Lago admite indício de corrupção

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As duas horas em que passou frente a frente com a ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Eliana Calmon foram suficientes para o governador do Maranhão, Jackson Lago (PDT), sair desapontado com os dois sobrinhos presos na Operação Navalha. Lago negou ter recebido propina da construtora Gautama, mas não descarta a possibilidade de Alexandre Lago e Francisco de Paula Lima Junior terem usado o parentesco do governador para participar do esquema.

“Foi profundamente lamentável. Havendo a constatação disso (participação dos sobrinhos), nós esperamos que, além das relações com a Justiça, que seja uma lição. Há evidências de irregularidades que têm que ser apuradas. Estou triste com tudo isso” , disse, quando questionado sobre o envolvimento dos sobrinhos. O governador do Maranhão reconheceu a voz do sobrinho negociando com um funcionário da Gautama, quando a ministra Eliana Calmon o fez ouvir gravações das conversas dos suspeitos. Jackson Lago reagiu com surpresa.

Alexandre e Francisco foram presos durante a investigação sob suspeita de terem recebido R$ 240 mil de propina, cobradas em nome do tio. O governador defendeu a investigação e, questionado se ganhou dinheiro da Gautama, declarou ter uma vida “honrada e limpa”. “Se tivesse amor ao dinheiro e fosse desonesto, teria tido oportunidades. Exijo que examinem minha vida”, disse. À ministra, ele apresentou declaração de bens. “Todo o meu patrimônio é um apartamento em que eu e minha mulher moramos e uma caminhonete financiada em 36 meses.”

O advogado José Eduardo Alckmin, que defende Lago, lembrou que, além desses bens, o governador do Maranhão possui em seu nome uma casa em São Luís, no valor de R$ 20 mil, onde mora a ex-sogra. O advogado informou também que Lago vai encaminhar à Eliana Calmon extratos bancários e o carnê do automóvel que está pagando.

O advogado revelou também que o governador ficou surpreso ao ouvir gravações telefônicas feitas pela PF durante as investigações em que seu nome é citado por um dos sobrinhos. “Ele ficou absolutamente surpreso. Claro que já tinha conhecimento dos fatos, mas se surpreendeu. Jamais autorizou alguém a atuar em nome dele”, disse.

Além de Jackson Lago, outro personagem do Maranhão citado nas investigações da PF prestou depoimento ontem. O ex-procurador do estado Ulisses de Souza teve o pedido de prisão decretado, mas acabou sendo beneficiado com uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e não chegou a ir para a cadeia.

Apenas um “colaborador”

Convencido de que não é suspeito, muito menos investigado da Operação Navalha, o governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho (PSDB), saiu do STJ anunciando que depôs apenas para “colaborar”. Ele disse ter informado à ministra Eliana Calmon, responsável pelo inquérito, que exonerou todos os cinco funcionários do governo presos, e que determinou uma auditoria em Alagoas para detectar eventuais fraudes nos contratos com construtoras.

“Quem errou deve ser responsabilizado para que possamos retomar a normalidade”, declarou na porta do STJ. Foram presos na operação o secretário e o subsecretário de Infra-estrutura de Alagoas, o diretor de obras, o ex-secretário de Infra-Estrutura e o representante do governo de Alagoas em Brasília. As investigações da PF indicam que a Gautama teria conseguido reverter pareceres técnicos e liberação de recursos da obra da barragem do Rio Pratagy mediante pagamento de propina.

Numa das gravações da Polícia Federal, o dono da Gautama, Zuleido Veras, conversa com um interlocutor e diz que Enéas Alencastro (representante de Alagoas em Brasília) lhe perguntou se não queria “ir a Teo” (Teotônio Vilela). Inicialmente, o empresário disse que não, mas se fosse necessário iria. A PF não revela se o encontro ocorreu, mas deixa claro que Zuleido e Enéas se reuniram num escritório que Teotônio Vilela usava quando senador. E, possivelmente, foram acertar pagamentos, de acordo com o relatório dos federais.

Conversas
O governador foi o primeiro a depor ontem. Ele se recusou a dar detalhes do depoimento, mas voltou a dizer que mantinha uma “relação funcional” com o dono da Gautama e com todos os empresários que trabalham em Alagoas. Disse ainda que não se lembra de ter conversado com o ex-secretário de Infra-Estrutura do estado Adeilson Teixeira Bezerra sobre uma suposta indenização relativa à barragem do Rio Pratagy, como mostram escutas telefônicas feitas pela PF durante as investigações. “Com certeza conversei sobre a barragem do rio, mas especificamente sobre isso não me lembro. Não creio, não lembro, não sei, tenho que ver melhor.”

As gravações da PF sugerem que o secretário pediu ao governador para conversar com um empresário que estaria cobrando uma indenização de R$ 300 mil, acertada com o governo anterior. “Não creio, não lembro, não sei”, respondeu o governador de Alagoas.

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