Não há indícios de crise no crédito, diz Febraban

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A preocupação levantada por alguns analistas sobre um possível aumento descontrolado do crédito não é partilhada pelos bancos. As instituições se dizem seguras pelas elevações em linhas como veículos e consignado e por terem controlado a inadimplência neste ano, estável na casa dos 4,5%.

"Há uma tensão, mas não indícios", avalia o economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Nicola Tingas. De acordo com pesquisa da entidade com os bancos, as operações de crédito em carteira dos bancos devem continuar crescendo fortemente neste ano, a uma taxa de 20,3%.

Ele pondera, no entanto, que de fato algumas linhas subiram muito. "Há um crescimento forte na margem no cheque especial. Isso pode ser um indicador de endividamento. Num ano que se apresenta com mais volatilidade, como 2008, esse crescimento pode levar os bancos a alterar a gestão do risco", explica Tingas.

O crédito está crescendo, lembra o professor de Finanças do Ibmec e do LABFIN/FIA, Domingos Rodrigues Pandeló Junior, por causa do aumento da competição entre os bancos e da busca de retorno com a expansão dos volumes negociados, uma vez que os juros e as margens estão diminuindo.

Para assumir fatias maiores do mercado, os bancos correm mais risco. Se não o fizerem, outro banco irá fazer. Foi o que aconteceu com o Unibanco que colocou o pé no freio do crédito no final de 2006 e logo retomou as operações porque os outros bancos mantiveram as torneiras abertas.

O ponto positivo, acrescentou, é que os bancos adotaram modelos de análise avançados que projetam o risco que estão dispostos a aceitar e levam em conta essa informação ao fixar os juros cobrados. "O que quebra um banco é o crédito", afirmou, citando os textos clássicos de economia.

Os bancos brasileiros não vêem problema em suas carteiras e continuam oferecendo crédito farto. Algumas vezes, a oferta é até mais agressiva do que a demanda dos clientes.

O financiamento de veículos em 99 vezes, por exemplo, feito por um período pelo Banco Sofisa, não teve muito sucesso. "Os clientes não querem linhas tão longas", diz o diretor-executivo do Sofisa, Luiz Antonio Vianna.

Vianna não vê problemas no crédito e questiona se de fato o crescimento está muito acelerado ou se o que se vê é um novo patamar do crédito. "Há muitas pessoas entrando no mercado de crédito, principalmente das classe mais baixas", pondera.

O superintendente da Caixa Econômica Federal, Mário Ferreira Neto, também não vê problemas. "A relação crédito PIB no Brasil está em 34%, mas poderíamos atingir 70% ou 80% do PIB. Ainda existe muito espaço para crescer", avalia o executivo.

As linhas de início de ano também ganham força, como financiamento de tributos e de gastos escolares. O Mercantil do Brasil, por exemplo, espera crescer 50% nesse período, explica o diretor Uelques Almeida.

O diretor para mercados emergentes do banco Goldman Sachs, Paulo Leme, também não vê problemas no crédito, mas acredita em uma leve desaceleração em 2008. "O crescimento deve se manter na casa dos 20%", acredita.

Um fato positivo, segundo ele, é a redução do peso do estado na economia nos últimos anos, o chamado "crowing in", por meio da redução do endividamento. "Esse boom de crédito que vemos hoje no país, que está respaldando o consumo e o investimento, vem em parte da redução do coeficiente da dívida pública e em parte da redução da taxa real de juros", explica.

Isso porque com a redução da dívida e dos juros dos títulos públicos, os bancos são obrigados a ampliar o volume de crédito para manter os ganhos, ampliando a oferta de linhas aos clientes.

"Se o governo fizesse um superávit primário maior e, portanto, se a dívida pública caísse de forma mais rápida em relação ao PIB, você teria um espaço maior, por exemplo, para cortar depósitos compulsórios e, aí sim, liberar uma parcela muito expressiva de recursos para o crédito privado", completa Leme.

Como exemplo, ele cita o fluxo de crédito gerado este ano no Brasil, de 3,4% do PIB. "Se esse fluxo fosse o dobro, ou 10% você pode estimar a disponibilidade de recursos disponíveis para o setor privado investir e consumir", conclui o executivo.

O problema, ressalta, é como se desenrolará a crise externa, pois pode haver redução da liquidez internacional ou mesmo recessão na economia mundial com impactos no Brasil.


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