Cenário para a inflação no atacado e no varejo segue tranquilo em 2009

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A inflação mostrou alguma aceleração em fevereiro, mas os índices de preços continuam comportados, segundo a maior parte dos analistas. As altas mais fortes têm sido localizadas e muitas delas se devem a fatores sazonais. Outro ponto importante é que o repasse da desvalorização do câmbio para as cotações permanece baixo, principalmente devido à desaceleração da economia. A aposta dominante é de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve ficar próximo do centro da meta definida para este ano, de 4,5%, permitindo que o Banco Central (BC) continue a cortar os juros nos próximos meses.

O IPCA-15 de fevereiro subiu 0,63%, mais que o 0,4% no mês anterior. A aceleração do indicador, contudo, não é preocupante, diz o analista Francis Kinder, da Rosenberg & Associados. Ele observa que a alta se deveu em grande parte ao aumento de 4,95% do grupo educação. "Foi uma elevação forte, mas é algo sazonal", diz Kinder. Sem esse grupo, o IPCA-15 teria alta de 0,31% em fevereiro.


A alta de educação jogou para cima a variação dos preços de serviços (que incluem também itens como aluguel, condomínio, cabeleireiro e conserto de automóvel), que subiram 1,82% em fevereiro. "Se for excluído a variação de educação, porém, os serviços tiveram alta de 0,54%, abaixo do 0,89% de janeiro", diz o economista Gian Barbosa, da Tendências Consultoria Integrada.


Kinder diz que algumas medidas de núcleo do IPCA-15 mostram uma tendência comportada da inflação. É o caso do calculado pelo método de médias apuradas com suavização, no qual se excluem as 20% maiores altas e baixas, diluindo-se as variações dos preços administrados ao longo de 12 meses. O indicador subiu 0,35% em fevereiro, abaixo do 0,43% de fevereiro. Já o núcleo calculado pela exclusão de alimentos e preços administrados teve aceleração expressiva, de 0,21% para 0,83%, mas esse movimento está contaminado pela alta sazonal do grupo educação, lembram analistas.


Barbosa destaca ainda a queda de 0,02% no IPCA-15 dos preços dos bens comercializáveis (os tradables), que são influenciados diretamente pelo movimento do dólar. "Isso mostra a manutenção de um quadro sem pressões inflacionárias advindas da depreciação cambial", diz ele, ressaltando que a alta da moeda tem sido compensada pelo comportamento tranquilo das commodities. "O cenário para a inflação segue benigno", afirma Barbosa, projetando alta de 4,2% para o IPCA neste ano. Kinder prevê elevação de 4,5%. O IPCA-15, vale dizer, é uma prévia do IPCA, que serve de referência ao regime de metas de inflação. A diferença é que o IPCA-15 é apurado entre a segunda quinzena do mês anterior e a primeira do mês de referência.


A situação dos preços no atacado também continua sob controle, segundo o economista Fábio Romão, da LCA Consultores. As cotações agropecuárias tiveram aceleração significativa na primeira e na segunda prévias do Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M), mas não é algo que deva se configurar como tendência, avalia ele. Romão lembra que as commodities agrícolas registraram alguma recuperação neste ano, depois do forte tombo da segunda metade de 2008. Isso fez o IPA agropecuário da segunda prévia do IGP-M sair de uma deflação de 0,31% em janeiro para uma alta de 1,63% em fevereiro. Nos próximos meses, porém, os aumentos devem arrefecer, diz ele.


Os preços industriais no atacado também deixaram o terreno negativo em fevereiro - subiram 0,06% na segunda prévia do IGP-M -, mas Romão também não vê aí motivo para preocupação. Um número tranquilizador foi o resultado do núcleo do IPA industrial calculado pela exclusão de combustíveis e produtos alimentares, que teve queda de 1,01%. Para ele, o IGP-M de fevereiro, a ser divulgado hoje, deve ficar em 0,39%, uma aceleração em relação à deflação de 0,44% de janeiro, mas nada que aponte para uma deterioração do quadro inflacionário. Barbosa e Kinder também veem com tranquilidade o cenário para as cotações no atacado.


A economista Tatiana Pinheiro, do Santander, por sua vez, tem uma visão bem mais pessimista sobre a inflação. Para ela, o IPCA deve fechar o ano com alta de 6% - ou seja, bem acima do centro da meta, de 4,5%. Tatiana diz que os serviços e os preços administrados (como tarifas de telefonia e energia elétrica), com peso de 53% no IPCA, tendem a seguir pressionados, por mostrar uma correlação expressiva com a inflação passada. Em muitos casos, são corrigidos parcial ou totalmente por índices de preços acumulados em 12 meses.


Ela também acha que, nos próximos meses, o repasse da desvalorização do câmbio para os preços deve aumentar, ainda que a fraqueza da atividade econômica possa limitar o impacto. Para Tatiana, quando o processo de ajuste de estoques chegar ao fim, os empresários tendem a repassar para os preços pelo menos parte do aumento de custos representado pela alta do dólar. Para o IGP-M, ela projeta alta de 7% no ano, bem mais que os 4,4% de Romão e os 3,6% de Kinder.

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