Onde Obama e Lula se parecem

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Representante de setores tradicionalmente excluídos do centro do poder da sociedade americana, portador de um vago discurso da mudança que se processaria com a sua eleição, o senador e pré-candidato democrata à Presidência dos EUA Barack Obama torna bastante tentadora a comparação de seu perfil com o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao ganhar o "caucus" (a escolha dos delegados locais para a convenção nacional) em Iowa, Obama chegou a dizer em seu discurso de agradecimento que os eleitores estavam escolhendo a esperança em lugar do medo, uma disjuntiva que fez sucesso na campanha lulista em 2002. Para se contrapor ao discurso da competência técnica da rival, a senadora Hillary Clinton, Obama parte para uma argumentação de que sua experiência vem das lutas sociais, da mesma maneira como Lula fez na eleição em que enfrentou o tucano José Serra. "Minha experiência é enraizada nas vidas de homens e mulheres do lado sul de Chicago por quem lutei quando uma siderúrgica foi fechada. É enraizada na vida das pessoas a quem defendi como advogado de direitos civis. É enraizada na vida real das pessoas reais", afirmou o senador que, por cálculo político e não por falta de opção, mora em uma mansão na parte mais pobre de Chicago.

Quase nada em comum, além do marketing

O paralelo entre Obama e personalidades como Lula ou o boliviano Evo Morales não resiste, entretanto, a um exame superficial do comportamento do eleitor democrata nas primárias que acontecem este mês. Na edição de ontem do "Wall Street Journal", o articulista Karl Rove, que se destacou nos últimos anos como o temido estrategista político de George W. Bush, sintetizou porque a imagem de Obama como representante de uma contestação social deve ser relativizada, ao comentar sobre o resultado da primária de New Hampshire. "Hillary Clinton venceu entre os bebedores de cerveja. Obama ganhou na turma do vinho branco", escreveu. Rove comentou o fato de Hillary ter ganho nos bairros operários e nas comunidades rurais mais pobres. Obama triunfou nas áreas mais ricas e de maior nível educacional da população. A candidata do povão foi a ex-primeira-dama e o senador negro, filho de um queniano, ficou com as elites democratas.

A dez mil quilômetros de distância de New Hampshire, dois americanos que se dedicaram a analisar a cena política brasileira não se empolgam com o paralelo entre Obama e o petismo.

"Falar em esperança vencer o medo é usar uma ferramenta recorrente no discurso político americano, sobretudo quando se fala como oposição. Kennedy fez campanha assim em 1960. Roosevelt também. É algo que busca marcar mais uma distância em relação a Bush do que aludir a uma mudança social", comentou o cientista político da UnB David Fleischer, eleitor no Distrito de Columbia e simpatizante dos democratas. "Aproximar Obama de Lula é uma bobagem. Obama faz parte da elite intelectual do país. Foi eleito quando estudante para a direção da Harvard Law Review, a publicação de maior prestígio na área do direito norte-americano", lembra o jornalista Norman Gall, diretor do Instituto de Pesquisas Fernand Braudel, em São Paulo, e eleitor democrata em Nova Jersey.

Tanto Gall quanto Fleischer frisam que a massa de eleitores assalariados nos Estados Unidos, um dos esteios do Partido Democrata, há muito tempo se distanciou de uma elite liberal progressista. Republicana na juventude, primeira-dama de um presidente que fez da dubiedade uma marca pessoal e política, Hillary Clinton parece largar na frente de Obama quando se trata de observar quem irá controlar o centro do tabuleiro eleitoral. Uma tentativa em convergir do liberal-progressismo para uma espécie de ponto zero no espectro ideológico talvez seja a explicação para Obama insistir tanto em uma mudança, sem qualificá-la, ou insistir na necessidade de unir a todos os americanos, sejam eles democratas, republicanos ou independentes. É uma mensagem "eloqüente e leve como o ar", como ironiza Rove. Seria a estratégia do "Obaminha paz e amor", praticada pelo único pré-candidato que usou um "teleprompter" para discursar no dia das primárias em Iowa e New Hampshire, de acordo com o articulista republicano. Parece estar nos truques do marketing o grande ponto de intersecção que existe entre o presidente brasileiro e o senador por Illinois.

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