Dissenso leva Lula a adiar ida à Colômbia

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Dois compromissos internacionais foram retirados da agenda de janeiro do Presidente Lula. Ele não irá ao Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, numa demonstração de que os assuntos internos têm preferência sobre esse famoso convescote de líderes mundiais. Lula também eliminou a viagem que faria à Colômbia, no fim do mês, mas, nesse caso, o cancelamento era inevitável: a reunião de presidentes que se realizaria na cidade colombiana de Cartagena foi adiada indefinidamente, porque os governos não conseguiram chegar a um acordo sobre o que querem com o encontro.

A reunião de cúpula deveria estabelecer as bases da futura União das Nações Sul-Americanas, a Unasul, e o cancelamento do encontro dos presidentes em janeiro é mais que um reflexo da multiplicidade de pontos de atrito entre eles. Reflete a falta de acordo, entre os países, sobre o que parecia ser um consenso inquestionável: a integração sul-americana. O perfil dessa integração e o caminho para se chegar a ela gera debates abafados entre os governos e é atrapalhado por questões ideológicas e por razões de política interna dos futuros sócios.

A incapacidade dos governos no continente de elaborar um plano comum para enfrentar as previsíveis turbulências internacionais só não é mais preocupante porque os analistas internacionais coincidem na avaliação sobre as condições favoráveis em que se encontram as economias sul-americanas. Os governos da região comandam economias em franco crescimento e foram bem-sucedidos em obter superávits nas contas de comércio e serviços dos países com o exterior. Os governos anteriores enfrentaram de calças bem mais curtas - com grandes dívidas e déficits em suas contas correntes - as crises dos anos 90 e no começo da década.

Há um otimismo moderado em relação ao futuro da América Latina e os sul-americanos podem ampliar a boa vontade dos investidores com a perspectiva de formação de um espaço econômico comum, meta tão indispensável quanto de difícil realização. Um dos motivos do fiasco da reunião de presidentes da Unasul em janeiro foi a escolha, para secretário-geral da futura organização, do ex-presidente equatoriano Rodrigo Borja, que deveria funcionar como uma espécie de catalisador das vontades dos governos, mas sacou da própria cabeça idéias descoladas da realidade política.

Presidente não irá também a Davos

Borja fincou pé em um projeto proposto por ele aos 12 presidentes da região, de fundação da Unasul, que deveria ser assinado pelos presidentes em Cartagena. O projeto prevê a rápida extinção dos órgãos hoje existentes no Mercosul e na Comunidade Andina de Nações (CAN), e sua substituição por uma burocracia comum. Nem o atual presidente do Equador, Rafael Correa, endossou a proposta, em que diplomatas suspeitam haver idéias do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, crítico da CAN e da atual conformação do Mercosul.

Chávez é um dos motivos, aliás, pelos quais um encontro de presidentes agora também exigiria cambalhotas da diplomacia colombiana. O venezuelano, que já havia voltado a se indispor com o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, por divergências nas negociações com os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), pode ter conseguido agora meter na briga o governo argentino.

Chamado para ser um dos observadores internacionais da malograda liberação de reféns das FARC, no fim do ano, o ex-presidente argentino e marido da atual presidente, Néstor Kirchner, saiu da experiência alinhando-se com Chávez em críticas contra Uribe, a quem acusou de dificultar a ação humanitária de liberação de reféns.

A operação havia sido nomeada pelo próprio Chávez de Operação Emmanuel, em homenagem a um dos possíveis liberados, o menino do mesmo nome, filho da seqüestrada Clara Rojas com um guerrilheiro. Emmanuel foi, de fato, o principal personagem do evento e, para azar de Chávez, a razão do fiasco, já que as Farc não o tinham em seu poder há bastante tempo. O garoto, maltratado, estava em uma instituição hospitalar do governo, sob nome falso, como revelou um triunfante Uribe.

Enquanto isso, distantes geográfica e politicamente da trapalhada das Farc que capturou a atenção do jornalismo mundial, os governo do Chile e da Bolívia, deixando de lado controvérsias históricas e ideológicas, puseram, na semana passada, a pedra fundamental da estrada bioceânica que ligará portos chilenos do Pacífico a portos brasileiros e deve dar novas opções à economia boliviana.

Há uma lição nesse contraste entre o lenta e seguro avanço dos projetos de integração de infra-estrutura sul-americana às atribulações da mal-nascida Unasul (que tem até ambições bem-vindas mas improváveis, como um anunciado "tratado energético sul-americano" para ordenar produção e consumo de energia e combustíveis no continente). Talvez as diplomacias da América do Sul devam concentrar esforços em questões pragmáticas, projetos concretos e localizados, entre menor número de parceiros. O continente não parece maduro para um grande acordo regional, sobre o que quer que seja.

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