BC corta Selic em 1 ponto e juro nominal é o menor da história

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Com o corte de um ponto percentual na taxa Selic, o Banco Central (BC) colocou os juros nominais no menor patamar da história, a 10,25% ao ano. O juro real (descontada a inflação), que já era um dos mais baixos registrados no País, caiu para 5,88% ao ano. Com a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) - unânime e sem viés - o Brasil deixa a posição incômoda de líder mundial em juros reais. Levantamento da consultoria UpTrend aponta a China no topo do ranking, com 6,6% ao ano, seguido da Hungria com 6,4%. O Brasil é agora o terceiro na lista.

O corte realizado ontem, o terceiro consecutivo no ano e inferior à redução de 1,5 ponto percentual na reunião de março, veio em linha com as expectativas do mercado financeiro. Os primeiros sinais de recuperação do crédito doméstico, da atividade econômica e os chamados efeitos defasados da política monetária - que demoram até seis meses para se materializarem - já indicavam uma desaceleração no ritmo. No entanto, o comunicado divulgado pelo BC, ao informar a nova Selic, surpreendeu.

"O colegiado foi mais direto e sinalizou que, embora com cortes menores, pode prolongar o relaxamento da política monetária", comenta Cristiano Souza, economista do banco Santander, se referindo ao trecho ‘distensão monetária’. "Avaliando o cenário macroeconômico e visando ampliar o processo de distensão monetária, o Copom decidiu reduzir a taxa Selic para 10,25% ao ano, sem viés, por unanimidade", diz a nota do Copom.

Para o economista da consultoria LCA, Francisco Pessoa Faria, a decisão foi a mais sensata. "O momento econômico ainda é de grande incerteza, há ameaças de todos os lados e parece correto reduzir o ritmo para esperar que as medidas de estímulo fiscal do governo comecem a dar resultado", comenta Faria.

O prolongamento do ciclo de corte na Selic, sinalizado pelo comunicado, também surpreendeu Roberto Padovani, economista-chefe do banco WestLB. "Eu já acreditava que o colegiado não sinalizaria a proximidade de um fim de ciclo, mas eles foram além e indicaram a continuidade", comenta o economista. Para Padovani, o alívio nos mercados globais, ocorrido entre as duas últimas reuniões do colegiado, reduziu a probabilidade de uma depressão prolongada e permitiu que o BC desacelerasse o ritmo de cortes.

Para as próximas reuniões do Copom - são cinco até o final do ano - há consenso quanto à existência de espaços para uma maior flexibilidade da política monetária, reforçado com o comunicado de ontem. O câmbio tem se apreciado. Só este ano, o dólar acumula queda de 6,56%, negociado ontem a R$ 2,17. A expectativa inflacionaria tanto para este ano quanto para 2010 está em 4,30%, abaixo do centro da meta de 4,5%. Além disso, a expectativa de crescimento econômico para 2009 é negativa ou muito inferior ao PIB potencial do País, hoje próximo de 4,5%. "Minha estimativa é que o Brasil termine 2009 com uma contração de 0,2%. O espaço para cortar a Selic é enorme e acredito em uma taxa de 8,75% no final do ano", avalia Padovani, do WestLB.

Quando o assunto é a sustentabilidade no médio prazo de juros nominais abaixo de 10%, há divergências entre os economistas. "Este ano não vejo nenhuma probabilidade de uma reversão no quadro com alta da Selic, mas a partir de 2010 as pressões podem crescer", comenta Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, citando as eleições presidenciais e uma possível saída de Henrique Meirelles do BC como preocupantes. "Além disso, o BC já manifestou preocupação quanto a uma alta da inflação em 2011, por isso não é improvável uma elevação da Selic em 2010."

Padovani faz coro. "Não há motivos estruturais que permitam um juro nominal muito baixo. Para isto o Brasil precisaria resolver a questão fiscal e registrar ganhos de produtividade, o que não parece ocorrer", diz. O economista da LCA discorda. "Acredito na sustentabilidade dos juros, o País pode conviver com taxas reais perto de 5%. Há condições para que o governo mantenha o déficit fiscal sob controle."

Logo após a decisão de ontem, grandes bancos como Bradesco, Itaú Unibanco, Santander, Banco do Brasil (BB), Caixa e HSBC - criticados pelos spreads elevados - comunicaram que estão reduzindo suas taxas de juros. Já para os cofres do governo, o corte de um ponto na Selic permitirá a economia de R$ 7,07 bilhões nos próximos 12 meses, segundo cálculos da Austin Rating.

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