Risco de um Lobão solitário

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Edison Lobão (PMDB-MA) teme a solidão política. Um dia depois de assumir o Ministério de Minas e Energia, ele primeiro teve de assistir calado, ontem no Palácio do Planalto, a uma longa exposição de Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, sobre as hidrelétricas, durante o balanço do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Depois, cansado de tantas horas de cadeira, levantou para conversar com os jornalistas no meio da entrevista coletiva da ministra. Causou burburinho e atrapalhou Dilma. Com sutileza, o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, deu uma bronca nos repórteres. “Duas entrevistas não pode”, disse. Sem pronunciar uma palavra, Lobão se retirou e sentou novamente para ouvir a ministra da Casa Civil.

Ao mesmo tempo, no outro lado da rua, colegas de PMDB no Senado não escondiam em conversas reservadas a preocupação de que Lobão possa ser uma “rainha da Inglaterra” no cargo, numa referência ao poder simbólico, mas não prático.

Lobão, por enquanto, está encurralado: Dilma quer mandar em cima, e o PMDB desconfia dele embaixo. O partido vai além da desconfiança e chega ao descontentamento pelos limites impostos ao novo ministro, que teve de engolir de imediato a nomeação de Marcos Zimmermman para a secretaria-executiva da pasta. Foi uma exigência de Dilma. O PMDB teme que Zimmermann seja o verdadeiro mandachuva do ministério. Até porque Lobão tem pouca experiência na área. Por isso, o PMDB quer apressar as escolhas nas estatais, sem a necessidade de um aval do novo ministro.

Fora da negociação
Ciente da situação constrangedora, Lobão esbanja otimismo e frases de efeito sobre sua independência no cargo. Diz que entre hoje e amanhã deve discutir cargos. “Pretendo conversar com o Múcio (José Múcio, ministro de Relações Institucionais) logo depois da reunião ministerial de amanhã (hoje)”, afirmou ontem. Sabe, porém, que tem sido até agora muito mais um instrumento político do senador José Sarney (PMDB-AP), seu padrinho eleitoral no Maranhão, do que um nome que represente o PMDB no cargo.

Sarney, aliás, evita aparecer desde que Lobão foi confirmado por Lula na semana passada. Não deu as caras nem na posse do novo ministro. Tenta diminuir o impacto do fisiologismo político da nomeação de seu indicado, embora venha mantendo conversas diárias com ele pelo telefone.

Recém-filiado ao PMDB, Lobão ficou de fora, por exemplo, da negociação pelo comando da Eletrosul, que ficará com o PT. Terá que aceitar, sem reclamar, as nomeações de seu partido nas presidências de Eletrobras e Eletronorte. “Não creio que, com sua história política, o ministro vá se prestar ao papel de rainha da Inglaterra”, minimiza o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, indicado pelos deputados do PMDB ao cargo. “O ministro tem que ter autoridade, e quem dá autoridade é o presidente”, ressaltou.

Esse foi o mesmo discurso feito por Lobão na cerimônia de transmissão de cargo na segunda-feira. O novo ministro afirmou que somente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode “tutelar” o ministério, negando que Dilma tivesse feito qualquer exigência. Essa declaração, aliás, não constava no texto oficial do discurso. Foi dada de improviso. E continuou de fora no conteúdo publicado logo depois pelo próprio site do ministério.

O ministro tem que ter autoridade, e quem dá autoridade é o presidente

Geddel Vieira Lima, ministro da Integração Nacional

Tuma diz que vai investigar Edinho
O corregedor do Senado, Romeu Tuma (PTB-SP), informou ontem que está atrás de documentos sobre as acusações contra o empresário Edison Lobão Filho (DEM-MA), suplente da vaga de senador do pai, Edison Lobão (PMDB-MA), recém-nomeado ministro de Minas e Energia. Pré-candidato à prefeitura de São Paulo e de olho nas eleições de 2010, Tuma sempre surge com promessa de investigação quando aparece alguma denúncia.

Edinho, como é conhecido o filho do ministro, é acusado de usar laranjas — para ocultar a propriedade em uma empresa de bebidas — e de arrendar uma emissora de maneira irregular, entre outras coisas. Tuma disse que pediu, informalmente, documentos à Polícia Federal e Receita Federal. Ele justifica a atitude como uma maneira de se precaver caso Edinho assuma a vaga do pai. “O mais importante é saber se há o uso ou não de documentos falsos”, afirmou.

A atitude de Tuma, no entanto, corre sério risco de ser inócua. Primeiro porque Edinho ainda nem é senador. Qualquer ação do corregedor nesse momento não tem amparo legal. E segundo porque o pai do empresário já sinalizou que o filho deve assumir a vaga e se licenciar logo depois. O que, se ocorrer, esvaziará a iniciativa do corregedor.

Tuma tem precedentes. Antes de Gim Argello (PTB-DF) ocupar a cadeira de Joaquim Roriz (PMDB-DF), que renunciou para evitar um processo de cassação, o corregedor deu declarações sobre denúncias que surgiram contra o suplente e também pediu documentos referentes às acusações. Após a posse de Argello, a Mesa Diretora arquivou pedido de processo contra o novo senador. E Tuma não tocou mais no assunto.

A assessoria de Edinho Lobão espera que o empresário chegue hoje a São Luís de uma viagem ao exterior. Ele pretende se reunir com advogados para preparar sua defesa, decidir o dia da posse e se licenciar. Edinho tem 60 dias para assumir a vaga de senador. Se a licença for confirmada, entrará na vaga o segundo suplente, o peemedebista Remi Ribeiro. (LC)

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