Religiosos querem o poder

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Mesmo proibidos pela Igreja, padres tentam trocar paróquias pelas prefeituras

Em 2004, o padre Luiz Araújo Ferreira, de Bonfinópolis de Minas, a 516 quilômetros de Belo Horizonte, decidiu descer do púlpito e subir em um palanque eleitoral. Ele conta que, motivado pelo clamor da população para que se candidatasse a prefeito, foi pedir a permissão ao bispo da sua diocese, em Paracatu, para deixar a batina de lado e seguir carreira na política da pequena cidade da região noroeste. Não obteve a autorização de dom Leonardo de Miranda Pereira, mas não desistiu. Mesmo suspenso pela Igreja Católica - que não permite que padres se filiem nem se candidatem a cargos públicos -, padre Luiz filiou-se ao PT, e acabou ganhando as eleições daquele ano. Hoje, com 70% de aprovação de sua administração, tenta a reeleição e já pediu o afastamento definitivo da Igreja. "Entrei na política contra a vontade do bispo e fui suspenso de uso de ordem", conta o padre prefeito. No jargão eclesiástico, isso quer dizer que ele não pode mais celebrar missas, casamentos ou batizados. Mas padre Luiz não se arrepende; acha que entrar na política é unir fé e vida. "É na política que temos os recursos para ajudar os mais necessitados", diz.

O Código de Direito Canônico proíbe a participação de padres católicos na política partidária. Entretanto, a proibição não é taxativa e deixa espaço para o diálogo com os bispos, superiores diretos dos sacerdotes. "Há exceções: se o bispo entende que há uma necessidade, ele pode autorizar", conta dom Hugo Cavalcante, assessor para assuntos canônicos da Confederação Nacional dos Bispos no Brasil (CNBB).

"Eles também são cidadãos; votam, então podem ser votados"
Padre Alírio Bervian, vice-presidente da Associação Nacional dos Presbíteros do Brasil

Outro candidato de batina é padre Jocimar Dantas (PMDB), que concorre à Prefeitura de Jardim do Seridó, no Rio Grande do Norte. Como o seu colega de Bonfinópolis, padre Jocimar não conseguiu a autorização do bispo da sua diocese, dom Manuel Delson Pereira da Cruz. "Não renuncio à minha fé nem ao meu sacerdócio, sou um padre, servo de Deus e servidor do povo", declara Jocimar, que foi afastado da sua paróquia. Já o padre Sóstenes Arruda, que é candidato do PSOL à prefeitura de sua cidade natal, Jaboatão dos Guararapes (PE), não foi suspenso. Ele é também diplomata de carreira há 15 anos. Como já não era pároco por conta do trabalho no Itamaraty, sua candidatura foi aceita.

Casos de padres que preferem os comícios às missas são comuns no Brasil e em outros países. O ex-bispo Fernando Lugo, eleito presidente no Paraguai, conseguiu uma autorização inédita do papa Bento XVI para voltar a ser leigo. "Sempre houve padres na política", diz o vice-presidente da Associação Nacional dos Presbíteros do Brasil, padre Alírio Bervian. "Eles também são cidadãos; votam, então podem ser votados."

Padre Alírio conta que nas eleições de outubro pelo menos 100 padres são candidatos a prefeito ou vereador no Brasil. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, há 554 candidatos a vereador, 31 candidatos a prefeito e 17 a viceprefeito que declararam ser "sacerdotes ou membros de ordem ou seita religiosa". Pelos dados do Tribunal Superior Eleitoral não é possível, no entanto, saber a quais confissões pertencem os candidatos.