Senadores vagabundos atribuem baixa produção a pauta trancada por MPs


O Senado Federal em 2008 foi marcado mais pela geração de fatos políticos do que pela produção legislativa propriamente dita. O presidente Garibaldi Alves (PMDB-RN), na tentativa de tirar a Casa do desgaste provocado pelos processos por quebra de decoro parlamentar sofridos pelo seu antecessor, Renan Calheiros (PMDB-AL), foi pródigo em manifestações de independência em relação ao Palácio do Planalto.

Movido por pressão da mídia, adotou medidas de combate ao nepotismo na Casa, revogou ato da Mesa Diretora que autorizava a contratação de 99 funcionários sem concurso público pelos senadores e mandou realizar novas licitações para substituir contratos de mão de obra terceirizada, que estavam suspeitos de superfaturamento.


Garibaldi passou o ano criticando publicamente o excesso de medidas provisórias editadas pelo governo - muitas vezes diante do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chegando a roubar a cena em solenidades no Palácio do Planalto. Por fim, em decisão inédita, decidiu devolver ao governo a polêmica MP que prorrogava as concessões de instituições filantrópicas, incluindo aquelas suspeitas de irregularidades. O gesto gerou controvérsia jurídica, já que a MP tramitava na Câmara dos Deputados.


No fim dos trabalhos, Garibaldi envolveu-se em uma crise com a Câmara, depois que o plenário da Casa aprovou a proposta de emenda constitucional (PEC) que criava mais de 7 mil cargos de vereadores no país. Sob o comando de Arlindo Chinaglia (PT-SP), a Mesa Diretora da Câmara recusou-se a promulgar a PEC, por não aceitar a retirada, pelo Senado, de artigo aprovado pelos deputados reduzindo as despesas das câmaras legislativas municipais. Numa reação imediata, Garibaldi impetrou mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a Câmara.


O julgamento no STF ocorrerá apenas no ano que vem. Também foi adiada a solução para o caso das filantrópicas, já que o projeto de lei apresentado para substituir a MP devolvida não andou. Eleito em dezembro de 2007, após renúncia de Renan, Garibaldi provocou polêmica ao obter aval da bancada do PMDB para se lançar candidato à recondução. Para isso, apresentou pareceres jurídicos atestando que, por ter sido eleito para um mandato "tampão", não estaria sujeito à proibição constitucional de reeleição numa mesma sessão legislativa.

A maratona de votações da longa sessão plenária do dia 17, que terminou às 6h do dia seguinte com a aprovação de 32 matérias - entre elas o projeto que cria o fundo soberano do Brasil (FSB) e a PEC que aumenta as vagas de vereadores no país -, não reflete a média da produção da Casa.


Em 2008, foram realizadas 250 sessões no Senado, 120 delas deliberativas (destinadas a exame de matérias). Mas somente em 35 delas houve votações. Nas demais, ou faltava acordo entre os líderes partidários ou a pauta estava trancada por alguma MP com prazo de tramitação vencido. As MPs impediram as votações em 57 sessões.


As MPs entram em vigor assim que editadas pelo presidente da República, mas são transformadas em lei depois da aprovação na Câmara e no Senado. Pelas regras em vigor, elas ganham prioridade na pauta 45 dias depois da edição, barrando o exame de qualquer outra proposta. As MPs perdem a validade se não forem votadas no Congresso em 120 dias.


Ao todo, foram apreciados pelo Senado 49 MPs, 10 PECs, 202 projetos de lei de senadores (PLS) e 84 projetos oriundos da Câmara, além de projetos de decreto legislativo e de resoluções da Casa, escolha de autoridades e requerimentos, totalizando 1.756 matérias deliberadas pelos senadores. O item campeão é o das homenagens de pesar, votos de aplauso ou semelhante: 499.


Embora a oposição tenha ajudado a aprovar duas medias provisórias que aumentavam os salários de mais de 450 mil servidores e votado rapidamente as MPs editadas para combater a crise financeira, o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), avalia que ela se manteve forte na Casa, "atuando como ponto de equilíbrio para evitar a hipertrofia demasiada do Poder Executivo".


Para ele, o Senado teve "altos e baixos" em 2008. Como ponto alto, cita a rejeição dos recursos para compor o fundo soberano. Como ponto baixo, cita a aprovação da PEC dos Vereadores, que ele considerou "um erro" e assume "culpa", por não ter sido contra. Quanto à baixa produção, Virgílio aponta o trancamento de pauta por MP como principal razão.


A líder do PT, Ideli Salvatti (SC), contesta. "Como é que a gente conseguiria ter mais produção se o Arthur Virgílio fala 46 vezes numa sessão, como chegamos a contar?", pergunta. Segundo a petista, é a obstrução da oposição que dificulta as votações e acaba obrigando o governo a enviar propostas por MP, como ocorreu com o aumento do salário mínimo. "Veio por projeto de lei e, como demorou a ser votado, teve que vir por MP, senão o aumento não entraria em vigor a tempo", diz.


Entre os projetos do Senado que foram sancionados por Lula, os senadores comemoram, principalmente, o que instituiu o piso salarial para professores da educação básica pública e o que estimula as empresas a ampliarem de quatro para seis meses o período de licença-maternidade. Os senadores aprovaram vários projetos na área da segurança pública, como o que permite interrogatórios a longa distância pelos juízes, por meio de videoconferência.


Outras propostas de apelo social da Casa beneficiam aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) - fim do fator previdenciário, correção pelo salário mínimo e recomposição de aposentadorias e pensões. O autor é da base aliada, Paulo Paim (PT-RS), mas o governo é contra. Paim fez três vigílias em plenário durante noites inteiras tentando forçar o governo a negociar as propostas. Propostas polêmicas deixaram de ser votadas pelo Senado, como a mudança nas regras de pagamento dos precatórios, o fim do voto secreto no julgamento de parlamentares e a redução da maioridade penal.


Para que os trabalhos do Legislativo fluíssem com mais facilidade, sem a trava das MPs, os presidentes do Senado e da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), anunciaram como prioridade de suas gestões a tentativa de modificar as normas constitucionais que regulamentam sua tramitação. Mas não conseguiram. Na Câmara, o problema é o mesmo: 55,5% das sessões deliberativas em plenário (90) estavam trancadas por MPs.


"O governo não tem interesse em mudar as regras e eu acredito que ele manobrou nesse sentido, por meio de sua bancada de apoio, para dificultar a aprovação da PEC que muda o rito das MPs", afirmou Garibaldi. A PEC foi votada em primeiro turno na Câmara ao final dos trabalhos do ano. Precisa passar por um segundo turno nessa Casa antes de ir ao Senado. Se for eleito para o próximo biênio, o pemedebista disse que sua prioridade continuará sendo a tentativa de mudar as regras de tramitação das MPs.


Com o nosso dinheiro, Mendes vai turbinar a agenda fora do Brasil


Na presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) desde o dia 23 de abril, o ministro Gilmar Mendes tem mostrado uma disposição sem precedentes para viajar pelo País e para o exterior. Sua vasta agenda tem despertado comentários de que estaria em campanha para algum cargo eletivo em 2010 - de vice-presidente da República na chapa do tucano José Serra até governador do seu Estado natal, Mato Grosso. A dias de completar 53 anos, Mendes nega que tenha a intenção de mudar de emprego.

Segundo ele, essas viagens têm o objetivo de divulgar no Brasil e no exterior o trabalho e a jurisprudência do STF e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão que exerce o controle externo do Judiciário e que também é presidido por ele. "Não sou candidato a nada", costuma garantir.

"O STF é uma das Cortes mais importantes do mundo em termos de atividade e importância política", afirma Mendes. "Quero mostrar o trabalho que o STF faz", completa o presidente do Supremo. Para concretizar esse projeto de "internacionalização do tribunal", além das viagens de divulgação lideradas por Mendes, o Supremo tem providenciado a tradução da jurisprudência da Corte para o inglês. "Há muita curiosidade sobre como a gente resolve problemas sociais e temas como fidelidade partidária e greve de servidores", declarou Mendes, recentemente.

Como presidente do Supremo, ele viajou em 2008 para participar de eventos promovidos pela comunidade jurídica em cinco países - Alemanha, Estados Unidos, Itália, Argentina e Lituânia. Para 2009, estão previstas 12 viagens internacionais, começando pela África do Sul, em janeiro, onde ocorrerá a 1ª Conferência Mundial de Cortes Constitucionais.

PELO BRASIL

No Brasil, Mendes costuma visitar, em média, duas cidades por semana. Essas viagens geralmente ocorrem nas segundas ou sextas-feiras, dias em que não há sessão de julgamentos no tribunal. Nesses locais, o presidente do Supremo dá palestras e aulas, participa de solenidades e de inaugurações, e recebe prêmios.

A reportagem do Estado acompanhou uma das viagens no dia 8 de dezembro, quando Mendes inaugurou Casas de Justiça e Cidadania nas cidades de Montes Claros, em Minas Gerais, e Teresina, no Piauí. Conforme divulgou na ocasião o STF, esses centros vão servir de base para a realização de trabalho voluntário. Neles serão oferecidos assistência judiciária, cursos profissionalizantes e palestras sobre prevenção de situações de violência doméstica e sexual, dependência química, educação para o voto, saúde pública, cidadania e desenvolvimento social.

No dia da viagem, Mendes embarcou em um avião de pequeno porte da Força Aérea Brasileira (FAB) às 7h30 da manhã. A primeira parada ocorreu em Montes Claros. Cerca de quatro horas depois, ele entrou novamente no avião e seguiu viagem para Teresina, no Piauí. Lá foi recebido até por uma banda. Ao retornar para Brasília, aproximadamente às 22h30, aparentava ser o menos cansado do grupo e ainda tinha pique para conceder entrevista aos jornalistas.

Além da disposição para viajar, Gilmar Mendes tem demonstrado que prefere revelar suas opiniões sobre assuntos polêmicos quando está fora de Brasília. Em novembro, durante viagem oficial à Alemanha, por exemplo, o presidente do STF defendeu que o Brasil adote um modelo próprio de cotas em universidades.

Segundo ele, esse modelo deve levar em consideração os aspectos étnicos, culturais, econômicos e sociais do País. "O modelo de ações afirmativas não deve levar em conta apenas a raça ou a cor do indivíduo, mas a sua situação cultural, econômica e social", afirmou Mendes durante uma palestra feita na Alemanha.

Fanáticos pelo microfone


Em 14 de agosto passado, o deputado Mauro Benevides (PMDB-CE) interrompeu um discurso de Eduardo Valverde (PT-RO) para elogiar as palavras do colega sobre a polêmica em torno da demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol. “Para mim é uma honra ser aparteado por Vossa Excelência”, respondeu o petista. Talvez, naquele momento, os dois, distantes das decisões relevantes da Câmara, não soubessem que terminariam o ano como os campeões do microfone em 2008.

Excluindo o presidente da Casa, Arlindo Chinaglia (PT-SP), que fala muito pois preside as sessões, Benevides e Valverde lideram o ranking dos deputados que mais discursaram da tribuna do plenário, deram palpites nas falas de colegas, entre outras maneiras de manifestação oral, segundo levantamento do departamento de taquigrafia. O peemedebista aparece com 476 participações (mais de uma intervenção por dia), quase o dobro do petista, que atingiu 281 discursos.

Um dos mais antigos parlamentares em atividade no Congresso, Benevides, 78 anos, é figura carimbada nas tradicionais sessões vazias às segundas e sextas-feiras. Ele já presidiu o Senado entre 1991 e 1993, período turbulento por causa do processo de impeachment do então presidente da República, Fernando Collor de Mello. Com o passar do tempo, o congressista deixou de ser protagonista das decisões políticas, mas não abandonou o plenário. Somente no último dia 16, por exemplo, pronunciou-se quatro vezes, tratando de temas nacionais e também regionais. Foi o que também ocorreu em 1º de dezembro, quando elogiou a criação de um banco comunitário no bairro do Pirambu, em Fortaleza.

Já Eduardo Valverde está no segundo mandato e ainda busca um espaço político no Congresso. É um soldado do PT para assumir causas polêmicas que lideranças preferem não encarar publicamente. O deputado aproveita as sessões para tentar mostrar que entende de tudo um pouco. Em 11 de dezembro, falou de CPI do Aborto, Raposa Serra do Sol e trabalho rural. Dois dias antes, usou o microfone por nove vezes.

Logo atrás dele, surge um deputado polêmico e experiente: Inocêncio Oliveira (PR-PE), com 261 manifestações. Famoso por permanecer há anos na Mesa Diretora, Inocêncio costuma fazer companhia a Benevides nas sessões vazias de início e fim da semana, sendo que, muitas vezes, as preside.

Líderes

Na mesma fila, aparecem os líderes partidários, responsáveis por orientar suas bancadas nas votações. ACM Neto (BA), líder do DEM, registrou 261 participações e o líder do PPS, Fernando Coruja (SC), falou por 229 vezes. A relação mostra ainda no topo ex-líderes, como José Carlos Aleluia (DEM-BA), com 228 pronunciamentos, e Chico Alencar (PSol-RJ), autor de 221 discursos.

O levantamento da Câmara revela também o retorno político de José Genoino (PT-SP) aos trabalhos legislativos. Numa postura discreta desde 2005, quando , o petista foi o 13º deputado que mais se manifestou entre os colegas, com 193 discursos. O líder do governo, Henrique Fontana (PT-RS), aparece em 15º lugar na lista.


Presença na tribuna

Levantamento da Câmara revela os parlamentares que mais falaram nas sessões do plenário este ano.

Deputado - Discursos

1 - Arlindo Chinaglia (PT-SP)* 755
2 - Mauro Benevides (PMDB-CE) 476
3 - Eduardo Valverde (PT-RO) 281
4 - Inocêncio Oliveira (PR-PE) 263
5 - ACM Neto (DEM-BA) 261
6 - Duarte Nogueira (PSDB-SP) 233
7 - Fernando Coruja (PPS-SC) 229
8 - José Carlos Aleluia (DEM-BA) 228
9 - Chico Alencar (PSol-RJ) 221
10 - Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) 218


Chinaglia aparece em primeiro lugar apenas por ser o presidente da Câmara e comandar as sessões


Temas mais abordados

Pesquisa mostra o que foi mais citado pelos deputados nos discursos feitos em 2008.

Assunto - Referências

1 - Luiz Inácio Lula da Silva 911
2 - Saúde pública 796
3 - Educação 703
4 - Transporte 397
5 - Reforma tributária 342
6 - Mulher 322
7 - Segurança Pública 210
8 - Orçamento da União 195
9 - Corrupção 146
10 - Reforma Política 146


Lula é o alvo preferido

A alta popularidade do presidente Lula não é só nas ruas. É também no plenário, embora muitas vezes para receber críticas dos partidos de oposição. O presidente foi o principal tema tratado pelos deputados nas 1.023 horas de sessões plenárias durante o ano. Segundo o levantamento do departamento de taquigrafia da Câmara, Lula foi citado em 911 discursos de parlamentares. Não há, no entanto, uma divisão sobre o que foi dito a favor ou contra o presidente.

Logo atrás, surgem com 796 referências, a Saúde, e a Educação, com 703. Em quarto lugar, estão as discussões sobre os Transportes, com 397. A tão prometida Reforma Tributária ficou em quarto lugar, com 342 citações. A proposta se arrasta há anos no Congresso. Em 2008, deveria ter sido votada, mas, por falta de acordo, ficou para o ano que vem e aparece como uma das prioridades dos deputados para os primeiros meses de trabalho legislativo.

Sempre em pauta quando há crimes explorados pela mídia, a segurança pública foi assunto abordado 210 vezes, seguida pelo recém aprovado Orçamento da União, sendo que esse último ganha força sempre nas sessões de fim de ano.

Na mesma relação, estão inseridas discussões sobre a proposta de reforma política e temas ligados à corrupção, ambos com 146 referências cada.

Senado aprova aumento de vereadores para 59.791 no País


O Senado aprovou na madrugada desta quinta-feira, 18, proposta de emenda à Constituição (PEC) que aumentou em 7.343 o número de vereadores no País. Atualmente, são 51.748 vereadores e, com a PEC, esse número passará para 59.791. A PEC recompõe quase integralmente a redução imposta, em abril de 2004, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e confirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), quando 8.481 vagas de vereadores foram eliminadas.

Para aprová-la, os senadores fecharam acordo para cumprir em um só dia os prazos constitucionais de discussão da matéria e votação em dois turnos. A parte da emenda que tratava da redução de gastos saiu da proposta de emenda constitucional e terá tramitação independente. Ou seja, as Câmaras Municipais continuarão a receber o mesmo montante de recursos previsto na Constituição de 1988.

A proposta foi aprovada em maio pela Câmara. Os vereadores pressionaram para que o texto fosse votado pelo Senado antes das eleições de outubro, mas os parlamentares acabaram optando por deixar a apreciação da emenda para o fim do ano.

O projeto beneficiará principalmente os municípios pequenos e médios, que têm população entre 15 mil e 1 milhão de habitantes. As cidades de até 15 mil moradores terão nove vereadores. O número aumenta de acordo com o tamanho dos municípios, chegando ao máximo de 55 vereadores - para as cidades com mais de 8 milhões de habitantes.

Um levantamento da Organização Não-Governamental Transparência Municipal concluiu que São Paulo será o Estado com maior aumento do número de vereadores, quando aprovada a PEC 20/08. Nas 645 cidades paulistas haverá mais 1.246 parlamentares - o que corresponde a 15,74% de todos os "repostos". Depois de São Paulo o maior número de novas vagas estará em Minas (884), Bahia (723), Rio Grande do Sul (498), Paraná (465), Pernambuco (455), Ceará (453), Pará (419), Maranhão (401), Rio (371), Santa Catarina (308) e Goiás (262).

A emenda à Constituição aprovada nesta quinta-feira vai agora à promulgação.

Gastos de R$ 169 bi com pessoal



A Comissão Mista de Orçamento aprovou ontem o relatório do senador Delcídio Amaral (PT-MS) sobre a proposta de lei orçamentária da União de 2009. O texto, que seguirá para o plenário do Congresso depois da votação dos destaques, mantém a trajetória de aumento dos gastos com o funcionalismo no mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar do corte de R$ 402 milhões na receita para a contratação de servidores, antecipado pelo Correio, o relatório prevê uma despesa de R$ 169,2 bilhões com pessoal no próximo ano.

O valor supera em 12,8% o registrado em 2008 — R$ 150 bilhões. Além disso, é duas vezes maior do que a inflação oficial (6,2%) e o crescimento da economia (6,3%) registrados nos 12 meses encerrados em setembro. Representantes do setor produtivo e líderes da oposição criticam a explosão desse tipo de gasto, que subirá, em valores nominais, 125% entre 2002 e 2009. Cobram do governo um freio na despesa, o que abriria espaço para elevar a quantidade de investimentos públicos, a fim de impedir uma desaceleração acentuada do Produto Interno Bruto (PIB) num cenário de crise internacional.

Na quinta-feira da semana passada, por exemplo, o presidente do Grupo Gerdau, Jorge Gerdau Johannpeter, pediu ao presidente Lula, em reunião no Palácio do Planalto, a contenção de todas as despesas correntes, e não só de pessoal. O pleito conta com o apoio, entre outros, dos presidentes da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deputado Armando Monteiro Neto (PTB), e da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Paulo Safady Simão.

Beneficiários
O aumento das despesas com pessoal decorrerá da “recomposição” do quadro de servidores do Executivo, da correção dos salários dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do procurador-geral da República de R$ 24,5 mil para R$ 25,7mil (o que ainda depende de aprovação do Congresso), da implantação de planos de carreira no Judiciário e no Ministério Público da União, do pagamento de anistiados políticos, dos gastos com precatórios e sentenças judiciais na área de pessoal e dos reajustes concedidos a funcionários públicos.

Frutos de acordo entre o Ministério do Planejamento e sindicatos, só as medidas provisórias (MPs) 440 e 441, que beneficiam cerca de 470 mil servidores, terão juntas um impacto de R$ 10,4 bilhões no Orçamento da União de 2009. Essa fatura leva em consideração apenas os benefícios editados por Lula. Desconsidera, portanto, as emendas aprovadas por congressistas que aumentam os gastos e, conforme o Ministério do Planejamento, serão vetadas. O relatório final sobre a próxima lei orçamentária traz um corte total de cerca de R$ 10,5 bilhões em gastos. A maior parte — R$ 8,5 bilhões — atingiu as despesas de custeio.

Antes de revisarem a previsão de crescimento da economia em 2009 de 4,5% para 3,5%, parlamentares chegaram a ampliar em R$ 8 bilhões a estimativa de receitas. Em comparação com esse documento, descartado posteriormente, o corte realizado foi de cerca de R$ 15 bilhões.


DINHEIRO PÚBLICO
Os números finais do Orçamento da União de 2009

Cortes realizados


R$ 8,5 bilhões em despesas de custeio
R$ 1,2 bilhão em investimentos
R$ 402 milhões em custos com a contratação de funcionários

Previsão de economia
R$ 800 milhões com o pagamento de juros da dívida pública
R$ 700 milhões a menos de superávit primário

Verbas incluídas*
R$ 1,3 bilhão em transferências a estados, Distrito Federal e municípios para compensar perdas com a desoneração das exportações (Lei Kandir)
R$ 150 milhões para ações de irrigação na Região Centro-Oeste
R$ 94 milhões para uma reserva de recursos destinada a custear renúncias de receitas aprovadas pelo Congresso

Principais indicadores

Investimentos da União: R$ 47,3 bilhões

Investimento das estatais: R$ 79 bilhões

Assistência Social: R$ 32,68 bilhões

Salário mínimo: R$ 464,72

Despesa com pessoal: R$ 169,2 bilhões

Emendas individuais: R$ 5,94 bilhões

Emendas de bancada: R$ 9,17 bilhões

Vereadores tumultuam corredores do Senado


Vereadores que fazem lobby no Congresso em favor da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que aumenta em 7.343 o número de cadeiras nas câmaras municipais de todo o país trocaram insultos ontem nos corredores do Senado. Enquanto aguardavam para ser recebidos pelo presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), vereadores contrários e favoráveis à PEC provocaram tumulto nos corredores da Casa. O Senado tem até quinta-feira para apreciar a medida.

A confusão teve início quando o vereador Ivan Duarte (PT-RS), do município de Pelotas, concedeu entrevista manifestando posição contrária à PEC. Cercado por outros vereadores favoráveis à proposta, o parlamentar acabou hostilizado.

Os vereadores favoráveis à PEC acusaram Duarte de ser "marajá" e "capacho de prefeito" depois que o petista afirmou que a proposta não deveria ser aprovada pelo Congresso no final deste ano.

– Entendo que este não é o momento adequado – afirmou. – As regras tinham que ter sido mudadas antes da eleição.

O vereador Gonçalves (DEM-GO), do município do Novo Gama, partiu para o ataque contra o colega.

– Você deveria ficar calado – reclamou. – Antes você defendia a PEC e agora que se elegeu não quer mais que aumente.

Em resposta, Duarte argumentou que as mudanças deveriam ter sido apreciadas pelo Legislativo antes das últimas eleições municipais de outubro.

– Eu só acho que não pode ser depois das eleições – disse o vereador de Pelotas. – A população da minha cidade votou em 15 vereadores e não em 23.

Mesmo montante

A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado retirou do texto da PEC o artigo que reduzia os percentuais de repasse das receitas dos municípios para as câmaras. Com a mudança, as câmaras municipais vão continuar a receber o montante previsto pela Constituição Federal, sem aumento nos gastos mesmo com a eventual criação dos novos cargos.

O senador César Borges (DEM-BA), relator da proposta na comissão, havia sugerido a redução dos repasses uma vez que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) reduziu em 2004 o número dos vereadores no país, mas manteve o mesmo percentual de repasses. De 2004 para cá, as câmaras tiveram os números de vereadores reduzidos, mas mantiveram a mesma arrecadação.

Os vereadores argumentam que a PEC não vai ampliar os repasses para as câmaras municipais, o que facilita a aprovação do texto.

– Essa proposta corrige uma situação do passado – avaliou o vereador Laudinho Santos Souza (PT), do município de Teixeira de Freitas (BA). – O intuito era reduzir custos quando houve a diminuição no número de vereadores, mas isso não foi feito. A matéria faz exatamente essa correção.

O presidente do TSE, Carlos Ayres Britto, revelou ontem preocupação em torno da PEC. Britto ressaltou que a medida só pode valer no mesmo ano quando aprovada até 30 de junho, prazo final para a realização de convenções partidárias.

Petistas obstruem venda da Nossa Caixa


A Assembléia Legislativa deverá votar hoje o projeto de lei que permite a absorção da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil. A base de sustentação do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), foi surpreendida pela disposição do PT de criar obstáculos para a aprovação da proposta, já que contava que o partido não iria se opor a um projeto do interesse de uma instituição financeira federal.

Coordenador da ação do partido contra o projeto, o deputado estadual Rui Falcão (PT) impediu a votação em plenário ainda ontem ao apresentar uma emenda convocando um referendo popular para tornar definitiva a incorporação do banco popular paulista. A votação foi transferida para hoje, já que o regimento interno obriga a publicação no Diário Oficial de todas as emendas.


Foi uma forma de ganhar tempo para que o Tribunal de Justiça examine um mandado de seguro com pedido liminar para que a tramitação do projeto seja interrompida. Ao impetrar o mandado ontem, Falcão alegou que a incorporação teria que ser feita por emenda constitucional, já que a Constituição do Estado cita nominalmente o banco como agente financeiro do tesouro estadual.


"O PT havia decidido não obstruir. Parece que mudou de idéia. Vou propor que as reuniões do colégio de líderes comecem a ser gravadas e registradas em atas", ironizou o líder governista na Casa, deputado Barros Munhoz (PSDB). "Nunca existiu acordo", rebateu Falcão.


O deputado petista levantou razões políticas para o partido se opor ao projeto. "O governador se desfaz do banco, engorda seu caixa de campanha e transfere todo o desgaste possível do fechamento de agências para o Banco do Brasil e para o governo federal. Meu dever é lutar até as últimas consequências para que este crime não se consuma", afirmou, ao expor sua posição para deputados em reunião conjunta das comissões. Segundo Falcão, o Banco do Brasil não é um braço do governo federal, mas "uma sociedade anônima de direito privado".


Apesar da resistência petista, somente a ação judicial poderá impedir a aprovação da proposta do governo Serra, que conta com o apoio de 71 dos 94 deputados estaduais. A aprovação na Assembléia Legislativa é o último passo legal para que o banco estadual seja absorvido pelo Banco do Brasil, em uma transação que proporcionará R$ 5,3 bilhões para que Serra possa tentar cumprir sua meta estadual de investimentos.

Ex-senador do DEM José Jorge é eleito para o TCU


O governo sofreu ontem mais uma derrota no Senado com a eleição do ex-senador José Jorge (DEM-PE), atual presidente da Companhia Energética de Brasília (CEB), para ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), na vaga aberta com a aposentadoria do ex-senador Guilherme Palmeira, de Alagoas. Ex-ministro de Minas e Energia do governo Fernando Henrique Cardoso, o pernambucano foi candidato a vice-presidente da República em 2006, na chapa encabeçada por Geraldo Alckmin.

Candidato ao TCU apoiado abertamente pela oposição, José Jorge recebeu 41 dos 76 votos, derrotando o senador do PMDB Leomar Quintanilha (TO), que recebeu 34 votos. Houve um voto nulo. José Jorge acompanhou a votação no plenário. Foi abraçado pelos parlamentares e cumprimentou Quintanilha, que anotou voto a voto, sentado na última fila, cercado por pemedebistas. A votação foi secreta e por meio de cédula.


O PT e os governistas trabalharam por Quintanilha, na tentativa de evitar a eleição de um oposicionista. "A oposição acha que o TCU é capitania hereditária", afirmou a líder do PT, Ideli Salvatti (SC), lembrando que, dos nove ministros do TCU, cinco são políticos - e, desses, quatro ligados à oposição: Ubiratan Aguiar, atual presidente, ex-deputado do PSDB, Valmir Campelo, ex-senador do ex-PFL (hoje DEM), Haroldo Cedraz, ex-deputado do PFL, Palmeira (ex-PFL) e Augusto Nardes, ex-deputado do PP.


Segundo senadores da oposição, o Presidente Lula trabalhou pessoalmente por Quintanilha. Teria chamado ao Palácio do Planalto parlamentares da base aliada, defendendo o voto no senador do PMDB. Quintanilha foi presidente do Conselho de Ética durante o julgamento de processos por quebra de decoro parlamentar contra o ex-presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL). Quintanilha integrava a chamada "tropa de choque" do alagoano.

O senador é investigado em um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), em que é acusado de receber propina de empreiteiras para destinar emendas do orçamento para obras. Lideranças do PMDB avaliaram que houve "traições" na base governista. A líder do PT, no entanto, afirmou que sua bancada fechou questão a favor de Quintanilha. "Além do interesse no bom relacionamento com o PMDB, o PT era diretamente interessado na eleição do senador Leomar Quintanilha, porque seu suplente é do PT. O partido ganharia um senador", afirmou Ideli.

José Jorge tem ótimo trânsito em todos os partidos e promove todo ano uma festa junina em Brasília. Suspendeu em 2008 porque a ex-primeira-dama Ruth Cardoso morreu no dia da festa. "Engenheiro, estatístico e tecnicamente preparado, José Jorge é o candidato mais preparado para o TCU", afirmou o senador Cristovam Buarque (PDT-DF).

E a crise?


A lavanderia hospitalar MaxLav, com sede em Jaguariúna (SP), está investindo R$ 7 milhões para construção de uma nova unidade em Monte Mor, também no interior de São Paulo. Com a inauguração, prevista para o primeiro trimestre de 2009, a MaxLav dobrará para 60 toneladas sua capacidade diária de lavagem. A empresa é especializada em higienização de roupas usadas em hospital e recentemente recebeu a certificação da Organização Nacional de Acreditação (ONA), que avalia prestadoras de serviços na área de saúde.

A crise está na imprensa: Crise de caráter!


Na sexta-feira, 600 funcionários da área administrativa da ALL fizeram em Curitiba a festa de encerramento do ano em ritmo de balada. Nada de pessimismo . "Estamos realmente animados", disse aojornal Valor Econômico diretor presidente da companhia, Bernardo Hees, após participar de reunião de diretoria, na segunda. "A crise não é benéfica para a ALL, mas temos crescido em bons e maus momentos", completou.

A última reunião do ano acontecerá na próxima semana, porque, de acordo com o executivo, "trabalhar é o que a gente sabe fazer". Internamente, a crise não levou a mudanças no controle de custos. Na opinião de empregados, a empresa já trabalha com estrutura enxuta. "Mudamos pouquíssimo do nosso plano para o ano que vem, foram ajustes cosméticos", contou Hees. De acordo com ele, dos R$ 600 milhões, cerca de R$ 550 milhões serão destinados a investimentos no Brasil (para locomotivas, vias permanentes, vagões e 40 pátios de cruzamento e manobra) e o restante na Argentina.


A ALL passará a usar em fevereiro trens de 8 mil toneladas, do Alto Araguaia (MT) até Santos (SP) "O volume praticado é de 6 mil toneladas. Com maior produtividade, consome menos diesel e desgasta menos a via permanente". Também no primeiro trimestre irá inaugurar seu primeiro terminal de grãos, no porto de Paranaguá, com capacidade estática para 50 mil toneladas, no qual foram investidos R$ 35 milhões. "O mercado pode ficar mais difícil, como estão falando, mas temos muita participação a ganhar", comentou Hees.


A empresa calcula que tem capacidade para multiplicar por quatro a cinco vezes o volume de transporte sem aumentar a malha ferroviária. Fora isso, negocia com o BNDES investimentos de R$ 700 milhões para que terceiros construam 250 quilômetros de trilhos até Rondonópolis (MT). "Se acontecer uma crise catastrófica, que nunca aconteceu no país antes, meu 'market share' vai a 100%, porque vou capturar carga (do caminhão)". Hoje, a empresa tem participação de 40% no transporte de grãos e quer passar de 45% em 2009 nas áreas em que atua, enquanto no segmento industrial quer saltar de 20% para até 30% nos segmentos que já atende (combustíveis, madeira e outros).


O executivo acrescentou que, com a crise, os custos com logística ganharão mais atenção, e o uso de ferrovia será uma opção mais econômica. "Do jeito que estava antes, a indústria estava produzindo pra vender, e sobrava pouco espaço para pensar em logística. Agora os clientes vão pensar mais", prevê. Hees contou que tem expectativa de crescer no segmento de contêiner, com carga fechada e frigorificada. "Se você compara nosso preço com o rodoviário, somos pelo menos 20% mais baratos, e pagamos 100% dos impostos". A diferença, disse ele, poderia ser maior. "Muitos transportadores autônomos não pagam impostos que, se fossem considerados, fariam a diferença chegar a 35%, 40%".


Na ALL não devem ocorrer demissões em 2009. Pelo contrário, estão previstas até 400 contratações, sendo 250 para o cargo de maquinistas, que são formados pela empresa. O próprio Hees é maquinista. "Já conduzo trem há mais de cinco anos. É o que eu gosto de fazer", contou o executivo. Sobre 2008, diz: "é o melhor ano da nossa história". A movimentação de carga foi menor que o esperado no terceiro trimestre, mas Hess adiantou que "o volume do quarto trimestre está sendo muito forte" e que a empresa está "bem perto" de cumprir as metas.


Sobre os desafios que tem pela frente, o executivo-maquinista usa a seguinte expressão: "a comida está caindo do prato". Ou seja, há muito por fazer.

STF determina cassação por troca de partido


A 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal determinou ontem, por unanimidade, que a Mesa da Câmara cumpra imediatamente - independentemente de publicação de acórdão - a decisão do Tribunal Superior Eleitoral, de março último, que cassou o mandato do deputado Walter Brito (PB), por ter trocado o DEM pelo PRB, sem justa causa, fora do prazo determinado pelas resoluções 22.610/07 e 22.732/08 do TSE.

A decisão da turma do STF foi tomada no julgamento de um recurso (agravo de instrumento) do parlamentar contra despacho do presidente do TSE, ministro Ayres Britto, que lhe negara o direito de ajuizar recurso extraordinário ao STF contra a decisão do plenário do TSE.

Walter Brito é o primeiro deputado federal a perder o mandato por infidelidade partidária.A defesa do parlamentar alegava a inconstitucionalidade da Resolução 22.610/07 do TSE - que regulamenta o processo de perda de mandato por infidelidade partidária - por considerar que o tribunal não poderia ser órgão julgador desse tipo de processo sem uma lei complementar para essa finalidade.

O ministro-relator do agravo na 2ª Turma do STF, ministro Celso de Mello, seguiu o parecer do procurador-geral da República, no sentido de que, em mais de uma ocasião, o Supremo já se pronunciou sobre o assunto, e validou as resoluções do TSE em causa.

Mello lembrou que, novembro último, por 9 votos a 2, o pleno do Supremo manteve o entendimento de que, em conseqüência do princípio da fidelidade partidária, os mandatos eletivos pertencem aos partidos, e que as resoluções do TSE regulamentando a matéria continuavam em vigor, "em sua integralidade", pelo menos até que o Congresso venha a alterá-la, com a aprovação de lei específica.

Esta decisão foi tomada no julgamento de ações de inconstitucionalidade propostas pela Procuradoria-Geral da República e pelo Partido Social Cristão (PSC) contra a Resolução 22.610/07 do TSE, com base no argumento principal - destacado pelo procurador-geral da República - de que o TSE assumira o papel de "verdadeiro legislador" e violara o artigo 121 da Constituição, que dá à União a competência privativa de legislar sobre matéria eleitoral. Foram votos vencidos, na ocasião, os ministros Eros Grau e Marco Aurélio.

O deputado Walter Brito Neto assumiu o mandato como suplente de seu ex-colega Ronaldo Cunha lima (PSDB-PB), que renunciou ao mandato, cinco dias antes de o STF julgar a ação penal em que era réu por tentativa de homicídio contra o ex-governador da Paraíba Tarcísio Burity.

João da Costa recomenda cortes para manter obras


Face à crise econômica que vai enfrentar já no início de governo, o prefeito eleito do Recife, João da Costa (PT), recomendou ontem a seus secretários que apertem os cintos. "Já lhes pedi que aumentem a eficiência e reduzam os gastos para que as obras sejam mantidas", afirmou ontem durante o anúncio do novo secretariado. O receio do prefeito eleito é que haja uma diminuição nas receitas do município, que trabalha hoje com um orçamento de R$ 2,3 bilhões para 2009.

João da Costa divulgou ontem 18 nomes do primeiro escalão, sendo 17 secretários e um chefe de gabinete. Em comparação com a atual estrutura, o número de Pastas cresceu em uma unidade, com o desmembramento da Secretaria de Planejamento Participativo e Desenvolvimento Urbano e Ambiental.


Os partidos que mais conquistaram espaço no novo secretariado foram o PSB, do governador Eduardo Campos, e o PTB. Ambos vão passar de uma para duas secretarias em 2009. O PSB ficará com Habitação, pasta em que há previsão de muitos recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e com Direitos Humanos e Segurança Cidadã, o que deve alimentar as desejadas ações articuladas entre município e Estado do governador.


A ampliação do espaço do PSB também sinaliza aproximação entre o governador e o PT local. É uma postura que difere do tom de confronto que vem sendo adotado pelo presidenciável do partido, o deputado federal Ciro Gomes (CE).


Já o PTB ficou com duas secretarias que lidam com vultuosas cifras: Serviços Públicos e Administração e Gestão de Pessoas. Outros partidos contemplados com uma secretaria cada foram PCdoB e PR, mantendo o número atual.


Para cuidar do Orçamento Participativo da cidade, foi destacado Milton Botler, desde 2004 braço direito do prefeito eleito, quando João da Costa assumiu a pasta do Planejamento Participativo no Recife. Para Botler se tornar secretário, ainda é precisa a aprovação dos vereadores da cidade, já que uma pasta será desmembrada em duas.


Depois de comandar o Recife por oito anos, a presença do prefeito João Paulo ainda se manterá forte na gestão João da Costa. Quatro secretários do atual prefeito permanecerão nas pastas que ocupam hoje. Outros dois serão transferidos para outras secretarias a partir de 2009. Há outros nomes que, apesar de não fazerem parte do governo João Paulo, fazem parte da estrutura administrativa.

Lula vai discutir crise com centrais sindicais


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai convidar os presidentes das seis centrais sindicais e os ministros do Trabalho, Carlos Lupi, e da Previdência, José Pimentel, para discutir medidas de preservação dos empregos durante a crise econômica. Apesar dessa iniciativa, ele não comentou as propostas de flexibilização temporária da legislação trabalhista, defendida por alguns líderes empresariais. Essa discussão, na avaliação do presidente, passa pela necessidade de manter postos de trabalho para sustentar o consumo, mas, ao mesmo tempo, ele compreende que não se pode fechar os olhos e achar que tudo continua como antes.

Na reunião que Lula teve com 29 empresários, na quinta-feira, o representante do grupo Votorantim, Carlos Ermírio de Moraes, defendeu a adaptação da legislação trabalhista para os períodos excepcionais como o atual. O secretário de Trabalho de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, vem há tempos defendendo medidas neste campo, e o presidente da Vale, Roger Agnelli, que não foi à reunião, argumentou no mesmo sentido.


Lula acredita que as lideranças sindicais estão mais maduras, mas pondera que uma solução não pode ser imposta por uma das partes envolvidas. Outro fator importante, na avaliação do presidente, é verificar os efeitos da recente desoneração tributária para estimular o consumo. O governo disse que abriu mão de R$ 8,4 bilhões para criar duas novas alíquotas do IR de pessoas físicas e reduzir a carga do IOF e do IPI dos automóveis.


O advogado e professor de direito do trabalho da USP, Otávio Pinto e Silva, explica que a legislação permite que medidas excepcionais sejam adotadas no âmbito do contrato firmado entre empregador e empregado, mas tudo depende da negociação com o sindicato. Como exemplo, diz que a redução da jornada de trabalho com redução proporcional do salário é uma medida que já pode ser tomada, desde que aprovada pelos representantes dos empregados. Outra possibilidade que ainda não foi muito utilizada é a suspensão do contrato de trabalho, até cinco meses, para qualificação profissional. Nesse caso, o empregador paga apenas uma ajuda de custo.


Reduções unilaterais do custo de contratação dependem de medida provisória ou aprovação de projeto de lei, segundo o professor. Nesse grupo estão, por exemplo, a suspensão temporária dos pagamentos de tributos para reduzir a necessidade de capital de giro das empresas.


No lado dos sindicalistas, as propostas de flexibilização da lei trabalhista enfrentam muita resistência. O presidente da CUT, Artur Henrique da Silva Santos, afirmou que a sugestão de Agnelli é "oportunista" porque a Vale é uma empresa gigante que, recentemente, teve lucros "astronômicos". "Orientamos os sindicatos a lutarem organizando protestos e greves para pressionar os patrões a reverterem demissões", afirma.


O presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho, também afirma que não será tolerada redução de direitos dos trabalhadores e alerta para o fato de que, em plena crise, "tem muita gente querendo ganhar dinheiro". De acordo com essa avaliação, recomenda muita calma nas negociações com os empregadores. "Redução de direitos, mesmo temporária, é algo que vai enfrentar muita resistência dos trabalhadores e do Congresso."

Congresso faz gasto supérfluo a toque de caixa


No apagar das luzes do mandato do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), a Casa se apressa para concluir reforma e compra de mobiliário para imóveis funcionais em Brasília e fugir do corte que a dotação do Congresso pode sofrer na votação do Orçamento Geral da União de 2009.

No Senado, a construção de um viveiro de plantas auto-sustentáveis é a obra mais vistosa que desponta no quadro de investimentos da Casa, na reta final do mandato do presidente Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN). Os apartamentos funcionais dos senadores também devem passar por recauchutagem.

Enquanto isso, o Palácio do Planalto corre contra o tempo na tentativa de aprovar alguns projetos nos poucos dias úteis que restam antes do recesso parlamentar. Entre as prioridades, estão o Orçamento e o Fundo Soberano.


Congresso foge do corte no Orçamento e aumenta despesas



Brasília, 16 de Dezembro de 2008 - No apagar das luzes do mandato do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), a Casa se apressa para concluir reforma e compra de mobiliário para imóveis funcionais que mantém em Brasília e fugir do tesouraço que a dotação do Congresso pode sofrer na votação do relatório do Orçamento Geral da União para 2009, previsto para acontecer ainda nesta semana. Ao todo, a compra de mobília deve representar gastos de R$ 1,4 milhão para a Casa - o equivalente a R$ 15 mil para cada um dos 96 imóveis que serão reequipados. Já o edital para a reforma dos blocos A,B,C,D e E da quadra 302 norte prevê gastos de R$ 53,8 milhões.

Na justificativa do edital, a Comissão Permanente de Licitações da Câmara argumenta que a reforma deve implicar em redução dos gastos da Casa com auxílio-moradia. Isso porque dos 288 apartamentos funcionais da Câmara, 45 permanecem ociosos, elevando a despesa com pagamento de aluguel para deputados que optam em morar em hotéis ou imóveis não pertencentes à Casa.

Prevê-se também, na justificativa, um "ganho real" para a União, uma vez que os imóveis reformados - construídos há aproximadamente 30 anos - tendem se valorizar com as obras. Segundo a comissão, a reforma "dotará as uni-dades residenciais selecionadas de condições de habitabilidade, revestindo-se em economia para o erário, a médio e longo prazos". Ainda em estudo na Casa está a construção do prédio que abrigará o quinto anexo da Câmara. O custo da obra, não revelado pela assessoria de imprensa da Casa, deve ser coberto pela receita da venda da folha de pagamentos da Câmara ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal. O contrato, selado em maio deste ano, teve valor total de R$ 220 milhões, dividido em R$ 187 milhões para a Banco do Brasil e R$ 33 milhões para a Caixa.

No Senado, a construção de um viveiro de plantas auto-sustentável é a obra mais vistosa que desponta no quadro de investimentos da Casa, na reta final do mandato do presidente Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN). Sob a caneta de Garibaldi - que tenta viabilizar mais dois anos no cargo mais alto do Senado - os apartamentos funcionais de senadores também devem passar por uma recauchutagem, ao custo de R$ 82 mil.

Por conta do orçamento enxuto de 2009, a construção do túnel ligando Congresso e o Palácio do Planalto foi postergada. Já o jardim do Senado deve custar aos cofres públicos cerca de R$ 315 mil e contará com viveiro de plantas e composteira "totalmente ecológicos e auto-sustentáveis" e equipados com banheiros com duchas quentes, conforme edital publicado na página da Casa na internet.

Plano de habitação para baixa renda poderá ter R$300 bilhões até 2023


Com 12 milhões de moradias, programa vai suprir 70% do déficit nacional

O governo decidiu apressar o Plano Nacional de Habitação (PlanHab) e fecha os últimos detalhes para lançá-lo em janeiro. Será uma política ambiciosa e de longo prazo, até 2023, para acabar com o déficit habitacional do país, centrado nas famílias com renda de até três salários mínimos mensais. O plano é baseado em quatro eixos - financiamento e subsídio, estímulo à cadeia produtiva da construção civil, política urbana e arranjos institucionais - e foi concebido pelo Ministério das Cidades. Os detalhes finais estão sendo amarrados diretamente pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

O plano prevê construir 12 milhões de moradias para baixa renda em 15 anos, num investimento que pode chegar a R$300 bilhões em recursos orçamentários, incluindo União, estados e municípios. O cálculo considera a média nacional dos imóveis para essa faixa de renda, de R$25 mil. Segundo o presidente do Fórum Nacional de Secretários de Habitação, Carlos Marun, os recursos serão necessários para atender 70% do déficit habitacional do país, na faixa de oito milhões de unidades, e 30% da demanda futura de 27 milhões de novas casas:

- Esse é o público para o qual o crédito simplesmente não resolve o problema. A proposta é transformar a habitação social numa política de Estado e não de governo.

Além do aumento gradual dos recursos orçamentários, o plano prevê mudanças nas regras do FGTS, com o objetivo de ampliar a verba para faixas de renda mais baixa. Em 2009, o Fundo liberou ao segmento R$1,5 bilhão. A idéia é abarcar todos os programas habitacionais de interesse social do governo.

O plano traça três cenários de metas de investimento e construção de casas populares, considerando crescimento da economia brasileira de 4% ao ano, em média. O primeiro prevê R$4 bilhões em habitação e saneamento em 2009, conforme consta do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Os outros dois cenários ampliam os recursos gradativamente. O terceiro considera ainda a aprovação de uma proposta de emenda constitucional em tramitação no Congresso que vincula 2% das receitas da União e 1% da dos estados e municípios para atender deficiências de moradias dos mais pobres.

Está prevista ainda a criação de um fundo garantidor, para estimular o crédito a um público considerado de alto risco (até três salários mínimos). A cada 24 meses, esse fundo poderá arcar com o pagamento de até três prestações em caso de dificuldade do mutuário. O Tesouro Nacional aportaria R$500 milhões no fundo. Os mutuários serão divididos em cinco categorias, conforme capacidade de pagamento.

Senadores faltam a audiência que discutiria projeto de reserva de vagas em universidades


A Comissão de Constituição e Justiça do Senado não pôde realizar ontem audiência pública sobre o projeto que destina 50% das vagas em universidades federais para alunos da rede pública, com subcotas para negros, índios e pobres, porque os senadores não deram importância ao debate, apesar de terem de votar a proposta. Especialistas convidados compareceram, mas só havia sete senadores - o quórum era de 12. O encontro virou um bate-boca no corredor, numa mostra do que será a votação.


Por falta de quórum, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado não pôde realizar ontem uma audiência pública em que seria debatido o projeto de lei que reserva 50% das vagas em universidades e escolas técnicas federais para alunos da rede pública, com subcotas para pobres, pretos, pardos e índios. Diferentemente dos senadores, que não deram importância ao debate e faltaram à sessão, os sete convidados compareceram. E o encontro terminou em bate-boca no corredor do Senado, num prenúncio do clima em que a proposta será votada.

Apenas sete dos 23 integrantes da CCJ assinaram a lista de presença, sendo que somente cinco estavam no plenário da comissão quando o presidente Marco Maciel (DEM-PE) anunciou o adiamento da sessão para amanhã. Para haver quórum, são necessárias, pelo menos, 12 assinaturas.

A decisão conseguiu desagradar a todos os convidados. De um lado, governo e movimentos sociais correm contra o relógio para que o projeto seja aprovado a tempo de vigorar em 2009. Do outro, os críticos da proposta condenaram o que consideraram descaso dos parlamentares. Antes da sessão, senadores quebravam a cabeça tentando entender a fórmula aprovada na Câmara.

"No bar, converso com meus amigos"

O geógrafo e sociólogo Demétrio Magnoli ficou revoltado com o adiamento. Ele descartou de imediato o convite para participar apenas de uma audiência informal com os cinco parlamentares presentes.

- Fui convidado para uma audiência pública no Senado, não para uma conversa informal. No bar, eu converso com meus amigos - disse Magnoli, que é contra o projeto, acrescentando que não terá como retornar ao Senado para novo encontro.

No corredor, onde senadores davam entrevistas, Magnoli viu o coordenador-geral do Movimento dos Sem-Universidade, Sérgio Custódio, pedir ao senador Demóstenes Torres (DEM-GO) que apoiasse a realização da audiência pública hoje, de modo que a matéria tenha chance de ser votada nesta semana, antes do recesso parlamentar. Magnoli entrou na conversa:

- É audiência para lobista, que pode vir hoje, amanhã, depois. Eu não sou lobista. Eu não recebo para vir em audiência. Eu trabalho e perco dinheiro para vir em audiência - disse Magnoli. - Vão rasgar a Constituição sem ter lido a lei. Só sabem que há ONGs que poderão ajudá-los nas próximas campanhas eleitorais.

Custódio evitou polemizar:

- Não vou cair na provocação.

O senador Demóstenes Torres criticou a falta de clareza do texto aprovado na Câmara e a pressa para votar a proposta no Senado:

- Foi criado um clima em que quem der uma opinião dizendo isso ou aquilo é contra. Se é contra, é contra o pobre, é contra o negro. E o senador está atemorizado de discutir e pode passar qualquer tipo de lei. A pior lei que existe. E essa lei, em vez de beneficiar, pode prejudicar. Está evidente que o branco pobre, aquele que ganha abaixo de um salário mínimo e meio, estará muito prejudicado se o projeto for aprovado com esse texto que veio.

Proposta poderá voltar à Câmara

O projeto diz que, do total de vagas reservadas pelo sistema de cotas nas universidades federais, metade deverá ser destinada a quem é de famílias com renda por pessoa inferior a um salário mínimo e meio. Ou seja, segundo um critério socioeconômico. As demais vagas, porém, deverão ser preenchidas por estudantes autodeclarados pretos, pardos e índios, na proporção ocupada por essas etnias na população de cada estado.

Demóstenes convenceu o senador Cristovam Buarque de que é preciso mexer no texto. Se isso for feito, a proposta terá de voltar à Câmara, frustrando a expectativa do governo, que defende que a medida vigore já no ano que vem.

Cristovam disse que é preciso aprovar uma redação clara e que a pressa pode atrapalhar. Ele defendeu, porém, a necessidade da reserva de vagas. Mais cedo, discutiu com quem criticava a proposta, sob o argumento de que o caminho para a inclusão social e racial é o investimento na educação básica:

- A elite brasileira nunca se empenhou para que a escola pública fosse boa para todos.

A antropóloga Yvonne Maggie, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, não gostou dos argumentos de Cristovam.

- O senhor não me conhece e não pode dizer isso de mim - reagiu Yvone, estendendo a mão ao senador e encerrando a conversa.

O diretor-presidente da ONG Educafro, frei David, outro convidado da audiência pública, estava vestido com roupa de monge. Ele condenou a demora, lembrando que o assunto tramita há anos no Congresso. Reclamou também do adiamento, afirmando que já participou de audiências públicas com apenas dois parlamentares presentes.

- Por que fazem isso em temas ligados aos negros e aos pobres? - perguntou frei David.

Até o fim da tarde, o religioso e Custódio tentavam convencer senadores a antecipar a audiência pública para hoje. Os outros senadores que assinaram a lista da CCJ foram Serys Slhessarenko, Antonio Carlos Valadares, Valter Pereira e Álvaro Dias. Ainda não há decisão sobre a antecipação ou não da audiência.

Travelstart no Brasil


Crise? que crise? A agência de viagens on-line Travelstart aterrissou no mercado brasileiro em setembro. A companhia sueca mostra-se confiante no consumo nacional. "Até então eles nunca tinham visto venda parcelada de passagens e acham que isso pode ser um bom negócio no Brasil", diz a diretora da Travelstart, Silvia Fagundes.

A empresa tem 12 filiais pelo mundo e está entre as quatro maiores do setor na venda online, com faturamento de US$ 180 milhões previsto para este ano. No Brasil, ao final dos três primeiros meses, exibe uma média de 120 passagens ao dia, sendo que 70% disso é parcelado. "Seguimos a mesma política das companhias aéreas, responsáveis pelo financiamento", diz Silvia. A agência recebe comissão de 6% a 10% (em vôos domésticos da Gol e da TAM) e um percentual de 4% a 9% nas viagens internacionais. Também vende reservas de carros e hotéis. Até agora, 90% da demanda é para o mercado nacional. "Se o dólar se estabilizar em torno de R$ 2,10, acredito que teremos mais reservas para o internacional", diz ela.


Com estimativa de receita de R$ 36 milhões para o final de 2009, a Travelstart não se intimida com um possível aperto da crise. A equipe enxuta tem sete pessoas em São Paulo. O sistema eletrônico funciona mesmo, diz Silvia, a ponto de evitar a contratação de um call center para atender reclamações. Na capital, quatro pessoas da equipe cuidam do atendimento ao cliente e outras três no interior, em Itapetininga, estão sendo contratadas para o mesmo fim.


A tecnologia para venda de passagens on-line, por sinal, é um dos trunfos com os quais a empresa conta no Brasil: a Travelstart está desenvolvendo sites de venda de pacotes turísticos para duas varejistas nacionais e uma regional, que pretendem oferecer o serviço em 2009. No exterior, 20% da sua receita vem da venda de tecnologia para agências de terceiros. Por aqui, entre as grandes redes, só o Carrefour Viagens está, desde 2002, em operação. Mas a rede francesa não informa desempenho. Renner, Riachuelo, Wal-Mart e Pão de Açúcar não exploram o serviço. A C&A desistiu da venda de pacotes na loja.


"Muitas tentaram, mas não tiveram sucesso por falta de movimento", diz o diretor da agência Sancatur, Oswaldo Nadal. A Sancatur mantém quiosque em duas unidades da Casas Bahia na Grande São Paulo, mas já esteve em seis lojas da rede. "A expansão deles exigiu que eu abrisse mão dos pontos, mas quero estar em mais lojas em 2009", diz Nadal, que loca o espaço nas unidades onde realiza, em média, 15 vendas ao dia por loja.


Para o consultor Eugênio Foganholo, as varejistas tentaram oferecer o serviço para diversificar o mix e agregar receita. "Se não deu certo com a venda física, é possível que tentem o on-line, onde os custos são menores", diz. No início, a Travelstart deve oferecer só tecnologia às varejistas. "Mas podemos intermediar a negociação com as companhias aéreas", diz Silvia.


Na Gol, as agências on-line representam perto de 10% das vendas totais, que somam 2 milhões de vôos por mês. Decolar e B2W (Americanas e Submarino) têm dois terços desse mercado. Segundo Tarcísio Gargioni, vice-presidente de marketing e serviços da Gol, a tendência é o on-line ganhar mais importância. "Mas para isso precisam oferecer um pacote completo, com hotel e locação de carro".

Venda de máquinas via Finame conserva ritmo em novembro e cresce 30% no ano


A venda de bens de capital por meio do sistema Finame, do BNDES, cresceu quase 30% no acumulado de janeiro a novembro, somando R$ 24,1 bilhões, um recorde. A expectativa do banco é fechar o ano com faturamento de R$ 26 bilhões, disse ao Valor Cláudio Bernardo Guimarães de Moraes, superintendente da área de operações indiretas do BNDES, informando que não sentiu nenhum arrefecimento na demanda por máquinas e equipamentos no mês passado. Ele destacou que em novembro as compras de bens de capital por intermédio de agentes financeiros do BNDES somaram R$ 2,3 bilhões - 21% mais que em igual período de 2007.

Na avaliação de Moraes, o fato de não ter ocorrido ainda uma desaceleração neste mercado se explica pelas decisões de investir que já foram tomadas. O que está sustentando as vendas do setor, que não foi tão atingido por um ritmo menor de atividade neste último trimestre do ano, como aconteceu com os bens duráveis, é a forte demanda de pequenas e médias empresas. "Elas estão comprando mais máquinas e equipamentos que as grandes." O que tem tido mais saída no Finame são caminhões (compras já feitas antes da crise) e bens seriados, como tornos e máquinas industriais.

Com base na carteira de pedidos do Finame (Financiamento de Máquinas e Equipamentos), que reúne Finame, Finame Leasing e Finame Agrícola, o superintendente da área de operações indiretas acredita que há ainda expectativa de crescimento das vendas de bens de capital em 2009.

As operações indiretas são feitas através dos bancos listados como agentes financeiros do BNDES. Os agentes recebem os pedidos das empresas e os remetem ao BNDES após avaliá-los e o banco lhes repassa recursos para liberar o crédito. O custo desse dinheiro para as grandes empresas é de TJLP (6,25% ao ano), 1,4% de spread, e mais o spread do agente, que é livre. Para as micro, pequenas e médias o custo é TJLP mais 0,9% de spread do banco e o spread livre do agente.


Moraes disse que os agentes subiram o spread no ápice da crise, em setembro/outubro, chegando até a 1%, ante spreads anteriores de 0,6% a 0,7%. "No auge da crise eles deram umas pancadas para cima, quando antes vinham caindo ano a ano." Agora já existe uma tendência de queda dos spreads do agente financeiro associada a mudança na curva dos juros de longo prazo, que vem caindo. "Antevejo uma volta dos spreads nos níveis de antes da crise", avalia o executivo do BNDES. Ele não esconde que houve uma "chiadeira" grande quando os spreads subiram.

Lula fala com Niemeyer sobre reformas no Planalto


O mais importante endereço de Brasília, o Palácio do Planalto, onde despacha o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está cheio de goteiras, mofo e gambiarras e precisa de uma revitalização urgente. A avaliação é do próprio Lula, que ontem se encontrou com o arquiteto Oscar Niemeyer para discutir uma reforma geral. Uma favela!, teria dito o presidente, segundo pessoas que acompanharam a conversa. Lula se queixou ainda do excesso de salas e paredes que, na avaliação do presidente, descaracterizaram o projeto original de Niemeyer, inaugurado por Juscelino Kubitschek em 1960.

Muitos presidentes que passaram por aqui fizeram pequenas modificações que desfiguraram o palácio,avaliou Lula. Grande parte dos puxadinhos e gabinetes foi erguida, no entanto, para abrigar os apadrinhados do atual governo. Estima-se que mais de 600 pessoas trabalham nos quatro andares e no subterrâneo do prédio principal. A meta é transferir 400 funcionários para outros prédios da Esplanada dos Ministérios. Atualmente, há 1.750 funcionários (já foram 3 mil) em todo o palácio, o que inclui os prédios anexos. Fala-se até em construir um quinto edifício.

Desde que o governo anunciou que, em junho de 2008, fecharia o palácio para reforma, ministros e assessores começaram a briga por quem voltaria a trabalhar em salas próximas do presidente. Assessores lembram que, na vida política de Brasília, trabalhar ao lado do presidente é símbolo máximo de status e poder.

Dos quatro ministros que despacham no Planalto, apenas a candidata de Lula para a sucessão de 2010, Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil, e Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação Social, têm espaço garantido no prédio quando a reforma terminar. Eles ocupam salas que estavam previstas no projeto de Niemeyer. Já os ministros Jorge Armando Félix, do Gabinete de Segurança, e José Múcio, da Secretaria de Relações Institucionais, ocupam gabinetes do 4º andar que estão num espaço onde antes era um vão livre. Lula quer novamente a área aberta, sem puxadinhos.

A reforma deve durar 14 meses. O governo pretende aproveitar o recesso de fim de ano para iniciar a mudança temporária do gabinete presidencial para o Centro Cultural Banco do Brasil, a 5 quilômetros da Praça dos Três Poderes. O Palácio do Buriti, um outro prédio da época da fundação da cidade, também poderá ser usado por Lula durante o período de reforma do Palácio do Planalto. O presidente espera reabrir o Planalto em abril de 2010, na festa de 50 anos de Brasília.

Juiz usa sentença para dar 'resposta' a Mendes


Menos de cinco meses depois de travar célebre embate com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes - autor de dois habeas corpus que, em julho, livraram Daniel Dantas da prisão, reformando decisões de sua autoria -, o juiz Fausto Martin De Sanctis infligiu ao banqueiro o mais pesado revés.

Na sentença, sem fazer menção ao ministro, o juiz anota que “tem-se propalado impiedosas palavras, que potencializam certos princípios, deturpam os fatos e servem a toda sorte de injustiças e inocuidades”. Alvo de saraivada de críticas em sessão no STF, De Sanctis destaca que o juiz deve julgar com imparcialidade e independência.

Para ele, “o processo esteve envolto em questões que refogem a técnica, como se ele, por si só, atingisse a ‘nobreza’ das pessoas imputadas”. “Estado de Direito certamente não se afigura leniência com o crime e o criminoso, mas atuação firme, desprovida de influências indevidas, jamais à margem da lei e da Constituição. Revela o grau de evolução, ou involução, das instituições democráticas.”

Nega que se teria envolvido pessoalmente com o caso, elegendo Dantas seu alvo: “Não há interesse, a não ser pela busca da verdade. Não há engajamento do magistrado a não ser neste sentido. Muito menos, deixou-se de lado garantias de um Estado de Direito. Árdua é a tarefa de julgar. Justiça tardia significa Justiça desqualificada ou injustiça qualificada.”

Diap elege parlamentares mais influentes


Duas eleições realizadas no Congresso para a identificação dos parlamentares mais influentes em 2008 terminaram com resultados diametralmente opostos. A tradicional pesquisa do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), que elege os 100 congressistas mais influentes do ano, apontou para nomes institucionais, como o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT), que ficou em primeiro lugar. Já na eleição do sítio "Congresso em Foco", que fez uma votação na internet a partir de uma pré-seleção preparada por jornalistas, os vencedores tiveram perfil diferente, como o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), que talvez não seja tão influente nas decisões da Câmara, mas é uma referência do Congresso na opinião pública.

O "Congresso em Foco" elegeu três senadores - Álvaro Dias (PSDB-PR), Pedro Simon (PMDB-RS) e Eduardo Suplicy (PT-SP) - e três deputados - Gabeira, Luciana Genro (P-SOL-RS) e José Carlos Aleluia (DEM-BA). Curiosamente, à exceção de Álvaro Dias, os senadores são considerados "outsiders" em seus próprios partidos. Os deputados são patronos de causas geralmente rejeitadas pela chamada maioria silenciosa, exceção do baiano José Carlos Aleluia, um hábil articulador que tanto no governo tucano quanto no do PT se sobressaiu em negociações difíceis, como as matérias relativas ao setor elétrico.


O levantamento do Diap, divulgado ontem, é realizado desde 1996. Esta foi a sua 12ª edição (a eleição não foi realizada em 1998). Além dos nomes institucionais, o que chama a atenção na relação de 12 nomes (três terminaram empatados no décimo lugar) é a presença de quatro pemedebistas. Trata-se de um reflexo direto da ampliação da influência do PMDB no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que começou discreta após as dificuldades pelas quais passou o Palácio do Planalto em 2005, e chega hoje a cinco ministérios e dezenas de cargos de segundo escalão, no segundo mandato.


O PMDB também tem as duas maiores bancadas do Congresso e é favorito na eleição do próximo presidente da Câmara, em aliança com o PT: o deputado Michel Temer, presidente nacional da agremiação e que ficou em sétimo lugar na lista dos "dez mais" do Diap. No Senado, a candidatura de Tião Viana (PT-AC) passou a ser levada a sério com a decisão do senador José Sarney (PMDB-AP) de não disputar o cargo de presidente e ainda apoiar o nome do petista. Sarney, aliás, é o parlamentar mais votado (seu nome apareceu em oito das 12 edições) desde que o Diap realiza o trabalho para seus clientes, os sindicatos filiados a centrais sindicais.


O aspecto "institucional" tem sido decisivo nas eleições, segundo o diretor do Diap Antonio Augusto Queiroz, "tanto que somente dois dos eleitos (Miro Teixeira e José Sarney) não são atualmente presidentes de partido, líderes de bancada ou membros das Mesas Diretoras das Casas do Congresso". Outro aspecto a que Toninho (como é mais conhecido) chama atenção é que "embora a Câmara tenha seis vezes mais parlamentares do que o Senado, há uma distribuição equilibrada dos votos entre deputados e senadores". Destaca também que "a oposição, mesmo sendo numericamente inferior, conseguiu uma boa performance, elegendo três entre os mais influentes do Congresso, sendo dois senadores e um deputado".


"Do ponto de vista profissional, a lista é heterogênea", analisa o Diap. São "três empresários, três médicos, dois advogados, dois jornalistas, um economista e um diplomata, considerando todos os escolhidos, inclusive os que estão empatados em último lugar". Uma surpresa: "regionalmente, pela primeira vez o Norte ganhou dos Sudeste e do Nordeste em número de parlamentares influente" nesses 12 anos.


O Diap tem critérios específicos para selecionar os 100 "Cabeças do Congresso" - o eleitorado responsável pela escolha dos "dez mais". Entre eles número de projetos apresentados e aprovados, participação efetiva nas comissões e escolha para relatorias importantes, por exemplo.


Durante muito tempo, o Diap foi uma das poucas entidades a mapear a elite e as tendências do Congresso. Hoje ganhou a companhia de outras como o "Congresso em Foco" e a consultora Arko Advice, às quais eventualmente se associa. Uma pesquisa da Arko entre "os cabeças", por exemplo, aponta que 71,96% dos parlamentares acham que o governador José Serra, de São Paulo, consolidou sua candidatura presidencial pelo PSDB, com o resultado as eleições municipais. Mas 65,42% dos entrevistados afirmaram que o fortalecimento do PMDB nessa mesma eleição deve levar o governador mineiro Aécio Neves a trocar o PSDB pelos pemedebistas, a fim de concorrer a presidente em 2010. A elite congressual, no entanto, ficou dividida em relação à candidatura de Dilma Rousseff: enfraquecida (28,03%), fortalecida (28,03%) e estável (39,25%).

"Camelô-consultor" dá dica de moda nas ruas de SP


Os principais pontos de comércio da chamada fast-moda - aquela que é rapidamente copiada e se espalha pelas vitrines mais populares de ruas como José Paulino e 25 de Março, no centro de São Paulo - criaram um outro tipo de camelô. É o camelô-consultor que, bem informado, sabe das últimas tendências da moda, como cor, formas e estampas. Também está sempre atualizado quanto às peças que mais fazem sucesso no guarda-roupa de famosos.

O óculos Tom Ford, em forma de oito, usado pela atriz Claudia Raia na novela A Favorita, por exemplo, virou um ícone fashion nas bancas dos ambulantes, seguido pelo Prada, com que Gisele Bündchen já foi fotografada. Com um comércio informal mais direcionado à confecção, a Rua José Paulino surpreende com camelôs, às vezes, muito especializados.

É o caso de Bianca Vismara, de 19 anos, estudante de Moda da Universidade Paulista (Unip). Na banca com licença, ela vende por dia cerca de 500 tops, todos estruturados e com grande variedade de padronagens. Além de vender, ela tem de dar uma série de explicações a clientes inseguras quanto à maneira de usar o artigo adquirido. Já o ambulante de 45 anos, sem licença, especializado em óculos diz que fica de olho na novela e revistas para dar palpite aos clientes. ?Ele leva o que quiser, mas tem cliente que chega aqui perguntando o que está na moda. Daí, mostro os últimos lançamentos?, diz ele. As informações são do jornal

Há grampos e grampos


Está diariamente nas manchetes dos jornais: as interceptações telefônicas ilegais chegaram até a cúpula do poder. Tem boi nas linhas de banqueiros, parlamentares, chefes de gabinete e até do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). O direito humano à privacidade é sistematicamente violado. A CPI dos grampos divulgou que, em 2007, as empresas de telefonia realizaram mais de 400 mil escutas; a Comissão Nacional de Justiça (CNJ), por sua vez, afirmou que existem 11.846 linhas sendo monitoradas no momento. Enquanto acompanhamos de perto o debate — e eventualmente as trocas de acusações — entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, o Estado brasileiro responde na Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA justamente por sua responsabilidade em um caso de grampo ilegal.

O caso é de 1999 e aconteceu no Paraná. Policiais militares pediram autorização judicial para grampear uma linha telefônica de lideranças do MST. O pedido, por si só, já era completamente ilegal, uma vez que a investigação de infrações penais não compete à Polícia Militar. Ilegal, também, foi a atitude da juíza da comarca do município de Loanda, que acatou imediatamente o pedido simplesmente anotando na margem da solicitação: “Defiro. Oficie-se”. O magistrado teria, obrigatoriamente, que fundamentar sua decisão por escrito, explicando as circunstâncias que tornam a necessidade de uma interceptação telefônica maior que o direito à privacidade. Além disso, o juiz deve, por lei, comunicar a autorização de escuta ao Ministério Público, mas a juíza Elisabeth Kather ignorou também essa norma.

Prosseguindo as ilegalidades, a interceptação, que havia sido autorizada apenas para uma linha telefônica, foi estendida, por livre vontade da Polícia Militar, a outra linha, também utilizada por lideranças do MST. O período autorizado também foi extrapolado, totalizando 49 dias de gravações. Por fim, para coroar todas as irregularidades, o então secretário de Segurança do estado, Candido Manuel Martins de Oliveira, convocou uma coletiva de imprensa para a divulgação do conteúdo das fitas em trechos editados que distorciam as declarações dos grampeados.

Todos os envolvidos foram inocentados. Rememorar esse caso é comprovar que, há quase 10 anos, já era do conhecimento da imprensa e da classe política a existência de grampos ilegais feitos com clara motivação política, comprovada atuação de agentes do Estado e a conivência do Poder Judiciário, que possibilita a impunidade. A pergunta inevitável é: por que só agora esse tema passou a ser preocupação nacional? Talvez uma explicação seja a simbólica distância entre o chefe máximo da última instância judiciária do país e os representantes de movimentos sociais e da sociedade civil organizada. A indignação de hoje inexistiu em 1999, o que sugere uma marcada distinção: no Brasil, parece que existem “grampeáveis” e “não-grampeáveis” — bem como “algemáveis” e “não-algemáveis”.

O caso levado à Corte Interamericana evidencia também a perseguição e criminalização dos movimentos sociais. O envolvimento do Poder Judiciário com interesses de poderes locais é recorrente e fundamental para a impunidade e para o sucesso dessa estratégia de desarticulação da sociedade civil. A juíza Elisabeth Kather, por exemplo, é aquela que foi flagrada pela imprensa comemorando um despejo de sem-terras com fazendeiros. Alguns anos depois foi condecorada pela Assembléia Legislativa com o título de cidadã honorária do estado do Paraná. Hoje, promovida por antigüidade e merecimento, é juíza de Londrina.

A lei de interceptações orienta que somente seja violado o direito à privacidade quando esgotadas as possibilidades de produção convencional de provas e quando exista a argumentação da proteção de um “bem maior” (evitar homicídios, libertar reféns...) que justifique esse artifício investigativo. A autorização judicial deve ser criteriosa, justificada e estritamente de acordo com o que manda a lei e a Constituição. A violação do direito à privacidade é gravíssima e deve ser combatida, é evidente o descontrole institucional sobre as escutas telefônicas. A discussão sobre grampos ilegais é fundamental para a construção de uma democracia sólida, mas deve ser feita com a intenção de proteger o direito de todo cidadão, não apenas de uma parcela da sociedade. (C.B)

STF julgará acesso a documentos


Ações questionam se governo pode limitar acesso a papéis sigilosos

Antes mesmo de a nova Lei de Acesso à Informação ser assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu cerne passará por um teste no Supremo Tribunal Federal (STF). Duas ações diretas de inconstitucionalidade que tramitam no STF contestam o poder de o governo restringir o acesso da população a documentos considerados sigilosos e que, em certos casos, ficam confinados por tempo indeterminado. A possibilidade do segredo “eterno” está prevista no novo projeto de lei sobre o tema.

As ações, uma protocolada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e outra pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, consideram inconstitucionais pontos da legislação atual sobre o acesso a dados sigilosos, alguns repetidos na nova Lei de Acesso à Informação. As ações são relatadas pela ministra Ellen Gracie - uma delas está pronta para ser julgada, mas só deve ser levada a plenário em 2009.

Um dos pontos que provocam polêmica trata do sigilo absoluto para informações que possam atingir a honra e a imagem de pessoas citadas nos documentos. Pela legislação atual, esse papéis devem permanecer lacrados por 100 anos.

OAB e Ministério Público contestam esse prazo. Argumentam que esse ponto específico viola o direito garantido na Constituição de todo cidadão ter acesso “às fontes da cultura nacional” e leva o Estado a descumprir uma de suas obrigações, a de garantir o desenvolvimento de pesquisas científicas.

No novo projeto, esse prazo deixa de existir para que esses documentos permaneçam eternamente fechados ao público. Integrantes do governo entendem que a imagem da pessoa relacionada com aquela informação não pode ser atingida mesmo que já esteja morta e não tenha deixado descendentes.

Além dessa polêmica, os ministros terão de decidir se a restrição aos documentos viola direitos individuais, se o governo é arbitrário ao estipular os prazos de sigilo e se uma comissão composta por ministros pode prorrogar indefinidamente esses prazos.

“As informações não se destinam apenas aos interessados em sentido técnico-processual, mas a todo o povo brasileiro, à sua memória e à sua identidade”, argumentou o procurador na ação que protocolou em maio deste ano

Gilmar Mendes ataca delegado Protógenes


Sem citar Protógenes, presidente do Supremo afirma que todo funcionário público deve ser apartidário

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, advertiu ontem que “servidor público deve ser apartidário”. Ele declarou: “A burocracia deve ser, por definição, apartidária, ela não deve estar a serviço de partidos.”

O ministro condenou manifestações de cunho político-partidário de servidores. Não citou o nome de Protógenes Queiroz, delegado da Polícia Federal, mas suas palavras tinham a direção do mentor da Satiagraha que vem recebendo apoio, sobretudo do PSOL. “A partidarização de qualquer segmento do serviço público em geral é extremamente perigosa”, afirmou.

Protógenes, desde que foi afastado da Satiagraha, em julho, participa de seminários sobre corrupção no Brasil. Seu público são estudantes, professores e políticos. Na semana passada ele foi criticado pelo próprio diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, que atribuiu ao engajamento político de Protógenes sua exclusão dos quadros da Diretoria de Inteligência da corporação.

O presidente do STF assinalou que esta não é a primeira vez que condena o “aparelhamento de determinados setores do funcionalismo”. “Servidor não deve estar a serviço de partido”, reiterou, após participar do Seminário Semana da Conciliação, na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

O presidente do Supremo não se pronunciou a respeito do novo pedido de prisão do sócio-fundador do Grupo Opportunity, Daniel Dantas, feito à Justiça Federal pelo delegado Ricardo Saad, que substituiu Protógenes na coordenação da Satiagraha - investigação sobre suposto esquema de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e fraudes fiscais.

Dantas, principal alvo da ação, foi libertado duas vezes por decisões do chefe do STF.

BALANÇO

Mendes criticou o fato de muitas pessoas continuarem presas, mesmo após terem cumprido a pena. “Estou travando quase uma batalha pessoal nessa área de execução criminal”, disse. Citou que o País tem 400 mil presos, 96% pobres, embora haja apenas 5 mil defensores públicos para atuar.

Em sua avaliação, a solução não é aumentar o número de defensores. Para ele, caberia à sociedade criar outros mecanismos. “Pelo menos 30% dos presos do Brasil estão recolhidos indevidamente”, afirmou.

Mendes disse que o objetivo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) é fixar norma que limite prisões provisórias a seis meses. Ele sugere que os ex-detentos sejam integrados e prestem serviços ao sistema público

Oi Brasil


O andamento da compra da Brasil Telecom pela Oi, que no momento aguarda alguns procedimentos regulatórios em Brasília, tendo recebido o sinal verde da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), mantém-se como o assunto mais atrativo do principal evento de telecomunicações do País, o FutureComm, cuja décima edição ocorre pela primeira vez em São Paulo desde a noite de segunda-feira, com término previsto para amanhã.

O presidente da Oi, Luiz Eduardo Falco, afirmou ontem que a empresa considera razoável devolver alguma coisa para a sociedade, em troca da ampliação da escala de que vai passar a desfrutar com a incorporação da BrT, mas ressaltou a importância de ponderar adequadamente a ordem de grandeza da contrapartida.

Sabe-se que a Anatel e o Ministério das Comunicações estão estudando formas de exigir contrapartidas para aprovar a negociação.

Por outro lado, Falco se mostrou receptivo à idéia de implantação de redes celulares para uso público, de segurança e acesso a escolas, como sugeriu o ministro das Comunicações, Hélio Costa, na abertura do evento e para servir de compensação à manutenção das taxas atuais de interconexão entre fixo e celular.

As operadoras móveis não são concessionárias, como as fixas, e por isso não têm de cumprir metas de universalização e serviços públicos. Mesmo assim, o executivo afirmou que é bem-vinda a sugestão. "Partiu das operadoras, e não do governo, trocar a implantação de postos telefônicos por acesso às escolas, podemos conversar de novo", afirmou. No entanto, garante que não houve nenhum contato nesse sentido até o momento com o ministério.

A Oi é contra a taxa de interconexão que se pratica no Brasil, que favorece a telefonia móvel em detrimento da fixa. "Defendo desde criancinha que a interconexão seja reduzida, pois não acredito nesse modelo", afirmou o presidente de uma operadora que reúne telefone fixa e celular. "A redução já vem tarde", provocou salientando que sabe ser voto vencido entre os executivos do setor, que defendem a manutenção das altas taxas de interconexão por representarem porcentuais importantes da receita global.

O pagamento de R$ 490 milhões à BrT, para o caso de a negociação não se concretizar, conforme reza o contrato assinado entre as duas interessadas, não tem plano B. "O contrato está assinado, é um só e prevê que a negociação tem de ocorrer até 21 de dezembro, sob risco de fazer com que voe um chequinho nesse dia", afirmou sobre não ser obtida a anuência prévia em tempo.

A situação muda para a possibilidade de ocorrerem ações judiciais, quando o prazo poderá ser estendido, como prevê o acordo entre as empresas. Falco comentou que é compreensível que o presidente da Anatel não perca o sono por ver esse prazo chegando ao fim sem a solução devida, pela simples condição de presidente de agência e não-envolvido diretamente na negociação.

A respeito disso, o ex-embaixador Ronaldo Sardenberg, atual presidente da Anatel, chegou inclusive a falar expressamente, em seu pronunciamento no primeiro dia do evento, que a Agência tem tido tempo e independência suficientes para examinar bem todas as questões, garantindo que suas posições são "tomadas com dignidade".

Vai dar tempo, diz Falco referindo-se aos 33 dias que a Anatel levou para avaliar a compra da Vésper pela Embratel.

Atuação brasileira é reconhecida internacionalmente


A atuação de órgãos brasileiros no combate aos cartéis com políticas antitruste propiciou sua participação na reuniões do Comitê de Concorrência da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Entre os dias 20 a 23 de outubro, o País foi um dos dois únicos membros observadores da OCDE, da América Latina, junto apenas do Chile. "A interação brasileira com o Comitê tem aumentado nos últimos anos", afirma Paulo Casagrande, coordenador-geral de análise de infrações em compras públicas da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), um dos representante do Brasil, no encontro da OCDE. Um dos temas deste ano foi referente à políticas concorrenciais e antitruste.

O Brasil apresentou, neste encontro, três documentos que, segundo Casagrande, foram bem aceitos e discutidos pelas autoridades internacionais. Os documentos referiram-se à política brasileira para firmar acordos em cartéis, à jurisdição extraterritorial em casos de domínio de mercado e sobre o poder de compra sob a perspectiva antitruste.

Para a advogada Juliana Oliveira Domingues, do L.O. Baptista Advogados Associados , "a interação das autoridades brasileiras com as outras autoridades do mundo, é muito importante para o desenvolvimento de novos instrumentos de investigação e também para a troca de experiência", afirma. "Veja-se que foi com base nessa troca de experiências que o Brasil acabou adotando os acordos de leniência (tipo de delação premiada) que têm favorecido as investigações de cartéis", finaliza.

CEF libera linha de R$ 3 bi para socorrer construção civil


A Caixa Econômica Federal confirmou ontem que irá destinar uma linha de crédito de capital de giro de R$ 3 bilhões para empresas da construção civil, conforme informou na véspera o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Os recursos serão provenientes da caderneta de poupança, mais especificamente do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), que poderá destinar até 5% do saldo da captação a essa linha de capital de giro para socorrer construtoras do setor habitacional. Até agora essa permissão era vedada, e os bancos eram obrigados a aplicar 65% em financiamento imobiliário.

A permissão vale para todas as instituições financeiras. Porém, por conta do risco que se ampliou com o agravamento da crise mundial, o governo dará uma garantia especial à CEF para emprestar os recursos às empresas da construção civil através da criação de um fundo de reservas.

O governo criará esse fundo no valor de R$ 1,05 bilhão com recursos provenientes de parte de dividendos da Caixa que seriam pagos ao Tesouro Nacional por um período de três anos. "Esse é o valor dos dividendos que pode ser retido no período", disse o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. O fundo garantirá até 35% das operações de financiamento que a Caixa realizar.

"A criação desse fundo ocorre por conta da precificação de risco, que hoje é maior em razão da falta de liquidez do sistema financeiro", completou o secretário.

As medidas ainda dependem da regulamentação do Conselho Monetário Nacional (CMN), o que deve acontecer hoje. Com carência de 24 meses, a taxa de juros da linha de crédito de capital de giro oscila entre 10% e 11% anuais, mais TR, a ser aplicada mediante a avaliação de cada operação. Uma é para incentivar a construção de imóveis cujo financiamento está limitado a 20% do valor das obras do empreendimento. A outra medida permite adiantar até 70% da carteira de recebíveis para que o setor tenha folga de recursos no caixa.

O empresário pagará juros e correção monetária até o final da construção, que leva em média 18 meses. Mas o prazo de carência para o acerto do principal do financiamento será de 24 meses após o término da obra.

A tendência, segundo a presidente da Caixa, Maria Fernando Coelho, é que a medida beneficie o mutuário, pois ele terá a garantia de que seu empreendimento será entregue no tempo previsto no contrato. .

Congressistas compram briga para reajustar benefícios de aposentados


O Palácio do Planalto vai precisar mobilizar a base governista no Senado e na Câmara para evitar o aumento nos gastos do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). Três propostas estão engatilhadas para serem votadas e prometem elevar para 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, o gasto anual com aposentadorias, pensões e auxílios, que representa hoje cerca de 7,2%. A primeira matéria é o Projeto de Lei n° 58 de 2003 e vai ser colocada em votação na próxima quarta-feira. Um impacto de R$ 4 bilhões no Orçamento.

A proposta está na Comissão de Assuntos Sociais do Senado e prevê a vinculação do benefício a um percentual do teto das aposentadorias do INSS - chamado de índice de correção previdenciária. Seriam contemplados cerca de 10 milhões dos 25 milhões beneficiários da Previdência. O projeto tem caráter terminativo e se aprovado segue para análise de três comissões na Câmara.

Outra proposta que preocupa o governo e já passou pelo Senado é o PL 3.299/08 que está na Comissão de Seguridade da Câmara e determina o fim do fator previdenciário. O texto é contra o cálculo das aposentadorias que vinculou, a partir de 1999, o valor do benefício à expectativa média de sobrevida daqueles que alcançaram o tempo de contribuição.

Também causa incômodo na equipe econômica o projeto que atualiza o valor das aposentadorias e pensões de forma a restabelecer a relação de equivalência que possuíam com o salário mínimo no período no qual foram concedidas. Ontem, o ministro da Previdência Social, José Pimentel, tentou sensibilizar os congressistas e apelou para os números mostrando que as despesas da previdência podem triplicar e que, portanto, o governo não têm caixa para bancar o custo dos aumentos.

"Este é um momento para os parlamentares olharem com responsabilidade estas propostas", disse Pimentel. Estas matérias representam um gasto que não pode ser atendido, acrescentou.

O ministro pediu cautela aos parlamentares pelas incertezas que a crise internacional provoca na economia nacional e prometeu articular uma reunião com a Comissão Mista de Orçamento para discutir os reajustes.

Os senadores do governo e da oposição, no entanto, indicam que não estão aberto a negociação. Não abrem mão do PL 58, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), que trata da recuperação do poder de compra dos aposentados que ganham mais de um mínimo.

Os senadores sustentam que a falta de sintonia entre o reajuste do mínimo e de outras aposentadorias piorou em 2004, quando o mínimo subiu 8,03% e o valor dos benefícios em 4,53%. Em 2005, a proporção foi de 15,40% para o mínimo e de 6,35% para as aposentadorias e pensões. Em 2006, aposentados viram o salário crescer não mais que 5% contra 16,67%, para o mínimo, que em 2007 subiu em 8,6%, enquanto os benefícios não tiveram mais do que 3,3% de reajuste.

"Não é errado defendermos que aposentados e pensionistas obtenham reajustes que recomponham o poder de compra do que recebem", declarou Paim. "O que é preciso, na verdade, é se pensar em um outro modelo de Previdência."


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