Auditoria vê ligação entre Dantas e Valério

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Às vésperas de deixar a gestão da Brasil Telecom (BrT), em meio a uma briga jurídica com o Citigroup e os fundos de pensão, o Opportunity transformou a DNA e a SMP&B nas principais agências de publicidade da operadora, responsáveis por cerca de 40% de seu orçamento de marketing, e chegou a pagar "remuneração mensal e fixa no valor de R$ 187,5 mil" às empresas de Marcos Valério, apontado pela CPI dos Correios como operador do mensalão. É o que diz representação feita pela nova diretoria da BrT à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), com base em auditoria interna após ter assumido o comando da operadora, em setembro de 2005. O Valor teve acesso ao documento.

Em julho de 2004, a ex-presidente da BrT Carla Cico, contratou diretamente, "sem a ciência ou participação dos funcionários da área de marketing da empresa", a elaboração de seis trabalhos específicos pela DNA. Eles custaram R$ 3,5 milhões e os pagamentos foram realizados "antes da entrega dos serviços contratados". Referiam-se a contratos com fins específicos, como "varredura fotográfica" do Rio de Janeiro" e "pesquisa e identificação de opções de mídias alternativas/não-convencionais, com análise de custo/benefício, visando maior rentabilidade dos recursos de investimento em mídia em toda área de cobertura (da BrT)".

"Estranhamente", conforme representação apresentada à CVM, os trabalhos só foram encaminhados à operadora em 2005, após ter vindo à tona o escândalo do mensalão. A DNA era suspeita de receber dinheiro por serviços inexistentes ou diferentes dos declarados nos contratos. "Na opinião da área de marketing da Brasil Telecom, a qualidade dos trabalhos ficou muito aquém do razoável, não fazendo jus aos significativos valores que por eles foram pagos", afirma a representação.

Naquele ano, Cico firmou dois outros contratos, com a DNA e a SMP&B, com valor total de R$ 50 milhões. Além disso, havia o pagamento de R$ 187,5 mil mensais sem que a área de marketing fosse ouvida por Carla Cico. Como o orçamento da companhia não comportava as obrigações assumidas com Marcos Valério, a operadora rescindiu um contrato que havia sido celebrado com outra agência de publicidade. "A atual administração suspeita fortemente das contratações acima", diz o documento entregue à CVM.

O relatório final da CPI dos Correios afirma que os contratos entre o Opportunity e as agências de Valério impressionaram. Para a CPI, a relação entre as empresas administradas pelo Opportunity e Valério estava "além da relação profissional entre tomador e prestador de serviços". A comissão concentrou as investigações nos pagamentos R$ 152,4 milhões da Telemig Celular e da Amazônia Celular, então comandadas por Dantas, para as agências.

O relator, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), concluiu que Dantas "necessitava influenciar políticos para que pudesse manter o controle" das empresas durante e após sua destituição da gestão de recursos de fundos de pensão - referência a Previ, Petros e Funcef, sócias da BrT.

A representação à CVM sustenta também que Dantas usava recursos da BrT para pagar seus auxiliares. A auditoria detectou o pagamento de R$ 3,5 milhões, extraídos do caixa da operadora, a pessoas que eram "notoriamente funcionários do banco Opportunity". Uma delas era a Danielle Silbergleid, diretora jurídica do Opportunity, presa anteontem. Ela tinha jornada de trabalho de 12 horas diárias, dividindo seu tempo entre três entidades, cada uma responsável por um terço do pagamento. "Inexplicavelmente, porém, o custo suportado (pela BrT) correspondia a 72% do total da remuneração mensal" de Danielle.

Para ser concluída a operação de compra do controle da BrT pela Oi, os advogados envolvidos na operação passaram semanas levantando litígios e pouco a pouco foram sendo definidos valores das indenizações a cada uma das partes, além de acertos para a retirada das ações na Justiça. Boa parte dos litígios referia-se à gestão do Opportunity na BrT, em processos movidos pelo Citigroup e fundos de pensão integrantes do fundo CVC Opportunity Equity Partners FIA e CVC Opportunity Partenrs, LP, lançados em 1997. Os fundos foram criados na gestão do Opportunity, essencialmente para investir em privatizações e negócios que envolvessem troca de controle.

Havia mais de 40 ações em curso e as indenizações fechadas no acordo em torno da fusão da Oi com a BrT, na Justiça brasileira, em Nova York e nas ilhas Cayman. No acerto de contas a BrT recebeu R$ 165 milhões e o Opportunity, cerca de R$ 80 milhões, pagos pela Oi. Ficou acertado que todos retirariam as ações, exceto processos na CVM que não podem ser suspensos. Quem representava o Opportunity, além de advogados, era Arthur Carvalho, cunhado e sócio de Dantas, mas quem decidiu foi a irmã de Dantas, Verônica, em um momento crítico nas negociações.

O acordo para as ações e acusações serem suspensas foi firmado em 23 de abril, dia do fechamento da operação de compra do controle da BrT pela Oi e da mudança na estrutura societária da última. No acordo, ficou acertado que as partes não dariam mais declarações públicas sobre os envolvidos na operação.



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