Lula pede diplomacia e vice paraguaio endurece discurso

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar os ataques de países industrializados à produção de biocombustíveis e a comentar o recente desencontro de interesses com o Paraguai em relação à energia elétrica produzida na usina de Itaipú.

Sobre os biocombustíveis, Lula criticou o fato do produto ser acusado de ser um dos principais culpados da escassez de alimentos e subseqüente alta nos preços de produtos alimentícios em todo o mundo e aproveitou a ocasião - uma cerimônia de formatura de diplomatas pelo Instituto Rio Branco, do Itamaraty - para atribuir à política externa brasileira, sobretudo ao foco dado às relações com países do hemisfério sul, o estado de relativa segurança experimentado hoje pela economia do País frente à crise de crédito nos Estados Unidos.

De acordo com o presidente, a diversificação nas relações comerciais do Brasil é o que separa a situação econômica atual do cenário enfrentado em 1997, com a crise dos países asiáticos. "Dessa vez nós estamos não tão tranqüilos, mas maduramente tranqüilos e assentados. Já não dependemos mais de uma potência ou de duas potências, temos produtos para vender em vários lugares do mundo e temos dinheiro para comprar em vários lugares do mundo", disse.

Lula chamou de "distorção absurda" as críticas de nações desenvolvidas ao cultivo de oleaginosas e cana-de-açúcar para a produção de combustível. E cobrou o fim dos subsídios agrícolas na Europa como forma de aumentar a produção de alimentos no mundo "Se os países ricos desejam realmente aumentar a oferta de alimentos, por que não eliminam os subsídios que dão à sua agricultura", questionou Lula, em seu discurso. "Isso estimulará a produção nos países mais pobres que têm mais terras, mais mão-de-obra e, agora, como ficou provado no caso do Brasil, tecnologia avançada. Espero que essa discussão tenha impacto positivo na Organização Mundial do Comércio", acrescentou o presidente.

Paraguai

Ao Paraguai, que pleiteia a revisão de contrato na compra de energia excedente produzida em Itaipu e teria reavivado a disputa territorial com o Brasil na área de fronteira vizinha à hidrelétrica binacional, o presidente destacou que os objetivos de longo prazo da política externa brasileira devem se basear na cooperação, e não no confronto. "Não importa se nosso interlocutor é de um país grande ou pequeno, o respeito tem que ser recíproco. O Brasil procura tratar cada parceiro com a mesma atitude de concórdia, abertura ao diálogo e desejo de chegar a um denominador comum", disse o presidente.

O Brasil paga US$ 1,5 bilhão por ano pelo excedente da parte paraguaia da produção de energia em Itaipu, algo em torno de 45%, dos 50% de eletricidade que cabem ao país vizinho na divisão de energia gerada pela hidrelétrica. Desse montante, o Paraguai fica com US$ 400 milhões e o restante do dinheiro vai para o pagamento da dívida de financiamento da obra de construção da usina.

Diálogo

Em visita ao Brasil, o vice-presidente paraguaio eleito, Federico Franco, se disse favorável ao diálogo para renegociar o preço da energia produzida pela Usina Hidrelétrica de Itaipu, mas num discurso duro, afirmou que o Paraguai não vai abrir mão da renegociação. "Esse é o princípio das conversas", disse Franco. ‘Quando o Brasil vir que a autoridade paraguaia não se vende, vai mudar seu temperamento. Não vamos nos submeter, não vamos trair a vontade do povo", completou.

Apesar de não falar em valores, o vice-presidente paraguaio disse que o objetivo é buscar um "preço justo" pela energia. "O preço justo vai surgir no diálogo. É óbvio e natural que não se pretende chegar a um preço justo de um dia para o outro", disse.

Franco se reuniu ontem com o vice-presidente José Alencar no Palácio do Planalto e com deputados e senadores do Paraná (região de Itaipu) no Congresso Nacional. Apesar das declarações de Franco, José Alencar negou que o assunto principal da reunião tenha sido Itaipu. "Ele fez uma visita de cortesia", disse. "Eu não conheço o pleito deles porque não se tocou nisso (no assunto Itaipu)", completou.

Alencar disse também que o Acordo de Itaipu é "intocável". "O Brasil sempre foi generoso com o Paraguai. O acordo é intocável e não foi objeto de tratativa entre nós", comentou. Segundo Federico Franco, na reunião com parlamentares, tratou-se também da possível construção de uma segunda ponte entre os dois países e da simplificação de tributos em Ciudad del Este e Foz do Iguaçu.

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