Congresso começa semana avaliando os estragos da Operação Navalha

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O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), defendeu ontem rapidez na divulgação das informações obtidas pela Polícia Federal na Operação Navalha - investigação de esquema de fraude de licitações públicas para realização de obras em vários Estados - para que as responsabilidades sejam esclarecidas. Rechaçou tentativas de envolver seu nome, por conhecer "há mais de 20 anos" o empresário Zuleido Veras, dono da Gautama, apontado pela PF como chefe da quadrilha.

Ontem, o escândalo ganhou mais peso ao ser divulgada, pela Agência Globo, informação de que relatório da PF acusa o ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, afilhado político do senador José Sarney (PMDB-MA), de ter se beneficiado do esquema. Teria incorrido em crime de corrupção passiva.

"Se tem uma investigação da Polícia Federal, ela tem que vir à baila logo", disse Renan. "Ninguém conhece a extensão, a profundidade da investigação. As pessoas especulam, mas isso não vai prosperar, porque da minha parte não existe nada", completou, referindo-se à exploração política em torno de seu relacionamento com Veras. "Eu o conheço, mas, se ele estiver envolvido, é problema dele. Não tenho compromisso com o erro."

O Congresso inicia a semana sob apreensão quanto aos desdobramentos da operação. Hoje os acusados de participação do esquema de corrupção começam a prestar depoimento à PF. Também há expectativa de vazamento de dados dos documentos apreendidos no escritório da construtora Gautama, entre eles a lista de emendas de parlamentares de interesse da empreiteira, além de menções a dinheiro e presentes.

Desde quinta, dia em que a operação veio à tona e 46 pessoas foram presas, o senador José Sarney (PMDB-AP) vem acompanhando atentamente o caso. Chegou a cancelar viagem que faria a Viena para participar do encontro do Interaction Council, uma organização internacional independente que reúne ex-chefes de Estado e de governo, criada em 1983.

O maior problema de Sarney passa a ser o envolvimento no episódio de um ministro por ele apadrinhado, mas ele tem outras razões para se preocupar. Dois de seus adversários políticos de peso estão envolvidos: o ex-governador José Reinaldo Tavares (PSB) e o atual governador, Jackson Lago (PDT), que não chegou a ser preso. Lago derrotou a senadora Roseana Sarney (PMDB-MA) nas últimas eleições. Se isso lhe é favorável, não é bom o fato de o noticiário tentar vinculá-lo a Veras, de um lado, e as obras da construtora Gautama no Maranhão às administrações da filha Roseana no governo estadual, de outro. Tem dito a interlocutores que sequer é amigo do dono da Gautama. Teria visto o empresário "umas três vezes na vida". Em relação a Roseana, a família garante a amigos que o empresário não realizou obras no Maranhão em sua gestão e que, na única licitação vencida por ele, a obra acabou suspensa.

A fragilidade política de Sarney e Renan no episódio deve ter reflexos nas nomeações para o segundo escalão do governo Luiz Inácio Lula da Silva. No mínimo, isso facilita ao PMDB da Câmara nomear o ex-prefeito do Rio Luiz Paulo Conde para a presidência de Furnas. Ele era vetado pelo PMDB do Senado.

Direta ou indiretamente, outros parlamentares estão sendo envolvidos a cada dia. O senador Delcídio Amaral (PT-MS), ex-presidente da CPI dos Correios, é um dos políticos citados na lista apreendida pela PF na empresa. Junto ao seu nome, duas citações: R$ 24 mil e "aluguel de jatinho". Hoje, o senador deve fazer um discurso para se defender. Segundo disse em entrevistas, precisou de um avião no mês passado e, como não tinha dinheiro para o aluguel, pediu ajuda a um amigo empresário. O amigo, por sua vez, recorreu a Veras.

Quanto a Renan, uma das informações que têm sido veiculadas desde quinta-feira é que o senador teria feito gestões junto ao governo federal para liberação de verbas para obras tocadas em seu Estado pela Gautama. Sobre isso, disse que todas as vezes que defendeu recursos para Alagoas o fez a pedido dos governadores e prefeitos, independe de partido político. Para ele, não se pode prejulgar os acusados, mas aguardar o esclarecimento dos fatos. Uma de suas preocupações é defender o governador de Alagoas, Teotonio Vilela (PSDB-AL), seu aliado político, que teve importantes assessores presos, inclusive do PMDB de Renan.

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