Só pra lá de 2010

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No Brasil, consumo representa 60% do Produto Interno Bruto (PIB). Tomando o volume de vendas no varejo como representativo do nível de consumo, deduz-se, conforme estudo recente do BNDES, que 1% de aumento da massa salarial implica crescimento de 0,7% das vendas do varejo. E o total de salários cresce desde 2003, repercutindo a evolução do emprego e o rendimento real. Tais dados tornam crível o cenário de inflação pressionada, certo? Sim e não.

Poderá comprometer a meta de inflação — taxa que antes de fetiche do BC é a âncora para todas as variações macroeconômicas, do saldo do comércio exterior ao resultado da execução das contas fiscais. Mas isso mais para meados de 2010 em diante, e muito pelo fiscal.

Inflação mansa

A inflação continua sob controle, como revela o custo de vida na cidade de São Paulo medido pelo índice Fipe, da Faculdade de Economia da USP. Na segunda quadrissemana de outubro, sua taxa de variação recuou de 0,12% para 0,09%, a menor desde novembro de 2007. Reajuste menor dos preços de vestuário e comida compensou os fatores de alta, como o litro do álcool carburante.

A evolução desse índice, que não diverge da do IPCA do IBGE, cuja tendência no mapa do Focus está acomodada entre outubro e novembro na faixa de 0,31% a 0,35%, remete a preocupação de médio prazo do mercado para a crescente inconsistência da economia à medida que o crédito ao consumo se propaga e o gasto público se acelera.

O cenário que o Focus avança começa a se assemelhar ao da segunda metade de 2008, quando já havia déficit nas contas externas, risco de o vermelho também atingir a balança comercial em 2009 e a Selic crescia por isso. A crise externa anestesiou o investimento, que então corria forte, e a sua volta ainda não aconteceu. De lá para cá, o desequilíbrio entre o gasto público e o privado se acentuou.

Cura está na doença
A valorização corrent
e do real é prenúncio de dificuldades para a exportação de manufaturados e para a renda externa do agronegócio e minérios, setores que há anos garantem o superávit comercial do país. A fraqueza do dólar é estrutural, por que conveniente aos EUA. No Brasil, a melhor situação relativa da economia reforça tal movimento. Que é engrossado também por inconsistências da política econômica, como a expansão forçada do crédito ao consumo no Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal, alicerçada em dívidas para elevar o patrimônio de ambos. Com exportação deprimida, crédito ao consumo bombando e fiscal solto, não demora e o dólar muda o sinal — seguido pela inflação. Ou o BC se antecipa. A cura está no mal.

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