Medo da navalha ronda CPI

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Uns até defende a criação de uma CPI, outros não querem nem saber de ouvir a palavra CPI e os boatos correm solto nos corredores de tapete verde e azul. Quem quer a CPI não vai conseguir assinaturas suficiente para ir a frente.

Nada como um escândalo envolvendo os grandes partidos do país para conter o ímpeto investigativo dos parlamentares. À medida em que os detalhes da Operação Navalha da Polícia Federal são divulgados e as suspeitas avançam em direção ao Congresso, os políticos vão deixando de lado o discurso sobre a eficiência das comissões parlamentares de inquérito.

Ontem à noite, o PPS deu início à coleta de assinatura para a instalação de uma CPI mista destinada a apurar as relações promíscuas entre empreiteiras e poder público, sobretudo na elaboração e liberação de emendas parlamentares. Até o fechamento desta edição, só quatro deputados haviam assinado o requerimento. E tudo leva a crer que conseguir o apoio de 171 deputados e 27 senadores não será uma tarefa fácil.

Partido que se empenhou para garantir a instalação da CPI do Apagão Aéreo, o Democratas é uma das legendas que resistem à idéia de instalação de CPI para apurar a extensão da quadrilha desbaratada pela Operação Navalha. Um dos filhos do ex-governador de Sergipe João Alves Filho (DEM) foi preso pela Polícia Federal e acusado de participar do esquema de fraude a licitações públicas.

- Não sou contra a CPI, mas acho que é preciso ver a sua eficiência - disse o senador Heráclito Fortes (DEM-PI), autor do requerimento que garantiu a instalação da CPI das ONGs no Senado.

Segundo Fortes, não adianta investigar a relação de empreiteiras com parlamentares. O importante, alegou, é mudar os mecanismos de elaboração do Orçamento da União. O mesmo discurso foi entoado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que levantou a bandeira da cautela.

- É importante que as investigações da Polícia Federal avancem para que a especulação não se sobreponha aos fatos - pregou o senador.

Renan conhece o dono da construtora Gautama, Zuleido Veras, e foi responsável pela indicação de funcionários do governo de Alagoas, do aliado Teotônio Vilela (PSDB), que foram presos na Operação Navalha. Ontem, Renan disse que nada substitui "a vontade do Congresso" e prometeu conduzir com isenção o que for preciso. No entanto, afirmou considerar que o melhor caminho para impedir novos escândalos é a mudança na elaboração e tramitação do Orçamento da União.

Para o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), o obstáculo para a abertura de uma nova CPI é a ausência de pessoal.

- O Senado tem uma capacidade limitada de investigação - declarou Virgílio.

O tucano admitiu que os detalhes revelados pela Operação Navalha são constrangedores e que é preciso dar uma resposta à sociedade. Também reconheceu que o corporativismo atrapalha, mas disse que colocará a proposta em discussão na reunião de hoje da bancada do PSDB.

- Nada impede que a cautela da bancada seja superada quando entrar em campo a opinião pública - disse Virgílio.

Os governistas também engrossaram o coro contrário à CPI. Com o discurso afinado, os líderes do governo no Senado e na Câmara acham que, se houver o envolvimento de parlamentares, os acusados podem ser julgados pelos conselhos de ética das duas Casas.

- A CPI é desnecessária. Temos que ter tranqüilidade nas investigações. Não há nenhum detalhamento sobre parlamentares envolvidos - declarou o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR). - Se houver, a responsabilidade é do Conselho de Ética.

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