em outros momentos de estresse, como a crise russa, em 98, e a asiática, em 97, desta vez os reflexos no mercado doméstico estão sendo discretos.

O comportamento do Brasil se destaca por dois motivos. Primeiro, não há exposição dos bancos nacionais ao mercado de hipotecas subprimes. O outro motivo são os avanços recentes que consolidam a imagem de um país solvente, com regras estáveis e política macroeconômica responsável. As reservas internacionais são as maiores da história, a US$ 204 bilhões, e somos credores líquidos em dólar. Além disso, o País elevou sua integração com outros mercados e comemoramos 14 anos de controle inflacionários.

"O comportamento do Brasil durante esta crise é muito bom e, até o grau de investimento concedido ao País em abril, pode ser chamado de excepcional", avalia Paulo Tenani, chefe de pesquisa para América Latina do UBS Pactual Wealth Management. Entre a piora nos mercados financeiros em 16 de agosto do ano passado e o dia que a Standard & Poor’s concedeu um upgrade ao Brasil, em 30 de abril deste ano, a Bovespa acumulava alta de 37%. "Os mercados globais já estavam se ajustando, as moedas asiáticas perdendo valor, e o Brasil demonstrava uma dinâmica própria, em parte pela antecipação do grau de investimento", lembra Tenani.

Na mesma base de comparação, agosto de 2007 e maio deste ano, o dólar caia 18%.Depois que a boa notícia se concretizou, com o upgrade de duas agências de rating, a tendência de alta da Bovespa se inverteu. No entanto, lembra Tenani, mais por uma dinâmica interna do que externa. "A antecipação já havia sido feita, além disso, a alta dos juros promovida pelo BC provoca um ajuste nos preços, um redirecionamento dos investidores", diz. "Há uma saída de investidores da bolsa, mas não necessariamente do mercado brasileiro, muitos estão migrando para a renda fixa", explica Tenani.

O mercado doméstico de ações é, de longe, o mais afetado pela crise global. Até a última sexta-feira, a Bovespa acumula no ano baixa de 11,42%, a 56.584 pontos. Já o dólar, apesar da crise global, não demonstra poder de reação frente ao real. No acumulado do ano, a baixa é de 8,90%, cotado a R$1,60. O risco-país, indicador da confiança no Brasil, está em 230 pontos-base. O fato de a Bovespa perder recursos no acumulado do ano está mais ligada à baixa no preço das commodities, do que a uma desconfiança do mercado brasileiro.

"As empresas exportadoras de commodities têm um peso muito grande no Ibovespa e por isto a queda no índice", explica Dalton Gardiman, economista-chefe da Bradesco Corretora. Juntas, Petrobras e Vale respondem por 40% do Ibovespa. "A queda no preço das commodities, pelo medo da recessão, tem sido o canal de transmissão da crise global para a bolsa brasileira, mas não vejo muito espaço para que a correção continue." Gardiman acredita que a saída de investidores da bolsa brasileira é estratégica e não muda a tendência. "Em relação à queda na abertura de capital das empresas, o Brasil tem um potencial tão grande, há tantas empresas por fazer seus IPOs que o espaço para crescer é enorme, é uma questão de tempo", diz. "Quem entrou na bolsa este ano pode estar no vermelho, mas quem entrou em 2005, por exemplo, na certa ainda está no azul."

Tenani, do UBS, é menos otimista. "O Brasil precisa gerar boas notícias, é desta capacidade que depende o futuro", diz. "O dólar já não vai ajudar tanto o controle inflacionário, não há tanto espaço para cair, o que levará a Selic a subir mais do que se espera", diz. "Usar apenas o juro para controlar a inflação não dá mais certo e, após sofrer um pouco, é possível que o governo faça enfim mudanças que ajudem."

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