Controversa, 'privatização' de presídios começa a ser adotada


Da paisagem da ilha de Itamaracá fazem parte as aves migratórias, os peixes-boi e o forte Orange, erguido pelos holandeses em 1631. Mas construções nada paradisíacas também compõem esse cenário: três prisões que abrigam 2,8 mil detentos.

Daqui a dois anos, entretanto, esses presos serão transferidos para uma nova unidade em Itaquitinga, cidade 70 km ao norte do Recife. O local do antigo presídio de Itamaracá dará lugar a empreendimentos turísticos.

Não se trata, contudo, apenas de uma mudança física. A construção da prisão deve ser o ponto inicial de uma transformação no modelo de administração penitenciária.

O governo de Pernambuco decidiu erguê-la em parceria público-privada (PPP), modelo ainda inédito no país. Uma empresa ficará responsável por investir cerca de R$ 240 milhões na construção do presídio para 3.126 detentos e depois pela gestão dele por três décadas. Em troca, o Estado pagará uma mensalidade por preso.

"Temos um déficit de 8 mil vagas e faltam recursos", explica Sílvio Bompastor, gerente-

geral de PPPs da Secretaria de Planejamento de Pernambuco.

Minas Gerais também avançou nesse sentido. Acaba de colocar em consulta pública a PPP de uma prisão para 3 mil detentos, orçada em R$ 200 milhões. "Esse valor representa quase o orçamento todo que a Secretaria de Defesa Social teve em 2007", diz Maurício Campos Jr., secretário da pasta de Minas.

Diante dos recursos escassos e do déficit de mais de 150 mil vagas para presos no Brasil, é provável que outros Estados caminhem para as PPPs. Nos moldes do que já aconteceu com energia elétrica, telefonia e rodovias, o governo começa a repassar à iniciativa privada um serviço hoje conhecido por superlotações, rebeliões e fugas.

É difícil estimar o tamanho que esse mercado pode tomar no Brasil, mas as mensalidades que Pernambuco e Minas usaram em seus estudos (R$ 2,4 mil e R$ 2,1 mil, respectivamente) dão uma idéia. Hoje, o Brasil tem cerca de 360 mil presos. Se, num caso extremo, todos passassem aos cuidados da iniciativa privada, o negócio movimentaria R$ 9,5 bilhões por ano.

Nos Estados Unidos, a construção e a administração de presídios, que surgiu em 1983, transformou-se numa atividade de vultosas cifras. A Corrections Corporation of America, pioneira e maior gestora de prisões do país, vale na Bolsa de Nova York US$ 3,2 bilhões. A empresa tem sob sua responsabilidade 65 unidades prisionais, com 75 mil internos, que geram receita anual de mais de US$ 1 bilhão.

No Brasil, cinco empresas já são candidatas a disputar esse mercado: Companhia Nacional de Administração Presidiária (Conap), Instituto Nacional de Administração Penitenciária (Inap), Montesinos, Reviver e Yumatã.

Oriundas da área de segurança privada, elas participam de um sistema intermediário, a co-gestão, que existe em 16 presídios brasileiros, com 7.346 detentos. O Estado entrega por um período de um a cinco anos uma prisão já construída para uma empresa cuidar de toda a administração interna, da cozinha aos agentes penitenciários. O primeiro presídio gerido dessa forma foi o de Guarapuava, no Paraná, em 1999.

"A co-gestão é a única saída para o sistema penitenciário do país. Para suprir o déficit atual de vagas seriam necessários 400 novos presídios. Ao mesmo tempo, os investimentos precisam ser contínuos, já que a cada ano 2 mil pessoas chegam às penitenciárias", avalia Odair Conceição, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Ressocialização de Pessoas (Aberp), entidade que reúne as cinco empresas do setor, e diretor da Reviver, que administra um presídio na Bahia.

Foi pensando nesses números que Eduardo Fialho decidiu há cinco anos participar desse negócio com a Yumatã, na Bahia. "Entrei na co-gestão para aprender como o setor funciona. O que quero mesmo é participar de PPPs", afirma o sócio da Yumatã, dizendo não retirar pró-labore há dois anos. A empresa administra quatro presídios no Estado em co-gestão com o governo baiano. Com isso, tem receita anual de R$ 26 milhões. Agora, investiu R$ 4 milhões no projeto da nova prisão de Pernambuco.

A paranaense Inap, pioneira na gestão compartilhada, decidiu expandir sua atuação em segurança patrimonial de olho no que acontecia nos EUA e na Inglaterra. "Aqui, os Estados ainda são tímidos. Mas apostamos nesse negócio, mesmo sem ele ser rentável hoje", diz Denise Magalhães, diretora da Inap, que administra dois presídios no Espírito Santo, com quase 800 presos. A empresa está em busca de um parceiro construtor para atuar nas PPPs.

O grande atrativo das parcerias, segundo as empresas, são os longos contratos que oferecem. Em Pernambuco são 33 anos e, em Minas, 27 anos. É com base nisso que as companhias calculam sua remuneração.

Nos contratos mais longos, a expectativa é que o negócio seja mais lucrativo. "É uma atividade de altíssimo risco. Não temos como prever uma rebelião. E, quando ela acontece, o lucro vai embora porque temos de consertar tudo o que foi danificado", afirma César Marques de Carvalho, sócio da Conap, maior empresa do setor, com 3 mil detentos distribuídos em seis presídios no Ceará e no Amazonas.

Nas PPPs de Pernambuco e Minas Gerais, as companhias estarão sujeitas a uma remuneração variável conforme seu desempenho, podendo ser premiadas e até punidas ao final de cada ano.

Pelo contrato mineiro, quanto mais eficiente for a empresa, mais poderá lucrar. A idéia é estabelecer um sistema de pontuação que tenha como indicadores a educação dada aos presos, qualificação profissional, reinserção produtiva e cuidados com a saúde. Uma auditoria externa, um conselho consultivo e a própria Secretaria de Defesa Social irão monitorar os resultados. "Se a nota for acima das expectativas, a empresa poderá receber um bônus, equivalente a 1,5% da remuneração total paga pelo Estado", conta o secretário Campos Jr.

Em Pernambuco, a nota máxima para o desempenho operacional é de cem pontos, por exemplo. Uma rebelião, limitada ao máximo de uma ocorrência ao ano, tiraria dez pontos da empresa.

Mas transferir a construção e a gestão de presídios para a iniciativa privada pode não ser a saída para equacionar falhas na segurança pública. "Quando o governo transforma a prisão em negócio lucrativo para empresas, estimula a ampliação do sistema penitenciário e deixa claro que vê o encarceramento como solução para o problema da segurança pública", diz Laurindo Dias Minhoto, professor da direito Fundação Getúlio Vargas e autor do livro "Privatização de Presídios e Criminalidade".



Cacciola: audiência prevista para hoje


Está marcado para hoje mais um capítulo da novela do processo de extradição do ex-banqueiro Salvatore Cacciola, preso em Mônaco desde 15 de setembro de 2007. A audiência que decidirá o destino do ex-banqueiro já foi adiada três vezes. Não há garantias de que o resultado saia desta vez. O governo brasileiro não tem confirmação de que os problemas na tradução, que levaram ao adiamento da última vez, tenham sido resolvidos por Mônaco. A Corte de Apelações de Mônaco havia pedido uma nova tradução das mais de 500 páginas de documentos, que seria feita por especialistas designados pelo tribunal e deveria ter ficado pronta até o último dia 20.

Moral da história


Os policiais federais têm certeza de que o vazamento de informações do inquérito sobre Fernando Sarney e as doações de campanha ao governo do Maranhão — que ainda estava em fase de apuração sem qualquer conclusão — fez água nas investigações. Por sinal, Fernando Sarney passou esses dias pelo Senado. Foi conversar com os advogados sobre o inquérito.

Trama criminosa


Pelo menos 50 agentes e delegados da Polícia Civil do Distrito Federal estão indiciados e prestes a serem expulsos da corporação e presos por crimes variados, que vão da extorsão ao narcotráfico. Eles são lotados em delegacias diferentes e acusados de praticar os delitos separadamente. Mas, ao saberem das punições administrativas, teriam se unido para se vingar dos policiais que os investigaram. Um plano para executar dois delegados da Corregedoria foi descoberto pelo Serviço de Inteligência da instituição, que ontem decidiu dar proteção especial às pessoas sob ameaça e familiares.

O envolvimento de policiais com uma série de crimes é investigado desde agosto do ano passado. “Desde então, mais de 500 telefones foram grampeados com autorização judicial. Por meio deles, descobrimos, no começo de janeiro, o plano para executar os delegados da Corregedoria”, contou o diretor da Divisão de Comunicação (Divicom) da Polícia Civil, delegado Miguel Lucena. “Essa reação desses policiais que viraram bandidos se deve ao investimento tecnológico e de pessoal, além do trabalho exemplar da nossa Corregedoria, que vem incomodando muita gente”, acrescentou.

A Corregedoria da Polícia Civil começou a contar, desde o ano passado, com aparelhos próprios de escuta telefônica, mais avançados do que os do Departamento de Atividades Especiais (Depate) da corporação, que tem o Guardião, mesmo equipamento de interceptações usado pela Polícia Federal. As conversas criminosas dos delegados e agentes do DF foram gravadas pela Corregedoria e o Depate. De acordo com Lucena, o departamento flagrou os policiais em meio a investigações sobre a atuação de organizações criminosas do DF e outras regiões, que agem em todos os âmbitos da capital, do submundo do tráfico de drogas aos esquemas de propinas dos gabinetes.

As informações obtidas pela Corregedoria e pelo Depate viraram processos administrativos e inquéritos policiais, que devem resultar nas prisões e expulsões dos policiais. “Aguardamos apenas os mandados judiciais para efetuar essas prisões. Elas podem se concretizar antes do carnaval (que começa sábado)”, adiantou o diretor da Divicom. Para evitar fugas e garantir a execução dos mandados, todos os policiais civis vão ser convocados a trabalhar durante o carnaval. Toda a direção da instituição está de plantão desde ontem, assim como os agentes do Depate, para cumprir as missões que devem resultar nas prisões e dar proteção aos delegados ameaçados de morte.

Crianças e adolescentes
Entre as ligações feitas pelos policiais investigados, uma é de ameaça direta aos diretores da Polícia Civil, de acordo com Lucena. “A direção já foi longe demais. Temos que dar um basta nisso”, disse um dos delegados indiciados, na conversa gravada. Um deles responde por quebra ilegal de sigilos telefônicos. Ele teria conseguido os números dos filhos menores de idade dos delegados da Corregedoria e grampeado os aparelhos, sem autorização da Justiça. As crianças e os adolescentes receberam ligações com ameaças de morte aos pais. Delegados planejavam matar um dos colegas que os investigou e jogar o corpo em frente ao prédio da Corregedoria, no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA). “Eles queriam desmoralizar a direção e mandar um recado a todos”, comentou Miguel Lucena.

Apesar das ameaças, o diretor da Divicom garante que a direção da Polícia Civil não vai recuar. “Sempre primamos por ser uma polícia cidadã. Uma pequena parcela de maus policiais não vai estragar essa nossa imagem. Lugar de bandido é na cadeia e não na polícia”, afirmou. Ele fez questão de ressaltar que os investigadores não detectaram um grupo criminoso organizado na instituição. “O que houve é o contrário. Uma parcela mínima foi atraída pelo crime organizado. Vamos colocar logo essas pessoas para fora. Vamos limpar a Polícia Civil do Distrito Federal”, garantiu.

A direção da Polícia Civil não divulgou nomes nem os locais onde estão lotados os agentes e delegados indiciados. Mas descobriu, por meio das escutas legais, que alguns estão recorrendo a padrinhos políticos para evitar as punições. Os 5 mil policiais civis do DF são os mais bem pagos e aparelhados do Brasil. Um agente ganha R$ 7 mil em início de carreira, enquanto um delegado recebe, em média, R$ 15 mil por mês. Os valores aumentam com o tempo de serviço e se o policial assumir cargo de chefia.

Uma parcela mínima (de policiais) foi atraída pelo crime organizado. Vamos colocar logo essas pessoas para fora, limpar a Polícia

Miguel Lucena, diretor da Divisão de Comunicação da Polícia Civil

Cheia de caracois


No final de semana passada o cartinista Bira, um ótimo artista, excelente cartunista, publicou no blog dos Amigos do Presidente Lula, uma charge, para lembrar o implante da cabeleira feita por aquele ex-ministro, chefe da quadrilha dos mensaleiros, Zé Dirceu. As vúvas desse lacraio, a ala mais radical, caiu matando em cima do Bira e de todos que não tem simpatia pelo Zé quadrilheiro. Ameaçaram,xingaram, bateram boca e tudo mais que a educação resteira permitiu.

Para ver até onde vai o amor das viúvas pelo Zé cabeludo, vou publicar um artigo que está na internet. No final está o e-mail da escritora do texto, assim, quero ver, se estas pessoas que ameaçaram o Bira, tem bala na agulha para ameaçar alguém de poder da extrema esquerda, ou se só ameaçam formigas.

HISTÓRIA DO DIA

A bola da vez é sem dúvida o nefando José Dirceu. Primeiro por causa da magnífica matéria que a revista

Piauí deste mês publica com ele, que,se outros méritos não tivesse (mas tem muitos), teria o de contar que quando ele é reconhecido por brasileiros conscientes e destemidos escuta os maiores xingamentos, aqui e no exterior.A outra, mais prosaica, é sobre a implantação capilar que fez, de 6 mil e não sei quantos fios de cabelo. Enfeita se para a namorada nova que arrumou,certamente. A notícia é curiosa porque, para valer mesmo, a ciência ainda não descobriu nada que ajude as mulheres a esconder afalta de cabelo – a não ser apliques capilares, é claro Ontem,recebi uma prévia do 9º Simpósio Internacional de Cirurgia Plástica, que será realizado em São Paulo, de 14 a 16 d emarço, entrando firme no assunto.

E isso ocorreb porque o organizador do encontro é Carlos Oscar Uebel, que desenvolveu uma técnica na qual usa células tronco para ativar o crescimento dos cabelos femininos. Parece que,agora,há alguma esperança.A pesquisa nasceu de estudos da Academia Americanade Dermatologia que revelara mum número

majestoso: 100 milhões de mulheres no mundo sofrem com calvície.E a Sociedade Sul-Americana de Estudos para o Cabelo concordou: pelo menos 40% das mulheres brasileiras padecem com algum grau de calvície.

O nome da desgraça não podia ser mais feio: alopecia androgenética. Isso

quer dizer que a falta de cabelo pode ser herança genética – mas, diferentemente da masculina, não é sua principal causa.A calvície feminina tem causas mais complexas, como alterações hormonais durante a gravidez, menopausa e uso de anticoncepcionais, variações tireoidianas, estresse emocional, deficiência nutricional (anemia), seborréia e outras doenças do couro cabeludo.

E, ninguém gosta de falar nisso, pode ser também resultante de liftings. Diferentemente dos homens,é difícil as mulheres ficarem carecas, pois a calvície é o resultado da açãoda DHT (dihidrotestosterona) sobre os fios, e esta é obtida por meio da ação da enzima 5- alpha-redutase sobre o hormônio testosterona, que amulher tem em menor quantidade. Embora a calvície femininas ignifique apenas um clarão na região central da cabeça,esse clarão é de amargar, fere qualquer vaidade.

E é aí que entra o cirurgião plástico paulista Carlos Oscar Uebel, coordenador do 9º Simpósio Internacional de Cirurgia Plástica, que é referência mundial e usa células-tronco para fazer crescer o cabelo das mulheres. A técnica consiste em transplantar raízes capilares da região da nuca – onde é encontrada melhor qualidade genética do cabelo –para a área calva por meio de microincisões pontiformes. Esses bulbos capilares são ricos em células-tronco e levam para a área que receberá o microtransplante toda a carga genética, garantindo a qualidade de crescimento e durabilidade. Para serem estimulados, quando retirados, esses bulbos são embebidos em uma solução ativa de plasma concentrado. Depois de ativados,

são implantados no paciente uma um, com anestesia local,e o procedimento dura entre 2e 3 horas. A área tratada pode atingir 52% a mais de cabelo e o resultado estético é
natural. “Apaciente não sairá da cirurgia cheia de cabelo como em um passe de mágica.O microtranplante é gradativo. Os fios que foram transplantados crescerão, como os fios já existentes, dentro do prazo que varia de 3a4 meses.

Isso garante uma naturalidade muito grande e a certeza de um resultado satisfatório”, explica Uebel. Até onde dá paraleigo especular, é mais ou menos isso que foi feito na careca do Zé Dirceu: plantação de cerca de 6 mil fios de cabelo, número também plantado no cocuruto feminino. A diferença é que o tratamento masculino
retira faixas cabeludas e transplanta para a área necessária.Otratamento feminino transplanta fio a fio. Ou muda a muda, sepreferirem.

anna.marina@uai.com.br

Desfile com a "família real" na abertura do Carnaval do Rio é recebido com deboche


Carruagens que levavam o rei Momo, a rainha e as princesas do Carnaval, além de atores representando a família real, foram saudadas nas ruas do centro com gritos de pedestres: "Vai trabalhar!" e "Esta roubalheira começou com vocês". A comitiva estava em quatro carruagens, que saíram do Paço Imperial (de onde d. João 6º despachava) em direção à Cidade do Samba (que abriga os barracões das escolas de samba).

"Quando eu entrego ao rei Momo a chave da cidade, todas as questões ficam com ele: buraco na rua, poda de árvore, mendigo na esquina. Com o cetro, ele dá um toque rápido e "plim!': tapa os buracos, dá um palácio para as pessoas que estão nas ruas", disse o prefeito Cesar Maia (DEM), que enfrenta protestos de grupos que pregam o não-pagamento do IPTU alegando que o Rio está largado. Somente algumas dezenas de pessoas viram o desfile e muitas delas caçoaram.

Detran de São Paulo anula multa de conselheiro de trânsito do Cetran


O Detran de São Paulo retirou 16 dos 28 pontos por multa da carteira de habilitação do engenheiro Amaury Hernandes na última sexta-feira, um dia após sua nomeação pelo governador José Serra (PSDB) para compor o Cetran (Conselho Estadual de Trânsito), órgão que julga em segunda instância os recursos contra autuações no Estado.
Com mais de 20 pontos, seria cassada a CNH de Hernandes -que é secretário de Trânsito de São José do Rio Preto (SP) e foi convidado para o Cetran pelo secretário da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, de quem é aliado político.

O expurgo da pontuação ocorreu no mesmo dia em que a Folha revelou que Serra havia nomeado um conselheiro com sete multas de trânsito. Hernandes foi notificado pelo Detran no "Diário Oficial" do Estado em 15 de dezembro com mais 190 motoristas da cidade.

Serra destituiu os integrantes do Cetran depois que o órgão passou a anular as multas aplicadas pela Prefeitura de SP por desrespeito ao rodízio, o que desagradou o prefeito Gilberto Kassab (DEM).
Além de Hernandes, outros 7 dos 14 novos membros do conselho são do PSDB ou têm ligação com a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) -interessada em manter as multas.

A Secretaria da Segurança Pública disse que o julgamento "transcorreu dentro dos tramites e das regras vigentes, que estabelecem um prazo máximo de 30 dias para julgamentos dessa natureza".

Hernandes disse ontem que entrou com recurso contra as multas aplicadas em um veículo que ele vendeu e cuja propriedade não foi transferida.
"Apresentei todos os documentos do recurso quando nem sonhava em ser convidado para o Cetran. Desde o depósito do dinheiro feito em minha conta até uma declaração do comprador, além do leasing que ele fez", disse.

Especialista em recursos contra multas, o consultor Wilson Ribeiro, da Gimenez Consultoria, disse ser quase impossível que um motorista consiga uma resposta rápida para um recurso, como ocorreu com Hernandes. "Se você seguir a lei, fizer tudo certo, não consegue, porque é muita exigência. Estou com um caso parecido em que fiz o recurso em dezembro, mas nem responderam ainda", diz.
Para o presidente da Associação dos Despachantes de Rio Preto, Ricardo Junge Tokoi, há casos em que as Ciretrans (circunscrições regionais de trânsito) apressam o julgamento para não prejudicar o motorista. "Quando é motorista profissional, é diferente da dona-de-casa que usa o carro uma vez por mês. E uma situação envolvendo autoridade, também. Poderia ser uma urgência", diz.

Lista de cotistas da UFSC vaza pela internet


Em meio à polêmica da suspensão do sistema de cotas da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), determinada pela Justiça Federal, uma lista extra-oficial vazou na internet com o nome dos aprovados e a identificação dos cotistas por raça ou origem escolar.

O desempenho de cada um é detalhado no documento. A universidade confirmou ontem que um hacker invadiu o sistema do Núcleo de Processamento de Dados da instituição e copiou o relatório, que não havia sido divulgado até então.
A lista oficial dos aprovados divulgada pela UFSC, no final de dezembro, não informava a classificação dos candidatos.
Anteontem à noite, um link para download foi colocado em uma comunidade sobre vestibular no Orkut por um internauta identificado apenas como "Vestibulando da UFSC".

Na lista que foi disponibilizada pelo usuário, havia o emblema da universidade e da Coperve (Comissão Permanente do Vestibular). São mais de 30 mil nomes em 806 páginas.
A Polícia Federal informou ontem que, se a universidade enviar um ofício à corporação informando sobre o problema, poderá fazer perícia no sistema e tentar identificar o suspeito. Caso ele seja condenado, poderá pegar até três anos de prisão.

A relação de cotistas normalmente não é divulgada pelas universidades para evitar que os aprovados pelo sistema sejam estigmatizados. Algumas, porém, como a Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), divulgam as informações.
O vazamento acirrou ainda mais os ânimos. No começo do mês, a Justiça Federal de Santa Catarina suspendeu as cotas na UFSC, a pedido do Ministério Público Federal.
Na decisão liminar, o juiz Gustavo Dias de Barcellos afirmou que o sistema fere o princípio de igualdade assegurado na Constituição e determinou que as vagas fossem preenchidas por ordem de classificação dos candidatos.

A UFSC, entretanto, recorreu e aguarda a manifestação do Tribunal Federal Regional. A matrícula está marcada para os dias 14 e 15 de fevereiro.
A UFSC havia reservado 20% de 4.095 vagas para egressos de escolas públicas e 10% para negros. A universidade tem 20 mil estudantes de graduação.

Após saber da lista, uma integrante da comunidade no Orkut comentou: "Agora que dá pra saber quem é cotista e quem não é, o preconceito vai comer solto lá dentro". Em outra comunidade contra o sistema, um aluno disse que os negros não poderiam entrar na UFSC "de cabeça erguida tirando menos da metade da nota daquelas pessoas que ficaram de fora por causa das cotas".
Na UFSC, mais de 50 mandados de segurança foram concedidos pela Justiça a estudantes ou entidades contra o sistema.

Ontem, o subsecretário de Políticas de Ações Afirmativas da Secretaria da Igualdade Racial, Alexandro Reis, minimizou o fato. "As idéias de recrudescimento do ódio racial, perda de qualidade da educação superior e demais efeitos negativos previstos pelos opositores do sistema não aconteceram."
O secretário de Ensino Superior do Ministério da Educação, Ronaldo Mota, afirmou que não comentaria o fato.

Evento renova constrangimento no PSDB


Ao lado de Kassab e FHC em inauguração, Serra justifica ausência de Alckmin e afirma que antecessor não pôde comparecer

Apesar do esforço de pacificação da semana passada, três incidentes abalaram de novo as estruturas do PSDB. Defensor declarado da aliança com o DEM, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso dividiu ontem palanque com o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab e o governador José Serra para inauguração de duas estações da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

Em Ourinhos para uma palestra, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), que, assim como Kassab, quer disputar a Prefeitura de São Paulo, não estava lá para foto. Temendo reação, Serra disparou telefonemas frisando que Alckmin fora convidado e afirmando que FHC participara a convite do secretário de Transportes Metropolitanos, Luiz Portella.

"Os primeiros contratos referentes à modernização desta linha foram assinados pelo ex-governador Geraldo Alckmin, que queria também homenagear nesta cerimônia, que também foi convidado, mas tinha um compromisso de trabalho", justificou Serra, em discurso.

Em entrevista, ele esquivou-se de tratar das eleições. "Hoje é dia de falar de trem." FHC não discursou, mas também descerrou a placa de inauguração da estação Comendador Ermelino. "Estou aqui como "uspiano". Nada a ver com política."
O constrangimento aconteceu no dia em que veio à tona, no site da revista "Veja", um relatório em que Portella reclama a Serra dos anos de "falta de manutenção" do Metrô, antes sob o comando de Alckmin.

Além disso, em resposta aos que o acusam de retaliação, Serra teria dito que os bons tucanos estavam no seu governo ou na Prefeitura. Como a frase ganhou publicidade, teve que se explicar. Em outra solenidade, Kassab disse que "quatro anos é pouco" para executar o projeto de governo.

Enquanto isso, a ministra Marta Suplicy (Turismo), possível candidata do PT à prefeitura, era recebida ontem em Madri, pelo rei Juan Carlos, da Espanha

UMA FAMA INTERNACIONAL


A fama de José Dirceu ultrapassa fronteiras. Não, não é a de consultor de empresas nem a de militante da causa socialista. É aquela outra. Tanto que, em seu novo livro, Piratas do Caribe, Tariq Ali, o perfeito idiota paquistanês, diz que o agora meio-careca Dirceu foi o petista preso com dólares na cueca. A editora Record informa que lançará a edição brasileira com a devida correção. Bem, quanto ao restante do conteúdo do livro, não dá para consertar. Só para lembrar: o petista em questão era assessor do irmão de José Genoíno.

É de arrepiar os cabelos


José Dirceu depõe como réu e nega, nega, nega... enquanto Silvinho Pereira faz acordo para cumprir pena alternativa e se livrar da cadeia

“PEÇA DE FICÇÃO” foi a expressão usada por Dirceu, que fez implante, para classificar o Mensalão do PT

Nos primeiros depoimentos dos mais famosos réus do Mensalão do PT, no processo em que a Procuradoria da República os acusa por formação de quadrilha e outros crimes, a sinceridade ficou sempre por um fio – uma hora autêntica como os da barba do ex-tesoureiro Delúbio Soares, outra hora falsa como os 6.700 fios do implante feito pelo ex-ministro José Dirceu.

“Ele rebateu pontualmente todas as acusações contidas na denúncia”, afirmou José Luis Oliveira Lima, advogado de Dirceu, ao término das duas horas de depoimento à juíza Sílvia Maria Rocha, da 2ª Vara Criminal Federal de São Paulo, na quintafeira 24. Para começar, Dirceu negou a existência do Mensalão – o esquema de montagem do caixa 2 para comprar votos de parlamentares no Congresso. “Uma peça de ficção”, definiu o ex-ministro, apesar de o procurador-geral da República ter demonstrado a existência do esquema com tal profundidade de dados que o Supremo Tribunal o transformou em réu por corrupção ativa e formação de quadrilha.

José Dirceu manteve a famosa frieza, levemente quebrada apenas quando a advogada do ex-deputado Roberto Jefferson (outro cassado pela Câmara por envolvimento no Mensalão) foi flagrada gravando a audiência. Jefferson depõe no dia 12. O caso corre em segredo de Justiça e a juíza a obrigou a apagar a gravação. “Esse foi o único incidente que houve na audiência, mas não atingiu nem meu cliente nem a defesa”, disse Oliveira Lima, advogado de Dirceu.

De fato, se Dirceu tiver de ser atingido, será pelo depoimento de outras testemunhas ou pelo comportamento dos antigos aliados. Geisa Dias dos Santos, ex-gerente administrativa da agência SMP&B, do publicitário mineiro Marcos Valério, disse na segunda-feira 21 à Justiça Federal em Belo Horizonte que o antigo patrão era o responsável pelas remessas de dinheiro e que ela nunca imaginou que ali havia um esquema criminoso. “A ordem era não questionar”, disse Geisa aos promotores. “O Marcos Valério falava que eu era paga para fazer e não para pensar.” Ela é acusada de evasão de divisas, formação de quadrilha, corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Durante as perguntas da juíza Sílvia Maria Rocha, José Dirceu disse que não conhecia diversas pessoas classificadas como rés no processo. “Eram secretárias de Marcos Valério ou funcionárias de bancos”, conta o advogado Lima.

Seguindo a ética dos ex-tesoureiros e da velha militância clandestina, Delúbio Soares fez um depoimento de duas horas, que resultou em 60 páginas, mas pouco acrescentou. Sua defesa: o dinheiro dos empréstimos que o PT pegou com Marcos Valério e com os bancos Rural e BMG foi utilizado para bancar a festa da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003 e as despesas da equipe de transição no final de 2002.

“ESTOU LIMPO”
Acordo de Silvinho prevê 750 horas de trabalho comunitário pelo fim do processo OLHA A CARTEIRA Delúbio depôs durante duas horas e manteve a ética dos ex-tesoureiros

O episódio mais revelador dessa semana em que a sinceridade esteve por um fio coube a Silvio Pereira, o ex-secretário-geral do PT na época das denúncias. Denunciado por formação de quadrilha, Pereira fez um acordo com a juíza Sílvia Maria Rocha, que responde em São Paulo pelo relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, do STF. A legislação brasileira autoriza a Justiça a fazer acordos com os réus em denúncias cujas possíveis penas não sejam superiores a um ano. Na negociação, Silvio Pereira concordou em cumprir 750 horas de serviço comunitário ao longo dos próximos três anos. Ele precisa se apresentar mensalmente à Justiça e não pode viajar por mais de oito dias sem autorização judicial.

Silvio Pereira também não poderá assumir nenhuma função pública nos próximos três anos, tempo em que ainda será considerado réu. “Estou limpo”, disse, ao deixar o Fórum. O acordo do ex-secretário- geral do PT com os promotores reconsiderou a suspensão de seus direitos políticos. “Não é que eu queira ser candidato nas eleições, mas esse ponto era uma questão simbólica para mim”, disse um sorridente Silvio Pereira. “A única certeza que eu tenho é que não era nunca para eu estar entre os 40 [réus]. Para mim, esse processo se encerra hoje.”

O acordo com Pereira é na prática a primeira condenação do Mensalão e um embaraço para os outros réus que seguem negando os fatos denunciados pela Procuradoria. É também uma prova da complacência da legislação brasileira que, entre acordos para substituição de penas e chicanas protelatórias, pode terminar o caso dos 40 do Mensalão do PT sem que nenhum dos políticos cumpra uma temporada atrás das grades.

Parlamentares brasileiros ficam presos na Antártida


Um grupo de 13 parlamentares brasileiros, que foi à Antártida a convite da Marinha, está retido no continente devido ao mau tempo. Os deputados e senadores viajaram para a base brasileira na quinta-feira, e deveriam voltar no dia seguinte, mas a chegada de duas frentes frias impediu a viagem de volta. O novo embarque foi remarcado para hoje, mas só se o tempo melhorar.

Para que os parlamentares voltem ao Brasil é preciso que o tempo permita que um avião pouse no continente antártico e os leve de volta para a cidade de Punta Arenas, no extremo Sul do Chile. Enquanto isso não acontece, eles permanecem na base chilena.

Estão presos o senador Renato Casagrande, relator da Comissão Mista Especial de Mudanças Climáticas, além dos deputados Maria Helena (PSB), Ricardo Tripoli e Fernando Chucre (PSDB); Wellington Coimbra e Colbert Martins (PMDB), Jorge Maluly e Luciano Pizzato (DEM), Moreira Mendes (PPS), Edmilson Valentin (PC do B), Paulo Teixeira (PT), Fábio Ramalho (PV) e Vinícius Carvalho (PT do B).

Temporão em nova polêmica com a Igreja


Durante o lançamento da campanha, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, voltou a criticar a Igreja Católica. A nova polêmica diz respeito à distribuição de pílulas do dia seguinte pelas prefeituras de Olinda e Recife durante o carnaval.

A prefeitura está certa e a Igreja está mais uma vez equivocada - criticou o ministro.

Temporão não só elogiou as prefeituras como as defendeu, dizendo que todas as medidas adotadas estão dentro do protocolo do Ministério da Saúde. O ministro se referia ao fato de que o medicamento é usado apenas sob prescrição médica.

É uma questão de saúde pública, não uma questão religiosa - argumentou. - Lamentavelmente a Igreja, cada vez mais, se afasta dos jovens com esse tipo de postura. O Ministério da Saúde apóia e dá suporte à medida.

Na sexta-feira, a Arquidiocese de Olinda e Recife anunciou que entrará com uma ação no Ministério Público questionando a atitude dos municípios. As prefeituras destas cidades decidiram distribuir a pílula do dia seguinte, apesar dos protestos de grupos religiosos.

A Ong Curumim, que defende os direitos das mulheres, também anunciou que entrará com uma outra ação contra as intenções da arquidiocese.

Lula e Brown decidem monitorar a crise americana


Os efeitos da crise econômica nos EUA foram tema ontem de uma conversa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown. O porta-voz da Presidência, Marcelo Baumbach, disse que Lula e Brown falaram-se por telefone, e o presidente admitiu estar preocupado com os reflexos da turbulência americana na América Latina.

O presidente expressou a preocupação de que a crise não atinja as conquistas da América Latina e seus avanços - afirmou Baumbach, ao informar que Lula e Brown conversaram por cerca de 15 minutos, às 10h de ontem.

Segundo o porta-voz, Brown sugeriu a criação de um "corpo internacional", formado por representantes de vários países, para fazer uma espécie de monitoramento da crise econômica dos EUA.

Segundo Baumbach, Brown afirmou que esse comitê seria responsável por dar sinais de alerta sobre eventuais ameaças causadas pela turbulência norte-americana.

Durante a conversa, Lula e Brown trataram também dos acordos comerciais envolvendo Brasil e a Grã-Bretanha. Segundo o porta-voz, o primeiro-ministro britânico demonstrou interesse na produção industrial brasileira, enquanto Lula apelou que ele interfira nas negociações com o presidente dos EUA, George W. Bush, para reduzir os subsídios aos produtos agrícolas oriundos do Brasil.

O presidente e o primeiro-ministro britânico também trataram sobre a Rodada Doha - negociações para liberalização do comércio mundial com países-membros da Organização Mundial do Comércio (OMC). Em geral, os subsídios agrícolas são o principal tema.

Brown e o presidente deverão se reunir, em Londres, no dia 4 de abril - durante encontro da Governança Progressista, que trata sobre a terceira via.


Celso Amorim só chega à Suíça no terceiro dia


O ministro das Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, participa hoje do encontro anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça. O ministro também realizará uma série de reuniões bilaterais nesta sexta-feira. Na previsão da agenda estão encontros individuais na parte da tarde com a representante de Comércio dos Estados Unidos, Susan Schwab, com o diretor geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), Pascal Lamy, e com o ministro de Relações Exteriores do Reino Unido, David Miliband.

No sábado, está previsto um encontro com os ministros do G20 (grupo dos países em desenvolvimento liderado por Brasil e Índia). A organização está a cargo da Índia. Anteontem, o ministro de Comércio e Indústria da Índia, Kamal Nath, demonstrou otimismo para este encontro.

O representante de Comércio da União Européia (EU), Peter Mandelson, disse que é importante que haja um avanço em Doha ainda este ano, pois não há garantias de que o próximo governo continuará com as negociações no mesmo patamar.

Se falharmos agora será imperdoável - acrescentou Mandelson, batendo na mesma tecla de que é necessário que haja uma abertura dos países em desenvolvimento nos setores industriais e de serviço para que um aumento na redução dos subsídios aos produtores agrícolas dos países ricos, entenda-se UE e EUA. Os países em desenvolvimento reivindicam uma maior abertura para os produtos agrícolas nos mercados desenvolvidos e, para isso, é necessário um corte maior dos bilhões de dólares que os EUA e a EU concedem a seus produtores.

Morre mulher de envolvido em fraude com a Petrobras


A operação Águas Profundas, na qual em julho de 2007 a Polícia Federal desbaratou um esquema de fraude em licitações da Petrobrás tinha pego a artista plástica Lillian Rose Mac Dougell Sterea, mulher de Fernando da Cunha Sterea, sócio da empresa Angroporto - envolvida no processo fraudulento - Ontem Lillian atirou-se do 15º andar do Hotel Sheraton, na Barra da Tijuca. A noticia e especialmente, as circunstâncias da tragédia chocaram a alta sociedade carioca, na qual a empresária, oriunda de família tradicional e respeitada, era muito querida.

De acordo com informações da 16ª DP (Barra), Lillian chegou ao hotel às 11h50 e pediu um apartamento que estivesse disponível no andar mais alto do prédio. Portando apenas uma bolsa, ela subiu, solicitou à camareira papel e caneta e fez uma refeição. Por volta das 15h, Lillian encostou uma cadeira na varanda e pulou.

Ainda segundo a polícia, Lillian deixou no apartamento do hotel, além de anéis, cordões e óculos, um bilhete escrito de próprio punho determinando a partilha de seus bens entre os dois filhos.

Lillian tinha 44 anos e estava separada de Fernando da Cunha Sterea desde que o marido foi preso pela PF. Segundo amigos, ela não conhecia os termos das negociações do marido com a Petrobras e ficou chocada quando agentes invadiram sua casa durante a operação Águas Profundas. Os dois se separaram logo depois. Depois de algumas semanas, Fernando foi libertado, segundo seus advogados por ordem do juiz da 4ª Vara Federal.

Deprimida, Lillian chegou a ser internada na Clínica São Vicente, de onde, segundo Fernando, ela teria fugido no último domingo.

Somos casados há 22 anos, o que eu posso dizer? - afirmou Fernando. - Temos dois filhos. Foi algo tão contundente pra todos que não tenho nada a dizer. Foi um ato de uma pessoa doente. Ela fugiu da clínica, ninguém achava.

A carreira

Lillian iniciou sua formação nas áreas administrativa e comercial em 1982. Logo exerceu ascendeu no Grupo Chocolate. Passou por vários setores da empresa e aprimorou seus conhecimentos profissionais no período em que esteve nas lojas Bloomingdales de New York.

Paralelamente, apaixonou-se por encadernação. Com sensibilidade trabalhou cores, texturas e design durante aproximadamente 15 anos. Em 1990, criou a papelaria Fashion Lillian Rose, que rapidamente angariou uma clientela fiel. A loja de Ipanema deu origem às da Barra, Gávea e no hotel Copacabana Palace. Empresas grandes passaram a encomendar trabalhos, como brindes para clientes vips.

Em São Paulo, a não menos sofisticada Daslu tornou-se sua cliente e logo vieram representações em Brasília, com desdobramentos nos mercados de Santa Catarina e Minas Gerais. A etapa seguinte foi a exportação para os Estados Unidos e o sul da França.Lillian também amava a pintura e cursou a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Jardim Botânico, que formou artistas de nome no cenário brasileiro e internacional.

Bancada ruralista volta a pressionar por negociação


Os deputados da bancada ruralista do Congresso Nacional voltaram a pressionar o governo para que uma nova rodada de negociação de dívidas agrícolas. Ontem, eles pediram ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, uma renegociação das parcelas que vencem no primeiro trimestre do ano, entre R$ 12 bilhões e R$ 15 bilhões, enquanto o governo não apresenta uma solução para toda a dívida do setor, o que já foi prometido pelo governo.

A previsão era que a negociação seria concluída em dezembro do ano passado, mas a proposta do governo ao setor foi mais uma vez adiada e deveria ocorrer em março próximo.

Mantega, segundo disseram ontem os deputados, prometeu pelo menos analisar as reivindicações e dar a resposta aos parlamentares na próxima segunda-feira, mas fontes do governo sinalizam que o Tesouro Nacional vai se colocar contra.

O pleito dos deputados, representado pelo presidente da Comissão de Agricultura da Câmara e representante da bancada ruralista, o deputado Marcos Montes (DEM-MG), foi apresentado ontem durante reunião com o ministro Mantega, com a presença dos ministros da Agricultura, Reinhold Stephanes, e de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, na sede do Ministério da Fazenda. Nos bastidores, os comentários são de que a reunião é resultado de uma ordem dada anteontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante a reunião ministerial.

O presidente teria pedido aos ministros que aumentem o diálogo com os congressistas. Essa também é a primeira vez que Múcio participa de reunião da bancada ruralista.

Chávez, Evo e Lula


Em Washington, DC, desde a manhã de quarta-feira, o presidente da Câmara, o petista Arlindo Chinaglia (SP), foi bombardeado por perguntas sobre as relações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Bolívia, Evo Morales. Foi assim nos encontros com o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Isulza; com o presidente da Subcomissão do Hemisfério Ocidental da Câmara dos Representantes, deputado democrata Eliot Engel (NY), e com o vice-secretário de Estado, John D. Negroponte, dentre outras autoridades. Os ianques estão preocupados com a verdadeira posição do Brasil em relação aos dois vizinhos, em especial a participação do assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia na “Operação Emmanoel”.

Ciceroneado pelo embaixador brasileiro Antônio Patriota, Chinaglia tranqüilizou os interlocutores sobre as posições do governo brasileiro. O que mais preocupa as autoridades norte-americanas é a relação de Chávez e Morales com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), considerada organização terrorista e ligada ao narcotráfico.


Filho de Lobão assumirá vaga do pai no Senado


Além do futuro senador Edison Lobão Filho (MA), convidado a deixar a legenda, o DEM pode perder mais um parlamentar: a deputada Nice Lobão (DEM-MA), mãe de Edinho, como é conhecido o filho do ministro das Minas e Energia, Edison Lobão. O caminho natural para ambos é o PMDB, sigla do ministro, mas o quadro ainda está indefinido.

Edinho tem a intenção de assumir a cadeira do pai no Senado na segunda-feira. No PMDB, há resistência velada de um grupo de parlamentares à sua entrada. Eles consideram negativo o partido aceitar em seus quadros um político que foi convidado a sair de outra legenda por causa de denúncias.

Desde que Lobão foi indicado para assumir o Ministério de Minas e Energia, denúncias contra seu filho e primeiro suplente no Senado vêm sendo publicadas. Edinho é acusado de usar "laranjas" para escapar da cobrança de dívidas de uma empresa (Bemar Distribuidora de Bebidas), da qual foi sócio até 1998.

Edinho nega as acusações, dizendo que, na ocasião, não era mais sócio da empresa. Seus advogados preparam defesa prévia a ser entregue ao Senado. Embora haja o entendimento de que ele não pode ser investigado por fatos anteriores ao mandato, o futuro senador quer esclarecer os fatos.

O líder do DEM no Senado, José Agripino (RN), disse abertamente a Edinho, na quarta-feira, que sua permanência no partido causaria constrangimentos. Essa foi a conclusão do Conselho Político do DEM, em reunião realizada em São Paulo na véspera. "Eu disse a ele que, mais que uma questão ética, o problema de sua permanência no DEM é político. Ele é filho de um ministro de um governo ao qual o DEM faz forte oposição", disse Agripino. O "convite" para que Edinho se desfiliasse do DEM foi claro e acompanhado da promessa de que o partido não buscará na Justiça a retomada do mandato.

Já a situação da deputada Nice Lobão (DEM-MA), caso ela decida trocar de partido, ainda será analisada pela cúpula do partido. Formalmente, a parlamentar não se manifestou sobre o assunto. Mas, segundo aliados da família, a situação de Nice é constrangedora por causa das críticas de integrantes do DEM ao filho.

"Não sei qual será a situação dela. Pelo fato de o filho estar sendo atacado, a deputada pode acabar misturando a questão familiar com a política", diz o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ). Ele fez questão de elogiar a atuação da parlamentar. "Ela tem sido fiel ao partido em todas as votações, mesmo depois que o Lobão deixou o DEM", afirma.

Rodrigo Maia reconhece que a situação pode ser incômoda para Nice Lobão. "Deixamos claro que o relacionamento ficou complicado com toda a família, do ponto de vista político". O presidente do DEM fala com cautela do futuro da deputada. "Ela tem muito respeito do partido e temos de avaliar a questão com cuidado."

Agripino explicou que não interessa ao DEM recorrer à Justiça para tomar de Edinho o mandato de senador porque o segundo suplente de Edison Lobão (PMDB-MA), Remi Ribeiro, também é do PMDB. Portanto, em caso de renúncia do primeiro suplente ou de a Justiça tirar-lhe o mandato, assumiria um pemedebista e não um democrata. "Eu o aconselhei a deixar o partido. Disse que seria melhor ele se desfiliar do DEM, sem que o partido demande seu mandato", afirmou Agripino.

Lobão Filho pretende entregar os documentos em sua defesa aos presidentes do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), e da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP). Uma das acusações que pretende rebater é a de que seria sócio oculto de uma distribuidora de bebidas supostamente envolvida num esquema de sonegação de impostos. O corregedor do Senado, Romeu Tuma (PTB-SP), iniciou, por conta própria, investigação das denúncias, pedindo informações à Polícia Federal e à Receita Federal.

Como suplente, Lobão Filho tem prazo de 60 dias para assumir a vaga deixada por seu pai, de acordo com o regimento interno do Senado. Mas, ele próprio informou ao líder do DEM no Senado que estará aqui na segunda-feira. A posse dependeria de questões formais. Entre os senadores há quem defenda que ele renuncie à cadeira. O temor é o de ver o Senado novamente envolvido em uma crise, enquanto a Casa ainda tenta se recuperar do desgaste causado pelas denúncias contra o ex-presidente Renan Calheiros (PMDB-AL).

Políticos do Rio deram golpe de 100 milhões


O Ministério Público estadual e a Secretaria de Segurança desmontaram um esquema que desviou R$ 100 milhões em verbas públicas, em 17 municípios. Em Magé, 13 pessoas foram presas, inclusive parentes da prefeita Núbia Cozzolino (PMDB). Segundo o MP, quatro quadrilhas fraudavam licitações contratavam funcionários fantasmas e desviavam dinheiro de escolas e hospitais. dos 28 mandados de prisão, 19 foram cumpridos. Entre os foragidos estão o ex-prefeito e irmão da prefeita, Charles Cozzolino e a secretaria de Fazenda, Nucia Cozzolino, irmã de Núbia.

Em mais uma operação conjunta, o Ministério Público estadual e a Secretaria de Segurança Pública desarticularam ontem quatro quadrilhas que atuavam em 17 municípios e seis prefeituras - a principal delas em Magé, na Baixada Fluminense, onde 13 pessoas foram presas, inclusive um secretário. Durante a operação, dois prefeitos - incluindo a de Magé, Núbia Cozzolino (PMDB) - foram acusados de receber propinas. As quadrilhas são acusadas de fraudar licitações, contratar funcionários fantasmas e desviar verbas públicas destinadas às mais diversas áreas, da saúde à educação. O MP estima que a fraude tenha provocado prejuízo superior a R$ 100 milhões.

Dos 28 mandados de prisão, 19 foram cumpridos ontem. Outras nove pessoas continuam foragidas, entre elas, o ex-prefeito de Magé e irmão da atual prefeita, Charles Cozzolino, e a secretária de Fazenda, Núcia Cozzolino, irmã de Núbia. Cerca de 170 policiais da Delegacia de Repressão às Ações do Crime Organizado (Draco) foram a 17 municípios, incluindo seis prefeituras: Santo Antônio de Pádua, no Norte do Estado, Japeri, na Baixada Fluminense, Paraíba do Sul, Região Serrana, e Rio Bonito, na Região Metropolitana, além de Magé e Angra dos Reis - que, há dois meses, foi alvo de uma operação da Polícia Federal na qual 19 pessoas foram presas, entre secretários e empresários da construção civil.

Além da prefeita de Magé, o prefeito de Aperibé - no Norte do Estado - Paulo Fernando Dias, o Foguetinho (PMDB), também foi acusado de receber uma espécie de mensalão - entre R$ 50 mil e R$ 100 mil. Ontem, durante a operação, uma funcionária da MWP Consultoria, contratada em janeiro de 2007, prestou depoimento na Delegacia de Polícia Fazendária. Ela não só confirmou as denúncias como acrescentou que os prefeitos Foguetinho e Cozzolino foram regularmente à sede da empresa, no Centro do Rio, onde receberiam a propina.

Uniformes sumiram

O megaesquema de corrupção só foi desbaratado devido à ambição dos envolvidos. O Ministério Público foi acionado depois que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, órgão do Ministério da Fazenda, desconfiou de um cheque de quase R$ 1 milhão repassado pela prefeitura de Magé a uma pequena empresa de confecção de uniformes escolares. A suspeita aumentou quando os promotores descobriram que toda a quantia era sacada, em espécie, logo depois de ser depositada. Na casa de um dos empresários, a polícia apreendeu cerca de R$ 200 mil em dinheiro.

O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, ressaltou que os 53 mandados de busca e apreensão cumpridos ontem servirão para mais operações. Em Magé, as investigações descobriram funcionários, além de servidores que priorizavam determinadas empresas em licitações. Ongs também foram contratadas para desviar dinheiro público.

A prefeitura foi tomada por policiais, que foram aplaudidos pela população. Segundo o procurador-geral de Justiça, Marfan Vieira, as quadrilhas não agiam em conjunto nem tinham um mesmo modus operandi, mas alguns dos envolvidos mantinham negócios em comum.

As quadrilhas agiam a partir de Magé e, pode-se dizer que era uma espécie de mensalão pela regularidade com que recebiam - explica Marfan.

Os acusados foram indiciados por formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva, peculato e contra a Lei de Licitações. Entre os presos, estão ainda a ex-secretária de Ação Social de Magé, Renata Tuller, o procurador Antônio Roberto Daher, o assessor da Secretaria de Educação de Angra, Elias Marcolino, a secretária de Saúde de Pádua, Carla Neves, a secretária de Educação de Paraíba do Sul, Maria Capella, além de empresários, um advogado e um contador. Entre os foragidos estão, entre outros, a secretária de Meio Ambiente de Rio Bonito, Carmen Kleinsorgen, além de empresários e servidores

Para tucanos, Kassab sinaliza que pode recuar


Depois de semanas de conversas tensas entre integrantes do PSDB e do DEM sobre a sucessão do comando da Prefeitura de São Paulo, o encontro entre os pré-candidatos, o prefeito da capital, Gilberto Kassab (DEM) e o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), na quarta-feira, acalmou lideranças dos dois partidos. A reunião, segundo dirigentes tucanos, rendeu sinais de que pode ser possível um recuo do DEM na disputa. Entretanto, segundo comentário de Kassab a interlocutores, essa possibilidade não é cogitada.

No mesmo dia, o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), veio a São Paulo e conversou com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e com o presidente do diretório municipal, José Henrique Reis Lobo. Depois da reunião entre Alckmin e Kassab, o PSDB municipal cancelou duas mobilizações a favor da candidatura do tucano marcadas para o começo da próxima semana. Já o prefeito evitou falar sobre sua sucessão e comentou apenas sobre a importância da manutenção da aliança.

Sob o mesmo argumento, a bancada de vereadores do PSDB da capital divulgou nota defendendo a "preservação da aliança com os democratas, independentemente da candidatura que venha a ser definida". Para eles, é preciso considerar os "avanços conquistados nos últimos anos por um governo que foi eleito e que administra a cidade". Mas negam que seja um ato a favor do prefeito. "Não é um apoio ao Kassab", disse o vereador Gilberto Natalini. "O PSDB pode liderar a chapa. O que queremos é a unidade."

Ao apaziguar a situação, os dois partidos querem protelar a decisão e ganhar tempo para medir qual candidatura terá mais chance de vencer o PT, segundo dizem dirigentes. "Duas candidaturas, do DEM e do PSDB, é o pior dos quadros. Mostra a incapacidade de diálogo", disse o secretário municipal de Esportes, Walter Feldman. As pesquisas eleitorais serão importantes na definição, conforme afirmam não só tucanos mas também o ex-presidente do DEM, Jorge Bornhausen, segundo interlocutores.

Por este motivo, Kassab concentrou no primeiro semestre a entrega de obras nas áreas de Saúde, Educação e Habitação. Além disso, o DEM terá a exibição de programas partidários na televisão e no rádio antes de maio. O crescimento de Kassab, entretanto, pode ser limitado e não está descartado o recuo do DEM, dizem interlocutores dos dois partidos. No último levantamento do Datafolha, em novembro de 2007, Alckmin tinha 26%, Marta Suplicy (PT), 25% e Kassab, 13%. "Se as pesquisas indicarem o PSDB com chance de ganhar do PT, a retirada da candidatura de Kassab não será um simples recuo. Será uma saída de honra para ele", considerou um dirigente tucano. Mas a tese é rejeitada por Kassab, dizem auxiliares.


Uma notícia importante


No meio das intrigas e picuinhas da política brasileira, às vezes deparamos com uma notícia realmente relevante. Uma delas ocupou as páginas dos jornais de ontem. Tratava do relatório do Unicef sobre mortalidade infantil no mundo. O órgão das Nações Unidas mostrou uma impressionante redução nos óbitos de crianças com até cinco anos de idade aqui no Brasil. Em 1990, de cada mil crianças nascidas no país, 57 morriam antes de completar o quinto ano de vida. Em 2006, a taxa de mortalidade caiu para 20 entre cada mil crianças. É um progresso enorme. Cada número desses significa milhares de vidas poupadas.

Um fato importante do relatório do Unicef é cobrir um intervalo de 16 anos. Nesse período, o Brasil teve quatro presidentes: Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. A redução da mortalidade infantil não é mérito de um governo iluminado. É uma conquista da sociedade brasileira. Aos poucos, estamos construindo um país melhor.

É verdade que muitas vezes parece difícil enxergar isso. O noticiário do dia-a-dia não nos permite esse distanciamento. Continuamos pautados pelas denúncias de corrupção. Há sempre um senador ou suplente encrencado com alguma coisa. Os governos continuam a gastar mal boa parte do seu dinheiro. Os políticos colocam muitas vezes interesses pessoais acima das questões do país. Tudo isso é verdade. O que o olhar distanciado e imparcial de um relatório como o do Unicef nos mostra é que todos esses problemas não passam de percalços em um caminho que, no geral, é muito positivo. Mesmo que às vezes nosso cinismo de classe média nos impeça de admitir.

Os dados da mortalidade se somam a outros, divulgados ao longo dos últimos meses, que comprovam essa melhoria do país. No final do ano passado, a Fundação Getúlio Vargas divulgou um estudo mostrando que pela primeira vez a faixa de brasileiros miseráveis ficou abaixo dos 20% da população. O Brasil cumpriu em 12 anos o compromisso assumido nas Metas do Milênio da ONU de reduzir a miséria pela metade. O prazo estabelecido para cumprir a meta era de 25 anos. O estudo tinha o significativo título de “O Real do Lula” e mostrava que os dois mandatos de Fernando Henrique e o primeiro do petista enquadravam-se no mesmo processo histórico de redução das desigualdades sociais.

É claro que os nossos políticos reagiram mal à boa notícia. Os tucanos berraram que o estudo provava que Lula apenas copiara seus programas. Os petistas esgrimiram com números que mostravam um ritmo maior de diminuição da miséria na gestão de Lula que na de FHC, como se governar fosse uma espécie de gincana. Mas esses são os nossos políticos. O importante é que o país melhora. Às vezes apesar deles. Em outras, por causa deles.

O relatório divulgado ontem pelo Unicef traz outras boas notícias. A proporção de crianças desnutridas caiu de 12,7% em 2000 para 3,5% em 2006. É uma melhoria de 72% em seis anos. Algo para o país se orgulhar. Mas mostra que ainda há muito a fazer. A mortalidade infantil permanece muito mais alta entre indígenas e negros. Os índices também continuam desiguais entre as regiões brasileiras. No Nordeste, a mortalidade é mais que o dobro do Sul. E a mortalidade materna aumentou, em vez de diminuir.

Relatórios como esse do Unicef ou o estudo da Fundação Getúlio Vargas divulgado no ano passado ajudam a entender qual a agenda real que a população brasileira espera dos seus políticos ou dos seus governos. Lula venceu em 2002 e 2006 porque soube entender esse fenômeno. Mais que isso, conseguiu encarná-lo, com seu discurso popular e a imagem de presidente operário. Nas eleições de 2010 ele não estará no cenário. Ainda é cedo para saber quem serão os candidatos. Mas já dá para saber quais serão os elementos principais na decisão do voto da maioria dos brasileiros: a estabilidade da economia e as políticas sociais. Não deveria ser novidade. Foram os mesmos elementos que elegeram duas vezes Fernando Henrique e Lula.

Outra notícia
No clima de “vamos conversar mais” da reunião ministerial de ontem, Reinhold Stephanes, da Agricultura, conseguiu marcar uma audiência com o colega da Fazenda, Guido Mantega. O encontro vinha sendo protelado há uns dez dias e a pauta será a negociação das dívidas do setor rural. Não se falou explicitamente no assunto ontem, mas toda a conversa de ouvir as bancadas e atender os pedidos do Congresso pode ajudar a amolecer a equipe econômica. Afinal, poucos partidos têm mais parlamentares que a bancada ruralista. “Se o setor vai bem, o governo conta com a bancada”, raciocina Stephanes.

Processo anulado


O Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia (TRE-RO) decidiu na noite de terça-feira anular o processo que cassou o mandato do vereador de Buritis Lourival Pereira de Oliveira (PV) por infidelidade partidária. Este havia sido o primeiro caso de retirada de mandato por esse motivo. Segundo informações da diretoria-geral do Tribunal, o processo foi anulado por uma falha na petição, que teria sido assinada por um dirigente partidário, e não por um advogado. Eleito pelo PSDB, Lourival mudou para o PV alegando que sofria perseguição política dentro da antiga legenda. O pedido de devolução do mandato foi feito pelo PTB

Delúbio nega


O ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares negou ontem que tenha pedido empréstimos ao Banco Rural e BMG para pagar o suposto esquema de mensalão - caixa 2 eleitoral e compra de votos de aliados. Segundo ele, os empréstimos contraídos tinham o objetivo de pagar a festa da primeira posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de viagens de militantes. O depoimento de Delúbio foi realizado a portas fechadas. Delúbio depôs para a juíza Sílvia Márcia Rocha, da 2ª Vara Criminal Federal. Hoje, a juíza ouve o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o ex-secretário-geral do PT Sílvio José Pereira.

Mercados acenam uma recuperação


Após atordoante volatilidade, os mercados globais ensaiaram, no final dos pregões, uma tentativa mais consistente de superação da crise financeira. O principal termômetro do estado de espírito da grande finança globalizada - os juros dos títulos de 10 anos do Tesouro americano, uma espécie de benchmark para todos os outros ativos - , depois de afundarem a 3,2850% no início da tarde, vindos de 3,4387% do fechamento anterior, se recuperaram e encerraram o dia a 3,6091%. A alta dos juros evidencia uma diminuição da repulsa despertada pelos ativos mais expostos ao risco. Deu tempo para o índice Dow Jones da Bolsa de Nova York sentir os efeitos positivos da menor rejeição ao risco. O indicador fechou com valorização de 2,50%. Por operar em horário diferente, a Bovespa não teve a mesma sorte, e caiu 3,32%.

Quando é muito intensa, a volatilidade transmite a sensação de que a crise financeira global pode ser pior do que se imaginava, pois seria, na verdade, crise de confiança. Os grandes investidores teriam perdido a confiança na capacidade das autoridades econômicas e monetárias de resolver os problemas dos EUA. Os momentos em que os dirigentes do Federal Reserve (Fed) e do Tesouro exibem fragilidades são justamente os mais propícios a ofensivas que, no passado, caracterizaram ataques especulativos contra o dólar. Quando são reféns do mercado, precisam ajudá-lo continuamente e a todo o momento. A recuperação de ontem foi atribuída ao auxílio prometido às empresas que fazem seguro de bônus nos EUA.

"Treasuries" oscilam de 3,2850% a 3,6091%

Desde a irrupção da crise de crédito, em agosto, até agora, a taxa básica de juros dos EUA despencou de 5,25% para 3,50% num momento em que a inflação não mostra indícios de fraqueza. Os dirigentes do Federal Reserve (Fed) sempre demonstraram a certeza de que poderiam resolver a crise na hora que quisessem. Derrubaram o custo do dinheiro e jogaram dólares sobre Wall Street, até agora sem muito sucesso efetivo e duradouro. A crise piorou depois que George Bush sacou, na semana passada, a velha e enferrujada pistola utilizada para debelar as crises de 2000 (o naufrágio das ponto.com) e de 2001 (atentados de 11/9): o surrado ardil republicano do corte de impostos.

Os investidores receberam o pacote "um pouco mais do mesmo" de Bush com visível desagrado. Como o paciente criou resistência, não adianta repetir a medicação: quer sempre mais. "Se em outros momentos de pré-estagnação, a injeção de liquidez, via corte de impostos, servia para aquecer o nível de atividade, a macroeconomia agora é outra", compara o economista-chefe da RC Consultores, Marcel Pereira. Há algumas boas razões para que desta vez seja diferente. Primeiro, porque o nível de carga tributária já está baixo nos EUA, uma vez que sua redução foi utilizada intensamente desde o estouro da bolha tecnológica. Segundo, porque a moeda americana está debilitada. "Ela não andava tão frágil assim desde a corrida especulativa contra o dólar, após a segunda crise do petróleo, ocasião em que o então presidente do Fed, Paul Volcker, viu-se forçado a subir a taxa de juros para a casa dos dois dígitos", lembra Pereira. E, por último, porque as contas públicas americanas estão desajustadas, com relevante déficit fiscal, vulnerabilidade esta agravada pelo déficit comercial. Pelo lado do Fed, a única providência seria a radicalização nos moldes Greenspan do afrouxamento monetário. Isso significa derrubar os juros para o patamar de 1% que vigorou de junho de 2003 a maio de 2004.

Se os mercados asiáticos e os europeus assumirem a trilha aberta ontem à noite pelo Dow Jones e os treasuries , hoje será dia de o dólar devolver a forte valorização de ontem. A moeda americana subiu 1,84%, cotada a R$ 1,8250. No acumulado do mês, o dólar já avançou 2,70%. Os juros subiram no mercado futuro da BM&F para refletir as tensões externas, e não a reunião do Copom. O contrato para janeiro de 2011 avançou de 13,17% para 13,22%.

O Brasil tem hoje a terceira maior taxa nominal de juros do mundo. A Selic de 11,25% é superada pelo juro básico da Venezuela, de 21,7%, e da Turquia, de 16%. Mas em termos reais a taxa brasileira é a segunda, e pode voltar este ano a liderar de novo o ranking dos maiores pagadores mundiais. O juro real brasileiro, de 6,6%, só perde para o da Turquia, de 7%, segundo o ranking elaborada pela consultoria UP Trend. Como a diferença é pequena e os juros turcos vêm caindo, a expectativa do economista-chefe da consultoria, Jason Vieira, é de que em algum momento de 2008 o Brasil possa retomar a liderança. Os 40 países pesquisados pela UP Trend pagam, em média, juros nominais de 5,98%, e, em termos reais, de 1,2%.

Serra: dono ou refém da sucessão?


Apesar do potencial explosivo da crise entre DEM e PSDB em São Paulo, em torno da sucessão municipal, os dois partidos trabalham a partir de uma mesma premissa: a aliança precisa ser preservada em 2008, sob pena de novo fiasco eleitoral da oposição em 2010.

Tempo para acordo, há. As convenções partidárias para escolha dos candidatos serão realizadas a partir de junho. "Política é uma arte da paciência", ensina o ex-presidente do DEM Jorge Bornhausen, que ontem teve encontro com o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). O principal caráter da reunião foi diplomático. Apesar do apoio que o DEM deu ao prefeito Gilberto Kassab (DEM) nos últimos dias, o partido não quer acuar o ex-governador. Democratas defendem um trabalho de convencimento, que resulte em acordo.

Se a união se dará em torno de Kassab ou de Alckmin, depende principalmente das pesquisas de intenção de voto. Afinal, político não desafia a lei da gravidade. Alckmin, por enquanto, está bem à frente. Mas o DEM aposta em "tendência de crescimento" do atual prefeito.

Embora Alckmin venha manifestando a intenção de disputar de qualquer jeito, o pior dos mundos para ele é uma derrota na eleição municipal. Será a pá de cal de qualquer projeto para 2010: seja o governo do Estado ou a Presidência da República, da qual - muitos acreditam - não teria desistido.

Derrotado nas eleições presidenciais de 2006, Alckmin insiste em disputar a Prefeitura de São Paulo. Serra, no entanto, defende que seu partido apóie a reeleição de Kassab, para preservar a bem-sucedida aliança entre tucanos e democratas no Estado - base do seu plano de disputar o Palácio do Planalto.

Tucanos e democratas trabalham pela unidade

A eleição de Kassab em São Paulo é tão importante para o DEM que o partido está, inclusive, disposto a abrir mão de ocupar a vaga de vice-presidente em uma chapa encabeçada por Serra em 2010. Isso deixaria os tucanos livres para uma dobradinha Serra-Aécio, por exemplo. A dificuldade de uma solução como essa é acomodar o grupo político de Alckmin, que está sem máquina para disputar as eleições e pressiona o ex-governador a não desistir.

Na tentativa de tirar Alckmin do caminho de Kassab, Serra tem sido cobrado por lideranças do DEM a fazer um gesto concreto dando ao ex-governador a garantia de que será o candidato à sucessão estadual. Para aliados de Serra, isso é bobagem. Argumentam que o governador não só apoiará a candidatura de Alckmin à sua sucessão, como precisa dela.

Com um candidato forte a governador em São Paulo, Serra poderia se dedicar à campanha presidencial fora do Estado. O problema desse raciocínio é que nem o próprio governador tem garantia de que será o candidato do PSDB a presidente.

Alckmin tem dito que um gesto de Serra nesse sentido não o fará mudar de idéia. Acha - ou diz achar - que só ele tem chance de vencer a petista Marta Suplicy.

Observadores tucanos temem o grau de complexidade de um cenário de disputa entre Alckmin e Kassab. A equipe do atual prefeito é composta de 75% de tucanos - majoritariamente serristas. O democrata era vice-prefeito e herdou a prefeitura quando Serra deixou o cargo para disputar o governo.

Alckmin, se disputasse contra Kassab, teria que fazer campanha contra uma administração totalmente vinculada a Serra. Por isso, uma disputa entre Kassab e Alckmin não passa pela cabeça do aliados de Serra. A primeira aposta é no convencimento do ex-governador, que apostaria todas as suas fichas em uma eleição - hoje considerada ganha- para governador em 2010.

Se Alckmin permanecer irredutível, não está descartado um recuo de Kassab - nem pelos próprios democratas. O gesto dependeria de Serra. O DEM precisa da reeleição de Kassab para não desaparecer do mapa político do país. Mas não haverá chantagem ou pressão. Para o partido, Serra é o dono da sucessão municipal, ao menos no que se refere à participação ou não de Kassab.

Fora de São Paulo, lideranças tucanas temem que disputas pessoais comprometam o projeto partidário nacional. Se precisar, haverá interferência. O PT - que só tem Marta Suplicy como nome viável - assiste à crise tucana de camarote.

PT resiste à aliança


Defendida a cada dia por mais tucanos e petistas mineiros, a aliança PT e PSDB para a sucessão da prefeitura de Belo Horizonte já encontra uma resistência de peso: a direção nacional do PT. A cúpula do partido resiste à idéia e apresenta argumentos como a participação do PSDB na derrubada da CPMF — o chamado imposto do cheque, que renderia aos cofres da União R$ 40 bilhões este ano — e o fato de ser o maior partido de oposição ao governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Já a Executiva Nacional tucana deu carta branca ao governador Aécio Neves (PSDB) para articular a candidatura única.

Em uma operação para tentar aparar as arestas — ou pelo menos iniciar o processo — um dos principais defensores da aliança com os tucanos, o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT), tratou do assunto ontem com o presidente Lula e com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Com a justificativa oficial de participar da solenidade de balanço de um ano do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o prefeito desmarcou reunião que ocorreria pela manhã com todos os 17 secretários e foi a Brasília.

“Para evitar que a discussão (de aliança com o PSDB) seja algo isolado, o Pimentel quer costurar com o grupo nacional o que está acontecendo em Belo Horizonte. Ele foi informado de uma brecha na agenda, e não podia perder essa oportunidade”, disse ontem uma fonte ligada ao prefeito. Mas convencer os integrantes da direção nacional não parece ser uma tarefa fácil. Por enquanto, a hipótese estaria descartada.

Em 9 e 10 de fevereiro será montado o Diretório Nacional e o Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE), que terá pela frente a função de preparar o partido para as eleições de outubro. “Há um sentimento da ampla maioria do PT que vamos preparar o partido para ganhar as eleições, e teremos dois adversários, que são o DEM e o PSDB. É claro que todo diretório tem sua autonomia para buscar seus acordos, mas não dá para desconsiderar Belo Horizonte”, argumentou o secretário nacional de Organização do PT, Romênio Pereira.

Negociação
A visão da direção nacional do PSDB é diferente. Embora tenha dito que não tem informações sobre as conversas que já estão acontecendo em Belo Horizonte, o presidente nacional da legenda, senador Sérgio Guerra (PE), diz que confia na articulação do governador Aécio Neves para a sucessão na capital mineira. “Temos confiança total e absoluta nos encaminhamentos feitos pelo governador Aécio. Não é nada que nos assusta ou preocupa (a aliança com o PT)”, disse ontem o senador tucano.

Nos bastidores, a hipótese mais forte é que os dois partidos apóiem um nome comum do PSB. A legenda ocupa cargos no primeiro escalão da prefeitura de Belo Horizonte — os secretários da Administração Regional Oeste, Fábio Caldeira, e de Assuntos Institucionais, Mário Assad — e no governo estadual, onde Márcio Lacerda comanda a Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Este último é um dos apontados como provável nome capaz de receber o apoio do PT e do PSDB.

Lacerda filiou-se ano passado ao PSB e é afilhado político do deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE), tendo exercido o cargo de secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional durante a gestão do cearense. Com a defesa do nome, o governador Aécio Neves poderia atrair o ex-ministro para seu grupo político, e até mesmo para uma possível composição na disputa à Presidência da República em 2010.

Risco de um Lobão solitário


Edison Lobão (PMDB-MA) teme a solidão política. Um dia depois de assumir o Ministério de Minas e Energia, ele primeiro teve de assistir calado, ontem no Palácio do Planalto, a uma longa exposição de Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, sobre as hidrelétricas, durante o balanço do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Depois, cansado de tantas horas de cadeira, levantou para conversar com os jornalistas no meio da entrevista coletiva da ministra. Causou burburinho e atrapalhou Dilma. Com sutileza, o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, deu uma bronca nos repórteres. “Duas entrevistas não pode”, disse. Sem pronunciar uma palavra, Lobão se retirou e sentou novamente para ouvir a ministra da Casa Civil.

Ao mesmo tempo, no outro lado da rua, colegas de PMDB no Senado não escondiam em conversas reservadas a preocupação de que Lobão possa ser uma “rainha da Inglaterra” no cargo, numa referência ao poder simbólico, mas não prático.

Lobão, por enquanto, está encurralado: Dilma quer mandar em cima, e o PMDB desconfia dele embaixo. O partido vai além da desconfiança e chega ao descontentamento pelos limites impostos ao novo ministro, que teve de engolir de imediato a nomeação de Marcos Zimmermman para a secretaria-executiva da pasta. Foi uma exigência de Dilma. O PMDB teme que Zimmermann seja o verdadeiro mandachuva do ministério. Até porque Lobão tem pouca experiência na área. Por isso, o PMDB quer apressar as escolhas nas estatais, sem a necessidade de um aval do novo ministro.

Fora da negociação
Ciente da situação constrangedora, Lobão esbanja otimismo e frases de efeito sobre sua independência no cargo. Diz que entre hoje e amanhã deve discutir cargos. “Pretendo conversar com o Múcio (José Múcio, ministro de Relações Institucionais) logo depois da reunião ministerial de amanhã (hoje)”, afirmou ontem. Sabe, porém, que tem sido até agora muito mais um instrumento político do senador José Sarney (PMDB-AP), seu padrinho eleitoral no Maranhão, do que um nome que represente o PMDB no cargo.

Sarney, aliás, evita aparecer desde que Lobão foi confirmado por Lula na semana passada. Não deu as caras nem na posse do novo ministro. Tenta diminuir o impacto do fisiologismo político da nomeação de seu indicado, embora venha mantendo conversas diárias com ele pelo telefone.

Recém-filiado ao PMDB, Lobão ficou de fora, por exemplo, da negociação pelo comando da Eletrosul, que ficará com o PT. Terá que aceitar, sem reclamar, as nomeações de seu partido nas presidências de Eletrobras e Eletronorte. “Não creio que, com sua história política, o ministro vá se prestar ao papel de rainha da Inglaterra”, minimiza o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, indicado pelos deputados do PMDB ao cargo. “O ministro tem que ter autoridade, e quem dá autoridade é o presidente”, ressaltou.

Esse foi o mesmo discurso feito por Lobão na cerimônia de transmissão de cargo na segunda-feira. O novo ministro afirmou que somente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode “tutelar” o ministério, negando que Dilma tivesse feito qualquer exigência. Essa declaração, aliás, não constava no texto oficial do discurso. Foi dada de improviso. E continuou de fora no conteúdo publicado logo depois pelo próprio site do ministério.

O ministro tem que ter autoridade, e quem dá autoridade é o presidente

Geddel Vieira Lima, ministro da Integração Nacional

Tuma diz que vai investigar Edinho
O corregedor do Senado, Romeu Tuma (PTB-SP), informou ontem que está atrás de documentos sobre as acusações contra o empresário Edison Lobão Filho (DEM-MA), suplente da vaga de senador do pai, Edison Lobão (PMDB-MA), recém-nomeado ministro de Minas e Energia. Pré-candidato à prefeitura de São Paulo e de olho nas eleições de 2010, Tuma sempre surge com promessa de investigação quando aparece alguma denúncia.

Edinho, como é conhecido o filho do ministro, é acusado de usar laranjas — para ocultar a propriedade em uma empresa de bebidas — e de arrendar uma emissora de maneira irregular, entre outras coisas. Tuma disse que pediu, informalmente, documentos à Polícia Federal e Receita Federal. Ele justifica a atitude como uma maneira de se precaver caso Edinho assuma a vaga do pai. “O mais importante é saber se há o uso ou não de documentos falsos”, afirmou.

A atitude de Tuma, no entanto, corre sério risco de ser inócua. Primeiro porque Edinho ainda nem é senador. Qualquer ação do corregedor nesse momento não tem amparo legal. E segundo porque o pai do empresário já sinalizou que o filho deve assumir a vaga e se licenciar logo depois. O que, se ocorrer, esvaziará a iniciativa do corregedor.

Tuma tem precedentes. Antes de Gim Argello (PTB-DF) ocupar a cadeira de Joaquim Roriz (PMDB-DF), que renunciou para evitar um processo de cassação, o corregedor deu declarações sobre denúncias que surgiram contra o suplente e também pediu documentos referentes às acusações. Após a posse de Argello, a Mesa Diretora arquivou pedido de processo contra o novo senador. E Tuma não tocou mais no assunto.

A assessoria de Edinho Lobão espera que o empresário chegue hoje a São Luís de uma viagem ao exterior. Ele pretende se reunir com advogados para preparar sua defesa, decidir o dia da posse e se licenciar. Edinho tem 60 dias para assumir a vaga de senador. Se a licença for confirmada, entrará na vaga o segundo suplente, o peemedebista Remi Ribeiro. (LC)

Da Esplanada para a campanha


O Palácio do Planalto dá como certa a candidatura da ministra do Turismo, Marta Suplicy, à prefeitura de São Paulo. Segundo auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a petista deixará o governo até o fim de março. Terá a companhia do ministro da Previdência, Luiz Marinho, que disputará pelo PT a prefeitura de São Bernardo do Campo (SP). A não ser que haja mudança de última hora, os dois serão os únicos ministros a deixar o governo para concorrer em outubro.

Sabedor da cobiça que os dois cargos podem despertar nos outros 13 partidos da coalizão governista, emissários do presidente já começaram a avisar aos aliados que caberá ao PT indicar os sucessores. Lula não quer abrir mais um flanco de disputa por postos, já que ainda não resolveu a maioria das pendências nessa seara. Sob o guarda-chuva do Ministério da Previdência está, por exemplo, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e suas representações nas 27 unidades da federação.

Como não há tanta oferta, sempre sobram insatisfeitos, que costumam revidar nas votações na Câmara e no Senado. Ao informar de antemão que o PT indicará os ministros, o Planalto tenta abortar na origem eventuais expectativas de poder e descontentamentos

Benção


O deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP) segue no seu périplo entre caciques tucanos em busca de apoio ao posto de líder do partido na Câmara. O paulista se reúne nos próximos dias com o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, na esperança de virar o coração dos seis deputados mineiros. Hoje, a bancada tende a apoiar José Aníbal.

Terceiro


O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) respondeu negativamente à consulta (Cta 1454) formulada pelo deputado federal Ratinho Júnior (PSC-PR) sobre a reeleição de prefeito que foi vice-prefeito reeleito. “O presidente da República, os governadores de estado e do Distrito Federal, os prefeitos e quem os houver sucedido ou substituído no curso do mandatos poderão ser reeleitos para um único período subseqüente ao da substituição”, decidiu.

A deriva do PMDB


As relações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o PMDB não são o mar de rosas que parecem. Para muitos caciques peemedebistas, a coalizão não mudou a relação do partido com o governo e já começou a contagem regressiva para uma nova aliança em 2010. Dos cinco ministros da legenda, somente o da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, tem uma relação orgânica com a cúpula do partido. Os demais são enclaves inexpugnáveis: o das Comunicações, Hélio Costa, representaria os grandes grupos de comunicação; o da Saúde, José Gomes Temporão, o partido dos sanitaristas; o da Defesa, Nelson Jobim, o bloco do eu sozinho; e o recém empossado ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, o clã Sarney.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, nunca teve uma conversa a sós com o presidente do PMDB, Michel Temer. É por essas e outras que o ex-governador Orestes Quércia mantém suas velhas restrições à aliança com o PT, inclusive nas eleições de São Paulo, e outros caciques do PMDB já espreitam o horizonte eleitoral.

Campanha incentiva candidatas


Campanha publicitária em rádio e TV vai incentivar as mulheres a se candidatarem nas eleições municipais de outubro, informou ontem a ministra Nilcéa Freire, da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres. A campanha será suprapartidária e estimulará as mulheres a que ingressem nas agremiações políticas e se candidatem a cargos de representação e executivos.

A ministra festejou os números da pesquisa Estado/Ipsos divulgada na edição do dia 13 deste mês: “Há uma janela para participação maior da mulher na política”, disse ela.

A pesquisa mostrou que eventuais preconceitos do eleitorado brasileiro a candidatas mulheres é menor do que se imaginava. Para 58% do eleitorado, a participação da mulher na política “é menor do que deveria ser”; e para 67% dos eleitores, se a participação política da mulher fosse maior, o nível da política seria melhor. Maiorias expressivas consideraram que a mulher é mais honesta e mais competente que os homens; 69% dos eleitores declararam que votariam numa mulher para presidente da República.

A Secretaria da Mulher também vai disponibilizar um processo de capacitação das candidatas para ajudar seu desempenho nas eleições de outubro. Na internet, a secretaria vai mostrar a participação da mulher na história brasileira. Dará subsídios para que as candidatas compreendam questões como a violência na sociedade, a violência doméstica, a autonomia econômica da mulher, saúde e educação femininas. E, por fim, dará dicas para ajudar a dominarem as mídias de campanha.

Na próxima semana a secretária vai convocar as seções femininas dos partidos para informar sobre a campanha e incentivá-las a brigar por mais espaço nos grupamentos políticos. Ela diz que o sistema de cotas - cada partido é obrigado a listar 30% de suas vagas a mulheres - ajudou a ampliar o número de mulheres nas duas primeiras eleições. “Depois, o número voltou a cair”, reconhece.

Hoje a participação de mulheres no Congresso, segundo a ministra, é irrisória: na Câmara, as deputadas são 8,8% dos parlamentares; no Senado são 12,3%. Nilcéa informa que, numa pesquisa feita pelo Banco Mundial sobre participação feminina nos sistemas de representação política, o Brasil ficou em 107º lugar. Ela admite que as queixas contra o domínio masculino dos partidos políticos são “suprapartidariamente iguais”: vêm de todos os partidos.

Os partidos dizem que é difícil encontrar mulheres interessadas em ser candidatas. “Temos dificuldades em preencher a cota de 30% de candidatas”, afirma o deputado Campos Machado, presidente do PTB em São Paulo. A dificuldade é comprovada pelo deputado Edson Aparecido (PSDB-SP): “Não é nada fácil encontrar candidatas para alcançar os 30% de mulheres na chapa”, diz.

Nilcéa explica que as mulheres não têm a disponibilidade dos homens para se dedicar à política porque, além do trabalho, têm de cuidar da casa e dos filhos.

Lula cobra Bush


Em um dia de tensão nas bolsas de valores em todo o mundo, provocada pelo medo de uma recessão na economia americana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou dos Estados Unidos responsabilidade para impedir que a crise naquele país se alastre pelo resto do mundo e ironizou o pacote de medidas lançado pelo presidente George W. Bush, na tentativa de diminuir as chances de recessão.

Essa crise, talvez seja alguma frustração para o pacote do Bush, que não contentou nem os americanos - alfinetou Lula. - Eu tenho dito publicamente que os EUA precisam assumir a responsabilidade para evitar que essa crise se alastre e possa virar uma crise mundial. Não é possível que pessoas que não têm nenhuma casa nos EUA, que não têm nenhuma hipoteca, paguem a crise da irresponsabilidade de alguns que resolveram ganhar dinheiro fácil como se estivessem apostando em um cassino.

Juros

Em meio ao tombo de 6,62% da Bovespa, Lula disse que conversou com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Os três foram a público para tentar acalmar os ânimos no Brasil.

Ainda ontem, analistas do mercado financeiro não acreditavam mais na redução da taxa de juros neste ano. Para eles, a Selic ficará em 11,25% até dezembro, o mesmo índice de hoje. A previsão faz parte do boletim Focus do Banco Central. Poderá haver, até, um aumento "preventivo" das taxas.

Mantega disse que o mercado "ficou frustado" com as medidas anunciadas pelo governo americano. Meirelles admitiu que o país não está imune à crise e prometeu tomar medidas, caso elas sejam necessárias, mas não especificou quais seriam essas ações.

Para Mantega, a crise poderá afetar o desempenho da balança comercial. Isso porque as turbulências podem influir no preço das commodities no mercado internacional e o Brasil é um grande exportador dessa categoria de produtos. Mas ele voltou a afirmar que o país está preparado.

Os mercados estão mais nervosos. Talvez estejam um pouco frustrados com o que foi anunciado ou com o que ainda não foi anunciado pelo governo Bush - disse Mantega. - Eu diria que é um dia de quase de pânico porque as bolsas caíram muito no mundo todo. Isso traz um contágio, mas não quer dizer que amanhã será assim. As autoridades americanas deverão tomar medidas e reverter esse quadro. Mas no Brasil, por enquanto, não há necessidade de tomar medidas.

Esse também foi o tom de Meirelles, ao comentar a crise durante a posse da nova diretora do de Assuntos Internacionais, Maria Celina Berardinelli Arraes, ontem na sede do BC.

Temores

Para ele, o movimento de queda das bolsas em vários mercados ontem reflete o temor de uma deterioração nos EUA. Mas o governo tentou acalmar o mercado interno e reduzir os impactos da turbulência no país.

Não temos a ilusão de que o Brasil está imune a desenvolvimentos externos, mas estamos mais preparados para enfrentar cenários adversos - disse Meirelles. - Nos últimos cinco anos, não desperdiçamos o bom momento do mercado externo. Nós estávamos preparando para arrumar a casa.

Na avaliação de Meirelles, o Brasil está "preparado para atravessar a crise com serenidade" e as atuais turbulências no mercado mundial demonstram que o regime de câmbio flutuante é o mais adequado para o Brasil.

Estamos preparados para uma turbulência externa e o regime de câmbio flutuante tem se mostrado o mais indicado para enfrentar períodos turbulentos, como o atual. Não há atalho para o crescimento sustentado, não há como prescindir do equilíbrio - disse Meirelles.

Entre os atributos da economia que considera importante para superar o momento, o presidente do BC destacou, além do regime de câmbio e de metas de inflação e de responsabilidade fiscal. Segundo ele, o país fez uma "apólice de seguro" contra cenários adversos.

Lobinho volta dos EUA e enfrenta o DEM


O suplente de senador Edison Lobão Filho (DEM-MA) é esperado em Brasília hoje, quando retorna de férias dos Estados Unidos. Em seguida, será instado a prestar esclarecimentos ao pai, ministro Edison Lobão, e à cúpula do DEM sobre diversas acusações de improbidade praticadas no seu Estado, conforme apurações do Ministério Público.

O presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), reiterou ontem que é impossível dissociar Lobão Filho do fato de seu pai ocupar um cargo no primeiro escalão do governo federal. A tendência de Maia é trabalhar para expulsar o empresário do partido.

A questão preliminar não tem solução. Não há como Lobão Filho não ser um senador da base aliada. Mas ele terá espaço para se defender e apresentar seus esclarecimentos - disse o deputado.

Aperto

O Conselho Político do DEM tinha reunião prevista para ontem, em São Paulo, para avaliar as denúncias contra Lobão Filho. O empresário é suspeito de ser sócio oculto da distribuidora de bebidas Itumar - empresa que comandaria uma rede de sonegação de impostos no Maranhão, no valor de R$ 42 milhões desde 2000.

Lobão Filho tem 60 dias para assumir a vaga deixada pelo pai no Senado e mais 30 dias prorrogáveis. No entanto, políticos experientes afirmam que a tendência é que o suplente abra mão da vaga, deixando que o segundo suplente, o ex-deputado Remi Ribeiro (PMDB-MA), assuma. Ribeiro, por sua vez, é acusado de apropriação indébita de recursos públicos quando trabalhou como tesoureiro da Prefeitura de São Bento (MA).

Dirceu e Delúbio depõem


Mensalão

Intimado para prestar depoimento à Justiça federal em São Paulo na próxima quinta-feira, o ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu vai negar envolvimento com o escândalo do mensalão, mas aproveitará a audiência para contestar diante de um tribunal as acusações de formação de quadrilha e corrupção passiva, aceitas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em agosto do ano passado. O procurador geral da República, Antonio Fernando de Souza apontou o ex-ministro como "chefe da organização criminosa" através de propinas desviadas cofres públicos.

O relator da denúncia no STF, ministro Joaquim Barbosa, sustentou a abertura do processo penal contra Dirceu afirmando que o ex-ministro "de tudo sabia e mantinha contatos de alto nível" com uma das instituições financeiras supostamente envolvidas no esquema, o Banco Rural.

Desde que o processo teve início, essa é a primeira oportunidade que ele tem de se defender no judiciário. Vai debater ponto a ponto as acusações - disse ontem o advogado do ex-ministro, José Luis de Oliveira Lima. Dirceu vai manter a linha de defesa apresentada no Congresso, negando as acusações, mostrando que os argumentos do procurador são frágeis para levá-lo a uma condenação.


O chefe

José Dirceu sempre negou que o mensalão tenha existido ou que ele próprio tenha se envolvido em qualquer operação irregular pelo PT ou sendo operador do esquema, o empresário e publicitário Marcos Valério de Souza. Mesmo assim o STF aceitou a denúncia que o aponta como chefe dos 40 do mensalão. No início da próxima semana, o ex-ministro apresentará sua defesa prévia ao processo.

A fase de depoimentos do mensalão começou no mês passado, com os interrogatórios de vários parlamentares acusados, entre eles, o ex-presidente do PT, José Genoíno e o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha. Amanhã, a Justiça Federal toma em São Paulo, o depoimento do ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, acusado de corrupção ativa e um dos réus mais importantes. Nesse dia também será ouvido o empresário Breno Fischberg, dono da Corretora Bônus Banval, envolvida no escândalo.

Na quinta serão ouvidos o ex-secretário do PT Silvio Pereira (o dirigente que aceitou de presente uma Land Rover) de um empresário, e Enivaldo Quadrado, da Bônus Banval. A primeira fase de depoimentos será encerrada com o interrogatório do deputado cassado Roberto Jefferson (PTB).Ai sim a coisa vai pegar fogo, promete o corrupto Jef

Curtas


Gabinete de crise

A crise da economia nos Estados Unidos - onde o plano anti-recessivo do presidente Bush foi considerado insuficiente - e o conseqüente pânico nas bolsas de valores no Brasil e no mundo vão baixar os humores da reunião da equipe ministerial convocada para amanhã no Palácio. Além do cenário da crise iminente, Lula terá de discutir com seus ministros os cortes de R$ 20 bilhões nos ministérios e cobrar eficiência nos gastos, e fazer um balanço do Plano de Aceleração do crescimento, que completa um ano hoje.

Expectativa

Há muito tempo o Comitê de Política Monetária (Copom) não faz uma reunião cercada de tantas expectativas. Dez entre 10 analistas não apostam um centavo na redução da atual taxa de 11,25% da Selic. Mais: ninguém aposta que este índice sofra alguma redução até o fim do ano. O recente aumento do custo dos empréstimos, a taxa de juros e a ameaça de recessão acima do Equador representam um forte viés de baixa para a economia brasileira.

Pesquisa e prática inovadora, diferentes conceitos


Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que os medicamentos que não constem na lista de drogas excepcionais do Ministério da Saúde (Anvisa), não devem ser custeados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nem pelas seguradoras de saúde. O uso desses novos medicamentos foi classificado como "experimentação" e afastou a obrigatoriedade de seu custeio.

Essa decisão, embora lógica, acaba por não diferenciar os conceitos de "pesquisa" e de "prática inovadora". Tal distinção é de extrema importância, pois, sem ela, retardaremos o tratamento de pessoas que sucumbem perante várias doenças. Define-se "pesquisa" como um estudo com projeto bem estruturado, aprovado em comissões de ética, que inclui vários pacientes, desenhado para responder determinada pergunta e com finalidade modificar a ciência corrente.

Por outro lado, "prática inovadora" é a utilização de um conhecimento novo (como uma nova droga) para o tratamento da enfermidade de um determinado indivíduo, sem fundamentar-se em uma pesquisa, mas tendo chance razoável de sucesso. As pesquisas que mostram superioridade ou não-inferioridade entre o tratamento novo e o atual demoram a ser realizadas. Em grande parte das vezes elas jamais serão efetivadas, seja pela raridade da doença em estudo ou pela dificuldade financeira de se realizar uma pesquisa.

Os estudos de drogas novas são, em sua grande maioria, financiados pela indústria farmacêutica e não pelas agências fomentadoras de pesquisa ou pelos governos. Nem sempre a indústria pode ter como prioridade determinado estudo. Vale ressaltar que o poder público utiliza menos que poderia do respaldo científico para sustentar suas decisões. O Brasil ainda não conta com as instituições universitárias auxiliando amplamente os órgãos governamentais, principalmente no que diz respeito ao subsídio de informações técnicas. Por essa razão, muitas vezes nos deparamos com situações que não são compreendidas em sua totalidade pelo organismo público, o que acaba por retardar decisões ou torná-las inapropriadas.

No caso em questão, os hospitais públicos universitários poderiam responder à sociedade com informações sobre o potencial uso de novos fármacos. Assim, a criação de um Comitê de Práticas Inovadoras nestes hospitais, constituído por médicos notáveis e recebendo solicitações das diferentes especialidades, poderia trazer rapidamente a listagem de quais práticas são ou não reconhecidas pela comunidade científica como "inovadoras" e de provável sucesso. Esse relatório, constantemente atualizado, colocaria o Brasil em paralelo à assistência médica mundial dando, também, subsídios aos órgãos reguladores para determinar quais práticas devem ou não ser custeadas pelas seguradoras de saúde e em que condições.

O Ministério da Saúde já possui um comitê similar, a Comissão de Incorporação de Tecnologias, mas este órgão tem pouca agilidade e sem a possibilidade de receber solicitações continuadamente. Todavia, o cenário poderia ser modificado com a implementação de Comitês de Práticas Inovadoras em algumas instituições universitárias. Estes seriam responsáveis pelo crivo inicial das atividades terapêuticas propostas, restando à comissão ministerial apenas referendar, ou impossibilitar, as práticas previamente aprovadas nos comitês universitários. A idéia é audaciosa e poderia trazer contribuição inigualável à medicina brasileira e aos pacientes, que se beneficiariam dessas "práticas inovadoras" para tratamento.
Em 1979, a Comissão Nacional para Proteção de Indivíduos em Pesquisas Biomédicas, do governo dos Estados Unidos, editou o Relatório Belmont, tratando da questão de diferenciação dos conceitos de "pesquisa" e "prática inovadora". Esse relatório esclareceu que "o fato de um procedimento ser considerado experimental, pelo simples conceito de que é novo, não testado, ou diferente, não o coloca automaticamente na categoria de pesquisa".

Em 2007, o assunto ainda é polêmico e atual em nosso País e no mundo. Neste sentido, o Brasil poderia, ainda que quase trinta anos depois, tentar equacioná-lo de forma inteligente, visando beneficiar a assistência médica e a saúde de seus cidadãos, que padecem de doenças complexas e necessitam de terapias inovadoras.

Lula cuida do próprio jardim


Apesar da intensa movimentação de tucanos e petistas em relação às eleições para prefeito de São Paulo, é certo que a definição dos dois partidos deve ficar para o mais perto possível do fim de março.

O Democratas armou barraca na cidade para mostrar que o prefeito Gilberto Kassab tem consistência dentro do partido. Mas não espera desde já arrancar um compromisso com o PSDB, a cada dia mais difícil.

O PT espera de Lula um empurrão na candidatura de Marta Suplicy que o presidente talvez não tenha como negar, apesar de ter dito a ministros que gostaria de "ficar longe" das eleições de outubro, pelo menos no que se refere ao primeiro turno.

A eventual aliança entre PSDB e DEM é difícil por motivos diversos. Um deles é que Geraldo Alckmin já foi longe demais para recuar agora em troca da promessa de ser o candidato tucano ao governo do Estado, em 2010.

Essa é a fórmula dos sonhos de Fernando Henrique Cardoso, cujo anúncio causa mais problemas que ajuda o governador José Serra, o seu beneficiário. O que Serra menos precisa, no momento, é passar a impressão de quem quer atropelar, no processo, o governador mineiro Aécio Neves.

Ainda do lado tucano, pesa o argumento segundo o qual o PSDB é um partido vivo na capital, cuja prefeitura disputou em todas as eleições desde a sua fundação, em 1988. Com nomes do quilate de Serra (derrotado em 1988 e 1996) e Geraldo Alckmin, derrotado na eleição que Marta venceu em 2000.

Tanto para o PSDB quanto para o PT, "partido vivo" na capital, entre outras coisas, significa a reeleição da dúzia de vereadores tucanos e petistas na Câmara Municipal. Um objetivo quase inalcançável, na realidade atual das duas legendas, sem Geraldo Alckmin e Marta Suplicy na disputa.

Se Alckmin foi longe demais para recuar, Marta sempre entendeu que poderia ser levada à disputa municipal por uma questão partidária, assim como ocorreu com José Serra em 2004, em relação ao PSDB.

Eleição de SP expõe as aflições de PT e PSDB

Até dezembro do ano passado a ministra do Turismo de Lula achava que estava entrando numa disputa perdida. Mas uma pesquisa Datafolha, realizada naquele mês, revelou uma queda de sete pontos percentuais - em relação à pesquisa de agosto - na rejeição a seu nome e bastou para mudar o estado de espírito da ex-prefeita em relação à disputa.

O que o PT agora quer é o apoio formal de Lula à candidatura de Marta Suplicy à Prefeitura de São Paulo. E o presidente, até agora, não demonstrou nenhuma disposição seja para estimular ou para impedir a candidatura de sua ministra.

No comando de uma coalizão de 12 partidos que o apóiam no Congresso, Lula de fato tem dificuldades para apoiar este ou aquele aliado, no primeiro turno da eleição. Mas, no PT entende-se que isso é mais ou menos verdadeiro dependendo do candidato aliado em questão.

Nos bastidores petistas ninguém desconhece o empenho do presidente da República em relação ao ministro da Previdência e Assistência Social, Luiz Marinho, que é pré-candidato a prefeito de São Bernardo do Campo, o berço do petismo.

As famílias de Lula e de Marinho passaram juntas a semana do Natal e os primeiros dias de 2008. Juntas iriam para a ilha de Fernando de Noronha, viagem da qual Lula desistiu à última hora. Marinho foi com a mulher Nilza e os amigos.

A longa tertúlia entre os Silva e os Marinho deu margem a todo tipo de especulação. Entre elas a de que Lula, para se candidatar em 2014, precisa em 2010 de um candidato que, se for eleito, esteja disposto a abrir mão da reeleição.

Neste caso, nenhum outro nome do PT seria melhor que o de Marinho, aliado e protegido de Lula desde o movimento sindical. A idéia já foi sugerida ao ministro por amigos comuns, mas o que está efetivamente em consideração é São Bernardo, por enquanto, um território sob controle tucano por meio do PSB.

Em 2004, o candidato do PT foi Vicentinho. Lula enviou uma carta de apoio e foi questionado na Justiça Eleitoral.

Marinho já acertou o apoio de uma dezena de partidos. E conta com Lula para atrair outros aliados - o PTB do cantor Frank Aguiar, que começou a carreira cantando e vendendo fitas cassete em assembléias da CUT, ameaça lançar candidato próprio.


Topo