O dia em que a oposição teve juizo

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Com uma forte ofensiva sobre os senadores, nos últimos dois dias, ajudado também por uma oposição cindida, o governo conseguiu evitar a leitura do requerimento de criação da CPI da Petrobras - e, consequentemente, adiá-la -, na sessão de ontem do Senado. A decisão foi tomada em reunião dos líderes partidários, pela manhã, da qual o PSDB não participou. O acordo provocou forte atrito entre PSDB e DEM. O líder do DEM, José Agripino (RN), estava presente à reunião de líderes e concordou com a não leitura do requerimento dando tempo à volta do presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, de uma viagem que fará à China.

À tarde, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), o líder do partido, Arthur Virgílio (AM), e o senador Tasso Jereissati (CE) suspenderam suas viagens e foram à sessão pressionar o presidente, àquela altura o senador Mão Santa (PMDB-PI), a ler o requerimento, de autoria do senador Álvaro Dias (PSDB-PR), que obteve 32 assinaturas. Mão Santa negou-se, mantendo o acordo de líderes. Após muita discussão, passou a presidência para o primeiro-secretário, Heráclito Fortes (DEM-PI), quando ele chegou ao plenário. Houve troca de farpas, discussões e o clima ficou tenso. Fortes também negou-se a fazer a leitura, irritando os tucanos.

Discussões e troca de acusações duraram quase uma hora e meia. Para uma comissão de inquérito ser instalada é preciso, além de 27 assinaturas de senadores, a leitura do requerimento em plenário e a indicação de representantes pelos líderes partidários. O presidente da Mesa Diretora é quem decide quando o documento é lido. "Não estou pedindo aqui a leitura do requerimento. Estou dizendo que já está na hora de ele ser lido", disse o tucano Arthur Virgílio (AM). "Quem não quiser a CPI que retire a assinatura."

Fortes retrucou: "Não fica bem quebrar o entendimento", afirmou, referindo-se ao acordo de líderes. A discussão prolongou-se e o senador do DEM passou a presidência para a senadora Serys Slhessarenko (PT-MT), que na sequência encerrou a sessão. Os tucanos não se conformaram e ocuparam a Mesa Diretora. Virgílio sentou-se na cadeira do presidente e disse: "Quero ver quem vai me tirar dessa mesa". Tasso reclamou que estava sendo vítima de um golpe e gritou para Fortes não cortar o som. "Você não é mais senador aqui do que ninguém", disse para o senador do DEM. "Isso é muito ruim para nossa biografia." Sérgio Guerra saiu reclamando: "Tem muita culpa nessa história aí, de gente que ão quer ser investigada", resmungou. "O PSDB não participa de acordões."

Virgílio não participou da reunião dos líderes quando se fez um acordo para protelar a leitura e dar tempo ao presidente da Petrobras, que passou o dia ontem no Congresso, para voltar de uma viagem que fará à China e fazer uma audiência pública, com várias comissões reunidas, para explicar os problemas da estatal. "Não precisamos criar um espetáculo midiático", disse Gabrielli aos senadores com quem se reuniu depois do encontro de líderes.

Agripino (DEM) alega que participou da reunião de líderes com a delegação de Virgílio de também representá-lo. Afirma que comunicou o tucano sobre a decisão. E não teria havido reação imediata contra o acordo. Quando os tucanos se reuniram e discutiram o assunto, interpretaram o acordo - para que o requerimento não fosse lido e o presidente da Petrobras fosse ouvido em audiência pública - como um golpe contra as oposições. Agripino já havia viajado, assim como Álvaro Dias, autor do requerimento.

Como Gabrielli e o diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Haroldo Lima, fizeram incursões pelo Senado nos últimos dias e ao longo de todo o dia de ontem, e o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez apelos à sua base para que fosse evitada a instalação da CPI, parlamentares chegaram a fazer insinuações de que senadores da oposição possam ter feito algum acordo com o governo para concordar com o adiamento da leitura. Agripino reagiu com irritação. "Onde está o recuo, se o que estamos fazendo é dar espaço para que o homem (Gabrielli) venha se explicar?", perguntou o líder do DEM, por telefone.

Autor do requerimento de criação da CPI da Petrobras, Álvaro Dias também reagiu à decisão. Por telefone, disse que um eventual depoimento de Gabrielli aos senadores não pode mudar o fato de que há denúncias graves contra a atuação da empresa, sobre fatos já ocorridos. "Ele tem que falar é em CPI", disse Dias. Para ele, todo o empenho do governo em evitar a CPI torna a investigação mais necessária, "porque esse jogo pesado é uma demonstração de que há o que esconder".

No governo já se comemorava o tempo que os governistas ganham para negociar a retirada de assinaturas.

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