Que Bob Dylan cante para o povo

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Artigo - Eduardo Suplicy
Jornal do Brasil
4/3/2008

Quero transmitir um apelo ao prefeito Cesar Maia, do Rio de Janeiro, semelhante ao que fiz na última sexta-feira ao prefeito Gilberto Kassab, de São Paulo. Nesta semana, São Paulo e o Rio de Janeiro recebem um dos mais completos artistas contemporâneos, o compositor e cantor Bob Dylan, considerado um dos maiores poetas da língua inglesa. Suas canções têm sido cantadas pelos povos de todo o mundo nas grandes manifestações por direitos cívicos e pela paz nos últimos 45 anos.

Em São Paulo, Bob Dylan fará dois shows, nos dias 5 e 6 na Via Funchal, com ingressos que variam de R$ 250 a R$ 900. Na sexta-feira passada, 80% dos ingressos já estavam vendidos. No Rio de Janeiro, ele vai cantar no Rio Arena, no dia 8, sábado, com ingressos de R$ 150 a R$ 360.

São Paulo e Rio dispõem de espaços excelentes para a apresentação de grandes artistas. Seja no Ibirapuera, no Maracanã, nos Sambódromos, no Pacaembu, no Morumbi, ou na Praia de Copacabana, o público pode assistir gratuitamente a apresentações históricas, daquelas que jamais esquecerá. É o caso de Bob Dylan.

Na Praça da Paz, no Ibirapuera, já aconteceram concertos memoráveis de Milton Nascimento, Caetano Veloso, Rita Lee, Maria Rita e um fantástico de Ray Charles com a presença de 150 mil pessoas, além do maestro Zubin Meta, do ministro Gilberto Gil e tantos outros. Durante a gestão de Marta Suplicy, construiu-se ali um dos mais belos auditórios da cidade - que, desenhado por Oscar Niemeyer, na parte externa, pode abrigar 30 mil pessoas. No Rio, nos shows da passagem do ano em Copacabana, o público passa de um milhão de pessoas.

Disse ao prefeito Gilberto Kassab o mesmo que transmito a Cesar Maia. Os paulistanos e cariocas gostarão muito que Bob Dylan possa dar um show extra e grátis. Todos merecem participar desse momento. Tenho a convicção de que o próprio Bob Dylan e seus produtores verão essa iniciativa com bons olhos.

Uma de suas apresentações, em local aberto, está marcada na história do século 20: foi em 28 de agosto de 1963, com Joan Baez, em frente ao Memorial de Abraham Lincoln, diante de 200 mil pessoas, na mesma manifestação em que Martim Luther King Jr pronunciou uma das mais belas peças de oratória da história da humanidade: "I have a dream", quando conclamou todos a lutarem pelos direitos civis e igualdade racial.

Dizia que não deveríamos tomar do chá do gradualismo, seguindo as recomendações dos que achavam que as transformações viriam com o tempo. Também não deveríamos tomar do cálice do veneno, do ódio, da vingança e da guerra. As transformações teriam que vir depressa para que não houvesse mais um verão abrasador. Deveríamos sempre confrontar a força física com a força da alma.

As palavras de Luther King Jr. se casavam inteiramente com o poema que Bob Dylan havia composto em poucos minutos num café de Greenwhich, em Nova York, em abril de 1962:

"Quantas estradas precisará um homem caminhar

Até que você possa chamá-lo de homem?

Quantas vezes precisarão as balas de canhões voar

Até que eles sejam banidos para sempre?

A resposta, meu amigo, está sendo soprada pelo vento

The answer is blowin" in the wind.

O prefeito Gilberto Kassab telefonou-me dizendo que aceitou a sugestão e colocou Caio Luiz de Carvalho, da Paulistur, para providenciar o entendimento com os produtores de Bob Dylan. Espero que Cesar Maia possa fazer o mesmo. Que venha Bob Dylan com sua música, seus poemas de paz.

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