PIB de respeito

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Desempenho da economia foi notável em 2007. Desafio agora é manter o novo padrão de crescimento

O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), no ano passado, de tanto projetado, veio sem surpresa — nos conformes, portanto. Nem por isso o desempenho da economia não foi notável, como atestam os números divulgados pelo IBGE.

O PIB cresceu 6,2% no último trimestre em relação a igual período de 2006 e 1,6% contra julho a setembro. Nos 12 meses fechados de 2007, o crescimento atingiu 5,4%, o segundo maior nos seis anos de governo Lula, puxado pela agropecuária (5,3%), indústria (4,9%), e serviços (4,7%). A depender do cenário externo, o crescimento não será menor que 4% este ano, podendo surpreender. Este é o desafio.

O que vai ficando caracterizada é a mudança de patamar do PIB em direção de seu melhor momento, desde o início da industrialização nos anos 1950. De 1950 a 1985, o crescimento médio anual foi de 6,5% — quando a economia brasileira protagonizava o papel assumido pela China logo em seguida. De 1986 a 1994, anos de hiperinflação e de aumentos da carga tributária, o crescimento anual caiu para 2,3%.

De 1995 a 2002, início do ajuste sobre a inflação, mas também de continuidade do inchaço da tributação, aumento da dívida interna, a recomposição cambial promovida em 1999, três idas à enfermaria do FMI, várias crises financeiras internacionais e a mais longa fase de juros reais já praticada no país, o PIB continuou andando de lado. A expansão média foi novamente medíocre: 2,4%.

Com a surpresa do governo Lula, que sustentou o arrocho do Banco Central, a economia começou a se aprumar, o que também se deve às políticas macroeconômicas no duplo mandato de FH e, especialmente, à bonança dos mercados globais. A taxa média do PIB cresceu para 3,4% entre 2003 e 2006. Se o governo souber manter o novo padrão de crescimento, a era de PIB pífio não voltará tão cedo.

Pela ótica da demanda, a expansão da economia foi alavancada pelo consumo das famílias, cujo crescimento saltou de 4,6% em 2006 para 6,5% no ano passado, e do investimento, que se manteve acelerado.

É sinal de aumento futuro da capacidade produtiva, essencial para suprir a demanda em expansão. O investimento cresceu 13,4%, vindo de outro aumento de 10% em 2006. Resultado: a taxa de investimento como proporção do PIB, que é o principal indicador do dinamismo da economia, subiu de 16,5% em 2006 para 17,6%. A tendência é forte, mas ainda insuficiente para recuperar o atraso em relação ao resto do mundo. Entre as 10 grandes economias emergentes, tal taxa só é maior que a da Filipinas. Na China, passa de 40% do PIB.

Crescimento é sadio
O crescimento econômico em curso é sadio, e será sustentado se a taxa de expansão da oferta movida a investimentos na produção for mantida à frente do aumento da demanda doméstica. Febre de consumo é sempre um risco. O Banco Central tenta controlá-la manipulando a Selic, o que provoca seqüelas, como a que se constata com o real apreciado. Quem sofre é a exportação de bens industriais, que é um dos componentes principais do crescimento sustentado.

O governo cogita medidas pontuais para desvalorizar o real. Ainda não se convenceu de que é a expansão do gasto público correndo na frente do gasto privado (consumo mais investimento) o grande fator de pressão inflacionária. A Selic age sobre o gasto privado com o fim de contê-lo para acomodar no PIB a política fiscal desregrada.

Equilíbrio precário
Na fotografia dos componentes da demanda, o consumo de famílias em 2007 cresceu mais (6,5%, contra 4,6% em 2006) que o gasto do governo (3,1% este ano e 2,8% em 2006). A verdadeira expansão do gasto público, porém, só é visualizada quando se consolidam neste total as transferências diretas de renda, captadas, na métrica do IBGE, como consumo de famílias. Faça-se o ajuste e se verá a real influência do gasto público sobre a demanda agregada e sua relação com a carga tributária e a Selic. É um equilíbrio precário.

O que há a corrigir
Mas já é hora, também, de o BC dar transparência à medida que o faz ser cauteloso com a Selic, expressa pelo tal PIB potencial — a conta do crescimento econômico possível sem insuflar a inflação. A evidência é que há excesso de zelo. Hoje, a taxa mais aceita põe o crescimento do PIB potencial em 4,5%, abaixo do observado em 2007, mas normal, considerando-se que a economia só está recuperando o atraso. Gasto público, Selic obesa, os males da economia são.

O presidente do BC, Henrique Meirelles, saudou o PIB vigoroso de 2007, qualificando-o como prova de que a política monetária foi bem sucedida. Tem razão. Mas cabe considerar que goleada de time grande sobre pequeno não é bem uma grande vitória.

Personalidades sintonizadas com o espírito do BC, como Sérgio Werlang, que introduziu o regime de metas de inflação ao tempo em que esteve na instituição, e Joaquim Levy, primeiro secretário do Tesouro do governo Lula, são unânimes em dizer que há espaço para a Selic cair sem despertar pressões inflacionárias.

As opiniões de gente respeitada como Werlang e Levy não podem ser descartadas, ainda mais quando o governo se movimenta para mudar o câmbio, que está desalinhado precisamente pela assimetria da Selic — e também, reforce-se, pelo relaxamento fiscal. O PIB dará saltos com menos juros, impostos e gastos correntes. Essa é a fórmula

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