Mandatos para o crime

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Eleito com mais de cinco mil votos em 2004, o vereador Joaquim José Santos Alexandre, o Quinzé, não conseguiu comemorar a vitória com os moradores do bairro Olavo Billac, em Duque de Caxias, onde seu eleitorado se concentra. Ex-sargento da Polícia Militar, visto como um protetor da comunidade, Quinzé estava preso no dia das eleições. Seus advogados, porém, agiram rápido. O vereador saiu dois dias depois e, mesmo condenado a quatro anos e seis meses por porte de arma ilegal (no caso, uma pistola HK 9mm não registrada), manobras judiciais garantiram sua posse e o cumprimento do mandato em liberdade.

Quinzé e sua 9mm representam a aliança de votos e violência. Ao mesmo tempo em que elege parlamentares, esse casamento também alimenta as estatísticas criminais.

São casos de homicídio, extorsão, formação de quadrilha, tráfico de drogas e fraudes, entre outros crimes, que têm as câmaras municipais como cenário e seus vereadores como personagens. E nem sempre esses políticos figuram como acusados. Em muitos casos, eles são vítimas. Nos últimos dez anos, pelo menos 19 vereadores fluminenses foram assassinados, em crimes raramente solucionados.

Na quinta reportagem da série "Profissão vereador", O GLOBO retrata a rotina de políticos como Quinzé, que abriram caminho na política fluminense à custa da fama de protetores de suas comunidades e se sustentam com recursos jurídicos para não perder a vaga ou ir para a cadeia. Além disso, revela as dificuldades enfrentadas pela polícia, pelo Ministério Público e pelo Judiciário para investigar e punir os responsáveis pelas mortes de vereadores fluminenses.

Apelação manteve Quinzé em liberdade

Quinzé já era alvo de investigações sobre a ação de grupos de extermínio da Baixada Fluminense quando foi preso, em setembro de 2004, por porte de pistola contrabandeada. A sentença, em primeira instância, o condenou a quatro anos anos e seis meses de prisão. Mas o vereador entrou duas vezes com pedido de liberdade provisória. Na segunda, foi atendido. O recurso do Ministério Público para mantê-lo na cadeia foi negado. Embora expulso da PM, ele pode aguardar em liberdade o julgamento de sua apelação.

Na terça-feira passada, dia 13, Quinzé chegou atrasado à sessão da Câmara no momento em que seus colegas discursavam em homenagem à Lei Áurea. O tema não empolgou o ex-policial, que entrou silenciosamente e ficou parte do tempo nos fundos do plenário, tomando devagar um copo de café. Político de poucas palavras, com fama de durão, pertence ao grupo político do ex-prefeito José Camilo, o Zito (PSDB), que faz oposição ao prefeito Washington Reis (PMDB).

No site da Câmara, Quinzé se apresenta como "líder comunitário, sempre presente em sua comunidade".

A porta de seu gabinete, pintada de preto, estampa o nome "Quinzé 100%", uma alusão à parceria com Zito, e um símbolo que lembra o brasão de uma unidade policial.

- Ao buscar o caminho da política formal, esses protetores da comunidade são submetidos a outra lógica de atuação, diferente da informalidade a que estavam acostumados.

Terão de prestar contas para entidades mais amplas, como o Ministério Público, que normalmente não estão de olho neles quando estão na informalidade - diz a historiadora Mary Motta, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas do Rio de Janeiro.

Líder dos motoristas de transporte alternativo de São Gonçalo, outro reduto da violência política no Grande Rio, Edson da Silva Mota, o Mota da Coopasa, seguiu o mesmo caminho de Quinzé. Em 2004, foi eleito pela primeira vez para a Câmara da cidade. Três anos depois, alvo de denúncias que o ligavam a grupos de extermínio e à guerra de vans no município, seria preso, com seus dois filhos, acusado de crimes de formação de quadrilha, estelionato, coação, extorsão com uso de arma e porte ilegal de explosivos.

Mas o processo, que corria na 3aVara Criminal, foi suspenso. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) acolheu habeas corpus de seus advogados, argüindo a incompetência da primeira instância para julgar vereadores.

A decisão é provisória. Sendo assim, a ação ficará parada enquanto o STJ não julgar o mérito. O vereador, após passar cerca de seis meses preso no 1oDistrito Naval (por ser militar reformado), foi solto em janeiro deste ano. Na semana retrasada, Mota presidiu sessão na Câmara de São Gonçalo (o presidente, Dilvan Aguiar, estava ausente).

Ele se diz vítima de uma trama e sustenta que, com o habeas corpus, o processo já não existe: - Graças a Deus, o tribunal fez justiça. Nunca me deram oportunidade de falar. Fizeram essa covardia com a minha família. Sou pessoa idônea. Nunca tive problemas e estou produzindo um dossiê mostrando que fui vítima de perseguição.

Candidato de ficha suja será barrado

Os que foram assassinados

SÃO GONÇALO

José Benjamim Sobral, o Beija. O vereador foi assassinado em 8 de fevereiro de 1998, com cinco tiros, diante de sua casa, no bairro do Rocha. Seu pai era acusado de fraudar o INSS. Em seu lugar, assumiu Edilson Gomes

Luís Carlos da Silva, o Luís do Posto. Foi assassinado em 8 de junho de 2003, após sair do Haras São Sebastião, em São Gonçalo, por dois homens de moto.

Em seu lugar, também assumiu Edilson Gomes

Carlos Lopes da Silva, o Carlinhos da Marmoraria. Morreu em 7 de agosto de 2003. Levou nove tiros disparados por um motoqueiro.

Prestara depoimentos no Ministério Público apontando supostos interessados em sua morte

BELFORD ROXO

Geraldo Duarte de Souza, o Geraldinho. Foi executado em junho de 1999, a cem metros da Câmara, com dois tiros. As investigações apontaram, como pistoleiros, integrantes do grupo do fuzileiro naval Albano Pereira Marinho Neto

Albertino Martins Guedes.Foi morto em agosto de 2005, com três tiros, no centro da cidade.

Presidia a CPI do Lixo, que investigava o desvio de R$ 1,8 milhão destinado à construção de um aterro sanitário

NILÓPOLIS

Roberto Albuquerque Carneiro.Presidente da Câmara, foi morto em novembro de 2003, com cinco tiros. Roberto tinha extensa ficha criminal e chegou a ser preso em 1998, acusado de matar o comerciante Mário das Graças Toledo

Márcia Machado Guimarães Matheus. Suplente, foi morta em junho de 1998, com quatro tiros.Era do PMDB, partido do vereador Roberto Carneiro, preso naquele ano por envolvimento na morte do comerciante Mário das Graças

SÃO JOÃO DE MERITI

Sérgio Costa Barros. Foi seqüestrado e assassinado em 30 de abril de 1998. Oito anos depois, a Justiça julgou João Paulo Neves, um dos acusados, que por sua vez acusou o ex-presidente da Câmara Cláudio dos Santos Lacerda

DUQUE DE CAXIAS

Sebastião de Souza Alves, o Tião do Táxi. O político morreu um mês após o atentado que sofreu diante do seu centro social em Caxias, em 9 de maio de 2006. A investigação, feita pela 59º DP, não foi concluída

Noberto Mendes Soares, o Beto, Um Amigo.O vereador foi morto com cinco tiros na Avenida Brasil, na altura de Manguinhos, no dia 5 de janeiro de 2005, horas depois de tomar posse.Agentes da 21º DP (Bonsucesso) fizeram pedido de escutas telefônicas; no entanto, não concluíram as investigações

NOVA IGUAÇU

Alarico Rodrigues Nogueira, o Quinha. Ex-vereador foi assassinado por dois homens com cinco tiros de pistola, em 13 de março de 2001, diante do filho e da mulher, perto de casa, no dia em que era aguardado para depor na Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, onde era investigado por sua suposta participação em grupos de extermínio

Alkir Lopes da Silva. Ex-vereador de Belford Roxo e homem de confiança do ex-prefeito do município Jorge Júlio da Costa Santos, o Joca, foi assassinado com oito tiros, em 26 de outubro de 1998. Ele estava no portão de sua residência, quando um homem encapuzado, armado de pistola, fez vários disparos em sua direção

MAGÉ

Walter Morais de Arruda. O vereador, assassinado em março de 1998, era presidente da Comissão de Saúde que investigava fraudes na gestão anterior. O inquérito foi enviado para a Justiça em junho de 2005

Dejair Corrêa. Foi assassinado em 1ode fevereiro de 2007, com sete tiros, na Praia da Piedade. Policial reformado, não escondia que andava armado e era acusado de envolvimento com grupos de extermínio.Em 2007, três acusados foram presos: Leandro Costa, Alexandre Oliveira e o expresidente da Câmara de Magé Genivaldo Ferreira Nogueira

Carlos Alberto do Carmo Souto, o Chuveirinho.O vereador foi morto a tiros, em 4 de agosto de 2006, enquanto jogava cartas em um bar. Segundo testemunhas, um dos assassinos chamou o vereador pelo apelido.A Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense enviou inquérito para o MP

RIO DE JANEIRO

Bispo Dr. Monteiro de Castro. Foi baleado em seu carro em 7 de julho de 2004, na Avenida Brasil, na altura do Caju. Era integrante da Comissão de Higiene, Saúde Pública e Bem-Estar Social da Câmara, que apurava denúncias na área de saúde

Luiz Carlos Aguiar. Foi baleado na cabeça, em 8 de julho de 2002, e teve morte cerebral. Aguiar teria se recusado a entregar o automóvel importado quando abordado por assaltantes. Três homens foram indiciados. Cléber de Oliveira foi condenado a 16 anos de prisão

SÃO SEBASTIÃO DO ALTO

Wanderley Maia Pinheiro, o Deley.Foi morto em novembro de 2005, com oito tiros, em Itaocara, por dois homens encapuzados.Os policiais de Itaocara perderam contato com o caso após a transferência do inquérito para a Delegacia de Homicídios

MARICÁ

Ledy Francisco da Costa. Vice-presidente da Câmara, foi morto com cinco tiros, em janeiro de 2001. Seu suplente, Nilton Teixeira da Silva, foi preso, acusado do crime. Robson Oliveira dos Santos também confessou ter participado do crime
Fonte: Jornal O Globo

3 Opinaram:

Anônimo disse...

onde andam os assasinos? comendo bebendo tendo mordomias porque o esquecimento da sociedade os deixaram livres!!!onde anda claudio lacerda??????????????

Anônimo disse...

Beija era muito boa pessoa.

Hall Games disse...

uiz Carlos Aguiar. Foi baleado na cabeça, em 8 de julho de 2002, e teve morte cerebral. Aguiar teria se recusado a entregar o automóvel importado quando abordado por assaltantes. Três homens foram indiciados. Cléber de Oliveira foi condenado a 16 anos de prisão

éera meu pai cara, chorando aqui ..

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