'Eles estão roendo a corda', diz assessor de Lula

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A delegação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi surpreendida ontem no amanhecer de Roma pela decisão do presidente americano, Barack Obama, e de outros 18 líderes da região Ásia Pacífico de adiarem a tentativa de acordo global no combate às mudanças climáticas, previsto para o próximo mês em Copenhague.

"Quem está roendo a corda não somos nós", reagiu Marco Aurélio Garcia, o assessor internacional do presidente Lula, ao ser informado por dois jornalistas brasileiros do anúncio de horas antes em Cingapura. "Eles vão ter de dar uma resposta [ao problema da mudança climática]."

No sábado, Lula e seu colega francês, Nicolas Sarkozy, tinham se lançado em Paris na batalha para salvar a cúpula de Copenhague. Sarkozy prometeu rodar o mundo para formar uma aliança de alguns países desenvolvidos, os principais emergentes e os mais pobres seriamente atingidos pela mudança climática. Ele apontou claramente como adversários os componentes do G-2 - Estados Unidos e China, os dois maiores poluidores do planeta, suspeitos de tentarem se arranjar entre si.

Enquanto Lula tinha afirmado que telefonaria a Obama hoje, o noticiário na internet ontem cedo anunciava que "líderes mundiais reunidos em Cingapura colocaram o prego final no caixão da conferência de Copenhague", empurrando a tentativa de acordo provavelmente para o fim de 2010, na Cidade do México.

Marco Aurélio Garcia saía do salão de café do elegante Hotel Hassler Vila Medici, na Via Sistina (antigamente uma rua privada do papa em pleno centro de Roma), quando foi questionado sobre como o Brasil reagiria ao anúncio. O principal assessor internacional de Lula se virou para o secretário-geral do Itamaraty, embaixador Antonio Patriota, e indagou : "Você viu isso?"

Patriota retrucou que "já se esperava algo assim". Para o Itamaraty, os líderes da Apec, em Cingapura, "aguaram" o comunicado final, trocando inclusive números de metas de redução de emissões por vaga promessa de "cortes substanciais".

Para os brasileiros, os ditos "líderes mundiais" de Cingapura representavam apenas uma parte deles, uma maneira de dizer que Lula, Sarkozy e outros terão de contar nas decisões finais.

Na cena internacional, já não se esperava mais um acordo em Copenhague. Mas tampouco se contava com uma declaração tão explícita de EUA, China e outros países, esvaziando de vez a reunião do mês que vem, agora destinada a discutir um "quadro" que já foi negociado no passado em Báli (Indonésia).

O Brasil em todo caso continua colocando fé na conferência de Copenhague. A expectativa é de que saiam medidas para um "acordo vinculante" mais tarde.

Marco Aurélio informou que a ministra Dilma Roussef estará hoje em Copenhague para apresentar a proposta brasileira de redução de até 38,9% das emissões, durante uma reunião técnica.

"A proposta brasileira existe independentemente disso [do anúncio de Obama, China e outros da Apec]", afirmou. Ele não soube dizer qual o custo desse corte para a indústria brasileira, em termos de ajustamento, mas garantiu que "não foi na base do "chutômetro", foi com base em muita pesquisa".

Para o Palácio do Planalto, a estratégia franco-brasileira de formar alianças por um acordo do clima não será alterado. "Pelo contrário", disse o assessor. "Eles é que estão roendo a corda", disse. "O tema está aí independentemente de nossa vontade. O que está em jogo são os efeitos da mudança climática."

A conversa passou para a reunião presidencial Brasil-Argentina para atenuar o ambiente de confronto comercial. Marco Aurélio minimizou a situação tensa bilateral. Lembrado que os jornais não cessam de falar de problemas na fronteira, o assessor respondeu: "Se a gente ler os jornais brasileiros, parece que Lula tem 10% de popularidade, quando tem 80%".

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