- A Elite da Influência

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Época num. 0498
3/12/2007

As páginas seguintes apresentam as pessoas que foram exemplos de realização, força moral ou influência no Brasil em 2007. São 100 personalidades, das mais diversas áreas, reunidas em sete grupos. No primeiro, Líderes e Reformadores, estão os políticos, juristas e administradores que mostram especial influência ou capacidade de gestão, reforma e inovação na vida pública. A seguir, em Empreendedores e Pioneiros, os empresários e investidores que inovam e lideram nos negócios e na economia, ampliando o mercado e ajudando a internacionalizar a marca Brasil. Em Mídia, os jornalistas, colunistas e empresários da comunicação mais expressivos, formadores de opinião e do senso crítico nacional. No grupo de Benfeitores, como o nome indica, pessoas que usam seu tempo, seu dinheiro ou sua energia para criar modelos de solidariedade social ou voluntariado. Guias e Pensadores reúne acadêmicos, professores e religiosos com notável liderança na sociedade, na pesquisa científica e na divulgação do conhecimento. No grupo de Criadores e Artistas estão os brasileiros cuja criatividade está presente na produção artística e no consumo cultural. Finalmente, em Ídolos e Heróis, as estrelas do esporte e do entretenimento que mais brilharam neste ano.

Líderes & Reformadores

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

Uma influência que vai além do cargo

A posição destacada do presidente Lula na política brasileira deriva das duas formas como ele é visto e avaliado. De um lado, está o mito político, representado pelo homem que veio de baixo e chegou à Presidência da República. De outro, o governante, que não só tem enorme popularidade, como incorporou diversas forças políticas e sociais em torno de si, criando um fenômeno chamado lulismo. O lado mitológico é respeitado até pelos adversários. Aqui não há como evitar a paráfrase preferida do momento: “Nunca antes na história política deste país” alguém enfrentou condições tão adversas para conquistar o poder. A biografia de Lula tem elementos para todos os gostos. Para a classe média mais escolarizada, ele é visto como um dos mais importantes líderes da redemocratização brasileira. A população mais pobre o reconhece como um entre os seus, pelas agruras por que passou e pela forma como se comunica. No dia em que venceu a primeira eleição, em 2002, começava o teste de fogo para o mito. Como o próprio presidente já admitiu, quando era oposição, ele dizia muitas bravatas. E a chegada ao poder obrigou-o a um choque de realismo, algo condizente com sua trajetória de pragmatismo tanto no sindicalismo como no Partido dos Trabalhadores.

Mas a passagem do líder mitológico ao governante responsável não foi fácil. Significou aproximar-se de muitas políticas da era FHC. Isso desagradou a boa parte do eleitorado, que se sentiu órfã. Num balanço de acertos e erros, o presidente Lula pode contabilizar, hoje, aos 62 anos, uma grande popularidade, fruto do sucesso de algumas políticas, como as de transferência de renda. Mas a influência do presidente foi além. Entrou no terreno dos “ismos” que povoam a história brasileira. O lulismo é um fenômeno que paira sobre os partidos, ora os agraciando, ora os confundindo e, acima de tudo, os amarrando a uma agenda da qual não conseguem se livrar. Nesse aspecto, Lula se parece cada vez mais com Vargas, não por acaso visto por muitos como o brasileiro mais influente de nossa história.

FERNANDO ABRUCIO, cientista político, professor da Fundação Getúlio Vargas e colunista de ÉPOCA

“O presidente Lula é um fenômeno. Ele é o brasileiro mais influente hoje, pela sua capacidade de comunicação com o povo. Só não reconhece isso quem não quer.”

Andrea Matarazzo,
secretário de Coordenação das Subprefeituras de São Paulo, ex-ministro e ex-embaixador


Yeda Crusius indica Lula e Ellen Gracie

"O presidente Lula alia enorme carisma pessoal e a total utilização de todo o potencial de poder inerente ao cargo. A presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Ellen Gracie, tem o conhecimento e a determinação para exercer, com discrição, o cargo de presidente da Suprema Corte. Tem a coragem de fazer a defesa de gênero, como nos polêmicos assuntos sobre igualdade e aborto"

Yeda Crusius,
governadora do Rio Grande do Sul






Fernando Gabeira indica Lula

“Sem nenhum juízo de valor, o presidente Lula tem comandado a política externa, sido o apóstolo dos biocombustíveis e estado na frente dos países emergentes nas negociações da Rodada de Doha, sobre a queda de barreiras comerciais entre os países. Lula tem hoje no plano internacional um papel de destaque que nenhum outro presidente tem – além de sua importância na política nacional.”

Fernando Gabeira,
deputado federal (PV-RJ)

DILMA ROUSSEFF

Braço forte do governo Lula, a ministra da Casa Civil é, aos 59 anos, um símbolo de seriedade e aplicação
Decidida e racional, dedicada e entusiasmada pelo que faz, com boa capacidade de abstração, companheira e solidária. Essa é a Dilma Rousseff com quem convivi no vestibular, na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais – até a expulsão de ambos no Ato Institucional no 5 – e principalmente na agitação estudantil e na longa luta contra a ditadura. Quase 40 anos depois, comprovo que é com a mesma integridade de sempre e com as fortes convicções que a caracterizam que ela procura servir ao Brasil. No recomeço da democracia, fui um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, e ela fundadora do Partido Democrático Trabalhista. Passados mais alguns anos, ela está onde eu estive, ou, em outras palavras, ela está no governo do PT, e eu na oposição. Nem por isso deixo de reconhecer sua preeminência e sobretudo sua competência e seriedade num governo no qual esses atributos escasseiam.
JOSÉ ANÍBAL, deputado federal (PSDB-SP)

JOAQUIM BARBOSA

O juiz do Supremo que conquistou o respeito do país ao acatar a denúncia do caso do mensalão
O ministro Joaquim Barbosa, de 53 anos, teve um comportamento incisivo como relator do processo em que o Supremo Tribunal Federal acatou a denúncia contra os acusados no caso do mensalão. Num país que tão freqüentemente vê suas autoridades se portar de forma lamentável, como é o caso do senador Renan Calheiros, Joaquim Barbosa se destacou como magistrado por agir de forma tecnicamente correta. Havia certo receio, por parte da sociedade, quanto à maneira como o Supremo lidaria com os mensaleiros. Como relator, não coube exclusivamente a Joaquim Barbosa, é claro, a decisão de acatar as denúncias – isso foi possível graças ao conjunto dos votos dos demais ministros. De certa forma, o tribunal estava na berlinda, era observado por todos. O mérito de Joaquim Barbosa foi conduzir o processo de forma clara e transparente.

CLAUDIO WEBER ABRAMO, diretor-executivo da Transparência Brasil, organização de combate à corrupção


SÉRGIO CABRAL FILHO

Um governador na linha de frente contra a violência
Certa vez, Maurício de Lacerda surpreendeu-se ao ver o jovem filho Carlos discursando e disse: “Quem gerou este milagre?”. Com meu filho Sérgio sinto-me assim. “Parabéns pelo seu filho” é o que mais escuto, graças a sua decisão corajosa de fazer do Rio de Janeiro um Estado menos violento. Não vou desfiar seus feitos de homem público, pois suas votações demonstram o reconhecimento da população. Aproveito, sim, a condição de pai para contar que, bem menino, ele já revelava as qualidades de hoje. A solidariedade e o desejo de ajudar estavam naquela criança, que me visitava nas prisões da ditadura, aos 7 anos de idade. A vocação política surgiu desde o tempo de secundarista, quando ele criou grêmios e jornais, enfrentando a intolerância de diretores e professores. O menino, hoje com 44 anos, sempre sonhou com um Brasil melhor. Esclareço, porém, que suas melhores qualidades não foram herdadas do pai, mas da mãe, Magaly.

SÉRGIO CABRAL, jornalista

NELSON JOBIM

Ele quer domar o caos aéreo
De modo comportado, o deputado aguardava que o maître do restaurante da Câmara o conduzisse a uma mesa, para almoçar. Pelo broche, que reluzia orgulhoso na lapela, identifiquei o calouro. Pelo capricho do bigode, o gaúcho. Tomei-o pelo braço e o conduzi para compartilharmos a almejada mesa. Assim conheci Nelson Jobim. Naquela tarde, eu disse ao doutor Ulysses Guimarães que ele precisava conversar com o constituinte do Sul, que transmitia talento e simpatia. O tempo demonstrou que, quanto ao primeiro, eu tinha razão. Já quanto à simpatia... Jobim é teimoso e gosta de polemizar – daí nossa afinidade, que só faz aumentar com os confrontos democráticos, e, ao final, bem-humorados, que cultivamos.

Dali em diante, é muito difícil indicar um momento da elaboração das leis que não tenha tido a presença do Nelson Jobim. Agora, aceitou outros desafios – reaparelhar as Forças Armadas e resolver as dificuldades da aviação civil. Hércules não trocaria suas 12 tarefas por essas duas. A solução dessas questões certamente colocará Jobim, de 61 anos, não entre os cem, mas entre os dez brasileiros mais influentes. Apenas a tentativa de enfrentar tamanhos problemas já o habilita ao reconhecimento nessa galeria.

MIRO TEIXEIRA, deputado federal (PDT-RJ)

JOSÉ SERRA

O governador do Estado mais poderoso do país trabalha em silêncio por um projeto nacional
José Serra é dos brasileiros mais preparados da atualidade, técnica e politicamente. Agora, como governador de São Paulo, o Estado mais importante do país, já pôs em prática diversos programas que acelerarão o crescimento da região de forma sustentada. Aos 65 anos, Serra conhece os problemas brasileiros e tem enorme capacidade de análise e de interpretação dos fatos da vida nacional. Tem noção como poucos dos fundamentos de nossas reais dificuldades e dos imensos desafios que estão pela frente. Tem larga experiência como economista e homem público: foi deputado, senador e o secretário que cuidou do planejamento de São Paulo; líder partidário durante a Constituinte e ministro duas vezes. Ao enfrentar a dificílima responsabilidade de gerenciar o setor de saúde, saiu do cargo reconhecido como o melhor ministro dessa área de todos os tempos. Foi prefeito de São Paulo, a maior cidade brasileira. Graças a seu trabalho, pode-se dizer hoje que a metrópole está nos trilhos. É um líder nato, que pensa no Brasil de amanhã e nas grandes e urgentes decisões que precisam ser tomadas, sem demora. Já perdemos muito tempo. Serra é o homem certo para aglutinar as forças vivas e produtivas do Brasil, em torno de um projeto de desenvolvimento para o país.

GILBERTO KASSAB, prefeito de São Paulo

ANTONIO ANASTASIA

Ele mostrou que “choque de gestão” não é só um slogan

O desempenho de Antonio Anastasia primeiro como secretário de Planejamento e Gestão e, agora, como vice-governador tem vital importância no modelo administrativo implantado em Minas, baseado na governança inovadora, eficiente, responsável. Ficou demonstrado que nosso “choque de gestão” não é um slogan vazio. Ao contrário, ele colocou Minas Gerais na vanguarda da renovação administrativa que precisa chegar um dia a todos os Estados. Anastasia, mestre em Direito Administrativo pela Universidade Federal de Minas Gerais, tem, aos 46 anos, um papel central nesse desafio. Para enfrentá-lo, reúne todas as qualidades: experiência, vocação pública, competência e talento para servir.

AÉCIO NEVES, governador de Minas Gerais

PAULO LACERDA

Um servidor público padrão

Imperturbável, arguto, impessoal, Paulo Lacerda, de 61 anos, é o padrão de servidor público, avesso às luzes da ribalta e só preocupado com sua missão, que é sua vocação: servir ao Estado, e não ao governo; ao país, e não a seus eventuais superiores hierárquicos. Conheci-o no começo dos 90, eu advogado criminal, e ele investigando o esquema Collor/PC. Em fins de 2002, como ministro da Justiça do presidente Lula, sabia da importância da Polícia Federal no quadro de reconstrução institucional. Lacerda, que em outros ensejos recusara o cargo de diretor-geral da instituição, aceitou então meu convite para, numa definição improvisada, transformar a Polícia Federal no “FBI brasileiro”. Trabalhamos juntos por 50 meses, despachando quase diariamente, em meu gabinete, às 8h30 da manhã. Criava-se assim a Polícia Federal, que hoje é a mais admirada e aprovada das instituições brasileiras, “republicana e impessoal, que não protege nem persegue”.

Agora ele encara outro desafio, a diretoria da Agência Brasileira de Inteligência. Com certeza prosseguirá empenhado na construção de um Brasil mais seguro, que possa se inspirar na lição de Montesquieu: uma sociedade não se constrói sobre a virtude dos homens, mas, sim, sobre a solidez das instituições.

MÁRCIO THOMAZ BASTOS, advogado e ex-ministro da Justiça

PATRUS ANANIAS

O homem do Bolsa-Família

Minha amizade com o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome é anterior à fundação do PT, na década de 80, de que nós dois participamos. Quando Patrus foi prefeito de Belo Horizonte, essa relação se intensificou, pois fui secretário da Fazenda. Como prefeito, Patrus viabilizou as políticas de combate à fome e à desnutrição e implantou o orçamento participativo e o Restaurante Popular.

Neste ano, Patrus, de 55 anos, se destacou ao organizar a gestão dos projetos sociais do país, entre eles o Bolsa-Família, área que se tornou um pilar do governo Lula. Seu trabalho está garantindo a todos os brasileiros o acesso a direitos básicos. Foi fundamental na melhoria da distribuição de renda e no crescimento econômico.

FERNANDO PIMENTEL, prefeito de Belo Horizonte


GILBERTO KASSAB
Ele mudou a cara de São Paulo com a Lei Cidade Limpa

O que se requer de um político para entrar na rampa de acesso ao estadista? Várias, mas pelo menos três capacidades: articular maiorias, projetar o futuro e resistir. Gilberto Kassab, de 47 anos, tem as três, sempre e simultaneamente. Como articulador – em situações diversas –, produziu decisões políticas que se tornaram permanentes, como a reversão do perfil das lideranças do PFL na Câmara dos Deputados. O estilo conhecido dele não permitiria a muitos projetar que, entre os programas desenvolvidos pela Prefeitura de São Paulo, a questão ambiental – de fácil comunicação de imagem, por meio do Cidade Limpa – seria um diferenciador nacional de sua administração. Esse é outro exemplo de outra capacidade. E, finalmente: quem não acompanhou a eleição municipal de 2004, onde ele, como vice de José Serra, foi escolhido como alvo pelo PT? Recebeu todo tipo de invectiva agressiva e portou-se com a tranqüilidade de quem não deve e não teme. Resistir numa situação daquelas, à espera do tempo para revertê-la, é atributo difícil de encontrar em políticos. Kassab nunca se atracou com os detratores. Nunca desqualificou a imprensa. Resistiu porque sabia de sua capacidade para projetar cenários e realizá-los e de sua capacidade para articular – crescentemente – apoios e maiorias, parlamentares e de opinião pública.

CESAR MAIA, prefeito do Rio de Janeiro


JOSÉ SARNEY
O camisa 10 do Senado


Com todo o respeito aos senadores da República, José Sarney, de 77 anos, é o número um da Casa. Tanto pela experiência quanto pelo conhecimento e vivência. Hoje, quando se tem um problema, a primeira preocupação de um senador é querer ouvi-lo. Se pensássemos o Congresso como um time de futebol, teríamos de dar a ele a camisa 10. O motivo dessa liderança, ressaltado durante os momentos de crises, é que ele tem noção exata da política. Suas posições são firmes, sem nunca deixar de procurar a conciliação, pronto para manter o núcleo de seus pensamentos. Não fosse a capacidade de Sarney de encontrar soluções para conciliar e entender a posição das pessoas, acredito que dificilmente teríamos consolidado o regime democrático no país durante a Nova República.

Na transição para a democracia, sua presença foi de grande importância. Ele tinha muita credibilidade junto aos militares – e não pensem que a transição foi fácil. Tudo era complexo. Naquela época, atuei no Ministério da Fazenda e aprendi que um ministro não pode fazer tudo o que quer. Com Sarney, percebi a importância de aprender o jogo político. Lembro-me de um episódio pouco depois da eleição e antes da posse de Tancredo Neves, em 1985. Um dos futuros ministros me procurou, alarmado com problemas latentes com as Forças Armadas. Como o presidente eleito estava fora do país, fui conversar com o vice-presidente. Contei o imbróglio a Sarney, que respondeu serenamente: “Vamos resolver, mas há muitas informações. Na política, ser informado demais pode levar ao não-senso”.

FRANCISCO DORNELLES, senador (PP-RJ) e ministro da Fazenda no governo Sarney

FRANKLIN MARTINS
O ministro que tenta mudar o relacionamento de Lula com a mídia

Franklin Martins, de 59 anos, passou 20 anos em Brasília explicando a leitores e telespectadores como funcionam o governo e os políticos. Foi repórter, comentarista de rádio e TV e diretor-regional da Rede Globo. Em março de 2007, quando aceitou o convite para ser ministro da Comunicação Social, sua missão passou a ser explicar ao presidente Lula como funciona a imprensa e como se relacionar com ela – um dos pontos mais fracos do governo. Franklin – que na juventude participou do seqüestro do embaixador dos Estados Unidos, em 1969, dirigiu o MR-8 e foi candidato a deputado pelo PMDB – rapidamente se tornou um dos auxiliares mais ouvidos por Lula. Está comandando a criação da TV estatal e convenceu o presidente de que é mais útil transmitir sua visão do país por meio de entrevistas do que reclamar das críticas sem rebatê-las nos meios de comunicação.

FERNANDO HADDAD
Um gestor à frente da educação

Haddad, de 44 anos, está fazendo a máquina da educação funcionar. Isso não basta para mudar a educação brasileira, porque é preciso revolucionar a máquina. Isso ele não está fazendo, porque não pode fazer. Não é por culpa do ministro, mas o Brasil está ficando para trás em educação. Haddad é um técnico competente e deve usar essa competência para gerenciar metas políticas definidas pelo presidente. Ser bom gestor não importa tanto na educação, porque não é uma questão de técnica. Você pode ser um bom gestor parado. Só se justifica analisar uma boa gestão pelos resultados conseguidos. E os indicadores mostram que os resultados da educação ainda são débeis e aquém das exigências.

CRISTOVAM BUARQUE, senador (PDT-DF)


JOSÉ GOMES TEMPORÃO
Um médico diante do desafio de melhorar a saúde do brasileiro


Meu relacionamento com José Gomes Temporão é estreito. Embora eu o conheça pessoalmente há menos de um ano, ouvia falar de seu nome muito antes de se tornar ministro. Sempre tive boa impressão dele. Temporão fez um trabalho elogiado por todos à frente do Instituto Nacional de Câncer, de 2003 a 2005, e em seguida na Secretaria de Atenção à Saúde. Como brasileiro, torci por sua nomeação para o ministério, que ocorreu no início deste ano.

Temporão, de 56 anos, é respeitado tanto no meio médico quanto fora dele. Às vezes, um excelente técnico não sabe pôr em prática o que pensa. Não é o caso de Temporão. Como ministro, ele tem procurado atuar em várias frentes. É uma pessoa de fácil trato, que sabe ouvir opiniões, rebate e discute críticas. Recentemente, fiquei impressionado com seu desempenho no programa Roda Viva, da TV Cultura. Ele se mostrou preparado e sincero. Temporão tem agradado pelo trabalho sério. É claro que melhorar a saúde brasileira é um trabalho de longo prazo. Mas é gratificante ter alguém como Temporão à frente da área.

ROBERTO KALIL FILHO, professor livre-docente de Cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, tem entre seus pacientes o presidente Lula

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Um líder com marcas perenes no mundo da política nacional

As marcas da Presidência de Fernando Henrique Cardoso ainda são visíveis. Por isso ainda hoje ele é uma figura respeitada e ouvida sempre que se manifesta sobre a situação nacional. Quase tudo em seu governo teve um conteúdo social, a começar pelo eficiente combate à inflação. Pôs-se ordem na casa, sem o que as realizações específicas dificilmente poderiam ter êxito, menos ainda permanente. A educação teve um impulso notável. O programa Bolsa-Escola conseguiu que, ao fim do governo, a população escolar incluísse a grande maioria, senão a totalidade da infância brasileira. Isso se completou pela ampliação do ensino médio e superior, nos quais incluo as escolas técnicas, que tiveram considerável aumento. É verdade que nem tudo cresceu qualitativamente, pois isso faz parte de um processo mais demorado.

Não posso deixar de mencionar o esforço de avançar na reforma agrária e salientar o que foi feito no campo da saúde. Houve grande queda na mortalidade infantil, melhorou o combate à aids, agentes sanitários surgiram aos milhares, houve atenção especial às mulheres no sistema de saúde e foram adotados os remédios genéricos, com a quebra de patentes quando os medicamentos eram excessivamente custosos. Essas realizações foram obra do conjunto da administração, mas, obviamente, devem-se a sua inspiração.

JOSÉ MINDLIN, empresário e bibliófilo

FERNANDO GABEIRA
Um inconformista na Câmara dos Deputados

Na mesmice do Parlamento, Gabeira, de 66 anos, tem idéias. Tendo idéias, não se apega a elas como dogmas. Tem o mérito de continuar a ser um inconformado e um inadaptado. Foi um dos líderes do movimento de denúncia das reinações de Renan e que tais. Agora, discutindo a questão da votação secreta no processo de cassação de Renan, disse que nós, deputados, não podíamos ter inibição de assistir à sessão do Senado. Afinal, éramos congressistas e estava se julgando o presidente do Congresso Nacional. Quando um segurança, alegando razões burocráticas, tentou impedir a entrada dos parlamentares, Gabeira tomou a frente. Foi o primeiro a levar o safanão. Para se defender, ergueu o braço e acertou o Tião Viana. Mas, do mesmo jeito que deu um soco involuntário, deu um beijo, pediu desculpas.

CHICO ALENCAR, deputado federal (P-SOL-RJ)

ANTONIO FERNANDO SOUZA
O procurador dos mensalões

O procurador-geral da República, Antonio Fernando, de 59 anos, é uma pessoa tímida, que não gosta de aparecer. Mas, quando apareceu, com a denúncia do caso do mensalão, se manteve coerente com um princípio que sempre o acompanhou: a independência. Mais que um ato de coragem, a denúncia feita pelo procurador-geral demonstra fidelidade a um compromisso institucional. Isso é fundamental para o país. Significa o controle, por uma instituição autônoma, de todo ato que envolva o interesse público. Essa postura compromissada com a verdade institucional não só inspira, como motiva todos os membros da instituição a atuarem na mesma linha.

Essa é uma característica que chamou a minha atenção logo que o conheci, há mais de 20 anos. Na época, ele defendia uma ação para preservar o Parque Nacional do Iguaçu, enquanto eu defendia os atos dele em Brasília. Queriam criar uma estrada que cortava um santuário ecológico. Ele foi o primeiro a defender a preservação do parque, numa época em que não se falava em meio ambiente. Já mostrava uma vocação para a defesa da sociedade. Temos apenas uma grande divergência: ele é flamenguista, eu sou vascaíno.

CLÁUDIO FONTELLES, ex-procurador-geral da República

DELFIM NETTO
Ele transformou-se com o país

Delfim e eu divergimos muito no tempo da ditadura militar, quando estivemos em campos opostos. Hoje, depois da anistia que nos concedemos mutuamente, mantemos um diálogo afetuoso (ainda que às vezes dissonante). Em artigos, aulas e palestras, ele mostra que aderiu à idéia de que a democracia é fundamental para corrigir os desmandos do mercado – democracia no sentido amplo, com inclusão social e redução da desigualdade. Despido de partidarismos, Delfim transformou-se com o Brasil. Aos 79 anos, é ouvido com freqüência pelo presidente Lula e influente tanto na opinião conservadora quanto na de esquerda.

LUIZ GONZAGA BELLUZZO, economista

AÉCIO NEVES
Um campeão de popularidade

Bernard Shaw dizia que o estado de permanente bom humor é uma das melhores provas de inteligência. Aécio Neves, de 46 anos, é desses homens. É bom de conviver e sempre tem uma ótima tirada. Aécio e eu nos conhecemos desde a época em que fomos deputados federais na Assembléia Nacional Constituinte. Depois, tivemos um relacionamento mais próximo quando fomos governadores e, mais recentemente, durante a campanha eleitoral de 2006, quando, durante nossas caminhadas pelas Alterosas, pude ver sua enorme popularidade e carinho entre os mineiros.

Na política, ele representa o novo com a garantia da tradição mineira e governa com firmeza e competência. Seu governo é aprovadíssimo – ele foi um dos candidatos mais votados nas últimas eleições. Isso é resultado de um grande esforço de gestão, que ampliou a infra-estrutura e melhorou os serviços públicos e a capacidade de investimentos de Minas Gerais. Também soube montar uma excelente equipe, em que se destaca seu vice, Antonio Anastasia. Como diria o falecido governador de São Paulo Franco Montoro (1916-1999), o maestro não precisa saber tocar todos os instrumentos, mas montar uma orquestra competente e afinada.

GERALDO ALCKMIN, ex-governador de São Paulo

HENRIQUE MEIRELLES
O guardião da estabilidade da economia brasileira

Lembro o dia em que convidei Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central. Surpreso, pois tinha acabado de ser eleito deputado federal, ele aceitou de imediato. Então, dei a má notícia: “Você vai ter de renunciar ao mandato”. Tivemos de partilhar decisões importantes num período muito crítico da economia. As medidas adotadas durante a gestão de Meirelles, de 62 anos, mostram que o controle inflacionário tem um impacto social positivo para os brasileiros. A experiência de Meirelles no mercado internacional aumenta sua capacidade de acompanhar os processos econômicos mundiais e de dialogar com as forças do país. Meirelles não é apenas um grande conhecedor do mercado. Trata-se de um ótimo administrador, embora poucos ressaltem tal característica.

ANTÔNIO PALOCCI, deputado federal (PT-SP) e ex-ministro da Fazenda

Escolhidos da impresa:

Fotos: Juan Esteves, Anderson Schngider e Felipe Varanda/ ÉPOCA, Anderson Schngider (2) e Frederic Jean/ ÉPOCA, Leo Drumont/Ag. Nitro/ ÉPOCA, Anderson Schngider, Gláucio Dettmar, Ricardo Corrêa/ ÉPOCA e Antonio Gauderio/ Folha Imagem, Anderson Schneider/ ÉPOCA (2), Ricardo B. Labastier/ ÉPOCA e Frederic Jean/ ÉPOCA, Anderson Schngider/ ÉPOCA (2), Ruy Baron/Valor/ Folha Imagem, Cacalos Garrastazu/Valor/ Folha Imagem e Eugenio Sávio/ ÉPOCA

Mídia

ROBERTO IRINEU MARINHO
O paranóico improvável

“Só os paranóicos sobrevivem”, escreveu Andy Grove, fundador da Intel e uma das mentes mais agudas do mundo dos negócios em todos os tempos. Grove queria dizer que, sem uma preocupação obsessiva com o mercado, o negócio e as inovações, empresa nenhuma poderia aspirar a uma vida longa. Roberto Irineu Marinho, de 60 anos, presidente das Organizações Globo, é, dentro do conceito groviano, um paranóico improvável. Quase sempre em mangas de camisa, voz baixa, ouvidos abertos no limite aos interlocutores, avesso às luzes do holofote e descentralizador, Roberto Irineu aparenta ser um carioca tranqüilo. Mas como executivo à frente da maior, mais influente e por isso mesmo mais combatida empresa de mídia do país ele cabe com perfeição na frase de Andy Grove. Roberto Irineu Marinho é um competidor obstinado, um cobrador apaixonado da qualidade – tanto no conteúdo de suas empresas de variadas mídias como na gestão administrativa e estratégica de cada uma delas.

Primogênito do jornalista Roberto Marinho (1904-2003), o incansável empreendedor que construiu um império multimídia a partir de um pequeno jornal fundado pelo pai, Irineu, Roberto Irineu comanda as Organizações Globo ao lado dos irmãos João Roberto e José Roberto. João Roberto é o editor da Globo e também o interlocutor da empresa diante do mundo político. José Roberto cuida sobretudo da ação social da Globo, um trabalho no qual se destaca a Fundação Roberto Marinho. Os três irmãos, que o pai pôs para trabalhar no jornal O Globo desde garotos, são igualmente informais, francos, cultores de princípios e despojados dos símbolos conspícuos do poder. Mas quem os conhece sabe que eles são competidores por excelência, paranóicos no sentido dado à palavra por Andy Grove – o que ajuda a entender a longa e firme liderança das Organizações Globo na mídia brasileira.


ROBERTO CIVITA
O criador de revistas

De sua empresa, a Abril, sai metade dos 500 milhões de exemplares de revistas produzidos por ano no Brasil, o que a torna a maior editora da América Latina. A mais conhecida delas é Veja, que lançou há 39 anos para realizar a ambição dele e de seu pai, Victor Civita, de fazer no Brasil a primeira revista semanal de informação nos moldes da americana Time. Veja viveu seu período de ouro nos anos 80, quando era amplamente admirada (e copiada) pela prosa elegante e pelo esforço em analisar o Brasil e o mundo sob a ótica da complexidade, mas ainda conserva uma forte influência.

Roberto Civita, o RC, é a alma da Veja: preside, toda quinta-feira, a reunião com o comando da redação para discutir e aprovar a capa e as matérias mais importantes. A receita inovadora da Abril, que passou de pai para filho, foi introduzir no mundo das revistas brasileiras uma fanática separação entre a área editorial e a área comercial, em defesa da credibilidade. Outra foi a aposta em recrutar e formar jornalistas talentosos e bem pagos. Era comum, até o advento da Abril, o jornalista de dois empregos.

Pessoalmente, Roberto Civita é um charmeur. Dono de um sotaque americano à prova do tempo, coloca com graça espirituosa expressões em inglês em suas conversas.(Ele nasceu em Milão, mas cresceu nos Estados Unidos antes de vir adolescente para o Brasil.) Manda bilhetinhos em caneta vermelha para seus editores e executivos, fazendo a alegria ou o pesadelo dos que os recebem. Roberto, de 71 anos, é apreciador notável das mulheres, como seu pai, Victor – mas parece certo dizer que seu maior amor na vida são as revistas.

ELIO GASPARI
O maior de todos os jornalistas brasileiros

Elio Gaspari é o maior de todos nós, jornalistas. Os leitores o conhecem pela coluna semanal nos principais jornais do país: informada, espirituosa, cáustica, pluralista e bem escrita. Os políticos e poderosos o temem por aquilo que apura e publica em notas imprevisíveis, surpreendentes e isentas, ou pelo menos aquilo que no jornalismo mais se aproxima da isenção. Cultor de fontes de qualidade, dono de memória histórica implacável, Elio Gaspari construiu seu carisma profissional baseado apenas no que escreve. Não é conhecido (fotos suas são raras, nunca aparece na televisão), não dá entrevistas nem palestras (no Brasil) e nem sequer promoveu sua monumental história do regime militar de 64 com noites de autógrafo.

Com seu texto refinado, enxuto, douto quando quer, Gaspari, de 63 anos, criou expressões cuja origem nem sempre lhe é reconhecida: metralhadora giratória, comissariado petista, privataria tucana, politicamente correto (que trouxe para o Brasil quando era correspondente da Veja em Nova York). É dele a frase “pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”, que atribuiu ao carnavalesco Joãosinho Trinta numa das raras práticas gasparianas de duvidosa qualidade: escrever frases em geral brilhantes e depois procurar autor para elas. Criou também personagens impagáveis para fustigar maganos que se aboletam no andar de cima e mamam na bolsa da Viúva (Eremildo, o Idiota) e farsantes que malversam o vernáculo para uma boa enrolation (Madame Natasha, Professora de Piano e Português).

Com todas essas virtudes, como colunista jamais alcançou a grandeza épica que teve como diretor-adjunto de redação da Veja, nos anos 80, quando alguns colegas o chamavam de General. Compôs com o jornalista José Roberto Guzzo, então diretor de redação da Veja e outro talento superior, o que foi uma das maiores duplas da imprensa brasileira. Na Veja, Gaspari mostrou o jornalista completo e brilhante que é, inovador, inspirador, exigente nos limites do absurdo, descobridor de talentos e com um peculiar gosto pela busca da informação e revelação de bastidores. Quem conviveu com ele no período ainda se lembra da semana em que escreveu uma matéria de capa na Veja do fim para o começo, por razões de fechamento na gráfica.

OTAVIO FRIAS FILHO
O jornalista relutante

Em sua vida pessoal, Otavio Frias Filho contrasta com a imagem de arrojo e modernidade que emana das páginas do jornal que comanda, a Folha de S.Paulo. É um homem sóbrio, discreto, sempre vestido com ternos escuros e óculos de aros pretos. Dá broncas sem elevar o tom de voz. As palavras saem de sua boca como se formassem um texto já editado, pronto para publicação. Otavio começou a freqüentar ainda menino o jornal do pai, Octavio Frias de Oliveira, morto em abril passado. Desde os 17 anos, foi preparado por Cláudio Abramo – um dos maiores nomes do jornalismo brasileiro – para um dia comandar a Folha. Aos 27, assumiu a direção de redação. Em sua gestão, a Folha se tornou o diário de maior circulação no Brasil, graças ao inovador Projeto Folha, que preconizava um jornalismo pluralista, independente e apartidário. Com diagramação leve e moderna, e uma fina capacidade de captar o espírito do tempo, a Folha distinguiu-se do sisudo e tradicional Estadão e conquistou os leitores jovens.

Otavio dirige carros modestos, desdenha o universo da política e não usufrui as pompas que o cargo poderia lhe conferir. Prefere ser reconhecido pela sofisticação ou pelo preparo cultural. Não esconde seu apreço por filósofos de linha pessimista, como Schopenhauer. Seu humor irônico pode ser facilmente confundido com sarcasmo. Autor de peças teatrais, textos infantis e ensaios, sempre considerou o jornalismo uma atividade intelectualmente “menor” diante de empreendimentos acadêmicos. Aos 50 anos, ele é um jornalista relutante. É com essa relutância que, há 23 anos, comanda o maior jornal do país.


RUY MESQUITA
O patriarca de uma instituição paulista, o Estadão

Sua rotina não muda. Por volta das 4 horas da madrugada, Ruy Mesquita vai para a banheira, onde lê os jornais do dia. Durante a manhã, o doutor Ruy – forma como é tratado pelos subordinados – discute por telefone os temas que julga importantes com os jornalistas de sua confiança. Ao meio-dia e meia, costuma chegar dirigindo o próprio carro à sede do jornal da família, O Estado de S. Paulo. Vítima de paralisia infantil na perna esquerda, ele segue de bengala até sua sala. Depois de dirigir o Jornal da Tarde por 30 anos e o próprio Estado por sete, o doutor Ruy ocupa, desde a reestruturação da empresa, o cargo de diretor de opinião. Sob seu comando está a página 3 do Estadão, cujos editoriais são, nas palavras escritas pelo ex-diretor de redação Sandro Vaia, “respeitados e temidos até por quem os odeia”. (Vaia conta que, demitido em 2006, depois de 40 anos de trabalho na empresa, o doutor Ruy, com quem lidava diariamente, não falou com ele, apenas deixou uma mensagem com “palavras simpáticas” na caixa postal do celular.)

Ícone do pensamento liberal, a página 3 do Estadão é, em estilo e qualidade, a melhor página de opinião da imprensa brasileira. Ruy remenda à mão os editoriais, com uma caligrafia que poucos conseguem entender. Ele vê com ceticismo o avanço das novas mídias, a discussão em torno do futuro das publicações impressas e o que ele considera predomínio do marketing sobre a qualidade jornalística. Para descrever o fenômeno, criou até um neologismo: “murdoquização”, uma referência ao magnata australiano Rupert Murdoch, principal acionista do grupo de mídia News Corp. Murdoch comprou em 2007 o americano Wall Street Journal da centenária família Bancroft, apesar dos protestos de quem considerava que ele conspurcaria a pureza editorial do jornal. Líder do clã Mesquita – considerado uma espécie de equivalente brasileiro ao clã Bancroft –, o doutor Ruy luta, aos 82 anos, para evitar que o Estadão tenha o mesmo destino.


DIOGO MAINARDI
Ele “mainardizou” a Veja

Ele não tem muita elegância no estilo, não tem exatamente precisão no que escreve, não tem compromisso rigoroso com os fundamentos do bom jornalismo. É previsível no essencial: sabe-se sempre que vai ser do contra. Todo mundo está aplaudindo Tropa de Elite? Ele vai malhar. Tem uma coragem que se confunde com irresponsabilidade. Diogo Mainardi, colunista da Veja, tem, enfim, todas as características que deveriam levá-lo à irrelevância. Mas mesmo os que o detestam, e não são poucos, reconhecem nele uma leitura obrigatória. Mainardi acontece. Ele ergueu-se no vazio que tomou conta do polemismo na cena jornalística brasileira depois da morte de Paulo Francis. A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para presidente em 2002 contribuiu também, paradoxalmente, para sua ascensão. Com suas diatribes – muitas vezes justificadas – contra Lula, amigos e simpatizantes, Mainardi, de 45 anos, acabou atraindo a admiração de uma parcela expressiva das pessoas que simplesmente abominam o governo petista.

Mainardi é o campeão disparado de cartas de Veja. Por maior impacto que tenha sobre o mundo exterior, ninguém parece ter sido tão influenciado por Diogo Mainardi quanto a revista da qual é colunista. De certa forma, Veja se mainardizou nos últimos anos. É mais que provável que, enquanto Lula estiver no poder, Mainardi permaneça na lista dos jornalistas mais barulhentos e mais comentados do país.

MIRIAM LEITÃO
Uma referência no jornalismo econômico

Para alguns milhões de brasileiros, o comentário matinal da jornalista Miriam Leitão no Bom Dia Brasil, da TV Globo, é o primeiro contato com os fatos econômicos mais importantes. A opinião da colunista vai acompanhá-los ao longo do dia. Antes de sair de casa, os leitores de O Globo e de outros jornais que publicam sua coluna diária terão uma análise mais ampla dos fatos. A caminho do trabalho, sintonizados na rádio CBN, também vão ouvir Miriam comentar acontecimentos de última hora. Miriam em pessoa pode estar na empresa ou na instituição em que seus leitores trabalham, porque é uma das jornalistas mais requisitadas para palestras no país. Em último caso, ela poderá ser encontrada em uma das páginas de mais alto índice de acesso na internet. Ou na Globonews, conduzindo entrevistas com perguntas claras e incisivas.

Ela é a maior referência no jornalismo econômico e de negócios, desde Joelmir Beting nos anos 1980, porque domina os mecanismos de decisão e as fontes de notícia no setor público, no mercado e nas empresas. Como outros jornalistas de sua geração, Miriam foi militante de esquerda. Foi presa e torturada grávida, antes de iniciar a carreira de repórter.

Miriam Leitão, de 54 anos, está em toda parte porque é uma jornalista multimídia, mas também porque tem opinião sobre tudo o que considera relevante – da política ao meio ambiente, da diplomacia às políticas de inclusão social. Uma opinião que nos acompanha todos os dias.

DORA KRAMER
Uma jornalista que capta no ar as tendências da política

A coluna da jornalista Dora Kramer é um dos espaços mais personalizados da imprensa brasileira. A opinião da autora sobre o fato político e os personagens do poder é a principal característica de seus textos, publicados diariamente em O Estado de S. Paulo. Dora, de 62 anos, aborda suas fontes em Brasília com uma curiosidade insaciável, quase infantil. De posse das informações, ela reduz os rituais do poder a sua natureza mais simples, valendo-se de expressões corriqueiras como “que vantagem Maria leva?”.

Contundentes, as opiniões de Dora Kramer não passam despercebidas aos leitores. Nem aos políticos. O governador José Serra elogia o estilo literário e chama seus artigos de crônicas, um gênero jornalístico tipicamente autoral. Roberto Civita, da Editora Abril, a considera a melhor analista política do país. O governador José Roberto Arruda diz que Dora consegue captar as tendências políticas no ar, antes que se materializem. Mais que reproduzir elogios à jornalista, as declarações acima mostram a qualidade dos leitores de Dora Kramer e explicam por que ela é uma das mulheres mais influentes do país.

ARNALDO JABOR
Um analista desencantado com o Brasil

Arnaldo Jabor ficou muito conhecido ao se tornar comentarista do Jornal Nacional. Aparece menos na TV, agora, mas é colunista numa rede de jornais, na rádio CBN, escritor best-seller e palestrante requisitado. Um dos cineastas ícones do Cinema Novo, ele se tornou jornalista e colunista perto dos 50 anos, meio por acaso, ao ser apresentado a Otavio Frias Filho, da Folha de S.Paulo, por Fernando Gabeira. Aos 66 anos, Jabor faz análises virulentas, cultas e desencantadas do mundo político e da alma brasileira.

Era muito amigo de Nélson Rodrigues, a quem cultua de modo obsessivo. Falavam-se todos os dias ao telefone. Sempre que Jabor atendia, Nélson perguntava “você por acaso é contínuo de si mesmo?”, por julgar inapropriado que alguém atendesse o próprio telefone. Quando Jabor perguntava “como você está?”, Nélson respondia “eu continuo na minha luta obscura”, bordão que Jabor até hoje usa para responder à mesma pergunta. Empresta igualmente de Nélson a expressão que melhor define sua desolação diante da vida como ela é: “Se o mundo acabar, não se perde nada”. Mas Jabor também vive dizendo que “só a arte salva” e, por essa crença, trabalha no roteiro de seu novo longa, um filme de memórias da infância.

MERVAL PEREIRA
Os comentários dele estão no jornal, no rádio e na televisão

Depois de uma longa jornada como repórter, editor, correspondente em publicações como Veja, Jornal do Brasil e O Globo – neste último, ele ocupou o cargo de diretor de redação –, o jornalista Merval Pereira decidiu se “reinaugurar”, em 2003, como analista político. Hoje, Merval é um dos mais bem-sucedidos analistas multimídias no Brasil. Escreve uma coluna diária em O Globo, faz comentários na rádio CBN e é presença constante nos telejornais da Globonews.

O rosto na TV levou Merval, de 58 anos, a uma situação nova para um jornalista, como ele, nascido e crescido na mídia impressa: ser reconhecido nas ruas. No rádio e na TV, Merval comenta o cotidiano da política e tenta desvendar manobras de bastidores no jogo do poder. Na coluna, analisa esse jogo com profundidade, muitas vezes apoiado na opinião de cientistas políticos e outros acadêmicos – que lhe conferem rigor e durabilidade. Para seu primeiro artigo, Merval escolheu o título “Por favor, leiam este artigo” – um gesto de humildade e bom humor do colunista estreante, mas com 40 anos de experiência no ofício de jornalista. Em Brasília, a coluna do Globo é uma das primeiras leituras de parlamentares e ministros. Seus poderosos – e fiéis – leitores freqüentemente são alvo de seus textos copiosos, recheados de argumentos.

JUCA KFOURI
O caçador de cartolas

Com sua monocórdia obsessão contra os cartolas do futebol, Juca Kfouri se tornou o Dom Quixote do jornalismo esportivo. Um Dom Quixote irônico, mal-humorado e muitas vezes enfadonho – mas respeitado e ouvido. Não conseguiu derrotar seu maior “moinho”, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, contra quem move uma guerra pessoal há mais de uma década. Mas nos últimos anos Juca venceu alguns adversários. O mais recente foi o presidente do Corinthians, Alberto Dualib. Em setembro, Juca publicou em primeira mão grampos da Polícia Federal que comprometiam Dualib, na investigação da parceria do Corinthians com os obscuros investidores estrangeiros da MSI. O “furo” jornalístico contribuiu para a renúncia de Dualib, dias depois.

Presente em várias plataformas – é colunista da Folha de S.Paulo e apresenta programas na rádio CBN e no canal de TV por assinatura ESPN Brasil –, Juca, de 57 anos, se adaptou bem à era digital. Seu blog, criado em 2005, vem recebendo mais de 2 milhões de visitas por ano. Seus chats semanais com os internautas são líderes de audiência do portal que os organiza. Com a força do público jovem, a cruzada de Juca continua a tirar o sono dos cartolas.


JOHNNY SAAD
O capitão de um grupo em expansão

Quando cursava o ensino fundamental, João Carlos Saad, conhecido desde criança como Johnny, ouviu de um colega o seguinte comentário: “Se eu fosse filho do dono de uma emissora de TV, nem estudava. Ia trabalhar direto”. Johnny respondeu que era preciso estudar, sim. Formou-se em Administração pela FGV, em São Paulo. Mas trabalhou também desde cedo com o pai, João Jorge, fundador da Rede Bandeirantes. Começou no rádio, depois implantou a rede de TV. Aos 56 anos, Johnny lidera hoje a expansão do grupo. Ele aumentou a rede de emissoras filiadas, lançou canais exclusivos de notícias e de esportes e, neste ano, um jornal gratuito distribuído em São Paulo, o Metro. E, principalmente, fundou a Bandnews FM, que, com a rede CBN, tem ajudado a revigorar o rádio no Brasil.


EDIR MACEDO

O líder da Igreja Universal

O fundador e líder da Igreja Universal do Reino de Deus é o maior símbolo da ascensão da religião evangélica no Brasil. Sua seita tem entre 10 milhões e 15 milhões de fiéis em todas as regiões do país, que ajudam a eleger uma bancada de congressistas coesa. Entre seus simpatizantes está o vice-presidente da República, José Alencar. Se lhe confere uma inegável influência, sua atuação à frente da Igreja Universal também lhe reserva um espaço polêmico. Já foi preso em 1992, acusado de charlatanismo, envolveu-se numa briga com a Igreja Católica, quando um de seus pastores chutou a imagem de uma santa num programa de TV, e ainda hoje faz sucesso no YouTube um vídeo em que ele ensinava outros pastores, com termos agressivos, a extrair dinheiro dos fiéis.

Há alguns anos, no entanto, Macedo, de 62 anos, vem tratando de fortalecer a imagem de empresário das comunicações. O primeiro passo foi “descontaminar” a programação da Rede Record do conteúdo religioso que era sua marca na década de 90. A segunda aposta foi trilhar o mesmo caminho da líder de audiência, a Rede Globo. Com altos investimentos, clonou o estilo do Jornal Nacional e das novelas de sua rival, com bons resultados: neste ano, a Record assumiu a vice-liderança na audiência nacional nos principais horários, embora ainda distante dos números da Globo. A maior prova do crescente prestígio de Macedo foi dada em setembro. A inauguração de seu novo canal de TV, o Record News, contou com a presença do presidente Lula e do governador de São Paulo, José Serra. Na cerimônia, Edir Macedo não se apresentou como bispo – apenas como empresário.



: Róbson Fernandjes e Tasso Marcelo/AE, Felipe Varanda/ÉPOCA e Joedson Alves/AE, Frederic Jean/ ÉPOCA, Gustavo Stephan/ Ag. Estado, Jorge Bispo, Iara Venanzi e Evelson de Freitas/AE

Ídolos & Heróis

IVETE SANGALO

A campeã brasileira da alegria

Eu a chamo de Ivetão por sua grandeza e porque, quando ela chega, chega mesmo, e preenche todos os espaços. Lembro-me de Ivete Sangalo no começo de carreira, num dos trios elétricos de Salvador. Alguém disse: “Esta moça é das que fazem do Carnaval da Bahia um palco”. Ivete, de 35 anos, é de Juazeiro, terra de João Gilberto. Ela é toda música, de um jeito visceral e profundo. Também acho importante esse lado raízes, de quem vem de uma família de músicos. Ela é de uma geração que não nega o regional, mas não deixa isso ofuscar o contemporâneo. Bem baiana e bem Nordeste, mas também universal, cosmopolita. É uma flecha, rápida, cheia de energia, aquela alegria toda. O Expresso 2222, meu trio elétrico, vai comemorar dez anos de existência, e a Ivete não poderá ir à festa por causa de compromissos de trabalho. Vai fazer uma falta danada!


GILBERTO GIL, ministro da Cultura

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