A política social de Lula

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Uma das perguntas mais interessantes, das que se apresentam aos brasileiros, é a seguinte: a visível continuidade da política macroeconômica do governo Lula com relação à de FHC mostra que nada mudou, que apenas tivemos mais do mesmo? Significaria essa realidade uma traição aos ideais socialistas do Partido dos Trabalhadores, como murmuram na sombra alguns ex-quase grandes revolucionários?


Desde a sua origem, o Partido Comunista Brasileiro refletiu as desventuras da esquerda europeia e seu precário cimento de um marxismo superficial e duvidoso, que teria infartado o pobre Karl. Sempre houve, no Brasil, uma oposição de esquerda (até católica) ao PCB.


Boa parte do pensamento marxista brasileiro, refletindo a oposição ao centralismo autoritário, dividiu-se entre trotskistas, luxemburguistas, kautskystas e tutti quanti...

O Partido dos Trabalhadores é uma organização quase autóctone construída em São Bernardo do Campo por um gênio político de extração católica. Ele recolheu em seu seio vários grupos de oposição e seduziu a esquerda intelectual, que tentou controlá-lo sem nenhum sucesso. Sonhou, originalmente, transformar o Brasil em um país socialista e democrático com pluralidade partidária...


Com quadros razoavelmente competentes e pregando pureza, o PT foi crescendo eleitoralmente, elegendo prefeitos, governadores e, finalmente, em 2002, o presidente da República. Essa marcha vitoriosa é consequência, de um lado, do treino administrativo adquirido pelo partido nas múltiplas e crescentes unidades federadas e, de outro, do aprendizado obtido pela necessidade da sua convivência política com os demais partidos. Seu radicalismo foi se consumindo. Seu sectarismo foi dando lugar a um pragmatismo responsável. A ideia de que seus quadros representavam o monopólio das virtudes foi relativizada pelos enfrentamentos com a realidade.


Depois da fragorosa derrota que lhe impôs Fernando Henrique Cardoso em 1994, o partido e o seu líder máximo e único disponível para nova tentativa de voo presidencial compreenderam que o sonho seria irrealizável, a não ser que houvesse um processo de aliança entre o puro e sacrossanto PT e alguns impuros e pecadores partidos burgueses. E que tal aliança seria impossível com o que restava no generoso e romântico programa do PT.


Esta foi a origem da famosa Carta de Ribeirão Preto, que foi o programa do novo PT, com o qual se comprometeu no processo eleitoral de 2002.


No início, houve muita desconfiança. Os adversários e uma boa parcela da imprensa não queriam acreditar: o novo programa era para inglês ver, para fins puramente eleitorais. O próprio candidato Lula foi obrigado a comprometer-se pessoal e publicamente com o novo programa, num documento que se chamou Carta aos Brasileiros. Reafirmou os novos princípios da sua política econômica, caso viesse a ser eleito.


Por que isso funcionou? Porque Lula, o líder metalúrgico, não o presidente, tinha construído ao longo de toda a sua militância política uma imagem de homem veraz e honesto, que dava valor absoluto aos seus compromissos.


O ponto importante a entender é que, se ela renegava a antiga política macroeconômica prometida pelo PT, conservava intacto o verdadeiro projeto de Lula. Este foi revelado num diálogo entre ele e Oded Grajew, que mais tarde participaria do governo, durante o melancólico reconhecimento de sua derrota diante de Fernando Henrique. Nessa ocasião, Lula comentou: "Se minha campanha tiver forçado os temas sociais a virarem prioridade, acho que valeu a pena" (Dimenstein, G. - Souza, J. de - A História do Real, 1994, pág. 237).


É essa mudança que se realizou, respeitando a política macroeconômica e o absoluto cumprimento do equilíbrio fiscal, condições preliminares para o restabelecimento da confiança interna e externa na economia brasileira.


Nossa política macroeconômica é hoje a universal dos países civilizados com democracia pluripartidária. Ela é produto de uma evolução. É uma espécie de alicerce sobre o qual se podem construir muitas casas diferentes, de acordo com as preocupações e as prioridades de cada governo.


O que não se pode é construir uma sólida política social sobre precários alicerces econômicos.--Delfim Netto --Carta Capital


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