Serra: dono ou refém da sucessão?

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Apesar do potencial explosivo da crise entre DEM e PSDB em São Paulo, em torno da sucessão municipal, os dois partidos trabalham a partir de uma mesma premissa: a aliança precisa ser preservada em 2008, sob pena de novo fiasco eleitoral da oposição em 2010.

Tempo para acordo, há. As convenções partidárias para escolha dos candidatos serão realizadas a partir de junho. "Política é uma arte da paciência", ensina o ex-presidente do DEM Jorge Bornhausen, que ontem teve encontro com o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). O principal caráter da reunião foi diplomático. Apesar do apoio que o DEM deu ao prefeito Gilberto Kassab (DEM) nos últimos dias, o partido não quer acuar o ex-governador. Democratas defendem um trabalho de convencimento, que resulte em acordo.

Se a união se dará em torno de Kassab ou de Alckmin, depende principalmente das pesquisas de intenção de voto. Afinal, político não desafia a lei da gravidade. Alckmin, por enquanto, está bem à frente. Mas o DEM aposta em "tendência de crescimento" do atual prefeito.

Embora Alckmin venha manifestando a intenção de disputar de qualquer jeito, o pior dos mundos para ele é uma derrota na eleição municipal. Será a pá de cal de qualquer projeto para 2010: seja o governo do Estado ou a Presidência da República, da qual - muitos acreditam - não teria desistido.

Derrotado nas eleições presidenciais de 2006, Alckmin insiste em disputar a Prefeitura de São Paulo. Serra, no entanto, defende que seu partido apóie a reeleição de Kassab, para preservar a bem-sucedida aliança entre tucanos e democratas no Estado - base do seu plano de disputar o Palácio do Planalto.

Tucanos e democratas trabalham pela unidade

A eleição de Kassab em São Paulo é tão importante para o DEM que o partido está, inclusive, disposto a abrir mão de ocupar a vaga de vice-presidente em uma chapa encabeçada por Serra em 2010. Isso deixaria os tucanos livres para uma dobradinha Serra-Aécio, por exemplo. A dificuldade de uma solução como essa é acomodar o grupo político de Alckmin, que está sem máquina para disputar as eleições e pressiona o ex-governador a não desistir.

Na tentativa de tirar Alckmin do caminho de Kassab, Serra tem sido cobrado por lideranças do DEM a fazer um gesto concreto dando ao ex-governador a garantia de que será o candidato à sucessão estadual. Para aliados de Serra, isso é bobagem. Argumentam que o governador não só apoiará a candidatura de Alckmin à sua sucessão, como precisa dela.

Com um candidato forte a governador em São Paulo, Serra poderia se dedicar à campanha presidencial fora do Estado. O problema desse raciocínio é que nem o próprio governador tem garantia de que será o candidato do PSDB a presidente.

Alckmin tem dito que um gesto de Serra nesse sentido não o fará mudar de idéia. Acha - ou diz achar - que só ele tem chance de vencer a petista Marta Suplicy.

Observadores tucanos temem o grau de complexidade de um cenário de disputa entre Alckmin e Kassab. A equipe do atual prefeito é composta de 75% de tucanos - majoritariamente serristas. O democrata era vice-prefeito e herdou a prefeitura quando Serra deixou o cargo para disputar o governo.

Alckmin, se disputasse contra Kassab, teria que fazer campanha contra uma administração totalmente vinculada a Serra. Por isso, uma disputa entre Kassab e Alckmin não passa pela cabeça do aliados de Serra. A primeira aposta é no convencimento do ex-governador, que apostaria todas as suas fichas em uma eleição - hoje considerada ganha- para governador em 2010.

Se Alckmin permanecer irredutível, não está descartado um recuo de Kassab - nem pelos próprios democratas. O gesto dependeria de Serra. O DEM precisa da reeleição de Kassab para não desaparecer do mapa político do país. Mas não haverá chantagem ou pressão. Para o partido, Serra é o dono da sucessão municipal, ao menos no que se refere à participação ou não de Kassab.

Fora de São Paulo, lideranças tucanas temem que disputas pessoais comprometam o projeto partidário nacional. Se precisar, haverá interferência. O PT - que só tem Marta Suplicy como nome viável - assiste à crise tucana de camarote.

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