Garibaldi fala 5 vezes por semana em rádios do NE

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Para se manter próximo de seu eleitorado, o novo presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), conta com uma rede de 20 emissoras de rádio que transmitem cinco dias por semana o seu programa de bate-papo, o "Falando Francamente". São 19 emissoras no Rio Grande do Norte e uma na Paraíba, segundo a assessoria do senador. Pelo menos três delas, ainda de acordo com os assessores, recebem pagamento em dinheiro público para veicularem o programa -da chamada verba indenizatória, recurso à parte do salário dos parlamentares que permite despesas com "divulgação de mandato".

O gasto com as três rádios é, sempre segundo a assessoria de Garibaldi, de R$ 2.200 mensais. As outras emissoras divulgariam o material gratuitamente. A proximidade do senador com meios de comunicação foi revelada pela Folha, no início do mês. A reportagem mostrou que o Ministério das Comunicações -comandado pelo mesmo partido de Garibaldi- havia excluído o nome do senador da composição societária da TV Cabugi, em Natal.

A reportagem entrou em contato com as três que receberiam pela divulgação e com outras três. Todas alegaram sigilo comercial e não informaram detalhes do acordo. O programa existe desde 1965 e trata de política e amenidades. Nas duas últimas semanas, o senador aproveitou o espaço para trabalhar sua candidatura à presidência da Casa e para falar da CPMF.

Na terça-feira da semana passada, dia da votação do processo em que o ex-presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL) foi acusado de compra de rádios por meio de laranjas, Garibaldi disse a seus ouvintes que, diferentemente do processo anterior de Renan, da segunda vez ele votaria pela absolvição do colega. Ao se posicionar, foi repreendido por Erivan (técnico do estúdio) e Gerlane (assessora), personagens freqüentes nas gravações.

"Sei que estou contrariando muita gente, inclusive Erivan e Gerlane, que estão aqui contrariadíssimos e formam uma frente anti-Renan", brincou. A coloquialidade e o bom humor são marcas do programa. Na sexta-feira, ele elogiou o "Festival do Camarão" de Natal e aproveitou para fazer propaganda de um amigo. "E o "Festival do Camarão", ah, meu Deus! É bom tudo, mas esse camarão é de primeira. Quem me convidou foi o Aldo, que é muito amigo meu e dono da ótica que faz meus óculos." O programa costumava ser gravado num pequeno estúdio de seis metros quadrados no antigo gabinete do senador -que agora ocupa outro maior, o da presidência. A rotina do programa, assim como a do próprio senador, deve ser alterada. Os assessores já encomendaram um pequeno aparelho portátil para facilitar as gravações.

Nepotismo é marca da família de senador

Bacurau é uma ave de hábitos noturnos e também o apelido de um trem que, nos anos 60, partia de Natal (RN) só de madrugada. Diz o folclore que o ex-ministro do governo Sarney (1985-1990) Aluízio Alves, cacique da política potiguar e chefe do clã que tem presença ativa no Estado desde os anos 60, quando governava o Estado costumava distribuir os diários oficiais que trouxessem muitas nomeações de apadrinhados e parentes em edições limitadas e no final da noite. Assim, poucas pessoas conseguiam vê-los -como o trem da madrugada.

Os adversários logo carimbaram Aluízio, morto aos 84 anos em 2005, com o pejorativo "bacurau", associado a nepotismo e empreguismo. O clã apropriou-se do apelido e hoje todos se orgulham dele.

O novo presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), por exemplo, é um bacurau de alta plumagem. Uma marca negativa de suas duas administrações no Rio Grande do Norte (1995-2002) -além de ter enterrado duas CPIs e inúmeras denúncias de irregularidades que envolvem secretários de Estado- é o uso de cargos públicos para acomodar parentes e agregados.

Ao assumir o governo, em 1995, Garibaldi colocou o irmão, Paulo, na secretaria de Trabalho e Ação Social (depois, na Casa Civil), o pai, na presidência da Junta Comercial, o sobrinho, Sérgio, como oficial de gabinete da Governadoria, a irmã, Maria Auxiliadora, na presidência de uma fundação. A agência publicitária que venceu a licitação do governo, a RAF, pertencia a um primo.

Na segunda gestão, o governador emplacou o irmão como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Um conselheiro se aposentou "voluntariamente" e em troca foi empossado secretário de Agricultura de Garibaldi. Hoje Paulo é o presidente do TCE. Na quinta, o tribunal que tem a tarefa de julgar contas dos administradores públicos concedeu moção de congratulações a Garibaldi pela eleição no Senado.

Trajetória

É assim desde o começo da longa, acidentada e muitas vezes vitoriosa trajetória da família Alves, que já teve ministro, governadores, senadores, prefeitos, deputados federais e estaduais. O próprio Garibaldi começou a vida política em 1966 na gestão do tio, Agnelo Alves, então prefeito de Natal e hoje prefeito de Parnamirim. Com apenas 19 anos, Garibaldi foi nomeado chefe da Casa Civil.

Nenhum Alves esconde que a atuação de parentes em bloco é um método de trabalho. "A política, sobretudo a nordestina, é muito de agressões. Isso conduz as famílias a uma certa solidariedade. Fomos sempre muito unidos", conta Garibaldi Alves, 84, pai do presidente do Senado e irmão de Aluízio Alves.
Garibaldi, pai, teve um irmão assassinado por causa de brigas políticas. Expedito, então prefeito da cidade de origem do clã, Angicos (RN), foi morto a tiros por um adversário.

Não raro, as brigas entre os militantes, até os anos 80, também acabavam em brigas. Principalmente contra os "araras", apelido do outro clã que se reveza com os Alves no poder, a família Maia. A atual governadora, Wilma de Faria (PSB), foi secretária na gestão do atual senador José Agripino Maia (DEM) nos anos 80 e foi casada com o ex-deputado Lavoisier Maia. Os clãs se alternam no governo do Estado desde, pelo menos, os anos 60, com curtos intervalos de ausência. "Todas as famílias que optam por nossa profissão [política] trabalham juntas. O líder Aluízio serviu de espelho para toda a nossa família", disse Luiz Porpino, 65, secretário particular de Aluízio por mais de 40 anos.

Sobrevivência

O trabalho familiar não significa, contudo, fidelidade cega. O sorridente e cordato Garibaldi Alves Filho tem um farto senso de sobrevivência política. Em 2001, quando o Ministério Público e a Polícia Civil do Estado invadiram a casa de sua irmã, Maria Auxiliadora, atrás de documentos que incriminassem o seu marido, Marcos Nelson dos Santos, o então governador teria sido avisado com antecedência, mas deixou de interceder em favor da irmã. Em seguida pôde dar uma resposta, ao impedir que a Assembléia instaurasse uma CPI que atingiria seu governo e sua família.

Como em toda família, o tempo cura as feridas. O senador diz que "se dá muito bem" com o cunhado acusado de tráfico de influência em duas ações penais em andamento no fórum de Natal, movidas pelo Ministério Público. Pelos depoimentos de Santos, que sempre isentou Garibaldi de qualquer participação em seus lobbies, a recíproca é verdadeira.

Os Alves hoje se ajudam principalmente quando o objetivo é abrir espaço na mídia para um parente político. Eles detêm um dos dois maiores jornais do Estado, a "Tribuna do Norte", entre quatro e 12 emissoras de rádio, ninguém sabe ao certo, e participação societária na afiliada da Rede Globo em Natal. Embora poderosa politicamente, a família não ostenta grandes propriedades rurais ou empresas. O pai do senador diz não ter mais do que 400 cabeças de gado, um rebanho médio para os caciques nordestinos. Garibaldi Filho costuma dizer que não tem dinheiro nem para suas campanhas eleitorais.

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