Crime é descartar os biocombustíveis, afirma Lula

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma defesa veemente dos biocombustíveis durante a abertura oficial da 30ª Conferência Regional da FAO para a América Latina e Caribe, realizada ontem no Palácio do Itamaraty, em Brasília. Considerado uma das principais programas de seu governo, os biocombustíveis foram classificados na semana passada de "crime contra a Humanidade" pelo relator especial da ONU para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler. "O verdadeiro crime contra a humanidade é descartar, a priori, os biocombustíveis e relegar as pessoas pobres à dependência e à insegurança alimentar", criticou.

Antes da cerimônia, o presidente já havia chamado de "palpiteiros" aqueles que levantam suas vozes contra os biocombustíveis, afirmando que eles diminuem a produção de alimentos e provocam a atual onda inflacionária no setor. "É muito fácil criticar as coisas sentado em um banco na Suíça. Tem que colocar o pé no barro para entender as realidades do Brasil e da África". Na abertura do encontro, Lula foi ainda mais incisivo. "Dizer que o preço dos alimentos está aumentando por conta dos biocombustíveis é um discurso generalizado e reducionista".

Para Lula, por uma questão de comodismo, os países ricos excluem dessa equação o aumento do preço do barril do petróleo (que dificulta a produção e o transporte dos alimentos), o reajuste nos preços de fertilizantes e os impactos do clima que levaram à quebra de safra em países produtores importantes. "É fácil escolher respostas simplistas para esconder questões econômicas e políticas por trás de argumentos sociais."

Para o presidente, a crise de alimentos vivida no mundo é uma crise de oportunidades e de distribuição. Citou que o Brasil encaminhou 14 milhões de toneladas de alimentos para o Haiti, além de contribuir com o fundo da FAO para assegurar a distribuição de alimentos para os países mais pobres. "É lamentável que países desenvolvidos só se movam em situações emergenciais como essas", atacou.

Causando um intenso burburinho entre os delegados da FAO presentes à Conferência, Lula lembrou que, nos anos 80 e 90, técnicos do FMI desembarcaram em todos os países com uma planilha de dicas e obrigações a serem cumpridas, como ajuste fiscal, controle do câmbio e diminuição da máquina pública. "Mas ninguém viu o mesmo FMI falar nada sobre a crise imobiliária americana", afirmou.

Lula disse que os países pobres, os mais prejudicados pela alta dos alimentos, não têm controle sobre os reajustes dos preços dos petróleo, não influenciam os preços dos fertilizantes estabelecidos pelas multinacionais nem tampouco interferem no preço das commodities. Segundo o presidente, é um absurdo os produtores plantarem os alimentos e o preço dos produtos ser estabelecido por uma bolsa em Chicago. "Além disso, quando eles colhem o que plantaram, muitas vezes não têm dinheiro para pagar os fertilizantes que tiveram que utilizar nas lavouras".

Lula disse que os países da América Latina, do Caribe e da África não podem ficar excluídos do debate sobre os biocombustíveis nem das polêmicas sobre segurança alimentar. Diante do presidente do Consea, Renato Maluf, o presidente disse que todo país deveria ter um Conselho semelhante para orientar as políticas públicas para o setor. "O debate tem de ser racional, sem qualquer viés ideológico, seja de esquerda ou de direita".

O presidente voltou a defender que os países desenvolvidos reduzam barreiras tarifárias à importação de produtos agrícolas do Terceiro Mundo para destravar a Rodada Doha. Disse que ninguém deixará de comer para encher o tanque porque, se isso acontecesse, "a pessoa deveria passar por um tratamento sério". E finalizou, arrancando aplausos de pé dos presentes por quase cinco minutos: "Até quando nós vamos aceitar o papel de coadjuvantes no cenário internacional? Até quando?"


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