BC monitora riscos para afastar turbulências do país, diz Meirelles


O Banco Central do Brasil está revisando todos os riscos potenciais do sistema financeiro brasileiro, no rastro da crise das hipotecas de alto risco (subprime) nos Estados Unidos, informou ontem o presidente do banco, Henrique Meirelles.

A ação da Diretoria de Fiscalização enquadra-se no projeto dos principais bancos centrais de examinarem a evolução do modelo econômico dos bancos comerciais em todo o mundo, para evitar repetição da turbulência atual.

Meirelles tratou de salientar que no Brasil "a princípio" não há nenhuma mudança à vista para os bancos. "O importante é que no Brasil hoje não há problemas", afirmou. "Estamos aproveitando a lição e queremos prevenir, para não haver problemas dentro de alguns anos".

As principais autoridades monetárias, incluindo Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve, o chinês Zhou Xiaochuan, o presidente do banco Central Europeu , Jean-Claude Trichet, e Meirelles participaram de reunião com os principais banqueiros globais, incluindo os do Deutsche Bank, BBVA, Credit Suisse.

Governos da Alemanha, Inglaterra e França querem aumentar controle sobre hedge funds, por exemplo, para dar mais estabilidade ao sistema.

Ontem, os banqueiros centrais conclamaram os bancos privados a ser mais transparentes sobre suas exposições nos créditos de maior risco. Trichet, porta-voz dos dez principais BCs, observou que há "razões muito boas" para considerar que as instituições financeiras privadas vão atuar para "atenuar as tensões" no mercado.

Meirelles citou que entre os banqueiros há projetos tais como aumentar a transparência, e antecipar a adoção do Basiléia 2, o acordo que regulamenta as necessidades adicionais de capital próprio de instituições financeiras para suportar futuras perdas.

Em relação ao Brasil, não houve essa discussão no BIS porque, insistiu Meirelles, os bancos brasileiros não têm subprime nem crédito relacionados ao mercado imobiliário dos EUA e tampouco o financiamento alavancado americano.

Assim, o Brasil seguirá "no momento" o cronograma normal de adoção do Basiléia 2. Segundo ele, a aplicação das exigências de Basiléia 2 deixam os bancos brasileiros "bastante confortáveis pois estão bem capitalizados e não foram tema de preocupação".

Já outro grande emergente, a Coréia do Sul, decidiu que seus bancos vão começar este ano a operar sob regras mais estritas de Basiléia 2. As instituições terão de manter mais capital em proporção do peso dos riscos dos ativos. A nova formula forçará os bancos a reduzir empréstimos para tomadores com perfil de maior risco, afim de evitar deterioração dos ativos. Esse padrão pode elevar as taxas de juros sobre os financiamentos.

O próprio Meirelles, em recente seminário em São Paulo, admitiu que a crise do subprime teria tido impacto muito menor se as novas regras de capital mínimo dos bancos (Basiléia 2) já estivessem em vigor. Esse acordo teria exigido maior alocação de capital dos bancos que montaram os Special Investment Vehicles (SIVs) criados fora do balanço para abrigar os investimentos em títulos lastreados em hipotecas de alto risco.

Os SIVs nasceram com passivos e ativos gigantes, mas patrimônio pequeno. Captaram recursos emitindo títulos de um ou dois anos para aplicar em papéis lastreados em hipotecas de 30 anos. Agora, bancos americanos e alguns europeus estão tendo que retomar esses ativos contaminados e sofrem perdas enormes. Juntos, já tiveram de fazer amortizações de US$ 50 bilhões. A Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que o prejuízo pode alcançar US$ 300 bilhões.

Para Meirelles, novas regras de transparência, por exemplo, não significam "necessariamente" aumentar controles sobre os bancos. Mas considerou "prematuro" falar que tipo de risco se deve evitar no Brasil, e sobretudo que se deve "evitar atitudes precipitadas".


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